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domingo, 21 de setembro de 2025

em cartaz


 

HOJE, DIA 21 DE SETEMBRO, DIA INTERNACIONAL DA PAZ, o EnCAntar pela Paz TEM A HONRA DE APRESENTAR, PELA PRIMEIRA VEZ NA FIGUEIRA DA FOZ, O FILME “NO OTHER LAND”, PREMIADO EM 2025 COM O OSCAR DO MELHOR DOCUMENTÁRIO DE LONGA METRAGEM.

ÀS 21.30H, NO AUDITÓRIO MADALENA BISCAIA PERDIGÃO

Como Abertura desta sessão dedicada à evocação do DIA INTERNACIONAL DA PAZ, o actor Vitor Filipe irá interpretar, com acompanhamento musical de Pedro Abreu e videográfico de David Fadul, o poema dramático “A Gota de Mel”, de Léon Chancerel; um libelo pela paz que foi estreado em Portugal por António Pedro no TEP em 1959 e proibido pela censura.

No Other Land é um filme documentário palestino-norueguês realizado em 2024 por Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor, um colectivo israelo-palestiniano que trata da ocupação israelita na Cisjordânia, território palestiniano, e das destruições de propriedades palestinianas por Israel. O filme foi concebido um acto de resistência durante a guerra em Gaza, começada em 2023.

Teve estreia mundial em 2024, no 74º Festival de Cinema de Berlim, onde mereceu o Prémio Panorama, o galardão do público para o melhor documentário. Em 2025 também mereceu o Oscar do Melhor Documentário mas não a distribuição em salas nos Estados Unidos. Tal como em Israel. Esta é a primeira vez que é exibido na Figueira da Foz.

Após a exibição do filme, a noite culminará com uma acção performativa a partir do poema “Mais guerras, não” de Alberto Uva, pelo Colectivo Poético d’ODezanovedeJunho.

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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Da figueira e seus contornos - notícia do lançamento

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Correu bem. Quero dizer, não aconteceu nada de especial; nem um apelo ao crime ou à subversão da ordem instituída, nem um viva a anarquia ou um morra o dantas pim, nem sequer qualquer espécie de tumulto ou terramoto. O evento, anunciado durante semanas para a Biblioteca Pública Municipal e transferido na véspera para o Auditório, decorreu na mais perfeita normalidade.

O Auditório Madalena Biscaia Perdigão esteve cheio como um ovo – de calor humano e da mais selecta audiência, que ouviu com elegante e circunspecta urbanidade o meu amigo Daniel Abrunheiro dizer coisas que talvez eu não mereça.

Daniel, que é o melhor escritor português do século vinte e um e arredores (ele sabe - e disse-o – que eu sou tão parco em elogios como inflexível com a verdade) desvaneceu-me ao aceitar apresentar o meu pobre feixe de rabiscos e tentar disfarçar a minha irracional incapacidade para falar em público. “Fazemos assim” - disse-me ele: “tu grunhes como o de Niro e eu faço como o Billy Crystal”. Assim foi. E não podia correr mal. Não houve croquetes mas figos pingo-de-mel. No fim até assinei autógrafos. Os livros que sobraram estarão disponíveis à entrada dos espectáculos do EnCantar pela Paz, que acontecerão até ao fim do mês no Auditório Madalena Biscaia Perdigão.

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Daniel Abrunheiro, de cuja generosidade incompreensivelmente sou alvo desde os tempos em que ele foi cronista do jornal A Linha do Oeste, foi também o “padrinho” deste blogue (a posta inaugural, em 2007, foi um soneto que ele escreveu para ilustrar um desenho meu). O texto que escolhi para epígrafe do livro que lançámos também é de sua autoria e foi escrito para o folheto da minha primeira exposição de caricaturas em 2012 no tubo d'Ensaio d'Artes. Quanto aos seus livros, podeis encontrá-los nos sites das melhores livrarias ou em qualquer biblioteca pública que se preze.

domingo, 7 de setembro de 2025

Caricaturas em livro

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Vou finalmente lançar um livro de caricaturas. Trata-se da primeira publicação impressa de uma colecção de desenhos que viram a luz do mundo nesta mundial e ampla rede nebulosa de palermices e iniquidades.

Chama-se da Figueira e seus contornos e, como o sub-título sugere, é um livro de 27 retratos da Figueira ilustrados com textos coloridos e tem tudo o que têm todos os livros: capa, contracapa, prefácio, epígrafe e uma porção de páginas pintadas com tinta.

O grande Daniel Abrunheiro concedeu-me a honra de fazer a sua apresentação e Odezanovedejunho o prazer de patrocinar o seu lançamento - no âmbito do EnCantar pela Paz, o evento que esta Associação de Ideias está a tratar de fazer acontecer por estes dias e até ao fim do mês na Figueira da Foz .

A coisa vai acontecer na Biblioteca Pública Municipal Pedro Fernandes Tomás, que nos cedeu amavelmente o espaço para a cerimónia - no próximo Sábado, dia 13 de Setembro, às cinco e meia em punto de la tarde. Tomai nota.

A entrada é livre e não há croquetes; mas eu levo o lápis para assinar autógrafos e tudo, se for caso disso. Não falteis.

terça-feira, 18 de março de 2025

Breves considerações sobre o senhor Lopes, alguns dados históricos indesmentíveis e outras tantas questões suscitadas por factos igualmente comprováveis

 

 

A discussão sobre o legado do colonialismo está por todo o lado (já chegou às universidades, ao Quai d'Orsay, à pérfida Albion, ao Museu de Berlim e até ao Vaticano) e chegou finalmente ao Museu Municipal, através de uma exposição/instalação, produzida pela Universidade de Évora, programada ainda pelo antecessor de Santana Lopes.

O actual presidente da Câmara Municipal teve porém, o cuidado de fazer saber, através da Agência Lusa, que não concorda com tal discussão mas não proíbe “para não ter um novo caso Saramago, mas ninguém [do executivo] vai lá. Assumo a nossa história com honra e honramo-nos muito da coleção do museu municipal".

Este assunto mereceu-me alguma reflexão e meia dúzia de breves considerações.

Eu considero que o senhor Lopes tem todo o direito de concordar ou de não concordar com o que quer que seja. Considero até que ele tem o direito de o afirmar em voz alta em qualquer discussão. Mas também considero que ele não tem o direito de se arrogar o privilégio de poder proibir porra nenhuma, sobretudo a discussão pública do que quer que seja.

Eu também sou um cidadão português, como o senhor Lopes, mas, ao contrário dele, considero que há muito da ”nossa história” que não assumo “com honra”. Considero mesmo que grande parte dela não só é muito discutível como é profundamente lamentável.

Considero, por exemplo, que a confinação forçada de mouros e judeus (as mourarias e judiarias, três séculos); a perseguição aos ciganos (oito séculos e meio) a Santíssima Inquisição (três séculos), o tráfico negreiro e a escravatura como modelo social e económico (quatro séculos e meio), o colonialismo moderno (um século), a ditadura fascista (quarenta e oito anos) e o obscurantismo fanático patrocinado pela santa religião (persistente desde a fundação da nacionalidade) perfazem um balanço nada glorioso, nem minimamente honroso, mas absolutamente vergonhoso. A tudo isto ainda se pode acrescentar a perseguição ao livre-pensamento, que funcionou ininterrupta e alegremente durante cinco séculos (a título de exemplo: no séc. XVI Gil Vicente foi preso, Camões foi censurado e Damião de Góis foi detido, espoliado de bens e morreu sarnento; no séc. XVII Fernão Mendes Pinto foi censurado e Francisco Manuel de Melo preso e degredado; no séc.XVIII António José da Silva foi torturado, esquartejado e queimado vivo, o Cavaleiro de Oliveira foi exilado e Bocage foi detido; no sec. XIX o general Gomes Freire de Andrade foi enforcado; no sec. XX, entre muitos outros, perseguidos ou aprisionados, o escultor José Dias Coelho e o general Humberto Delgado foram assassinados).

Reconheço que estes factos, facilmente constatáveis por quem sabe ler, podem ser difíceis de aceitar por cidadãos como o senhor Lopes que, emprenhados pelos ouvidos com o patrioteirismo encadernado nos manuais salazaristas e pelos olhos com o paroquialismo envernizado dos programas de televisão do senhor Saraiva, sentem-se hoje muito ufanos da “nossa” história.

Mas como é possível que o autarca que afirma, no plural da modéstia e em acordês ortográfico, que “honramo-nos muito da coleção do museu municipal“, seja o primeiro e último responsável de que grande parte do imenso e valioso acervo desse museu esteja afinal ainda por investigar e catalogar? – unicamente por falta de vontade, ou de oportunidade política, para financiar adequadamente a contratação de pessoal competente e especializado. De que “se honra” então, exactamente, o senhor Lopes?

Por quem se toma o senhor Lopes? Por quem nos toma o senhor Lopes?

Quem pensa que é o senhor Lopes, que tutela uns serviços de cultura que ao cabo de três anos e meio de mandato ainda não foram capazes de criar um único evento ou exposição de inequívoca relevância artística ou cultural?

Quem foi que votou no senhor Lopes, que quase no fim do seu mandato ainda programa eventos agendados pelo seu antecessor?

Porque raio de carga de água o senhor Lopes se concede a si próprio o privilégio de autorizar, com uma pretensa intenção condescendente, um compromisso assumido pelo seu antecessor legalmente eleito?

Quem lhe conferiu o poder supremo de proibir ou autorizar a discussão pública de seja o que for, ou até de nutrir a percepção de que o pode fazer?

Quem foi que lhe inseminou um rei absoluto na barriga?

- Devo acrescentar que estou convencido de que esta exposição teria sido liminarmente cancelada, sem pruridos de tolerância - se não tivesse sido produzida pela Universidade de Évora. - Porque gente como o senhor Lopes, que nutre um respeitinho reverendíssimo e supersticioso por tudo o que seja “doutor”, jamais afrontaria uma entidade tão mística que cauciona esses títulos com diploma.

Posto isto, como é possível que alguém com o perfil do senhor Lopes seja presidente da Câmara Municipal da cidade de Manuel Fernandes Tomás, de Cristina Torres, de João de Barros, de Joaquim de Carvalho?

Como é óbvio, não espero que qualquer destas perguntas tenha resposta. Formulei-as porque, como livre-pensador e algumas aves, tenho necessidade de espantar as minhas perplexidades.

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Na imagem ao alto, o ridículo sem noção, em foto oficial de pose e de aparato: o senhor Lopes passeia pla Figueira o seu esplendor paroquial, com banda de música, cortejo de servidores, séquito de beatas, três flamingos num guarda-sol, um padre e alguns basbaques.

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terça-feira, 24 de dezembro de 2024

A abstenção (violentamente absentista) do portugal dos figueirinhas

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A concelhia do Partido Socialista da Figueira considera - muito acertadamente aliás, o que até não é nada habitual - “que o Orçamento Municipal para 2025 é um mau orçamento e reflete a estratégia errática do hoje sim, amanhã não, e dos projetos anunciados e não concretizados, das obras prometidas para as freguesias inscritas nos orçamentos e sempre adiadas”.

O PS, que detém a maioria na Assembleia Municipal, votou dividido o Orçamento municipal para 2025, proposto por Santana Lopes.
Na Assembleia, a maioria dos deputados socialistas absteve-se, três votaram a favor e um contra. Na câmara, um elemento da vereação tinha votado a favor e três contra.

João Portugal, o líder da bancada socialista na assembleia municipal, o coninhas que é também presidente da Federação rosinha de Coimbra, esteve ausente da votação. E ainda não disse ai nem ui. Joãozinho também preside ao inefável e selectíssimo Club de Tennis e à assembleia geral da associação particular Goltz de Carvalho de solidaridade social. Ah, também integra o conselho directivo de uma coisa privada que dá pelo nome de Instituto Luso-Árabe para a Cooperação e curiosamente, ou talvez não, também nunca se lhe ouviu um pio sobre o que se passa na Palestina.

O único deputado municipal com juízo e com tomates foi um gajo chamado Alemão, Victor Alemão - que é presidente da Junta de Vila Verde.

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quinta-feira, 20 de junho de 2024

A estória da lagoa da água esmeralda, outra vez (agora em azul)


Quando os franceses acharam que era capaz de ser boa ideia eleger Napoleão III para Presidente da República, Karl Marx, retomando a tese do seu velho mestre, Hegel, segundo a qual “a História repete-se”, acrescentou-lhe: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Bem dito bem-feito: pouco tempo depois o estafermo do terceiro napoleão acabaria por se fazer coroar imperador, tal como o primeiro.

Se isto se passa com a Grande História, imaginem com a pequena: se o que acontece pela primeira vez já é uma farsa, o que se repete é sempre uma sequela, um remake, um reboot, uma cópia farsola, uma farsa de uma farsa. Vou contar-vos duas estórias de rabo-na-boca (ou uma com a boca no rabo da outra) que ilustram bem esta minha tese. Ora leiam, por aqui abaixo.

Era uma vez, na Figueira da Foz, em Março do ano da graça de 2000, uma empresa do grupo Mota Engil que, com o mavioso nome de Tratofoz, começou o processo de instalação de um aterro de resíduos industriais banais numa pedreira da freguesia de Maiorca, propriedade do grupo Mota Engil.

Era então presidente do município o incontornável Santana Lopes, dótor, e seu vice-presidente o não menos inefável Daniel Santos, inginhêro. Este assinou um documento a certificar que a obra era perfeitamente compatível com o Plano Diretor Municipal (PDM) então em vigor e que a eventual instalação do aterro teria de ser analisada pelas entidades competentes, nomeadamente o Ministério do Ambiente, então tutelado pelo não menos inimitável e inesquecível José Sócrates.

Acontece que, ao contrário do inginhêro Santos, José Ligeiro, o então presidente da junta de Maiorca, sabia ler; mas nem precisou de pôr os óculos de ler as pequeninas porque, consultando o PDM em vigor na época, via-se logo, a olho nu, que este não permitia tais equipamentos a menos de dois quilómetros de qualquer aglomerado populacional. Ora, a pedreira do Varino está a menos de quatrocentos metros da vila de Maiorca e como, ao contrário do inginhêro Santos o Zé Ligeiro também sabia contar, vai daqui que logo se levantou um burburinho que depressa se transformou num enorme pé-de-vento, um trinta-e-um desarmado mas barulhento, contra a instalação da ditosa infraestrutura. É o que acontece quando um homem se põe a pensar - torna-se contagioso. A coisa juntou ambientalistas, paisanos e toda a casta de pessoas decentes de todos os sexos e idades, de Maiorca e das freguesias vizinhas de Montemor-o Velho e de Soure que, temendo pelo futuro das plantações de arroz e da qualidade do ar e da água do rio Mondego, irromperam indignados num vigoroso protesto popular que envolveu pelo menos uma providência cautelar em tribunal, colocada pela então comissão anti-aterro, e uma manifestação de 200 tractores agrícolas que, aos apupos e buzinões, entupiu a entrada da Figueira da Foz, tendo o protesto chegado igualmente a uma Presidência Aberta do então chefe de Estado Jorge Sampaio que diz que disse logo “ó pá, ó pá, tenham calma”.

Foi uma coisa assim a modos que a parecer bem.

De tal maneira que, em Março do também engraçado ano de 2003, com todos os corações ao alto e os ânimos também já bastamente exaltados, o novo presidente da câmara, Duarte Silva, depois de muito engonhar mas vendo mosquitos por cordas e o mar cada vez mais alto que a terra, lá se dispôs finalmente a embargar os trabalhos e a recusar renovar a licença de obra - depois desta ter caducado - sem que as dúvidas e críticas da população fossem esclarecidas pelo Ministério do Ambiente.

Os anos foram passando, não desfazendo, sempre com graça. Até que, num belo dia de Setembro de 2018, o presidente da câmara, desta vez João Ataíde, intervindo para os ápifiús numa daquelas reuniões à porta fechada que ele tanto gostava de entreter, explicou que a empresa Tratofoz tinha demandado a autarquia no pagamento de cerca de 4,5 milhões de euros por o município, em 2003, não ter prorrogado a licença de construção de um aterro de resíduos industriais banais na freguesia de Maiorca. Segundo João Ataíde, o processo intentado pela empresa em 2014 estaria em fase de pré-julgamento mas havia mais de um ano que o seu executivo, cheinho de vontade de “resolver isto de forma consensual”, teria consubstanciado com a dita empresa um acordo que pressupunha o pagamento faseado de seiscentos mil euros em três anos - o que lhe teria parecido um “bom negócio”, tendo em conta que o tribunal Administrativo e Fiscal de Coimbra havia considerado a decisão camarária de não renovar a licença de obra, em 2003, como "um ato arbitrário", abrindo caminho a uma indemnização à empresa que poderia chegar a alguns milhões de euros, a maioria por eventuais lucros cessantes (danos emergentes).

E assim foram passando mais alguns anos, sempre muito engraçados. A cratera da pedreira do Varino acabou por não ser aterrada com resíduos industriais banais, como pretendia a Tratofoz, nem com sólidos inertes, como manda a lei. E assim ficou, a céu aberto, a encher-se de graça e de uma água que foi formando uma linda lagoa que, derivado a fenómenos desconhecidos, foi adoptando uma bela e enigmática tonalidade glauca esmeralda, cheia de encanto e “atratividade”, como se diz agora – muito badalada nas redes sociais, embora esteja interdita ao público e nela não se aconselhem banhos, ninguém sabe ao certo porquê, uns dizem que por causa das moscas, outros que derivado a umas substâncias criativas tão lexiviadas como misteriosas putativamente usadas em tempos na velha pedreira.

Até que, decorridos mais alguns anos, também cheinhos de graça, eis-nos chegados a 2024. E esta já é outra estória. Começa assim:

Era uma vez uma empresa, curiosamente também do universo Mota Engil, como a Tratofoz, e com um nome também bastante capitoso, não desfazendo. Emerge é a sua graça (é lindo não é?) e apresentou-se ao actual presidente da junta de freguesia de Maiorca como proprietária da “lagoa azul” (reparem como a lagoa também mudou de cor) e mostrou-lhe um glamoroso projecto de investimento turístico, já devidamente aprovado pelo município*, para o local exacto onde, vinte anos antes, a Mota Engil achava sensato aterrar resíduos industriais banaisO presidente da Junta abriu a boca, deu um salto e apanhou-o no ar, como uma bola colorida; e agora não o larga; porém, no frenesim do mais cândido e desvairado entusiasmo, lançou um alerta que pode espalhar alguma perturbação entre os papalvos que apenas demandam a lagoa como fundo para sélfis: o executivo da JF de Maiorca e a própria empresa solicitam a todos os que anseiam conhecer este espaço que não o façam, visto estar vedada por motivos de segurança e preservação natural do ambiente”. Só visto.

Não sei por vós, caros leitores, mas eu acho muito curioso, interessante, quiçá até inquietante, que um local tão paradisíaco e com tanto potencial turístico seja vedado a mirones “por motivos de segurança e preservação natural do ambiente”. Suponho que sejam pormenores como este que dão encanto a uma estória de mistério.

Também não sei quem é agora ministro do Ambiente. E desta vez, como decerto já toparam, o presidente da Junta de Maiorca não é nenhum prémio nóbel - nem se parece, nem de perto-nem de longe, com o Zé Ligeiro. Mas o núcleo duro do elenco mantém-se; o presidente da câmara é o mesmo do início da primeira estória: Santana Lopes; e, no meio da embrulhada dos seus heterónimos, a Mota Engil, também é exactamente o mesmo grupo que esmifrou seiscentos mil euros ao município por - estas coisas não se inventam - eventuais lucros cessantes, ou danos emergentes; e Paulo Portas é agora um dos seus administradores.

Recordo-vos que o enredo desta estória se passa num país onde um tribunal administrativo considera que comete acto arbitrário um município que se limita a aplicar o seu Plano Director Municipal. E não vos conto o desfecho porque a procissão ainda vai no adro. Mas com um elenco destes e um cenário assim, não pode acabar senão bem, não acham?

*já dediquei uma longa posta a este assunto, aqui, a 29 de março de 2023, quando tomei conhecimento, pela imprensa, de que representantes da empresa tinham sido recebidos pessoalmente pelo presidente Santana Lopes e que se multiplicavam contactos entre a firma e os serviços do Urbanismo do município.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

A lavoura do deserto, o furacão e a pitonisa


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A Figueira da Foz confronta-se há muitos anos com um problema, aparentemente insolúvel, decorrente das obras do prolongamento dos molhes (obras projectadas pelo estado para beneficiar a navegabilidade fluvial e o acesso ao porto comercial). Sem responsabilidade na obra, o município ficou desde então com o ónus de um dos seus nefastos efeitos colaterais: o crescimento exponencial da sua praia urbana, a Praia da Claridade

Assim, todos os anos, em vésperas de época balnear, o município tratava de, como se diz por cá, alindar uma praia cada vez mais interminável - o que consistia, anualmente, em revolver, crivar e terraplanar, metódica e mecanicamente, todos aqueles quilómetros cúbicos de finas areias de modo a impedir que aí medrasse a menor réstia de vegetação. O propósito destes autarcas figueirinhas do tempo do salazarismo (quando se consolidou a solução final de lavrar unicamente a praia urbana, enquanto as praias por assim dizer do campo, foram abandonadas sempre ao mais desleixado pousio) talvez se explique pela vontade de agradar ao turismo que demandava a Figueira na época (uma clientela rica, burguesa e classista, de uma urbanidade tão supostamente sofisticada como suficientemente higienista para não tolerar nada “fora do seu lugar”, como, por exemplo, um pobre no seu bairro ou a ideia de uma planta no deserto).

Pois bem, este deserto, esmeradamente cultivado ao longo de décadas, caldeou no imaginário dos figueirinhas a imagem reluzente e “limpa” do postal da praia; tornou-se, com o tempo, numa espécie de imagem d’Epinal. Muitos deles não concebem uma praia com ante-praia, dunas e vegetação. O seu entusiasmo com o “oásis do Santana” só confirma aliás a assunção arraigada da praia como um deserto, um berço de sereias depurado e terraplanado até à rebentação. Para este bom-povo qualquer vegetação que cresça no areal é uma “prcaria”, “uma vergonha”, um acinte, uma afronta aos seus valores mais intrínsecos, um ultraje aos seus ideais mais elevados, ou sentimentos mais fundos, ou lá o que é..

Há cerca de dez anos, porém, o executivo camarário de João Ataíde, contrariando a santíssima tradição, decidiu pura e simplesmente deixar de subvencionar o cultivo anual do deserto. Ao deixar de “lavrar a praia”, o município permitiu-se poupar cerca de 150 mil euros por ano (eram seiscentos mil num mandato, para o lóbi do tractor). Asperamente criticado pela oposição e por um certo beautiful people que pontifica nas redes sociais,  João Ataíde, embora canhestramente (chegou a admitir que ele próprio também não gostava de ver erva na praia), lá foi resistindo às críticas e aos remoques com o argumento de que essa simples decisão de tesouraria lhe permitiria ainda deixar crescer, espontâneo, um coberto vegetal natural que fixaria as areias (protegendo a avenida do assoreamento sazonal pelos ventos) potenciaria a biodiversidade autóctone e, a prazo, a consolidação de novas áreas aprazíveis, aproveitáveis para a fruição dos cidadãos. 

Quanto a vós não sei, mas a mim pareceu-me um “ovo de Colombo”, tão simples e evidente que era um espanto que nunca ninguém se tivesse lembrado de tal – não só sensato e avisado, mas genial - o verdadeiro sonho molhado de qualquer autarca minimamente honesto e inteligente numa época de vacas magras: a possibilidade de “fazer obra”, ambiental e social, sem literalmente fazer um corno e, sobretudo, sem gastar um chavo do erário público (recorde-se que, à época, João Ataíde via-se e desejava-se para sanear as finanças do município, devastadas anos antes pelo furacão Lopes). 

Entretanto os anos foram passando, tal como ainda outro furacão, o Leslie; João Ataíde foi pregar para outra freguesia onde acabou por falecer e António Tavares (o seu vereador do ambiente e o verdadeiro pai da ideia) de certo modo também, pois dedicou-se à literatura e nunca mais fez ondas. Mas na Praia da Claridade sopram agora, de novo, ventos uivantes. 

O furacão Lopes está de volta e, mal acabou de obter a maioria tão almejada (com um acordo, ou negócio, algo manhoso, numa loja de penhores) logo tratou de fazer saber, em comunicado no facebook, que se encontrava em posse de autorização para remover a camada vegetal que cobre “o nosso lindíssimo areal”.

No dia seguinte, Dia Mundial da Biodiversidade, foi, muito impávido e solene, inaugurar o cantinho da biodiversidade que é, tal como o nome indica, um cantinho, no parque das Abadias, deixado por capinar de propósito para o efeito. Dias depois, porém, fez saber através de outro comunicado que afinal as notícias da retoma do cultivo de deserto eram manifestamente exageradas e, porque sim e porque não ou porque talvez nem por isso ou assim, a empreitada estava suspensa até nova ordem. 

Os figueirenses mais cultivados, dos mais cínicos aos mais blasés, acharam tudo isto perfeitamente normal (eles sabem, é dos livros, que os furacões são imprevisíveis e o Lopes ainda mais - na Figueira todo-o-mundo sabe aliás que ele muda de ideias de cada vez que mija) mas o figueirinhas de lineu, que votou na Fap e se sente profundamente vexado porque brotam tomateiros na praia, deve ter ficado num estado de perplexidade catatónica. Isto, claro, depois de ter passado por um breve transe de entusiasmo triunfante e salivar e por um, igualmente fugaz, êxtase de vingativo contentamento. 

É aqui, agora (neste ponto exacto da estória) que entra a pitonisa.

- E quem caralho é a pitonisa, perguntais vós.

- A pitonisa é um blogueiro que foi mandatário e candidato na lista dos comunistas e a quem o furacão Lopes ofereceu uma sinecura de conselheiro municipal. Depois disso o pobre tomou para si o triste (ou alegre) apostolado de cantar e espalhar-por-toda-a-parte a grandeza do génio político do seu patrono e de como este é directamente proporcional à vácua mediocridade de toda a oposição, da comunicação social e do mundo em geral.

Assim, o comunicado no qual o furacão Lopes anunciava prazenteiro que estava-com-tudo para “mandar remover a camada vegetal que cobre o nosso lindíssimo areal” não foi, segundo a pitonisa, uma simples bravata armada aos cágados para animar o pagode mais reaccionário e saudoso do intigamente dos seus apoiadores, mas sim um facto político de diversão, um ruído acrescentado e genial,  uma mão-cheia-de-areia que, num gesto de magistral e maquiavélico discernimento político, tirou da cartola e lançou aos olhos da apalermada oposição e do público ignaro para que ninguém o questionasse sobre nenhum dos mais que prováveis variados graus de sordidez dos termos do acordo que lhe permitiram obter a maioria na Câmara. 

Como vedes, devido à incapacidade cognitiva de toda a gente, a pitonisa tratou de, elucidando a posteridade, traduzir para miúdos todas as subtilezas de estratégia política saídas da mente brilhante do seu príncipe encantado, que ela já vê aliás como o ajuramentado sucessor de Marcelo em Belém (imaginando-se, quem sabe também, já como chefe da sua casa civil, ou assim). Para a pitonisa, a Figueira é demasiado bisonha para a majestática sapiência do seu príncipe encantado. – Ai ai, diz ela, suspirando: sempre que ele aponta para a lua, na Figueira todos olham para os dedos papudos do meu príncipe, ai ai. 

Enfim, todo o cavaco tem o seu pachecopereira, mas a pitonisa não é o caso típico do intelectual orgânico - trata-se antes de uma espécie de organismo emocional - ou passional, pois muito mais do que uma simples ligação, há ali, nota-se, uma evidente identificação, que seria até quase comovente, se não estivesse tão nitidamente descontrolada e não fosse já suficientemente embaraçosa. 

Nota de rodapé:

Eu estou entre os que não nutrem o menor interesse em conhecer os termos do acordo que proporcionou plenos poderes ao senhor Santana Lopes. Não sinto curiosidade pelos pormenores sórdidos de qualquer negociata política. Sei de que trata esta, sei quem ganha e sei quem lerpa. Como cidadão, isso basta-me.

Já a vegetação que brota na praia, e a biodiversidade em geral, é algo que não me deixa tão indiferente.

Mas o poder exercido com base no capricho, no preconceito e na estupidez (a estupidez é a ignorância armada e couraçada) é que me inquieta profundamente. Cada vez mais.

*Ao alto, uma “expressão gráfica” de um dito popular figueirense.

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quarta-feira, 29 de março de 2023

O turismo da água esmeralda

Foto daqui, com a devida vénia

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Existe, no vale do baixo-Mondego, em Maiorca, no meio de uma paisagem devastada pelo mais ávido e desenfreado extractivismo, uma monumental cratera de uma antiga pedreira abandonada onde o acúmulo de precipitação, ou um qualquer fenómeno geológico ainda por estudar, fez o milagre de criar uma lagoa de águas naturalmente estagnadas, mas maravilhosamente tingidas com a cor das esmeraldas.

Situada em propriedade privada e “descoberta” por acaso, por jovens adolescentes maiorquenses, nas suas sempre irrequietas e curiosas explorações estivais, a lagoa depressa se tornou uma dor de cabeça para os pais dos miúdos e, apesar de não ser sinalizada nem anunciada como tal, uma verdadeira “atracção turística” na região - as redes sociais regurgitam de selfies de labregos com a patética lagoa em fundo. Nesta, no entanto, segundo o inefável site portugaldenorteasul Não se aconselham banhos, dado ser um local semi-vedado (a cerca de protecção foi cortada) e não se conhecerem as características químicas da água, pensando-se que possa conter químicos relacionados com a antiga exploração da pedreira.”

Esta lagoa encantada fica muito perto dos arrozais e dos canais que os irrigam e não muito distante do rio Mondego onde, pouco a jusante, é captada a água que abastece as torneiras da cidade da Figueira da Foz. A sua quota mais baixa (o fundo da cratera) situa-se bem abaixo do leito do rio, ao nível dos lençóis freáticos e, no entanto, as características químicas e a exótica coloração das suas águas nunca despertaram a curiosidade de nenhuma universidade portuguesa (talvez porque não se enquadre no seu estrito modelo de negócio de lojas-que-vendem-títulos-e-diplomas) ou a mínima inquietação no proprietário; nem sequer inspiraram qualquer acção consequente das autoridades sanitárias competentes.

Bem sei que num país que se rege por leis isto nunca teria sido possível. Mas em Portugal, onde o respeitinho pela propriedade privada é tanto que esta nunca se discute (sobretudo com quem tem muitas), nunca ocorreu às autoridades competentes mandar o proprietário aterrar a cratera da sua pedreira abandonada (com sólidos inertes, como manda a lei, e não com resíduos tóxicos, como já foi tentado). Também nunca ocorreu a um organismo público ordenar um estudo científico sério sobre o impacto daquela lagoa na vida animal (selvagem e doméstica), sobre o que vegeta nas suas margens, sobre a real composição química daquelas estranhas e glaucas águas paradas e sobre a possível contaminação de aquíferos e lençóis de água adjacentes.

A verdade é que, num país sério e num município que se rege pelo bom-senso e pelo bom-gosto, um lugar destes nunca poderia ser uma atracção turística, mas sim um local de estudo. De estudo científico sério e rigoroso de um fenómeno da natureza provocado pela acção nociva do homem, de algo que correu mal, anómalo, enigmático e estranhamente belo, mas inquietante porque o seu potencial de perigosidade para a saúde humana e para o meio ambiente ainda está, lamentavelmente, por estudar.

Só a uma classe empresarial pervertida e a uma classe política apatetada, ambas completamente destituídas de bom senso e de sentido do ridículo, é que pareceria bem construir um resort turístico à volta de um charco inquinado.

Pois bem, é precisamente nesta lagoa, ou nos terrenos que a circunvizinham, que a Mota-Engil (é esta a graça do proprietário) quer agora construir todo “um complexo turístico de qualidade superior e arquitectonicamente enquadrado na envolvente natural”. Com vista de Maiorca e dos seus arrozais. E facilidade de acesso à A14, claro. Mas há mais: segundo o ”jornal” AsBeiras, o executivo figueirense, na pessoa do seu represidente, já recebeu os representantes da empresa, que lhe mostraram os primeiros esboços do complexo turístico. Logo a seguir, ainda segundo AsBeiras, “têm-se multiplicado os contactos entre a firma e os serviços de Urbanismo do município”.

Mas será isso possível? - perguntais vós.

Num país sério não o seria. Mas Portugal não é um país sério. E a Figueira da Foz é até um município bastante cómico, onde tudo é possível, como nos desenhos animados. Na Figueira tudo é absurdo ou às avessas e o nonsense é o único sentido que tem a mais perfeita normalidade. Senão, vejamos:

- A Figueira não tem maternidade (as figueirensas que querem parir vão fazê-lo a cinquenta quilómetros de distância, em Coimbra; as mais apressadas fazem-no a bordo da ambulância, na borda da A14) mas tem hospital: fica no meio de um parque de estacionamento no outro lado do rio, no meio de uma localidade que se chama Cova. Já o Casino, está no meio da cidade, e não tem parque de estacionamento.

- Na Figueira as empresas importadoras e exportadoras estão quase todas localizadas a sul do concelho ou nos concelhos a sul. - Onde tem a Figueira o seu porto comercial? – pois, como já devem ter adivinhado, na margem norte.

- A Figueira é um importante centro pesqueiro. A maior parte do pescado tem como destino de consumo a própria cidade, o seu mercado e restaurantes e todos os que ficam a norte do concelho, até Coimbra ou mais além. – Pois onde tem a Figueira o seu porto de pesca e a lota? – exactamente: na margem sul, como também já devem ter adivinhado.

- A Figueira tem um teatro que pertence a um clube de futebol. Este não pratica futebol, nem teatro. Só bisca lambida, lerpa e levantamento de vidro (copofonia), campeões.

- A Figueira tem um monumento nacional (o Forte de Stª Catarina) que é um estabelecimento que vende cerveja a copo. A sua capela seiscentista é o armazém do vasilhame.

- A Figueira tem um parque de campismo que fica mesmo no meio da cidade, ao pé de um grande supermercado (para os amantes mais platónicos, e pletóricos, do bucolismo e da natureza e assim).

- A Figueira tem um estádio, mas não tem desporto. Não tem público. Não pratica nem assiste. A única coisa realmente competitiva que os figueirenses pagam para ver são as marchas populares, ou de Carnaval. Assim, duas vezes por ano, plo Carnaval e plo S. João, encerram a avenida, montam umas bancadas pré-fabricadas de cada lado, cercam-na de taipais, por causa dos mirones, e depois pagam bilhetes para ver o desfile. É todos os anos isto.

- Na Figueira o presidente da Câmara Municipal é Santana Lopes.

É ele que fala com os representantes da empresa proponente do grandioso empreendimento, a Mota-Engil. Ele conhece muito bem um dos administradores. Foi ele que, quando foi primeiro-ministro, o nomeou ministro do mar, perante a maior perplexidade do próprio e de todos os presentes e assistentes. Trata-se de um verdadeiro especialista em águas profundas. Chama-se Paulo Portas.

Não me espantará muito que a ambos lhes pareça bem um complexo turístico à volta de um charco inquinado e fundo.

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domingo, 18 de dezembro de 2022

O “panorama” Santana Lopes: do xuto na incubadora à fuga do pé para a chinela


 

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“Queria aproveitar esta oportunidade para dizer o seguinte, a Figueira da Foz não tem a dimensão que tem Coimbra (…), é uma cidade média, com uma história de que se orgulha, com uma atratividade enorme (…) e, portanto, tem de agir, na área da comunicação, com respeito por essa história, por esse estatuto, por essa vontade. E isso não é consentâneo – e nada tem a ver com os profissionais da comunicação social presentes – com o tratamento - e não falo pelo protagonismo de quem dirige o município neste momento, porque não necessito -, que é devido, nomeadamente na região e nos órgãos da região. Esta é uma questão de honra para o município. Porque o município, de facto, é bem tratado por quem nos visita e vem de fora, e por quem cá está e nos conhece bem também temos de o ser. Já o manifestei aos proprietários dos órgãos de comunicação e quero aproveitar esta cerimónia para o reafirmar. Porque se o panorama não mudar, da sociedade civil outras iniciativas terão de ter lugar para mudar este panorama”.

Pedro Santana Lopes, em cerimónia pública realizada quinta-feira dia 15 de Dezembro, na Casa do Paço, Figueira da Foz (transcrito pela Revista Óbvia e copiado da página desta do facebook, com a devida vénia)

 

O cidadão Charles Foster Kane nofundo-nofundo só queria que gostassem dele. Para isso era capaz de todo o tipo de patifarias mais ou menos revoltantes. Tal como, nos nossos dias, Elon Musk, outro milionário triste, patético e prepotente. 

Santana Lopes, o represidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, padece aparentemente da mesma estirpe de melancolia mórbida, uma espécie de necessidade compulsiva, quase mística, de aprovação. Santana não suporta a objecção, a reticência, a discordância; muito menos a crítica, a ironia, o dichote ou o afrontamento; apenas se satisfaz com o entusiasmo. 

Assim, depois de ter derretido uns milhares de euros do erário municipal em tenças e mantenças a alguns dos mais solícitos lambe-cus da praça figueirinhas, depressa chegou, porém, à conclusão de que jamais haveria nos cofres municipais (nem nos do Banco da América) dinheiro suficiente para recompensar o ditirambo mercenário a todos os lambe-cus da paróquia. Por isso passou aos finalmentes. Falou com os “proprietários dos órgãos de comunicação” e disse-lhes meus meninos ou gostam de mim ou gostam de mim. Não satisfeito, passou, às ameaças: “se o panorama não mudar, da sociedade civil outras iniciativas terão de ter lugar para mudar este panorama”. 

Ou seja, se bem entendi o arrazoado, o panorama pode ser descrito, muito mais sobriamente, deste modo singelo:

-se não dizem bem do Santana, vem aí o homem-do-saco, que é amigo dele, e faz uma OPA ao calinas, ao jornal Asbeiras, ao Figueirense e até ao “O Dever” e ao jornal do Lidl e integra-os todos num grande grupo de comunicação, um empório de jornalecos que diga tão bem dele como o do citizen Kane dizia do cidadão Charles Foster. E se isto não chegar, compra também o twitter ao Elon Musk. E faz como este: corta o pio a quem disser mal dele. 

Estão a ver o panorama?

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quarta-feira, 20 de julho de 2022

O busto de Sá Carneiro


 

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Francisco Sá Carneiro é um aeroporto homónimo de um político de direita que pereceu, em 1980, num acidente de avião (ou atentado, nunca ficou totalmente esclarecido) quando se dirigia precisamente a esse mesmo aeroporto. 

Embora Francisco Sá Carneiro, o aeroporto (assim baptizado em 1990, no esplendor do cavaquismo, com um panache explicitamente vingativo e um humor negro certamente involuntário) seja hoje mais conhecido do que o político que lhe deu o nome, este é ainda, não obstante, uma espécie de referência vaga mas também, e sobretudo, uma figura de devoção para todas as gerações de eleitores e de políticos de direita que se sucederam – isto é, um busto, como o do Padre Cruz ou o do Doutor Sousa Martins, veículo de uma certa religiosidade ingénua de cunho popular. A aura de mártir coitadinho mas determinado deve-se ao facto de ter perecido de forma trágica e nebulosa sem conseguir “a maioria, o governo e o presidente” tão almejados; ou seja, sem ter logrado consumar esse devaneio de poder absoluto que é o sonho molhado do ultramontanismo nacional desde que o senhor dom Miguel e toda a sua descendência foram exilados, e proscritos à perpectuidade, por Carta de Lei de 1834.

Um dos mais notórios devotos deste pitoresco culto tem sido Pedro Santana Lopes, o represidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz. Sempre que confrontado com chuva na eira e bom tempo no nabal, ou com qualquer outra espécie de contrariedade, dúvida metódica ou improcedente perplexidade, Santana invocava o santo nome de Francisco Sá Carneiro e logo o dúbio se tornava evidente, o torto se endireitava, o escuro se clarificava, o utente virava cliente e o assalariado colaborador, enfim, toda a verdade era revelada quando, de repente, enquanto anjinhos cantavam hossanas, a canícula explodia na eira e as nuvens desaguavam sobre nabos e nabiças um suave milagre que rutilava de pérolas de humidade os olhares rendidos e convencidos dos demais devotos e até de alguns basbaques.

Mas isso já lá vai. Santana já não invoca o santo nome do padroeiro da aviação portuense por dá cá aquela palha. Agora “não gosta de fazer conjecturas sobre quem já cá não está”. Santana agora governa a Figueira da Foz. Pla segunda vez. Pragmático e sem estados d’alma. Sem maioria, mas igualmente sem oposição. Dito de outro modo, Santana governa com o pugrama da oposição, isto é, com o do seu antecessor - e fá-lo, imperturbável e imarcescível, com geral aprovação, na presença deste, agora como vereador. Com a mesma plítica de obras municipais; a mesmíssima opção estratégica plo turismo rasca ou sem classe (com o seu cortejo perfumado de lixo imundo, de mijo infecto e de vómito fétido plas ruas) notória na opção clara plo mesmíssimo patrocínio voluntarioso ao mesmo género de eventos de massas que são o gáudio dos labregos e a alegre facturação do lóbi da caçarola. Quanto ao tão badalado investimento num segmento de ensino superior - como não se vê (ninguém vê) estaleiro de construção de infra-estruturas específicas para o ensino da ciência, tais como laboratórios, viveiros, observatórios, estufas, aquários, bibliotecas etc, etc, (a ciência, helas, não se ensina só com palestras, como o direito e a treta em geral) - tudo indica que se trata, na prática, de apenas mais um subsídio à hotelaria – ou seja, como de costume com o alto patrocínio da câmara municipal, da transladação, de Coimbra para a Figueira, do contingente necessário de broncos, “os piores, aqueles em que os vícios universitários se desenham mais profundamente” como dizia Ramalho Ortigão, para equilibrar os índices do consumo da bjeca na época baixa.

Nada que belisque o prestígio de Santana. As taxas de aprovação do seu trabalhinho crescem como o entusiasmo da juventude alemã pla aviação sem motor. Santana já não necessita de invocar Sá Carneiro para nada. Ele próprio já é um busto, na Figueira. Santana podia, se quisesse, passear-se pla fresca, todo nu ou de tutu cor-de-rosa, no calçadão da avenida; masturbar macacos no Picadeiro pla tardinha ou babar-se ao luar, na Esplanada, acompanhado à pandeireta, que o lóbi da caçarola haveria com certeza de achar bom para o turismo e os labregos haveriam de aplaudir com entusiasmo nas redes sociais. Santana até podia, se quisesse, como Calígula para humilhar o senado, nomear um cavalo cônsul.

Mas o que faz então, Santana? - perguntais vós. Pois, como já referi, em vez de passar a vida a pretender emular um exemplo malogrado, passou a fazê-lo em relação a um bem-sucedido. Eu já tinha avisado que, desta vez, ele veio pragmático: Santana deixou de se interrogar sobre o que faria o social-democrata Sá Carneiro e passou a fazer exactamente o que fazia o caligular Alberto João Jardim:

- como a Figueira não tem senado, nomeou um ex-vigilante (ou ex-guarda-nocturno ou ex-segurança-privado, ou lá o que é) para a comissão municipal de cultura;

- fez-se fotografar aos beijinhos e abraços a criancinhas tão loirinhas e com olhinhos tão azuis como bandeirinhas ucranianas; a andar de escorrega no jardim municipal; a inaugurar obras que o seu antecessor lançou e não foi capaz de concretizar e, entre outras tão lúdicas quão populares iniciativas, ainda fez saber que, no ano que vem, será o mordomo (vai pagar do seu bolso, numa vaquinha com o presidente da junta de S. Pedro) das festas anuais do santinho padroeiro local;

- e recebeu, em alegre confraternização, no salão nobre da câmara municipal, uma delegação de devotos do busto de Salazar em procissão. Um acto político que poderia ser embaraçoso para quem outrora teria dito que “ah e tal O doutor Sá Carneiro não tem nada a ver com André Ventura nem nunca teria nada a ver com o Chega. E jamais aceitaria ser invocado, como exemplo, pelo Chega”, mas que se torna perfeitamente aceitável e compreensível para quem sabe que, se os cheganos tivessem apresentado candidato à Câmara da Figueira, Santana provavelmente nem teria sido eleito. Ora, como em política “os favores não se agradecem, pagam-se”, foi isso mesmo que quis significar a sua calorosa recepção aos comparsas do senhor Ventura, com promessas tão vagas como solenes de prováveis colaborações num futuro que “a deus pertence”.

O povo em geral aprecia imenso quem paga as suas dívidas. Os devotos do busto de Santana também. E até os basbaques. Mas o que os arrebata mesmo é a encenação formal (a cheirar a ministério) e a linguagem piedosa (a feder a sacristia). Porque no fundo, e no fim, com o barulho das luzes, importa-lhes um peido que as dívidas se saldem com o que se não tem, porque “só a deus pertence”.

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sexta-feira, 8 de julho de 2022

O lambe-cus a gostinho.


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Tudo o que escapa ao meu entendimento, como a morte ou a estupidez, enche-me de uma tristeza tão funda e tão fria que acaba invariavelmente por me enfurecer até à violência. O recurso sistemático ao humor, à bricolage, ao sarcasmo, à carpintaria, à escrita, ao vernáculo, ao desenho, à observação da natureza e a coleccionar pedras, tem-me, felizmente, impedido de consumar esse ímpeto iniludível (também me permitiu chegar quase aos sessenta anos sem nunca ter posto os pés num tribunal, na condição de arguido). O texto que se segue não é um estado d’alma; é a minha opinião reflectida - e definitiva - sobre alguém, um rapazola visivelmente carente de atenção, com quem me fartei de ser condescendente. Ao leitor que se melindra com linguagem vicentina peço que suspenda aqui a leitura, a menos que compreenda que é irresistível o que se impõe com naturalidade.

não existe vaidade inteligente

Louis-Ferdinand Céline, in Viagem ao fim da noite

Há uns anos, num dia de eleições autárquicas (esta é uma estória verídica) eu integrava a mesa de voto nº 2 de Maiorca, como habitualmente por designação da CDU. Era Setembro (ou Outubro) e estava calor. Como previamente combinado com os meus colegas da mesa, lá para o fim da tarde, num período de menor afluência de eleitores, retirei-me brevemente para me refrescar. Para quem não sabe, no largo da feira velha, em Maiorca, existem dois cafés, o do Amadeu e o do Samarra. O Amadeu é do PSD. O Samarra é do PS. A clientela de ambos também, à mesma razão e proporção. Por opção apolítica, fui ao bar do Amadeu - o Amadeu vende o tabaco ao balcão e o Samarra teima em usar, para o mesmo efeito, uma máquina irritante e imbecil que por vezes nem sequer reconhece as moedas de euro. Entrei. “Meus senhores…”

O bar estava cheio. Entre dois televisores aos gritos, o Amadeu mungia, filosófico, a máquina dos finos e, enquanto entrechocavam os copos com os pires, os tremoços com as azeitonas e os jqzinhos fritos com as enguias d’escabeche, o povo intercomunicava acaloradamente num chinfrim ensurdecedor. Mas lá consegui ser atendido. Quando já me retirava com a minha água gelada, fui abordado por um paisano que me fixou um olho peremptório (o outro divagava no espaço, estrábico) apontou-me ao nariz um indicador grosso e acusador e disse-me deste jaez: “Se bocês num ganharem desta bez, nunca mais boto em bocês!” Devo dizer que os clientes do Amadeu que estavam nas imediações assistiram a tudo com uma fleuma de perfeitos cavalheiros: ninguém se riu. Eu também tentei, claro. Sorri, acenei e, saindo de fininho, lá fui ajudar a contar os votos. Está claro que não ganhámos porra nenhuma. Mas o pobre homem deve ter cumprido a sua promessa (os imbecis são pertinazes) – nas eleições seguintes, perdemos o nosso único representante na assembleia de freguesia.

Não sei o que nele mais admirar, se o atrevimento se a necedade. François Rabelais

O cidadão, comissário municipal e blogger figueirinhas António Agostinho parece compartilhar com este bravo freguês de Maiorca o mesmo conceito de cidadania: gosta de estar, e de se dar, com vencedores. E gosta porque gosta, prontos. Só isso explica que, tendo sido mandatário e candidato de uma coligação que perdeu as eleições, depois de se armar a si próprio cavaleiro perdão, porta-voz da oposição à oposição a Santana Lopes, tenha ousado assinar, na sua página do face book, um linguado inacreditável (que, por decência, me recuso a reproduzir aqui) no qual, no mais puro e lambidinho estilo osório, se esmerou em demonstrar que Santana Lopes é afinal um ser humano como todos nós outros pois até tem muitos sentimentos e sensações e emoções e tal e assim e até transpira e chora e ri e tem cócegas e mija e peida-se imenso exactamente como toda a gente e tudo. Já não é primeira vez que o faz. Há uns anos perpetrou o mesmo linguadinho abstruso e despropositado a respeito de um candidato do PS à junta de S. Pedro. Um sujeito que, logo depois de eleito, perdeu o mandato; destituído por desfalque. Por isso, desta vez não fui condescendente e permiti-me comentar assim: “Parabéns.  Se me tivessem contado eu não acreditava. Mas eu li, reli, tresli, reconheço – e concedo: nunca vi lamber um cu com tanta proficiência, tanto esmero, tanto gosto, sei lá, tanta jactância. Isto é uma peça “de antologia”. Bravo. Nada subtil mas ao mesmo tempo com um jenesécoá de “não fazer fazendo” que, confesso, se fosse eu o cágado engraxado (ou se fosse meu o cu lambido) estaria desvanecido e considerando. Já como simples espectador (não tendo nada a ver - nem a haver - com isto) estou apenas embaraçado. Confesso que nem sei onde me meter. E tinha que o dizer. Mas é só. Em todo o caso, boa sorte.” Logo a seguir, o merdas apagou a posta e mais tarde reeditou-a no seu blogue, acompanhada de uma longa, muito coninhas e sentimental (como sempre) litania muito coitadinha e calimérica, queixando-se amargamente da incompreensão do mundo em geral e da minha “boçal desonestidade intelectual” em particular mas terminando, certamente muito auto-satisfeito consigo mesmo, como todos os parvos, com esta magnífica chave d’ouro:  “A oposição, em democracia representativa, terá de ser feita, em primeiro lugar, pelos partidos políticos.
Deixo uma questão em jeito de pergunta: até ao momento, alguém conhece uma conferência de imprensa, algum comunicado ou alguma tomada de posição partidária, e pública, em relação à gestão de Santana Lopes à frente da Câmara, nesta sua segunda passagem como presidente da Figueira da Foz e do seu concelho?
E já lá vão 8 meses de mandato...”

Acontece que este “lambe-cus a gostinho” não é um simples eleitor anónimo, como o de Maiorca, que se pode dar ao luxo de ser inconsequente ou rapazola. Este merdas foi mandatário de uma candidatura que agora está na oposição. Como presumo que uma função destas infere alguma responsabilidade, foi disso mesmo que o relembrei, no cartoon nª 345 da série aFigueirinha, sugerindo que respondesse à “questão em jeito de pergunta” que ele próprio, algo macarronicamente, tinha formulado. Qual quê. O lambe-cus, insolente, chutou para canto, limpou as mãos à parede e, acanalhado, foi sacudindo a água do capote para cima da líder local da CDU a quem, em simultâneo, foi cobrindo de elogios, tão untuosos como alarves, reiterando, sempre cinicamente, votos de muitos votos à coligação da qual foi não só mandatário mas também o sétimo na lista de candidatos à Câmara Municipal. A mesma coligação, liderada pela mesma pessoa, que, desde que passou a engraxar o cágado, critica publicamente - com a ligeireza dos néscios e dos impostores.

Eu edito cartoons e caricaturas neste blogue há mais ou menos quinze anos. Já “visei” dezenas, ou centenas, de personalidades. Muitas delas da política e da sociedade figueirense. Com algumas cheguei a ser, reconheço, particularmente duro, senão mesmo bastante cruel e até, possivelmente, injusto. Todos reagiram com aquela dignidade e indiferença que é fleuma de cavalheiros, ou de pessoas minimamente inteligentes (a única excepção foi o estafermo do zémilhazes, que me escreveu, ainda assim agradecendo-me a caricatura, para me mandar à merda; eu reencaminhei-o logo, claro - e vejam onde está ele agora). Mas nunca, jamais, nenhum deles teve a puta desfaçatez de ousar “reinterpretar” ao seu gosto os meus desenhos.

- A não ser agora, o merdas do comissário “lambe-cus a gostinho”. Um engraxa-o-cágado, vaidoso como um perú e imbecil e satisfeito como um dodó, que nunca viu nenhuma incompatibilidade, enquanto mandatário da CDU, em coscuvilhar a vida interna de outras formações políticas locais (PS e PSD) e permitir-se especulações insidiosas e juízos de valor gratuitos, inapropriados, acanalhadamente maliciosos, despropositados, abusivos e disparatadamente escarninhos, como se fosse um observador político muito arguto e independente.

O mesmo observador arguto que, em posta mais recente, retomando o registo choroso de alminha sensível censurada, embrulhou uma vaga de insinuações azedas numa bizarra queixa contra desconhecidos (!) - “pessoas perversas, relativistas e cheias de ressentimentos. Pessoas complicadas e sectárias, que convivem mal com elas próprias e com o resto do mundo. Pessoas que passam os dias a olhar para o próprio umbigo e a catar todas as oportunidades, ou mesmo sem elas, para condenar as falhas (as reais e as imaginárias) dos outros”, que rematou com uma torpe alusão sexual a cavalariça, em linguagem de urinol.

A verdade, porém, é que é impossível que quem lambe cus não goste de merda. Por isso, e só por isso, é que um escaravelho excrementício destes, petulante e ufano como uma santanéte desmiolada, também nunca viu a inconveniência, enquanto comissário municipal, de usar a mesma linguagem de urinol (ou de latrina) para se referir publicamente a um ex-presidente do município.

Em todo o caso, ainda bem que a função de mandatário se extingue no dia de eleições. Folguei muito ao saber. Como eleitor dos comunistas não suportava a ideia de me ver representado por um troca-tintas lambe-cus inchado como uma prima donna que se comporta como uma porteira desbocada e se exprime como um carroceiro borrachola. Já não lhe desejo boa sorte. E nem sequer o mando à merda. Ele já lá está.

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