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quarta-feira, 15 de abril de 2026

A Exopotâmia* sur-mer - crónica de um sultanato no deserto sem notícias


Vamos todos a caminho do esquecimento, essa doce praia
Daniel Abrunheiro

Segundo o estudo “Desertos de Notícias Europa 2025”, coordenado em Portugal pelo Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI), mais de metade do território nacional não tem fontes de informação confiáveis e regulares sobre a realidade do próprio concelho. Mais de 80 municípios não têm actualmente um único jornal e 74 não têm uma única rádio. Este fenómeno tem sido acompanhado por um fortalecimento dos gabinetes de comunicação dos municípios.

“Sem jornalismo local, o escrutínio de políticos, empresários e gestores públicos é nulo. Como é que as pessoas votam se Portugal é um deserto de notícias?” Perguntava-se a jornalista Bárbara Reis, há tempos, no Público.

Existe porém algo pior do que um deserto de notícias. Na Figueira da Foz, por exemplo, há anos que não existe imprensa residente, mas pulula a correspondente. Durante a mais recente campanha eleitoral autárquica, esta comunicação social não só não foi capaz de promover um único debate público entre todos os candidatos, como também não logrou achar espaço nas suas páginas para uma única entrevista a qualquer um deles – um privilégio religiosamente consagrado apenas ao actual presidente do município, ritual repetido aliás todos os três-quinze-dias durante todos os seus anos de mandato.

O que se segue é o relato de alguns sucessos num concelho onde as únicas notícias que se publicam são as redigidas ou autorizadas pelo gabinete de comunicação do município. A sua leitura talvez sirva para elucidar almas gentis como Bárbara Reismas, como é óbvio, não dispensa a consulta dos resultados eleitorais.

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Em Junho de 2025, a junta de freguesia de Maiorca inaugurou um inacreditável monumento, que apresentou como uma “celebração da devoção religiosa dos maiorquenses”. Segundo a imprensa, que reproduziu religiosamente o mesmo texto emitido pelo gabinete de comunicação do município, a obra em causa pretendia elevar o impacto da religiosidade na comunidade local, teria sido “suportada financeiramente e executada pela Junta de Freguesia de Maiorca”, e representado um investimento de 24 mil euros com apoio municipal em cerca de 90% dos materiais e matérias-primas, na sua grande maioria reaproveitados de outras obras municipais.

A obra “CRUCIS – Homenagem ao Divino Senhor da Paciência”, localizada na Rua do Senhor da Paciência, em Cruzes (estas coisas não se inventam) no alto de uma pequena colina com vistas largas para dois palácios em ruínas, foi inaugurada numa sexta-feira à noite pelo presidente da Junta, Rui Ferreira, na presença do padre Daniel que abençoou a santa coisa e do presidente da Câmara Municipal Pedro Santana Lopes em pessoa, que descerrou a lápide sacramental. Trata-se de uma espécie de instalação delirante e surrealista, um cadáver (realmente muito) esquisito, constituída por um manipanso gesticulante e maneta, um walking dead de pau feito (autêntico eucalipto nacional) sobre um altar com três degraus na esquina de uma casa com um talude, entre um guarda-corpo em aço inox decorado de exóticos motivos vegetais e uma espécie de roda cujos raios parecem cornetas, ou canhões, em chapa recortada e pregada na empena da parede cega, como uma anti-aérea com os canos apontados para todos os azimutes. Mas a santa bricolage só atingiu os píncaros do escaganifobético mais explícito com o remate final, a sua pièce de resistance: nove marcos instalados no chão em volta que, para o presidente da junta, representam cada um dos locais de culto religioso na freguesiae para muitos paisanos apenas a cerveja no tópingue de um simplório porém flamejante e monumental atentado consumado à sua paciência, sensibilidade e inteligência. Da imprensa nem ai nem ui; nem do destrambelho estético do monumento, nem do desatinado despropósito do investimento, nada.

Sublinhe-se que este investimento público numa homenagem à devoção por uma confissão religiosa foi, cândida e orgulhosamente, perpetrado (mais de cem anos depois do decreto-lei de 1911, do senhor Afonso Costa, que instituiu a Separação do Estado das Igrejas, e cinquenta depois da Constituição de 1976, mesmo que muito timidamente, a reinstituiu) por um autarca então ainda socialista – Rui Ferreira haveria, depois de virar a casaca, de se recandidatar pela força que apoiou Santana Lopes e perder a re-eleição para o Chega, o partido fascista que agora governa Maiorca, em mui alegre geringonça com o socialista.

Esta devoção pela devoção à santa tradição religiosa não foi apenas um episódico e idiossincrático capricho de um expedito prsdnte de junta de aldeia armado aos cucos. É uma tendência, pastosa e palpável, um ar do tempo que já tomou a cidade – como a febre da raspadinha, os ratos, as lojas de penhores, os oculistas, as gaivotas, as igrejas evangélico-sionistas e os supermercados.

A mesma tendência mórbida, com a sua peculiar e sintomática sensibilidadezinha para as coisas da cultura, tornou-se evidente no decorrer da 10ª edição do ciclo de conferências “Temas de Arqueologia”, que pela primeira vez se alargou também a Temas de Arte. Promovido pelos Serviços Culturais do município, como sempre em parceria com a Universidade Sénior da Figueira da Foz, este notável ciclo de conferências decorreu de 4 de Fevereiro a 18 de Março, às quartas-feiras, no Auditório Municipal Madalena Biscaia Perdigão. Contudo – apesar de integradas nas comemorações do 132º aniversário do Museu Municipal e da indiscutível relevância da revelação de surpreendentes formas de arqueologia (o conceito de escavação do presente, explicado na magistral palestra de Tânia Casimiro) e da divulgação pública de novas descobertas no estudo do seu próprio espólio arqueológico e artístico – tornou-se iniludível um facto ostensivo: nem uma destas conferências mereceu a presença de um representante da tutela (o pelouro da Cultura) nem de qualquer chefia dos serviços culturais. A imprensa local, como de costume, também disse nada; limitou-se a divulgar religiosamente, como sempre, o anúncio do evento, aliás muito competentemente confeccionado já em forma de notícia, como habitualmente, plo gabinete de comunicação.

Logo a seguir, a Câmara Municipal da Figueira da Foz, “ciente do carácter diferenciador e características únicas das cerimónias da Semana Santa e da Páscoa em Buarcos, associou-se à Paróquia de Buarcos e à Santa Casa da Misericórdia de Buarcos na sua valorização, consequente projeção do concelho como um destino de turismo religioso de referência, neste período”. Ou seja: o município acaba de fazer das tradições pascais de uma confissão religiosa numa das suas freguesias o eixo de toda a sua programação cultural de Primavera – oferecendo celebrações profundas de 21 de março a 5 de abril de 2026. O programa inclui procissões tradicionais (Senhor dos Passos, Ecce Homo, Enterro do Senhor), concertos gratuitos na Igreja da Misericórdia e de São Pedro, e a exposição “Memórias da Paixão”, e ainda cruzes e palmas em todas as esquinas e até um mercadinho medievo no jardim público decorado com motivos pascoais.

Se o transformismo do martírio do senhor em produto turístico não choca os fiéis católicos figueirenses (nem o massacre de inocentes em curso na Palestina os impressiona por aí além), a transfiguração da fé católica em cartaz turisticócultural da cidade também parece não ter afectado demasiado os figueirenses fiéis de outras confissões, os espíritas, os cépticos impenitentes, os columbófilos, os incrédulos notórios, os agnósticos confessos, os apicultores, os ateus assumidos, os surfistas conhecidos e os alcoólicos anónimos. Da comunicação social nem falar – nem objecção, nem reticência, nem sequer perplexidade em toda a opinião publicada. Ninguém ousou discutir publicamente o discernimento e o arbítrio caprichoso e discricionário de um ungido e mui preclaro autarca de uma parvalheira de província que diz que lhe dizem que devia ter-se candidatado a presidente da república.

Miguel Torga observou uma vez no país “um fenómeno curioso: falta-lhe o romantismo cívico da agressão”, apontou ele no seu Diário. Já na Figueira existe um outro fenómeno, não menos curioso, que decerto também não teria escapado ao poeta se ele alguma vez tivesse deambulado por cá nas suas longas caminhadas reflexivas; algo que não carece mas remanesce: o pragmatismo cínico da omissão, com a sua compulsão para a conivência, o bico calado, o conformismo e a genuflexão.

Tudo indica portanto que a Figueira da Foz burguesa, laica, plural, democrática, progressiva, hedonista e cosmopolita já não existe. Desistiu do mundo porque descobriu a gândara, que é de onde lhe chega o seu turismo de proximidade. Gandarisou-se. O bafo atávico do portugal profundo, beato e reaccionário, chega-lhe do interior, das entranhas doantigamente, com o hálito azedo e ansiolítico do determinismo fanático e da superstição – como uma nortada macacómica e (ul)tramontana cruzada de patrioteirismo paroquial (aquele portuguesismo com zê, de água-benzida e mapa-cor-de-roza-colonial) com fundamentalismo de acento canarinho evangélico ou pentecostal.

Por tudo isto talvez se deva concluir que pior, muito pior, do que um deserto de notícias é uma espécie de Exopotâmia sur-mer  – governada por um sultão beato e sem dinastia, envelhecido e marreco como um outonal patriarca entediado (só está bem onde não está), intratável quando contrariado e inacessível à sua própria corte – uma choldra impávida e decadente onde triunfa o fogo de artifício e a aridez cultural e vegeta a alma réptil e venenosa de uma comunicação social rastejante e dependente, tão celerada e analfabeta como medíocre, inepta e relapsa, que não reporta e tão-pouco se importa, que não quer saber nem quer que se saiba e cuja única actividade consiste em publicar anúncios como notícias copiando, cortando, truncando e colando, mal e porcamente, com bizantinos critérios de oportunidade, narrativas pré-confeccionadas em gabinetes de comunicação

E pensar que esta já foi a cidade do livre-pensador Fernandes Tomás; do arqueólogo maçon Santos Rocha; do filósofo espinosista Joaquim de Carvalho; do pedagogo republicano João de Barros; de José Ribeiro, o encenador e valente redactor de “A Voz da Justiça”; do intrépido jornalista Albano Duque; de Cristina Torres, a corajosa activista do laicismo e da educação cívica; de José Martins, o engenhoso director do “Barca Nova”; de Cândido Costa Pinto, homem complicado e pintor inconformado; de  Joaquim Namorado, o incómodo poeta matemático e comunista; do irreverente e libertário Mário Silva; do herético cineasta João César Monteiro. Era bem outra cidade, de toda uma outra tradição.

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- *Exopotâmia foi um termo inventado por Boris Vian para designar o deserto descrito no seu romance patafísico-surrealista “O Outono em Pequim”, uma obra cujo título obviamente não tem nada que ver com a sua estória. Nem com esta.

- ao alto: “CRUCIS – Homenagem ao Divino Senhor da Paciência”, Cruzes, Maiorca (foto de Fernando Campos) 

- Este texto também foi publicado na revista on-line Passarola

 

sexta-feira, 31 de maio de 2024

O jornalismo de interjeição


 

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As grandes atracções dos programas de variedades televisivos já não são, como antanho, os artistas (os cantores, os recitadores, os músicos, os palhaços, os acrobatas, etc.) mas os apresentadores. Sinal dos tempos, os programas informativos também se transfiguraram e constituem agora todo num novo género de espectáculo-de-variedades. Um espectáculo que nunca acaba. João Adelino Faria é um desses novos apresentadeiros, carismáticos e glamorosos - autênticas vedetas - do espectáculo non-stop que é o entretenimento informativo na televisão.

Se se nutre uma fixação mórbida pela conflitualidade vácua e pela parlapatice obtusa, e não se tem o mínimo interesse ou simples curiosidade intelectual pelo pensamento ou discurso de quem quer que seja, não há nada melhor do que assistir a uma entrevista ou a um debate conduzidos ou moderados por um apresentador-vedeta como o “jornalista” João Adelino Faria. Num programa apresentado por João Adelino a atracção nunca (jamais) é o entrevistado mas o entrevistador. O fulcro da entrevista não é ouvir a palavra e a versão do convidado mas dar vez, e voz, à narrativa do apresentador.

Faria pergunta mas não quer saber. Nem deixa ouvir. Adelino é um mestre da arte da objecção, da interrupção, da interjeição - em latim, interjeição quer dizer “meter entre”, por serem palavras que se encaixavam entre as sequências do discurso - Adelino está constantemente a meter-se entre a pergunta que ele próprio fez e o subsequente discurso de quem responde. João interrompe, Adelino objecta, Faria argumenta; sempre frenético, categórico e muito senhor de si, em constantes, insistentes e repetitivas demonstrações de afirmação ego-maníaca.

O que fica, de si e do seu patético e arrogante trabalhinho, é a constatação de uma obscura e constrangedora compulsão para gostar de se ouvir a si mesmo com a jactância conspícua e deleitada de um marcelo a tirar selfis com papalvos; ou de um cão, também velhaco, a mijar num poste.

Na RTP chamam entrevistar e moderar a este estranho mester. Suponho que até o remuneram. Eu chamo-lhe jornalismo de interjeição. Trata-se de uma das mil e uma variantes, ou modalidades, do jornalismo que desinforma, que imbeciliza, ou de merda.

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Já ilustrei e comentei vários casos notórios e bem-sucedidos da prática de outras modalidades deste género de jornalismo. Tantos que arquivei todos os verbetes sob uma mesma etiqueta: jornalismo de merda. Aqui ao lado, na prateleira.

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terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

outra vez a sífilis ou a gonorreia.




Para não variar demasiado, os donos da comunicação social, o jornalismo de merda e os seus especialistas convidados decidiram outra vez pelos portugueses quais são as suas duas opções. 

A escolha que eles propõem, também para não variar, é outra vez entre a sífilis e a gonorreia. (não imagino por que obscuros e bizarros processos de breinssetormingue mentecapto é que eles chegaram a esta sugestão de escolha se, entre as várias outras opções possíveis também havia o escorbuto, a peste negra, a febre amarela, a diarreia incontinente e até, imaginem, a vida simples, digna e decente).

Para isso organizaram e promoveram com trombetas e violinos “o grande debate”, um combate definitivo, uma espécie de grande final tira-teimas.

Claro que também organizaram, durante toda a santa tarde, um grande pré-match onde as mais rutilantes vedetas do jornalismo de merda, acolitadas por igualmente renomados especialistas convidados, foram comentando os prognósticos antecipados até ao pentelho esmiuçando até ao nervo e esburgando até ao osso as tácticas e as estratégias dos colossos que, à noite, iriam dirimir, ao vivo e a cores, a temática da problemática que, para eles, tanto desinquieta os portugueses.

É óbvio que depois do grande match, pla noite dentro, também fizeram o pós-match, onde os mesmos especialistas de merda protagonizaram penosos, redundantes e intermináveis debates para aferir qual dos formidáveis antagonistas tinha afinal vencido o pleito.


É claro que não vi. Nem o pré-match, nem o match, nem o pós-match. Estive a ler (A época da caça, Andrea Camilleri, sempre inteligente e entranhadamente divertido). Por isso não faço a menor ideia, nem tenho a mínima curiosidade, de saber qual foi o vencedor apurado em tal concílio de especialistas da vida sórdida. Já sei que fui eu que perdi. Eu e a imensa minoria dos que preferiam apenas uma vida simples, digna e decente.


sábado, 2 de setembro de 2023

A estrela da tarde e o grau zero da política


 

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30 de Agosto, Quarta-Feira, pla tardinha. Tive o equívoco e tenebroso privilégio de, desprevenido, sonolento e boquiaberto, ser confrontado em directo com o espectáculo escabroso da descida do jornalismo ao nível mais rasteiro e da política ao ponto mais vácuo. O momento zen do jornalismo-de-merda e o grau zero absoluto da política. No mesmo instante e lugar. Na SIC-Notícias. Teresa Dimas recebeu Santana Lopes. Mas vamos por partes.

A SIC-Notícias é um canal de televisão por cabo que pertence ao empório de entretenimento do Grupo Impresa, detido por um conhecido oligarca da comunicação.

Teresa Dimas é a jornalista-âncora, a apresentadeira das notícias da tarde no canal. Dimas é uma vedeta do género. Tem tudo para agradar à vasta audiência do canal. Ela é a estrela-da-tarde - tudo nela é suave, doce, familiar, caloroso, redondinho, jovial, amável, luminoso. Salvo quando diz “Putin”, “Rússia”, “comunista”, “esquerda”, “Lula da Silva”, “extrema-esquerda” ou mesmo só ”trabalhadores”, “greve” ou “Papa Francisco”. Aí, tudo nela obscurece: o côncavo convexa, as covinhas achatam-se, os lábios fazem biquinho, o olhar ensombrece, as sobrancelhas circunflexam, o redondo agudiza-se, a jovialidade agresta, a doçura azeda, a amabilidade agrava-se, o calor fica gelado, o suave torna-se cortante. É com esta invulgar capacidade histriónica, aliada a uma inegável empatia, que ela, mui capciosa e habilidosamente, ajuda os espectadores a apreenderem a sua visão do mundo, a sua interpretação da notícia. A sua expressão, trejeitos e alguns àpartes funcionam, para quem assiste em casa, como aquelas placas que, exibidas ao público mercenário de certos espectáculos televisivos, indicam o momento imperativo para rir ou aplaudir (o método pode parecer muito menos grosseiro porque tudo se processa no campo subtil do não-dito - do subliminar - mas não o é, de todo, nem sequer menos degradante ou indecoroso). Teresa Dimas é uma espécie de flautista de Hamelin. Mas não são ratos quem ela encanta, manipula e conduz. É a opinião pública. Não toda, evidentemente. Apenas aquela, incauta, ingénua ou distraída, que se senta pla tardinha a ver televisão (para outros segmentos do horário a estação tem outros especialistas - divas e virtuosi - todos igualmente competentes nas suas especialidades).

Estais a gostar do filme?

- Pois é agora é que vai começar a acção. E entrar o artista convidado. Santana Lopes. O presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz já está sentado em frente de Teresa nos estúdios do canal. Veio de propósito da Figueira a Carnaxide a meio da semana para ser entrevistado. Está catita. Muito distinto. Fato completo, com colete. Cinza claro. A condizer com o cabelo, que lhe escorre húmido da nuca em farripas prateadas. Teresa está visivelmente encantada, voz de seda, tom receptivo, confidencial, aveludado. Pairam flores e violinos. Passam poucos minutos das sete em ponto da tarde. Santana está que nem pode, nota-se. Não é todos os dias que o presidente da Câmara da Figueira da Foz vai falar em directo a uma televisão nacional. É agora, pensei eu, incauto, que ele vai finalmente pôr a Figueira no trombone, quero dizer no mapa, ou na agenda oláoquié, é agora. É agora, pensei eu ainda, leonor pla verdura, que ele vai chamar os ministros e os secretários de estado pelos nomes, agarrá-los pelos cornos, ou plas orelhas, e dizer-lhes tudo, exigir-lhes a maternidade de volta, e a linha do Oeste e a da Beira-Alta e as oficinas da CP, mais um têgêvê para Salamanca, uma ponte nova sobre o Mondego e um aeroporto internacional, um porto oceânico e o bacalhau a pataco eu sei lá, é agora.

Qual quê. Santana começa a falar. E o que ouço é um chorrilho de banalidades a respeito do grande assunto do momento, as presidenciais - espoletado pelo pequeno Marques Mendes que, no seu pugrama de conversas em família, na SIC aos Domingos depois do telejornal, terá dado o tiro de partida da corrida a Belém, lançando-se como candidato. A dois anos e meio de distância mas decerto com aprovação e alto-patrocínio do oligarca dono da estação.

Mas que raio é que disse o Santana?, perguntais vós.

Nada. Zero. Nada de jeito. Pelo menos com interesse para quem realmente lhe paga, que são os figueirenses. E muito, imenso, das presidenciais; que não, não é candidato, ainda é muito cedo (o que significa que ainda pode vir a ser); depois dissertou filosoficamente sobre os poderes putativamente exagerados do presidente e tal, do taimingue das proposituras, dos outros putativos candidatos (todos muito boas pessoas, conhece-os a todos de pequeninos) mas sobretudo muito, imenso, e muito bem, de si próprio - o assunto favorito de alguém que nunca teve uma única ideia política mas sempre padeceu de uma compulsão mórbida para a competição sôfrega numa vida reduzida desde há muito a um abstruso e paroquial concurso de popularidade.

Quanto a Teresa Dimas, a única confissão que lhe arrancou foi qualquer coisa como ”só consigo pensar nisso”, a propósito das presidenciais, imediatamente corrigido, entre risinhos cúmplices, por um “bem, no intervalo dos meus afazeres na Câmara Municipal”. Também não lhe interessava mais nada e conseguiu-o: não descartou de todo mais um palhaço para o circo das presidenciais que o seu grupo de comunicação e entretenimento está a criar para poder vender anúncios a toda a casta de seguros, apostas desportivas, laxantes, empréstimos ao consumo, anti-depressivos, sabonetes, iogurtes, automóveis, perfumes, anti-diarreicos, detergentes, chocolates, anti-vomitativos e supermercados. Que a vida está difícil.

O jornalismo-de-merda e o puro-entretenimento são bastante dispendiosos - divas como a Dimas e pequenos comentadores com grandes ambições como Marques Mendes não devem ficar nada baratos. Não sei como é que na Figueira, mesmo com uma taxa turística a dois euros, eles conseguem.

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segunda-feira, 10 de julho de 2023

Pestana ou o sindicalismo “merdiático”


 

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Aquilo a que chamam popularidade é um daqueles fenómenos que sempre me encheram de perplexidade. Num mundo de pessoas cheias de bizarrias idiossincráticas e peculiares nunca fui capaz de compreender o mistério que faz seja o que for do agrado geral ou, pelo menos, das mais amplas maiorias.

André Pestana é um destes fenómenos peculiares que, para mim, são incompreensíveis.
Trata-se de um professor sindicalista que lidera, há meses, uma luta sindical – ora, os professores que ele supostamente lidera, os mais sensíveis à sua retórica justiceira, são precisamente aqueles que nunca se indignaram com o que lhes pagam nem com as condições do seu trabalho, que não gostam de sindicatos, que nunca fizeram uma greve e jamais descontaram para um sindicato (muito deles nem sabem o que é, nem para que serve, têm raiva de quem sabe e até o manifestam orgulhosamente em público).

Quando quis fazer-lhe este retrato, procurei na net imagens suas. As mais numerosas foram invariavelmente fotografias do senhor Pestana sempre rodeado de imensos microfones. Ou seja, a benevolência, simpatia e o tempo-de-antena que generosamente lhe dispensam os meios da comunicação comercial fazem dele - através da indução, da sugestão e da persuasão - um dos mais queridinhos de toda a gente mal informada.

Foi então que percebi que a notícia da morte dos media é bem capaz de ter sido demasiado exagerada. Os media não ajudam apenas a vender sabonetes ou candidatos a presidentes. Também ainda ajudam a vender sindicalistas.

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domingo, 23 de abril de 2023

O jornalismo de merda “especializado”

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Germano Almeida é jornalista “há quase três décadas” e dedicou “parte dos últimos vinte anos a analisar ao detalhe” a política norte-americana, sobre a qual até já publicou uma porção de livros e tudo. Germaninho é a prova viva daquela expressão popular segundo a qual “de pequenino se torce o pepino” pois começou a sua carreira profissional com apenas quinze anos, em 1993, no jornal “A Bola”. Trata-se, portanto, de um espécimen autêntico, completo e acabado, de pepino perfeitamente retorcido.

A bola é, também, além da plítica norte-americana, outra das suas especialidades. Germano trabalha desde 2017, na Federação Portuguesa de Futebol, como “project manager” no gabinete executivo. Também foi, entre 2015 e 2016, Diretor de Comunicação da Liga Portuguesa de Futebol Profissional.
Agora é “analista de dados” no gabinete do CEO da FPF, desde Março de 2017. E Comentador da SIC, desde outubro de 2020.

Foi, contudo, a sua, sempre muito ansiosa e arquejante, prestação como comentador da actualidade e “especialista em assuntos internacionais” na SIC, que me chamou a atenção. Germano, como todos os analistas do jornalismo de merda de referência, além de dar opiniões e ditar sentenças, gosta de fazer previsões. Em 2019, por exemplo, Germano previu que o “regime de Nicolás Maduro” estava prestes a cair.

Germaninho faz-me lembrar aqueles cientistas que de tanto estudarem vermes começam a gostar tanto deles que acabam a achar que estes são a quintessência da evolução. Germano passou tantos anos (quase trinta) a analisar ao detalhe a plítica norte-americana que, num curioso “fenómeno de identificação”, ficou tão ingénuo como os gringos. Os americanos gostam de pensar que são a espécie no topo da cadeia alimentar e Germano gosta de pensar como eles. Suponho que Germano pensa que, ele próprio, é americano. Germano fala como um deles. Germano devia até mudar de nome. Podia, sei lá, passar a chamar-se Americano Almeida. Ou Ianque Almeida, ou até mesmo, porque não, Almeida Jackass.

Germano, por exemplo, não concebe que haja países que têm interesses que não são os dos americanos e que agem em função disso mesmo. Como é que isso é possível? - não lhes entra na cabeçorra. Por isso é que de cada vez que Lula da Silva diz qualquer coisa, Germano proclama-se publicamente desiludido, coitadinho.

Germano não concebe sequer que o seu próprio país possa ter outra política externa que não seja a mais sabuja, sempiterna e mui auto-satisfeita submissão aos interesses dos americanos. Receio que seja esta a sua tábula rasa.

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Os dados referidos acima são públicos. Foram todos catados do Linkedin do Germano.

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domingo, 14 de agosto de 2022

O acaso como causa sem efeito – com resumo e nota de rodapé (em tempo real)


 

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- Era uma vez, a 13 de dezembro de 2015 (um domingo à noite), a TVi fez saber (em nota de rodapé) que o Banif ia ser alvo de uma medida de resolução. A notícia precipitou uma corrida aos depósitos que se concretizou, na semana seguinte, numa quantia de levantamentos muito próxima de mil milhões de euros, segundo afirmaram, mais tarde no parlamento, vários responsáveis.

- A 20 de dezembro de 2015, o Governo e o Banco de Portugal anunciaram a resolução do Banif.

O director de informação da TVi era Sérgio Figueiredo. Foi no mesmo ano que Figueiredo criou para Fernando Medina, então presidente da Câmara de Lisboa, um espaço de opinião política que lhe garantiu não só rendimentos mas também a visibilidade pública e a notoriedade política necessárias para, mais tarde, perder as eleições e chegar a ministro. 

- Em Março de 2020 foram ambos processados (a TVi e Sérgio Figueiredo) por decisão do tribunal da Comarca de Lisboa. Por ofensa à reputação económica do Banif. 

- A 10 de Maio de 2022, a própria TVi, sempre fiel aos seus pergaminhos, noticiou em primeira-mão, e em “acordês” como de costume: "a decisão do Juízo Criminal de Lisboa, hoje conhecida, foi perentória: absolveu a TVI, bem como o Diretor de Informação à data dos factos, por considerar que não estavam preenchidos os requisitos mínimos que pudessem gerar a sua responsabilidade" - o que deve querer dizer,  em português corrente, que o competente Juízo Criminal de Lisboa, instado plo Tribunal da Comarca da mesma cidade, deu como provado que entre causa e efeito não existe a mínima relação. Estas coisas não se inventam. 

Entretanto, a esta altura do campeonato, Sérgio Figueiredo já tinha abandonado a sua fulgurante carreira no jornalismo-de-merda e abraçado outra, igualmente promissora, como vereis, como consultor de sustentabilidade. Fundou, com a sua namorada, a empresa Plataforma Coerente (estas coisas não se inventam) e, em 2020, assinou um contrato com a Câmara Municipal de Lisboa, à época liderada por Fernando Medina, para gizar um plano de comunicação para promover as compras de Natal no comércio tradicional, particularmente afetado pela pandemia e consequentes confinamentos. Este plano, genial e ambicioso (custou trinta mil aéreos aos alfacinhas e levou 13 dias a executar) consistiu numa campanha de vídeos gravados com telemóvel (que podem ser vistos no canal Youtube da CML) nos quais vinte figuras públicas de reconhecida alta-cravadeira social (e óbvia proximidade ao casal plataforma coerente), se deixaram generosamente filmar proferindo doces abobrinhas sobre as maravilhas de fazer compras no comércio tradicional alfacinha. Os resultados da campanha para o comércio tradicional são, no entanto e até agora, desconhecidos. Talvez porque, à época, a CML não tinha ninguém realmente capacitado para monitorar os impactos deste género de plíticas públicas. 

- Destarte, em Julho de 2022, o mesmo Fernando Medina, agora já ministro das Finanças do governo de Portugal, contratou Sérgio Figueiredo para proceder à avaliação e monitorização do impacto das políticas públicas, em tempo real, junto do tecido empresarial, sindicatos e outras instituições da sociedade civil. O contrato, por ajuste directo, terá a duração de dois anos, durante os quais Figueiredo terá um ordenado equiparado ao vencimento mensal base (ilíquido) de um ministro (este montante foi posteriormente corrigido pois Figueiredo vai abichar 139. 990 euros brutos em dois anos, o que equivale a 5.832 mensais, superiores portanto, aos 4.767 inicialmente noticiados). Acrescente-se que, embora impedido de exercer outras atividades que possam representar um conflito de interesses com as que vai desempenhar no Ministério das Finanças, este não lhe exige exclusividade.

Estas coisas também não se inventam.

Resumo: o governo de Portugal, através do seu Ministério das Finanças, contratou um consultor de sustentabilidade em part-time com um cachet superior ao do próprio ministro, para fazer algo que competiria aos funcionários do próprio ministério, a quem é exigido tempo-inteiro e dedicação exclusiva.

Nota de rodapé:  à hora (em tempo real) que fecho a edição desta posta, o novo consultor de sustentabilidade já terá informado o ministro Medina do impacto da sua própria contratação junto do tecido empresarial, sindicatos e outras instituições da sociedade civil.

sábado, 25 de junho de 2022

O sentimentalismo Osório


 

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O sentimentalismo, em Portugal, não é uma mera forma de expressão. É a expressão do eu em todas as suas formas – quase sempre enquistadas, porém melífluas, repenicadas, delicodoces, xaroposas.

Na literatura, o género, que já exasperava Herculano, tem sido detractado, com mais ou menos virulência, desde pelo menos Cesário Verde até Alberto Pimenta. Por motivos diversos, como é óbvio (Agustina, por exemplo, considerava que a exploração do sentimento era um artifício fácil e, como tal, vulgar, pouco elevado, até mesmo desonesto e estendia generosamente esta sua implicância à música, a mais emocional das artes, que também não poupava nos seus sibilinos, mas abrasivos, comentários).

O sentimentalismo foi, no entanto, sublimado por outros de não menor talento e atingiu os píncaros, no cânone da língua, com Antero, António Nobre (a nossa melhor poetisa, no parecer de Pascoaes) ou Florbela Espanca (Camilo é um caso à parte - condenado à vida a viver do sentimentalismo, apenas com o seu humor sombrio, um génio explosivo, um sarcasmo inflamável e um vocabulário incandescente e rebarbativo, ele criou toda aquela pirotecnia exuberante que transfigurou o género - em algo completamente diferente – numa espécie, ora abertamente equívoca, de recalcitrante comédia negra; ora veladamente explícita, de impenitente tragédia bufa).

Ou seja, o sentimentalismo atingiu altos padrões estéticos sempre que foi tocado pelo génio – como o de Antero, tomado pela vertigem do absoluto; ou o de António Nobre, contagiado pela derisão e pela auto-ironia; ou o de Florbela, possuída pelo destrambelho associal e pla ousadia sequiosa de infinito.

Nos nossos dias, o sentimentalismo é ainda bastamente cultivado, por exemplo por Valter Hugo Mãe ou António Lobo Antunes; mas só triunfa realmente fora do âmbito da literatura – por todo o lado, no jornalismo, na publicidade e até na comunicação política. Mas é sobretudo quando rasteja, isto é, quando é tocado pela canalhice e pela mediocridade – pla vulgaridade dos métodos e pla baixeza dos propósitos - que ele ganha asas, muitos laiques, compartilhamentos e comentários aprovadores e entusiasmados nas redes sociais e a consagração da popularidade. Um dos mais garbosos praticantes desta modalidade é Luís Osório.

E quem é esse Osório? Perguntais-vos vós.

- Bem, Osório é um xcritor e jornalista que escreve livros, embora o que ele escreve não se enquadre exactamente naquilo que se chama literatura, ou jornalismo. Osório tornou-se conhecido por ter escrito um livro sobre o pai e um sobre a mãe (o pai foi um comunista e homossexual que enfrentou a morte, de fatal doença contagiosa, com valentia e dignidade - a mãe foi uma senhora que escolheu dar-se a própria morte) nos quais chafurdou, sem escrúpulos nem pudor, na vida e intimidade dos progenitores e se empenhou em demonstrar, contra todas as naturais expectativas, a nulidade do legado dos genes e a inexorabilidade da redenção, isto é, do final feliz (o busílis deste género de sentimentalismo) - pois ele próprio (tudo o que Osório escreve é eminentemente sobre si mesmo) é hoje um perfeitamente convencional chefe de família, feliz pai de três pimpolhos perfeitamente convencionais e perfeitamente integrado na boa sociedade e no regime, porque até já “participou em comissões governamentais, coordenou a comunicação política de uma campanha presidencial e até é consultor empresarial” e tudo (tudo feitos fora do alcance de qualquer vulgar filho-de-comunista, ou filho-de-comuna de lineu, como é sabido). Além disto, também dirigiu jornais, uma estação de rádio e até já imaginou um programa de televisão e dirigiu uma vez uma peça de teatro. Hoje escreve postais diários, no face book. Crónica social e tal.

Mas senhor, porque vos agastais tanto com tal prosa, se não há nenhum motivo para que a continueis a ler, pensais vós.

- Pois pensais muito bem, jamais leria tais postas de merda se, em verdade vos digo, elas me não aparecessem, continuada e impunemente - para que as beba com os olhos, como dizia Fernando Pessoa - escarrapachadas no meu mural, piedosamente compartilhadas por alminhas devotas do santo sentimento. E se, quando assombrado com água benta, umbiguismo e presunção, não se apoderasse de mim, como de Luis Buñuel e do divino marquês, uma “cólera divina”. Aí tendes dois porquês.

E como é que ele faz para cativar aquele público (cada vez mais vivo, numeroso e ávido do que nunca) que esmifrou o génio do Camilo e lhe abrasou a visão e a mioleira? Perguntais-vos vós adredemente.

- Pois bem, titila-lhe a glândula túrgida da sensibilidadezinha à flor da pele, comicha-lhe a mucosa do ego empático e inflama-o, insinuante e insidioso, com frases curtas, doces evocações, exemplos melados, conspícuas revelações, inconfidências exclusivas, com muito enfoque nos bastidores, no episódico, no anedótico (em momentos, pormenores, detalhes, pequenas circunstâncias) sempre muito pessoal, muito intimista, muito sofrido, muito visceral, muito pungente, muito comovido, muito lacrimal, muito piegas, muito coscuvilheiro, muito lambe-cus, muito mórbido, muito enjoativo, muito repugnante. Tudo isto sobre um fundo de moralzinha mui serôdia e fraldiqueira coberto por um manto diáfano aparentemente desempoeirado, quase progressista, mas suficientemente palatável para o leitor que se comove por-tudo-e-por-nada e se deleita em baba e ranho mas não se engulha demasiado com o artifício fácil e com o senso-comum reaccionário e conformista, desde que venha tudo embrulhado em vocabulário muito mais acessível.

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sexta-feira, 20 de maio de 2022

O senhor director-geral do jornalismo-de-merda


 

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Se, no panorama mediático português, o triunfo do jornalismo de merda é um facto incontestável, também é inegável que o campeão nacional absoluto deste cada vez mais sórdido campeonato é a Sociedade Independente de Comunicação (SIC) – isto é facilmente atestável pela reiterada liderança nas audiências, ou seja, pelas preferências do mercado perdão, do público pelo género.

Ora, as vitórias não se conquistam sozinhas. Qualquer equipa vencedora precisa de alguém infinitamente capacitado que a dirija. A SIC tem. Tem um presidente e enfim, toda uma classe dirigente. Mas, sobretudo, tem um director-geral.

O presidente (ao qual já me referi aqui) é também o fundador de todo o empório de empresas de entretenimento e comunicação, a Impresa, da qual a SIC é apenas uma parte. O jornal “Expresso” é outra.

O director-geral é Ricardo Costa. É ele o responsável por toda a informação do Grupo Impresa. Ele próprio é jornalista, daquele género de jornalismo que não reporta factos porque os interpreta sempre ao seu jeito auto-satisfeito, de pitonisa que rejubila com a sua própria facúndia de advérbios e, sobretudo, de adjectivos. É ele o special-one. É ele que escolhe os pontas-de-lança, os médios volantes, os defesas centrais e até os apanha-bolas de uma equipa que não tem concorrência, isto é, é ele que contrata os editorialistas, os comentadores, os especialistas, os correspondentes, os enviados-especiais e até os repórteres de rua do jornalismo-de-merda. É ele que decide do critério dos destaques, da pertinência dos directos, da conveniência das entrevistas, da relevância dos convidados e até, talvez, da griffe ou da lingerie das apresentadeiras. É ele o cérebro, o mentor, da táctica e da estratégia de uma poderosa e irredutível máquina de imbecilizar.

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A propósito de classe dirigente, quando me dispus a ilustrar com outros tantos textos coloridos o meu álbum de 125 caricaturas “os rostos da classe dirigente”, tive que me pôr em campo, a investigar. E nas minhas pesquisas sobre o modo como estes sujeitos se vêem a si próprios e como se apresentam, deparei-me com o facto surpreendente de quase todos eles cultivarem uma curiosa e obsessiva fixação na genealogia e nos mistérios das linhas, por vezes cruzadas, do parentesco. Um fenómeno que, receio, seja quase tão caricato como revelador da perenidade de um certo espírito na psique das nossas elites: cem anos depois da implantação da República e cinquenta depois do 25 d’Abril, a nossa inefável classe dirigente continua impávida, a nutrir o mesmo prurido de sempre por pergaminhos de antiga fidalguia.

Para ficar apenas no universo da Impresa, o seu próprio presidente, Francisco Pinto Balsemão, por exemplo, é um orgulhoso “trineto de um filho bastardo d' el rei D. Pedro IV”; Maria João Avillez, antiga jornalista-vedeta do jornal Expresso, é a ufana filha de um senhor que “é  bisneto do 8.º Conde das Galveias e trineto do 1.º visconde do Reguengo e 1.º Conde de Avillez, e de sua mulher que é prima de Sophia de Mello Breyner. É irmã da jurista e antiga política centrista Maria José Nogueira pinto, cunhada de Jaime Nogueira Pinto e prima-irmã da mãe do jornalista Martim Avillez Figueiredo”, e José Miguel Júdice, actual comentador na SIC-notícias, é o garboso filho de um senhor “de ascendência italiana por quatro linhas, uma delas por varonia, e de ascendência holandesa por duas linhas, e de sua mulher, de ascendência espanhola, britânica e italiana, sobrinha-neta por via matrilinear do primeiro visconde de Leite-Perry.”

Este não é, no entanto, um fenómeno circunscrito à facção mais, digamos assim “à direita” da nossa classe dirigente - também afecta personagens insuspeitadas, até associadas à maçonaria e ao velho republicanismo. O poeta Manuel Alegre, por exemplo, é o satisfeito “neto paterno da primeira baronesa da Recosta, filha do primeiro barão de Cadoro e de sua primeira mulher, filha do primeiro visconde do Barreiro”.

Gostaram? Não é tão ternurento? Quase tanto como constrangedor. São coisas destas que reforçam o sentimento de que não há força que retorça os reais fundamentos de uma nação velha e relha como a nossa.

Mas ainda descobri mais. E este é um facto novo - mais um que também corrobora o poeta Camões quando ele diz (à sua maneira, claro) que ah e tal nesta choldra tudo muda a toda a hora menos as mentalidades - atenção, por tanto, sociólogos que me leis.

Em Portugal ninguém diz que é comunista. A menos que o seja, claro. Ser comunista em Portugal nunca foi um bom quesito para arranjar emprego nem, muito menos, para ter posição. A verdade, porém, é que (e este é que é o facto sociológico novo) ser filho-de-comunista é completamente diferente. Agora é pergaminho recomendável, tesourinho genealógico, eu sei lá, dá “pedigri” para as mais altas esferas ou posições (é evidente que isto não é para todos os filhos dos comunistas. Os felizes contemplados são apenas aqueles que juram a pés juntos e com as mãos postas que a OTAN é uma organização pacificódefensiva, que comprovadamente viram a luz do liberalismo e dos santos mercados e que abjuraram publicamente as convicções paternas, como é óbvio). O actual primeiro-ministro, por exemplo, é um filho-de-comunista; o actual ministro das finanças também; e o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa idem, e ainda há muitos mais, no público e no privado (não do mesmo comunista, claro, que os comunistas também não são de ferro). É também o caso de Ricardo Costa, o senhor director-geral da informação perdão, do jornalismo-de-merda do Grupo Impresa, (mas este é realmente uma excepção: o autor dos seus dias por acaso é mesmo o mesmo comunista que inventou os do actual primeiro-ministro).

Mural da História - em jeito de nota-de-roda-pé mas em francês (com perdão ao poeta Luiz Vaz e aos leitores mais sensíveis):

se há comunistas que podiam bem ter feito uma punheta, também há comunistas que bem podiam ter feito duas.

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terça-feira, 17 de maio de 2022

O ponta-de-lança Rogeiro

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Os tempos que vivemos são os do triunfo, em toda a linha, do jornalismo de merda. Todos os meios de comunicação se disputam, até à abjecção, por servir uma informação acanalhada, truncada, parcial, simplificada, peneirada, paternalista, adocicada e sentimental. Sem escrúpulos nem pudor. 

O objectivo, não confessado, mas professado, é rebaixá-la o mais possível ao nível mínimo de mediocridade que eles julgam palatável ao seu público alvo. Para tal, o complexo simplifica-se até ao esquemático; o óbvio discute-se até ao ridículo; estimula-se a irrelevância até ao absurdo e desdenha-se a notoriedade até à humilhação; o belo, avacalha-se; o decente, emporcalha-se; o digno torna-se equívoco; o justo torna-se suspeito; a ciência, descredibiliza-se; a arte, anedotiza-se; o gosto não se discute; tudo se imbeciliza integrado na mesma narrativa: a narrativa do “sempre foi assim e não pode ser de outra maneira” que, xaroposa e bafienta, apela ao tédio e ao torpor, ao velho conformismo do gado que vegeta.

Nuno Rogeiro é um dos reputados especialistas que, na SIC, mais compenetradamente se empenham nesta esmerada catequese. A SIC é, diga-se também, a estação que mais se esmera na contratação dos seus especialistas neste género jornalístico. Escolhe-os sempre plo pedigri académico, profissional e até pessoal (Rogeiro, por exemplo, para além de ter sido feito comendador da Ordem do Infante D. Henrique e de ter sido director-adjunto do semanário “O Diabo” até 1994, foi monitor de ciência política na hoje afamadíssima Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Nuno também é o filho varão de Clemente Rogeiro, que foi presidente da Emissora Nacional, Director-Geral de Informação e último ministro da Saúde do regime deposto em 1974).

Assim, Rogeiro, o Nuno, compõe com José Milhazes (sobre quem também já me debrucei aqui) um tandem, ou parelha, de verdadeiros pontas-de-lança do jornalismo-de-merda. Implacáveis e imarcescíveis (como o bode do Mário-Henrique Leiria).

Nas suas mãos, ou pelas suas palavras, a verdade, a decência, o pudor, o bom-senso, e sobretudo a inteligência do espectador, nunca ficam incólumes. Só quando o apresentador do noticiário dá por finalizado o serviço, ao cabo de intermináveis e penosos minutos repletos das mais nefandas sevícias, é que ambos largam o osso. Relutantes, mas indisfarçadamente orgulhosos.
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quinta-feira, 22 de julho de 2021

Bezos e o novo catecismo do jornalismo de merda.


 

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A riqueza supérflua só pode comprar coisas supérfluas

Henry David Thoreau

Confesso que não gosto de ricos. Nunca gostei. Até já uma vez expliquei porquê, aqui.

Jeff Bezos é o mais rico de todos. Jeff Bezos foi ao espaço e voltou. A Jeff Bezos já não lhe chega o planeta. O espaço é o próximo alvo para a sua avidez. Trata-se de um ser verdadeiramente repugnante. Quase tão repugnante como a “peça” que a SIC transmitiu uma destas noites, como se fosse um trabalho jornalístico, durante o serviço noticioso apresentado por Clara de Sousa (a quem também já me referi aqui).

Durante imensos, penosos e inacreditáveis minutos, uma propaganda descarada, eivada daquele fascínio pascácio pela extravagância dos ricos, foi instruindo as massas no catecismo da senhora Thatcher, segundo o qual “a ganância é um bem“ –  fazendo passar a ideia de que a acumulação gananciosa e obsessiva, a fraude fiscal sistemática e a exploração implacável do trabalho dos outros em condições medievais são exemplos de procedimento e de que um filho-da-puta destes é um modelo a seguir. A bancada da iniciativa liberal teve um delíquio - foi a consagração da sua moral doutrinária em hora nobre.

No fim, Clara de Sousa suspirou, deu mais uma notícia e, imperturbada, despediu-se sem perder a compostura ou, sequer, vomitar. Mais uma noite bem passada, e bem remunerada, na baiuca do jornalismo de merda.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

João Ferreira ou a sonegação de um homem público


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O Senhor Doutor João Ferreira andará escondido nalguma cave escura? É que nas televisões não se vê nem se ouve falar. Vá, confessai lá, eméritos colaboradores dessas casas: tendes instruções para omitir sempre o Doutor João Ferreira, não é? Confessai, só aqui entre nós, à puridade. Nós sabemos que não é má vontade, apenas obedeceis a ordens. Mas a sonegação desse homem público está a dar muito nas vistas, não está? E depois, vós é que pagais as favas, nanja os vossos mandantes,

Mário de Carvalho

A censura das actividades públicas de um candidato à presidência da República (a sonegação de um homem público) está a dar muito nas vistas, sim senhores - tanto que o escritor Mário de Carvalho reparou e até, no seu Facebook, se permitiu três solertes perguntas a respeito deste despropósito que também me causa alguma perplexidade.

Por isto também me permito mais uma: estes meios de comunicação obtiveram a concessão (o privilégio) de um serviço público com o “caderno de encargos” de informar o público do que acontece ou apenas do que lhes apetece?

A ERC (entidade reguladora da comunicação social) terá certamente algo a dizer sobre isto. Aguardamos, pois, os preclaros esclarecimentos desta inefável organização. Estou que nem posso.

É claro que sei que a “ERC atua sempre depois que o conteúdo é exibido num canal de TV ou ouvido numa rádio ou quando um artigo é publicado na imprensa, portanto, não é uma instância de censura” mas ainda assim, e por isso mesmo, seria útil saber o que pensa tão douta entidade quando um “conteúdo” é deliberadamente sonegado e sobretudo quando isto é feito repetidamente; ou seja, quando este procedimento se tornou um padrão.

Ficaríamos em definitivo todos esclarecidos sobre se o direito à informação é realmente efectivo, condicionado, ou se depende. E também, já agora, sobre se a liberdade de informar também depende – mas apenas da (boa) vontade (e da conveniência) dos donos dos meios de comunicação.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O esplendor do jornalismo de merda.


 

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A SIC representa hoje, sem margem para qualquer dúvida razoável, uma referência absoluta do mais genuíno jornalismo de merda em Portugal.

Este jornalismo de merda de referência utiliza alegremente, sem nenhum pudor nem especiais precauções, a céu aberto e a hora nobre, sites de extrema-direita como fontes credíveis.

Clara de Sousa é apenas um dos rostos, petulantes e copiosamente remunerados, entre muitos outros (incluindo estagiários precários) que diariamente dão a cara por este referencial repugnante.

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quarta-feira, 8 de abril de 2020

A “Felgueiras”


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Pior do que o confinamento é a prescrição informativa a que nos sujeitam sem opção.
O jornalismo de merda ocupa agora todo o espaço informativo. E, na RTP tem mesmo as suas vedetas, pagas como jogadores de bola, como José Rodrigues dos Santos e Carlos Daniel, por exemplo - e Sandra Felgueiras.
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Com uma obsessiva fixação na justiça, Sandra é (como refere o seu verbete na wikipédia in inglish) uma apresentadeira de TV que ficou conhecida por entrevistar o casal McCaan. Embora tenha pai conhecido, Sandra usa, garbosa e exclusivamente, o apelido materno - como um brasão heráldico ou, talvez, como um programa de acção. O seu jornalismo justiceiro tem, às Sextas-Feiras à noite, um palco privilegiado, um pugrama só dela, de justiça na hora onde, em plena impunidade, faz os seus julgamentos sem apelo.
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A “Felgueiras” representa, com fulgor e sangue na guelra, aquela espécie de auto-proclamado jornalismo d’investigação dirigida àquele público que nunca lê e ainda assim vive descansadamente fascinado com a sua própria ignorância; um público que confunde o “erotismo com ginástica”, o sentimentalismo com a poesia e o olho do cu com a feira de Março; também não distingue, nem suaves nuances, entre a  mais alarve facúndia e o verdadeiro conhecimento – muito menos entre a impudência, o simples descaramento, e a autêntica coragem.
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Ao contrário dos advogados, que muito judiciosamente só fazem perguntas para as quais já sabem as respostas, este jornalismo inquisitorial só faz as perguntas para as quais “acha” que sabe as respostas. Para este jornalismo de inquisição uma entrevista é sempre um interrogatório e uma notícia é sempre uma sentença agravada.
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Se isto se passasse na CMTV eu não estranhava, é o que a casa gasta. O que me parece esdrúxulo é que se passa num canal público.
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sexta-feira, 26 de julho de 2019

A Alves


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Como o prometido é de vidro, lá me debrucei sobre mais uma figura do jornalismo-de-merda, com retrato e tudo.
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Ao contrário do que se possa pensar, o jornalismo de merda, o verdadeiro jornalismo de merda, não se faz só com carregadores de pianos. Também tem os seus virtuosi; e até, naturalmente, a sua prima donna. Este é o caso de Clara Ferreira Alves, a ferreirinha Alves, que assina no Espesso, há mais de vinte anos, uma coluna de opinião com o capitoso nome de Pluma Caprichosa.
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A Alves licenciou-se em Direito por Coimbrameudeus mas nunca exerceu. Segundo a sua página da Wikipédia, “abandonou o estágio de advocacia para se tornar jornalista”. Fez o seu tirocínio com Nuno Rocha, no jornal “A Tarde”, esse farol do “centro-direita”. A seguir foi sempre a subir, por aí abaixo: o Correio da Manhã, a “experiência política no gabinete de imprensa de Mário Soares” e finalmente o Espesso, onde assinou reportagens de guerra(!), entrevistas, críticas literárias e a pluma caprichosa, lado-a-lado com outras divas e virtuosi do nosso jornalismo-de-merda como esta, e este.
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Pelo meio a Alves, que também é xcritora, foi, alternadamente, santanéte e socratista, assumidamente anglo-saxónica (só lê livros em inglês e compra-os todos na amazon) e anti-comunista praticante (até espumar), descobriu a fé católica (que também pratica até ao delíquio), recusou um convite para ser directora do “Diário de Notícias” e aceitou outro para uma reunião do clube de Bilderberg. O seu trabalho, em palavras suas, escritas pela sua própria pluma caprichosa e desassombrada, “vende opiniões sujeita ao rating das audiências e comentários online”.
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Ora se para emporcalhar reputações o jornalismo-de-merda serve-se sempre, sobretudo, de carregadores-de-pianos - para as limpar (sobretudo reputações mais sujas do que um pau de galinheiro - como a do sinistro Júdice, um velho coirão oportunista e troca-tintas a quem entretanto foi concedida uma cátedra de comentário político num canal de televisão do mesmo grupo impresarial) o Espesso recorre invariavelmente a virtuosi ou primas donnas, como a Alves.
Porque para um jornalista-de-merda qualquer sale besogne é uma oportunidade. Para a Alves é muito mais - é um desígnio, e um refrigério.
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