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quarta-feira, 15 de abril de 2026

A Exopotâmia* sur-mer - crónica de um sultanato no deserto sem notícias


Vamos todos a caminho do esquecimento, essa doce praia
Daniel Abrunheiro

Segundo o estudo “Desertos de Notícias Europa 2025”, coordenado em Portugal pelo Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI), mais de metade do território nacional não tem fontes de informação confiáveis e regulares sobre a realidade do próprio concelho. Mais de 80 municípios não têm actualmente um único jornal e 74 não têm uma única rádio. Este fenómeno tem sido acompanhado por um fortalecimento dos gabinetes de comunicação dos municípios.

“Sem jornalismo local, o escrutínio de políticos, empresários e gestores públicos é nulo. Como é que as pessoas votam se Portugal é um deserto de notícias?” Perguntava-se a jornalista Bárbara Reis, há tempos, no Público.

Existe porém algo pior do que um deserto de notícias. Na Figueira da Foz, por exemplo, há anos que não existe imprensa residente, mas pulula a correspondente. Durante a mais recente campanha eleitoral autárquica, esta comunicação social não só não foi capaz de promover um único debate público entre todos os candidatos, como também não logrou achar espaço nas suas páginas para uma única entrevista a qualquer um deles – um privilégio religiosamente consagrado apenas ao actual presidente do município, ritual repetido aliás todos os três-quinze-dias durante todos os seus anos de mandato.

O que se segue é o relato de alguns sucessos num concelho onde as únicas notícias que se publicam são as redigidas ou autorizadas pelo gabinete de comunicação do município. A sua leitura talvez sirva para elucidar almas gentis como Bárbara Reismas, como é óbvio, não dispensa a consulta dos resultados eleitorais.

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Em Junho de 2025, a junta de freguesia de Maiorca inaugurou um inacreditável monumento, que apresentou como uma “celebração da devoção religiosa dos maiorquenses”. Segundo a imprensa, que reproduziu religiosamente o mesmo texto emitido pelo gabinete de comunicação do município, a obra em causa pretendia elevar o impacto da religiosidade na comunidade local, teria sido “suportada financeiramente e executada pela Junta de Freguesia de Maiorca”, e representado um investimento de 24 mil euros com apoio municipal em cerca de 90% dos materiais e matérias-primas, na sua grande maioria reaproveitados de outras obras municipais.

A obra “CRUCIS – Homenagem ao Divino Senhor da Paciência”, localizada na Rua do Senhor da Paciência, em Cruzes (estas coisas não se inventam) no alto de uma pequena colina com vistas largas para dois palácios em ruínas, foi inaugurada numa sexta-feira à noite pelo presidente da Junta, Rui Ferreira, na presença do padre Daniel que abençoou a santa coisa e do presidente da Câmara Municipal Pedro Santana Lopes em pessoa, que descerrou a lápide sacramental. Trata-se de uma espécie de instalação delirante e surrealista, um cadáver (realmente muito) esquisito, constituída por um manipanso gesticulante e maneta, um walking dead de pau feito (autêntico eucalipto nacional) sobre um altar com três degraus na esquina de uma casa com um talude, entre um guarda-corpo em aço inox decorado de exóticos motivos vegetais e uma espécie de roda cujos raios parecem cornetas, ou canhões, em chapa recortada e pregada na empena da parede cega, como uma anti-aérea com os canos apontados para todos os azimutes. Mas a santa bricolage só atingiu os píncaros do escaganifobético mais explícito com o remate final, a sua pièce de resistance: nove marcos instalados no chão em volta que, para o presidente da junta, representam cada um dos locais de culto religioso na freguesiae para muitos paisanos apenas a cerveja no tópingue de um simplório porém flamejante e monumental atentado consumado à sua paciência, sensibilidade e inteligência. Da imprensa nem ai nem ui; nem do destrambelho estético do monumento, nem do desatinado despropósito do investimento, nada.

Sublinhe-se que este investimento público numa homenagem à devoção por uma confissão religiosa foi, cândida e orgulhosamente, perpetrado (mais de cem anos depois do decreto-lei de 1911, do senhor Afonso Costa, que instituiu a Separação do Estado das Igrejas, e cinquenta depois da Constituição de 1976, mesmo que muito timidamente, a reinstituiu) por um autarca então ainda socialista – Rui Ferreira haveria, depois de virar a casaca, de se recandidatar pela força que apoiou Santana Lopes e perder a re-eleição para o Chega, o partido fascista que agora governa Maiorca, em mui alegre geringonça com o socialista.

Esta devoção pela devoção à santa tradição religiosa não foi apenas um episódico e idiossincrático capricho de um expedito prsdnte de junta de aldeia armado aos cucos. É uma tendência, pastosa e palpável, um ar do tempo que já tomou a cidade – como a febre da raspadinha, os ratos, as lojas de penhores, os oculistas, as gaivotas, as igrejas evangélico-sionistas e os supermercados.

A mesma tendência mórbida, com a sua peculiar e sintomática sensibilidadezinha para as coisas da cultura, tornou-se evidente no decorrer da 10ª edição do ciclo de conferências “Temas de Arqueologia”, que pela primeira vez se alargou também a Temas de Arte. Promovido pelos Serviços Culturais do município, como sempre em parceria com a Universidade Sénior da Figueira da Foz, este notável ciclo de conferências decorreu de 4 de Fevereiro a 18 de Março, às quartas-feiras, no Auditório Municipal Madalena Biscaia Perdigão. Contudo – apesar de integradas nas comemorações do 132º aniversário do Museu Municipal e da indiscutível relevância da revelação de surpreendentes formas de arqueologia (o conceito de escavação do presente, explicado na magistral palestra de Tânia Casimiro) e da divulgação pública de novas descobertas no estudo do seu próprio espólio arqueológico e artístico – tornou-se iniludível um facto ostensivo: nem uma destas conferências mereceu a presença de um representante da tutela (o pelouro da Cultura) nem de qualquer chefia dos serviços culturais. A imprensa local, como de costume, também disse nada; limitou-se a divulgar religiosamente, como sempre, o anúncio do evento, aliás muito competentemente confeccionado já em forma de notícia, como habitualmente, plo gabinete de comunicação.

Logo a seguir, a Câmara Municipal da Figueira da Foz, “ciente do carácter diferenciador e características únicas das cerimónias da Semana Santa e da Páscoa em Buarcos, associou-se à Paróquia de Buarcos e à Santa Casa da Misericórdia de Buarcos na sua valorização, consequente projeção do concelho como um destino de turismo religioso de referência, neste período”. Ou seja: o município acaba de fazer das tradições pascais de uma confissão religiosa numa das suas freguesias o eixo de toda a sua programação cultural de Primavera – oferecendo celebrações profundas de 21 de março a 5 de abril de 2026. O programa inclui procissões tradicionais (Senhor dos Passos, Ecce Homo, Enterro do Senhor), concertos gratuitos na Igreja da Misericórdia e de São Pedro, e a exposição “Memórias da Paixão”, e ainda cruzes e palmas em todas as esquinas e até um mercadinho medievo no jardim público decorado com motivos pascoais.

Se o transformismo do martírio do senhor em produto turístico não choca os fiéis católicos figueirenses (nem o massacre de inocentes em curso na Palestina os impressiona por aí além), a transfiguração da fé católica em cartaz turisticócultural da cidade também parece não ter afectado demasiado os figueirenses fiéis de outras confissões, os espíritas, os cépticos impenitentes, os columbófilos, os incrédulos notórios, os agnósticos confessos, os apicultores, os ateus assumidos, os surfistas conhecidos e os alcoólicos anónimos. Da comunicação social nem falar – nem objecção, nem reticência, nem sequer perplexidade em toda a opinião publicada. Ninguém ousou discutir publicamente o discernimento e o arbítrio caprichoso e discricionário de um ungido e mui preclaro autarca de uma parvalheira de província que diz que lhe dizem que devia ter-se candidatado a presidente da república.

Miguel Torga observou uma vez no país “um fenómeno curioso: falta-lhe o romantismo cívico da agressão”, apontou ele no seu Diário. Já na Figueira existe um outro fenómeno, não menos curioso, que decerto também não teria escapado ao poeta se ele alguma vez tivesse deambulado por cá nas suas longas caminhadas reflexivas; algo que não carece mas remanesce: o pragmatismo cínico da omissão, com a sua compulsão para a conivência, o bico calado, o conformismo e a genuflexão.

Tudo indica portanto que a Figueira da Foz burguesa, laica, plural, democrática, progressiva, hedonista e cosmopolita já não existe. Desistiu do mundo porque descobriu a gândara, que é de onde lhe chega o seu turismo de proximidade. Gandarisou-se. O bafo atávico do portugal profundo, beato e reaccionário, chega-lhe do interior, das entranhas doantigamente, com o hálito azedo e ansiolítico do determinismo fanático e da superstição – como uma nortada macacómica e (ul)tramontana cruzada de patrioteirismo paroquial (aquele portuguesismo com zê, de água-benzida e mapa-cor-de-roza-colonial) com fundamentalismo de acento canarinho evangélico ou pentecostal.

Por tudo isto talvez se deva concluir que pior, muito pior, do que um deserto de notícias é uma espécie de Exopotâmia sur-mer  – governada por um sultão beato e sem dinastia, envelhecido e marreco como um outonal patriarca entediado (só está bem onde não está), intratável quando contrariado e inacessível à sua própria corte – uma choldra impávida e decadente onde triunfa o fogo de artifício e a aridez cultural e vegeta a alma réptil e venenosa de uma comunicação social rastejante e dependente, tão celerada e analfabeta como medíocre, inepta e relapsa, que não reporta e tão-pouco se importa, que não quer saber nem quer que se saiba e cuja única actividade consiste em publicar anúncios como notícias copiando, cortando, truncando e colando, mal e porcamente, com bizantinos critérios de oportunidade, narrativas pré-confeccionadas em gabinetes de comunicação

E pensar que esta já foi a cidade do livre-pensador Fernandes Tomás; do arqueólogo maçon Santos Rocha; do filósofo espinosista Joaquim de Carvalho; do pedagogo republicano João de Barros; de José Ribeiro, o encenador e valente redactor de “A Voz da Justiça”; do intrépido jornalista Albano Duque; de Cristina Torres, a corajosa activista do laicismo e da educação cívica; de José Martins, o engenhoso director do “Barca Nova”; de Cândido Costa Pinto, homem complicado e pintor inconformado; de  Joaquim Namorado, o incómodo poeta matemático e comunista; do irreverente e libertário Mário Silva; do herético cineasta João César Monteiro. Era bem outra cidade, de toda uma outra tradição.

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- *Exopotâmia foi um termo inventado por Boris Vian para designar o deserto descrito no seu romance patafísico-surrealista “O Outono em Pequim”, uma obra cujo título obviamente não tem nada que ver com a sua estória. Nem com esta.

- ao alto: “CRUCIS – Homenagem ao Divino Senhor da Paciência”, Cruzes, Maiorca (foto de Fernando Campos) 

- Este texto também foi publicado na revista on-line Passarola

 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Da figueira e seus contornos - notícia do lançamento

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Correu bem. Quero dizer, não aconteceu nada de especial; nem um apelo ao crime ou à subversão da ordem instituída, nem um viva a anarquia ou um morra o dantas pim, nem sequer qualquer espécie de tumulto ou terramoto. O evento, anunciado durante semanas para a Biblioteca Pública Municipal e transferido na véspera para o Auditório, decorreu na mais perfeita normalidade.

O Auditório Madalena Biscaia Perdigão esteve cheio como um ovo – de calor humano e da mais selecta audiência, que ouviu com elegante e circunspecta urbanidade o meu amigo Daniel Abrunheiro dizer coisas que talvez eu não mereça.

Daniel, que é o melhor escritor português do século vinte e um e arredores (ele sabe - e disse-o – que eu sou tão parco em elogios como inflexível com a verdade) desvaneceu-me ao aceitar apresentar o meu pobre feixe de rabiscos e tentar disfarçar a minha irracional incapacidade para falar em público. “Fazemos assim” - disse-me ele: “tu grunhes como o de Niro e eu faço como o Billy Crystal”. Assim foi. E não podia correr mal. Não houve croquetes mas figos pingo-de-mel. No fim até assinei autógrafos. Os livros que sobraram estarão disponíveis à entrada dos espectáculos do EnCantar pela Paz, que acontecerão até ao fim do mês no Auditório Madalena Biscaia Perdigão.

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Daniel Abrunheiro, de cuja generosidade incompreensivelmente sou alvo desde os tempos em que ele foi cronista do jornal A Linha do Oeste, foi também o “padrinho” deste blogue (a posta inaugural, em 2007, foi um soneto que ele escreveu para ilustrar um desenho meu). O texto que escolhi para epígrafe do livro que lançámos também é de sua autoria e foi escrito para o folheto da minha primeira exposição de caricaturas em 2012 no tubo d'Ensaio d'Artes. Quanto aos seus livros, podeis encontrá-los nos sites das melhores livrarias ou em qualquer biblioteca pública que se preze.

quarta-feira, 8 de março de 2023

O sexo dos anjinhos com elefante na sala


 

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O problema não é um Deus que não existe, mas a religião que O proclama

José Saramago

Parece que cresce entre os portugueses, mesmo entre os católicos, uma grave e indignada perplexidade com o cinismo alarve e a hipocrisia atrevida dos mais altos “dignitários”(!) da santa madre igreja em relação às consequências do relatório devastador de uma comissão independente sobre os abusos sexuais no seu santo seio. Há mesmo quem se espante por não haver grandes e ruidosas manifestações cívicas de protesto e de repulsa, mas também com a despropositada reverência respeitosa com que ainda são tratados estes velhos pulhas viciosos nos meios de comunicação social e até por responsáveis políticos eleitos (alguns destes chegam mesmo a babar-lhes as manápulas para lhes lambuzar os anéis): entre salamaleques e genuflexões, por “Reverendíssimo”, “Dom não-sei-quê”, “Eminência”, “Excelentíssimo” ou quejandos, e não simplesmente por “bandalho” ou “filhodaputa” e à chapada e a pontapé-no-cu ou na cabeça que é como são tratados, nas esquadras de polícia portuguesas, todos os suspeitos de crimes repugnantes e hediondos.

Os portugueses chegaram ao ponto de terem de esperar sentados que um grupo impávido de velhos lúbricos, babados e de olhos vermelhos, discuta cinicamente entre si o sexo dos anjos (se a pedofilia é realmente crime sórdido e horrendo ou apenas uma simples contra-ordenação, um pecadilho que se resolve com três painossos e duas avémarias).

Tudo leva a crer que a sociedade civil portuguesa não sabe como lidar com uma organização pederástica e mafiosa, sustentada numa hierarquia rígida, num código de silêncio e de obediência cega e inflexível e liderada por uma gerontocracia cínica, cheia de manhas e de vícios e ungida de inexplicados privilégios.

A sociedade civil portuguesa tem, obviamente, um elefante na sala.

Pode continuar a fingir que ele não está lá, como sempre fez, até agora - mas não é por isso que ele não deixa de lá estar, paquidérmico, sempiterno, ignóbil, masturbador, nauseabundo, venéreo, pederástico e insinuante, como nunca. Ou então, pode fazer algo por si própria, por uma vez. E livrar-se do elefante para sempre.

Há duas maneiras de conseguir o desiderato. A “bíblica” e a “democrática”.

A “bíblica” ou “pombalina” (também chamada “à antiga portuguesa”) consiste basicamente em tomar-lhes os colégios, as residências, os seminários e as igrejas onde foram consumados os crimes e chegar-lhes fogo. Depois arrasá-los. Por fim, salgar a terra. Esta é a opção mais cara e complexa (exige uma pesada logística), invasiva (talvez um tanto brutal) demodée e, em simultâneo, menos eficaz e definitiva - porque não assegura que a actividade criminosa não possa prosseguir noutros locais.

A melhor opção é, pois, a “democrática”. Desta maneira, mais limpa, a sociedade civil portuguesa pode facilmente livrar-se do paquiderme no meio da sala sem sequer questionar minimamente a santa integridade da propriedade privada - respondendo, em referendo, a duas perguntas singelas:

1 - Concorda com a Concordata?

2 - Concorda com a isenção de impostos da Igreja Católica?

- Se a maioria dos portugueses concordar com a Concordata (um tratado infame assinado, pela parte de Portugal, por um estafermo nefando que já retratei aqui e que, inexplicadamente, ainda circula em liberdade) sociedade civil continua a impedir qualquer tribunal português de interrogar padrecas, bispos e até cardeais (sempre que julgar pertinente), de os levar a julgamento (se julgar necessário) e de os condenar (se julgar justo).

- Se a maioria dos portugueses concordar com a (também incompreensível) isenção de impostos da citada organização criminal, sociedade civil continua a permitir o seu financiamento e, com isso, a perpetuar o crime.

- Se a maioria dos portugueses discordar de ambas, sociedade civil livra-se finalmente do elefante. Simples assim.

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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

O belo Ximénes, o nobél enrabador


 

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Plos vistos toda a gente em Timor sabia - o povo, a “resistência”, as elites. É lícito supor que Sampaio e Guterres, o Gama, o nosso ministro dos estrangeiros, Ana Gomes, a nossa inefável embaixatriz em Jacarta e até o paladino de Timor na nossa comunicação social também não o ignorassem; para não falar no inenarrável cardeal Policarpo. Toda a gente sabia, menos a opinião pública, portuguesa e internacional. Valeu tudo para acrescentar mais um país católico ao catálogo das nações - e nas barbas do islão. Um feito de padrecas e de xananas, uma nota gloriosa, só comparável, nas biografias de toda esta gente impante e triunfante, à Batalha de Diu.

Mas perante tão generalizada e cúmplice complacência com a indignidade e perante o logro ignóbil e corrupto do bunga-bunga ininterrupto que tem sido a “independência” de Timor, presumo que também seja lícito perguntar: qual era mesmo o problema com Suharto? Sim, o que era mesmo que os timorenses (e os portugueses) reprovavam tanto à Indonésia?

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terça-feira, 29 de março de 2022

O senhor Putin, o vilão do nosso tempo



É realmente notável o efeito da propaganda. Mesmo espíritos aparentemente sofisticados e exigentes, que eu julgava dotados de algum cepticismo, premissa de todo o distanciamento, depois de uma mais ou menos larga exposição aos efeitos de noticiário superiormente dirigido, depressa revelam os mais baixos instintos e logo adoptam os atavismos, e os costumes maria-vai-com-as-outras, da turba: o fanatismo normalizado, o pensamento único, a visão a preto-e-branco e a intolerância implacável e inflexível com todos os matizes de quem pensa e se exprime de forma distinta.

Eu permiti-me um post no qual acentuava o non-sense e o despropósito da guerra e a belicosidade ridícula do nacionalismo amussolinizado do Tarass Bulba de opereta que é a nova unanimidade ocidental, um chuchuzinho cossaco para todos os que, entre nós, comem gelados com a testa.

O que fui fazer. A minha caixa de comentários (sobretudo no face book) encheu-se de despropósitos insultuosos e de delírios acusatórios mais ou menos imbecilizados pelo fanatismo. O que prova quão sensíveis e melindráveis são afinal as almas viris mais entusiastas da guerra. Eu podia tentar explicar-lhes que o post em causa era sobre o pulha do senhor Zé Lensqui e não sobre o desgraçado povo ucraniano, e muito menos uma apologia do estafermo do senhor Putin. Mas reconheço que isso seria exigir-lhes um esforço intelectual visivelmente acima das suas possibilidades (para os prosélitos da santa-guerra quem-não-é-por-nós-é-contra-nós e mainada porque tudo na vida deles se resume a Benficas e Sportingues, Fonsecas e Madureiras, alecrins e manjeronas, mas sobretudo a nós e eles). Tive até o caso de um reconhecido escritor que há tempos fez o argumento de uma grande produção cinematográfica sobre as agruras épicas de uma família latifundiária alentejana durante o verão quente de 1975, uma espécie de Dr. Jivago da Amareleja, que me disse que eu devia ter vergonha. E tenho, caro senhor. Creia que tenho imensa vergonha – de que gente que aparentemente sabe escrever (até o faz no meu mural) afinal não sabe ler.

Mas deixemo-nos de coisas tristes e passemos a coisas sérias que este post é sobre Vlad, o arrombador, ou o esbardalhador. O senhor Putin.

O senhor Putin, tal como o senhor Zé Lensqui, é um tiranete impregnado de autoritarismo e de nacionalismo tóxico. Tudo o que o senhor Zé Lensqui está a tentar fazer na Ucrânia (instalar o mais amplo liberalismo económico, privatizando tudo o que ainda é público no país e oferecendo-o de bandeja à sua clique de sponsors e empreendedores) o senhor Putin já fez na sua mãe-Rússia - só que, não sei porquê, só aos sponsors do senhor Putin se chamam oligarcas. Sendo ambos amantes das mais amplas liberdades económicas, e igualmente adversários dos mínimos direitos cívicos e laborais, é natural que toda a gente se pergunte por que raio é que eles se não entendem. Pois não sei. Não sou especialista em geoplítica. Mas sei alguma coisa de história das nações. E leio romances. Agora ando a ler Ivan, o terrível. Tolstoi. Não é para beibes.

Ao contrário da Ucrânia, que é uma nação sem história e um estado sem passado nem instituições, a Rússia é uma nação muito antiga e tem uma longa e cabeluda história de grande estado de muitas nações (entre as quais a Ucrânia) guardada numa arca.

Quando a União Soviética se desmoronou e, durante o desvario alcoólico-capitalista do senhor Yeltsin, se dividiu em não sei quantos novos estados independentes (entre os quais a Ucrânia) no meio de uma enorme crise social e económica, a novel e depauperada Federação Russa e os seus milhões de russos humilhados e ofendidos precisavam urgentemente de um novo cimento ideológico para segurar as nações que lhe restaram e assim substituir a ideologia do país dos sovietes, que tinha sido o cimento de uma super-potência.

Foi aí que Vlad Putin, que, entretanto, tinha sucedido a Yeltsin, mandou buscar a arca. A arca russa. E Vlad que, ao contrário de Yeltsin, nunca bebe nem fuma, quando abriu a Arca, inalou.

- O ar de séculos, fétido de miasmas de almas mortas e de espíritos; - o suflo ácido da idolatria, da superstição e da santíssima religião, mui ortodoxa e medieval, e dos seus popes borrachos, lúbricos e fanáticos; - a exalação viral da violência instituída e da obediência hereditária; - o bafo quente e gelado das entranhas da Santa Mãe-Rússia; - o hálito azedo do poder absoluto e brutal, o mesmo hálito dos csares Ivan, o Terrível, Boris Godunov e Pedro, o Grande; da Grandessíssima Catarina, a segunda e do não menos terrível Zé´staline, primeiro e único; - o alento severo do homem-forte e do pai-protector.

Quando Vlad fechou a arca, tossicou intoxicado, teve uma trip e logo a seguir uma epifania.

Vlad, o senhor Putin, não era ainda, nesta época, o vilão malvado e retorcido que o ocidente iria passar a gostar de odiar. Ele vai começar por consolidar o seu poder. Primeiro vai neutralizar o poder e influência de alguns oligarcas demasiado enriquecidos pelos favores corruptos do seu antecessor e mentor, Yeltsin. E fá-lo como manda a tradição na mãe-Rússia. À bruta. Confisca-lhes as fortunas, um ou outro aparece misteriosamente falecido e os outros na prisão por muitos anos. Assim re-nacionaliza várias empresas de petróleo e gás, o que lhe permite ir saldando a dívida externa e fazer crescer o rendimento médio. Ainda assim, mais de oitenta por cento das empresas privadas do país estão hoje nas mãos dos seus oligarcas. E estes, nas suas. Vlad só poupa os que se lhe submetem. Persiste na liberalização da economia e, mesmo que as desigualdades aumentem ao ponto de quase igualar as do Brasil, o campeão mundial absoluto deste triste campeonato, elas continuam a crescer alegremente ao mesmo ritmo a que a Rússia vai conquistando a confiança dos mercados, o prestígio internacional e até o seu status tradicional de potência mundial, abandonado nas últimas décadas. Putin torna-se cada vez mais o homem-forte, o pai-protector da grande mãe-Rússia. E torna-se também um exemplo e uma inspiração, em todo o mundo, para toda aquelas sensibilidadezinhas frígidas que só se excitam verdadeiramente com lideranças musculadas.

Vlad Putin não é um homem grande e até tem um andar engraçado. Mas não é bailarino. É velhaco. E obstinado. Já bateu Zé´staline em anos de permanência no Kremlin. Sempre a assar frangos. À bruta. Contudo, ao contrário de Yeltsin, o gigantone que só queria enriquecer e emborrachar-se, Putin é um homem pequeno com uma grande ideia de si próprio. Uma grande, enviesada e retorcida ideia de si próprio. Mas também do seu país. E sobretudo do seu papel na história do seu país. Uma coisa vai com a outra. Como Napoleão, ou o Csar.

À mínima renitência ou objecção, lança sobre os seus detractores o bafo gelado e colérico da grande Mãe Rússia, na forma da mão pesada e implacável do seu aparelho judiciário. Clama que a pátria está em perigo. Que cercam a Rússia. Mostra os mapas. E está. Está mesmo. A Mãe-Rússia está mesmo cercada de bases da OTAN por todos os lados. Sente-se humilhado e ofendido. Sente-se traído.

Enquanto, sempre aconselhado pelo FMI e plo departamento do tesouro dos Estados Unidos, liberalizava a economia e cultivava o seu viveiro de corruptos predilectos que seriam os parceiros de negócios do ocidente, este cercara-o de bases militares por todos os lados. Está furioso. Sente-se encurralado. Mas ainda havia pior.

A Ucrânia, a sua amada Ucrânia, a outra Rússia, que se tinha tornado independente com a garantia de neutralidade e de desarmamento nuclear, tinha afinal passado os últimos anos, fornecida pelos países da OTAN, a armar-se até aos dentes; e o seu presidente, o actor Zé Lensqui, ufano de estupidez natural e com as costas quentes - talvez esquecido, ou ignorante, de que nunca se deve cutucar um urso furioso com uma vara demasiado curta - tinha mesmo reiterado a vontade explícita do seu país se tornar também uma potência nuclear. Irra. Foi a mosca na sopa de Vlad, o senhor Putin.

Foi então que Vlad se lembrou que a Santa Rússia também era uma super-potência. Era altura de passar a comportar-se como tal. E resolveu explicar ao mundo como aprendeu a parar de se preocupar e a amar a Bomba - fazendo exactamente (by the book) como os Estados Unidos da América já fizeram uma porção de vezes e nunca lhes correu mal: invadir um país independente, violando a carta das Nações Unidas e todas as leis internacionais conhecidas.

E foi assim que Vlad, o senhor Putin, se tornou o vilão do nosso tempo. Invadiu a Ucrânia.. E vai esbardalhar aquilo tudo até se lambuzar. E ninguém mete a colher. É o metes. Porque Vlad tem a Bomba. E não se importa de a usar.

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Em 2008 fiz este desenho de Putin.

Agora fiz o que está reproduzido acima. Suspeito que seja isto um retrato acabado.
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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

O calvário de Julian Assange.

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O país que se recusou a extraditar um estafermo como Pinochet prepara-se para o fazer com Julian Assange. 

Sem Assange nunca saberíamos, por exemplo, que em Portugal, o presidente Cavaco deu aval à sórdida trasfega de carne humana para Guantánamo congratulando-se, na sua cândida imbecilidade, porque o país “tem uma imprensa muito suave”.

Eis uma coisa que nunca saberíamos pelos jornais.

Receio que correrá muita água debaixo das pontes até que um jornal de “referência” português defenda (e pratique) uma verdadeira liberdade de informação - sem critériosinhos de oportunidade.

Mas Assange deu-nos a saber muito mais coisas que nunca saberíamos só pelos jornais. E até coisas que os jornais, com os seus critériosinhos d’oportunidade, nunca divulgaram. Eu, por exemplo, ainda estou à espera da lista dos “jornalistas” avençados do senhor Salgado.

Suponho que também é isso que não lhe perdoam.

 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

para compreender melhor o “santanismo”

"Entretanto ululam outra vez, na Figueira, ventos messiânicos. A História da Figueira é a história do sebastianismo-de-praia, em círculo vicioso e viciado, repetitivo e redundante. A atracção colectiva pelo abismo é uma dança macabra e celebra-se alegremente, cantando e rindo. O que foi comédia triste promete repetir-se em farsa patética. A Figueira, que já é uma anedota pronta, prepara-se de novo para ser a risota do país,” vaticinava eu, a 19 de Julho. 

Dito e feito (eu só não acerto no euromilhões). Hoje, o triunfo do sebastianismo de praia é uma realidade consumada na Figueira e, com o regresso em ombros do desejado, o santo nome da Figueira está de novo onde os figueirinhas tanto gostam que esteja: na imprensa cor-de-rosa, na marron, na rubrica de faits-divers dos telejornais e nas expressões dos humoristas.

Na Figueira ninguém se questiona sobre o estranho fenómeno que leva gente aparentemente sensata e habitualmente circunspecta a uma euforia ensandecida pela idolatria (presumo que para os groupies figueirinhas se trate de uma simples questão de fé, ou seja, de algo que dispensa por completo o entendimento). Não obstante, esta espécie de messianismo patusco, o santanismo, é um fenómeno tipicamente figueirense - ou seja, algo circunscrito ao seu território; uma especificidade regional. Na verdade, trata-se de um estado-de-espírito latente na cultura popular local e agora a reviver mais uma das suas múltiplas reencarnações.

Para compreender o santanismo é necessário conhecer as razões profundas de uma fé cega num caudilho com dois olhos, meia-idade e uma grande cabeça sem programa nem ideias que se vejam. Mas também é preciso conhecer o meio, a gente, o contexto, a história, a circunstância e a bizarria do único lugar de Portugal e talvez do mundo, onde é possível que, num espaço de vinte anos, caia duas vezes o mesmo raio. É indispensável conhecer a Figueira.

O “Discurso sobre a Figueira”, que compus durante o confinamento, é, penso, obra para satisfazer essa curiosidade. A primeira edição esgotou-se logo em Fevereiro entre os leitores deste humilde blogue. Permiti-me, em Julho, pagar a impressão de uma segunda, destinada à venda em banca na Figueira da Foz, que se revelou, como certamente logo calcularam (eu também) o mais pré-anunciado fiasco da história da auto-edição. De maneiras que tenho em armazém quase cinquenta exemplares de uma obra única, essencial, para quem quer saber mais, saber tudo sobre a Figueira e sobre todos os seus fenómenos e epifenómenos, e assim.

Trata-se de um

Divertimento em forma de panfleto sarcástico

composto em prosa jocosa e escarninha

alguns apartes entre parênteses

e vários movimentos

sumptuosamente ilustrados

com preciosas metáforas

e impresso em resma de eucalipto

sem notas de rodapé

por um tal Fernando Campos de Maiorca

nesta cidade

No ano desgraçado de MMXX

Figueira da Foz

e é afinal de uma obra rara, única no seu género; um estudo exaustivo do meio, do ambiente e do factor humano figueirenses. Tem tudo para se tornar um Clássico (como aliás explico no preâmbulo), com perspectiva histórica, análise microscópica de contexto, visão distanciada e tal. Uma verdadeira monografia, pouco académica é certo, mas muito séria (no sentido da honestidade) e nada complacente.

Assim, quem quiser adquirir esta obra, basta contactar-me para fernaocampos1@gmail.com manifestando-me esse desejo. 
De seguida, contactá-lo-ei facultando-lhe as coordenadas do meu IBAN. 
Assim que depositar 12.06€ (10€+2.06€ de custos de correio) na minha conta, logo cuidarei de lhe enviar o exemplar para o endereço desejado, onde chegará certamente com a celeridade que permite a eficiência dos nossos CTT.
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segunda-feira, 19 de julho de 2021

Discurso sobre a Figueira - segunda edição.

Figueirenses e Figueirensas!,

a edição deste discurso, em Janeiro durante o confinamento, esgotou-se logo no mês seguinte, para minha grande surpresa e satisfação. No entanto os pedidos que me chegaram vieram, na sua maior parte, de fora do concelho e para lá foram sendo expedidos, deixando-vos lamentavelmente à mingua de conhecimento de uma obra que vos concerne e que, em primeira mão, vos era destinada. 

Entretanto ululam outra vez, na Figueira, ventos messiânicos. A História da Figueira é a história do sebastianismo-de-praia, em círculo vicioso e viciado, repetitivo e redundante. A atracção colectiva pelo abismo é uma dança macabra e celebra-se alegremente, cantando e rindo. O que foi comédia triste promete repetir-se em farsa patética. A Figueira, que já é uma anedota pronta, prepara-se de novo para ser a risota do país. 

Ocorreu-me, por isto, pagar a impressão de uma segunda edição, igualmente restrita a cinquenta exemplares, mas desta vez destinada exclusivamente ao, digamos assim, mercado bibliófilo figueirense. Bem sei que este é um investimento de alto risco, num universo de apenas setenta mil almas alfabetizadas, mas que quereis, eu gosto de viver perigosamente.

Está disponível, a partir de hoje, na Papelaria Luzitana. 

Portanto, Figueirenses e Figueirensas, surpreendam-me. E surpreendam-se, antes que esgote.

Trata-se afinal de uma obra rara, única no seu género; um estudo exaustivo do meio, do ambiente e do factor humano figueirenses. Tem tudo para se tornar um Clássico (como aliás explico no preâmbulo), com perspectiva histórica, análise microscópica de contexto, visão distanciada e tal. Uma verdadeira monografia, pouco académica é certo, mas muito séria (no sentido da honestidade) e nada complacente - características pouco habituais em discursos a vós dirigidos, sobre vós e sobre o vosso quinhão de território. Se houvesse um plano municipal de leitura esta obra seria obrigatória: se não para instruir novas e futuras gerações, pelo menos para as desenganar. 

Não obstante, se por acaso achardes a sua leitura de difícil digestão, dolorosa ou até penalizante - habituados que estais a discursos melados de vistas parciais favorecidas (com palas) e perlados de pílulas douradas e lugares-comuns cúmplices e contentinhos - lembrai-vos da estoica sapiência dos antigos: o que dói faz bem. Se doer muito, fará melhor ainda.

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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Pablo Hásel



Em Portugal, Manuel Morais, um sindicalista da Polícia, foi suspenso de todo o serviço porque, entre outras coisas do âmbito da sua actividade sindical, disse que “André Ventura é uma aberração”.

Em Espanha, Pablo Hásel, um cantor rap, foi condenado a prisão efectiva por cantar (ou lá o que eles fazem no rap) que a monarquia é corrupta (algo assim como “los borbónes son ladrónes, ónes, ónes”).

Bem vistas, quero dizer, vistas de perto, estas situações parecem-me ambas casos óbvios de duas pessoas duramente castigadas por dizerem em alta voz e em público o que toda a gente já sabe, isto é, algo que nem sequer é segredo de estado.

Perguntem-se porquê.

Se fosse na Rússia ou na China ou, sei lá, na Venezuela, a nossa imprensa liberal já tinha armado um verdadeiro circo (com palhaços transformistas e trapezistas) a favor de todas as santas liberdades e da de expressão. Mas não, é o silêncio dos cemitérios na união ibérica democrática.

Perguntem-se porquê.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Discurso sobre a Figueira


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Todos os homens discorrem sobre o que sabem, ou o que presumem. Giovanni Pico della Mirandola, por exemplo, discorreu sobre a Dignidade do Homem. Descartes sobre o Método. Étienne de la Boétie sobre a Servidão Voluntária. Jean-Jacques Rousseau, que presumia sobre uma data de assuntos, discorreu sobre A origem e Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, mas também sobre As Ciências e as Artes.

Eu próprio, não desfazendo, também presumo a respeito das mais diversas matérias. Tenho, contudo, vindo a debruçar-me especificamente sobre apenas uma, que tão logo se transformou no meu objecto preferencial de observação, curiosidade e contemplação. De maneiras que depois de mui atento estudo e concomitante conhecimento acumulado, também me permiti discorrer longamente a propósito, em obra escrita. Ou seja, como uma ostra no fim do seu confinamento, também acabei por soltar a pérola que hoje, finalmente, no último dia deste ano miserável, tenho a honra de vos apresentar, em forma de Discurso público.

Este Discurso sobre a Figueira e por extenso Execração dos Figueirinhas foi pacientemente composto nos últimos trinta dias, ainda que sustentado em inúmeros apontamentos, reflexões e considerações editadas neste mesmo blogue ao longo de vários anos. O confinamento a que a pandemia a todos tem obrigado proporcionou-me o tempo de os reunir, escolher, corrigir, acrescentar, burilar, ilustrar e colorir; mas também me permitiu a reflexão e o distanciamento necessários para escolher a forma e o tom que julguei apropriados para compor e dar um sentido mais do que vagamente estruturado à sumula de tudo o que reuni sobre assunto tão espinhoso, ainda que suculento.

Assim, este Discurso tomou a forma de um panfleto sarcástico e o tom despretensioso de um Divertimento, essa composição musical (para um número reduzido de instrumentos, de caráter ligeiro e tom casual e alegre, que possui uma quantidade livre de movimentos, semelhante às suítes sem, porém, seguir um padrão pré-determinado), tão em voga no século XVIII. 

Como tal, e como não morigera nem desmoraliza, todo o texto deste panfleto, os seus vários àpartes e os diversos movimentos, incluídas as suas sumptuosas ilustrações metafóricas, foram compostos e editados por mim no espírito libertino e licencioso desse magnífico século iluminado pela fantasia e pelo livre-pensamento. O texto, da primeira (que reproduzo acima) à última das suas trinta páginas, foi composto e paginado com caracteres da família Trajanus Roman, redesenhados em 1993 por Roger White.

Muito mais do que uma simples edição de autor, trata-se de um verdadeiro livro d’artista com a edição limitad(íssima) de apenas 25 múltiplos, exemplares únicos e irrepetíveis (não será feita outra edição) que serão todos numerados e autenticados pela minha assinatura manuscrita.

Cada um destes múltiplos será um raro objecto de desejo, de puro deleite, de selecta colecção, que sei eu, uma verdadeira música de câmara, acessível apenas a espíritos sofisticados e exigentes como os privilegiados happy few que visitam este blogue e que o desejem encomendar, pelo módico preço que eu vier a fixar, mais custos de envio, através do endereço de e-mail que está aqui na barra lateral.

Aqui chegados, os meus leitores mais dedicados já se devem ter apercebido que estou metido num lindo molho de brócolos: acabei de escrever um livro sobre uma terra que não interessa a ninguém, nem mesmo a si própria, posto que não lê.

Vendo-me por isto mesmo contrito a recorrer à generosidade, ou à curiosidade, dos meus leitores de todo o mundo (apesar do seu alcance residual, também tenho plena consciência de que este blogue é acedido desde os lugares mais remotos e difíceis de pronunciar) posso desde já afiançar-lhes, sob palavra de honra e para mal dos meus pecados, que este pequeno panfleto insignificante tem tudo o que basta para se tornar um Clássico. Isto, claro, se ser um Clássico for a capacidade de alcançar o Universal partindo do muito particular, ou mesmo do insignificante. Foi o que fez Euclides da Cunha com um arraial remoto nos sertões da Bahia, e Garcia Marquez com um lugar recôndito da sua imaginação. Gogol fez isso com um simples nariz. E eu, deus me perdoe, acabo de o fazer com a Figueira da Foz.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

João Ferreira ou a sonegação de um homem público


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O Senhor Doutor João Ferreira andará escondido nalguma cave escura? É que nas televisões não se vê nem se ouve falar. Vá, confessai lá, eméritos colaboradores dessas casas: tendes instruções para omitir sempre o Doutor João Ferreira, não é? Confessai, só aqui entre nós, à puridade. Nós sabemos que não é má vontade, apenas obedeceis a ordens. Mas a sonegação desse homem público está a dar muito nas vistas, não está? E depois, vós é que pagais as favas, nanja os vossos mandantes,

Mário de Carvalho

A censura das actividades públicas de um candidato à presidência da República (a sonegação de um homem público) está a dar muito nas vistas, sim senhores - tanto que o escritor Mário de Carvalho reparou e até, no seu Facebook, se permitiu três solertes perguntas a respeito deste despropósito que também me causa alguma perplexidade.

Por isto também me permito mais uma: estes meios de comunicação obtiveram a concessão (o privilégio) de um serviço público com o “caderno de encargos” de informar o público do que acontece ou apenas do que lhes apetece?

A ERC (entidade reguladora da comunicação social) terá certamente algo a dizer sobre isto. Aguardamos, pois, os preclaros esclarecimentos desta inefável organização. Estou que nem posso.

É claro que sei que a “ERC atua sempre depois que o conteúdo é exibido num canal de TV ou ouvido numa rádio ou quando um artigo é publicado na imprensa, portanto, não é uma instância de censura” mas ainda assim, e por isso mesmo, seria útil saber o que pensa tão douta entidade quando um “conteúdo” é deliberadamente sonegado e sobretudo quando isto é feito repetidamente; ou seja, quando este procedimento se tornou um padrão.

Ficaríamos em definitivo todos esclarecidos sobre se o direito à informação é realmente efectivo, condicionado, ou se depende. E também, já agora, sobre se a liberdade de informar também depende – mas apenas da (boa) vontade (e da conveniência) dos donos dos meios de comunicação.
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quarta-feira, 4 de março de 2020

então é assim:


Pla primeira vez desde que sou usuário, o inefável feissebuque impediu-me a divulgação de um post deste blogue. Trata-se do “boneco” de Ernesto Cardenal e de um pequeno poema por, supostamente, ter “conteúdo que outras pessoas no Face Book denunciaram como abusivo”.
E esta, hem? A verdade é que não sei que pense das maravilhas do logaritmo.
A propósito, o Face-Book acaba agorinha-mesmo de me impedir também a expressão desta minha perplexidade.
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Apeller un chat un chat

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Vasco Gargalo está a ser, ao que sei, ameaçado de morte. 
E quem é Vasco Gargalo’, perguntais vós. 
-Vasco Gargalo é um cartoonista. Alguém que faz desenhos.
E que desenhos faz Vasco?, perguntais vós. 
-Pois faz desenhos satíricos. Vasco faz caricatura, crítica social, sátira política, uma coisa que ele pensava (e tiens, eu também) que era razoavelmente tolerada e até legal neste país. 
E que é uma caricatura?, perguntais vós também. 
-Pois uma caricatura é um desenho exagerado. Funciona assim (enfim, maisoumenos): quando um artista quer realçar, ou tornar mais evidente, um facto, uma situação ou um pormenor, exagera-o quanto quiser, por vezes até ao limite do credível ou mesmo do absurdo. A quantidade de exagero permitida nesta arte é completamente livre, o que faz dela uma arte particularmente divertida (para quem faz e para quem aprecia) e por isso mesmo é habitualmente associada à categoria de humor – o humor gráfico. 
O humor, para quem não saiba, é um artifício da inteligência que permite a um espírito sensível identificar o mal – apontá-lo, (diz-se apeller un chat un chat) e assim lidar com o medo sem pânico, enfim, com alguma dignidade. Faz pensar. Por isso se diz habitualmente que o humor relativiza ou que rir é o melhor remédio. É evidente que para isto é necessário um certo desprendimento e um distanciamento de si próprio inacessíveis aos imbecis, aos muito crentes e aos prosélitos.
Em geral, no caso do humor gráfico, quanto mais exagerado for o desenho mais certeiro (melhor identifica o mal) e mais divertido se torna.
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Mas então que raio de desenho desmesuradamente exagerado fez o Gargalo que desencadeou tanto ódio? 
-Pois bem fez este que, quanto a mim, é um desenho que nem sequer é uma caricatura. Trata-se de uma simples ilustração. Mas uma ilustração talvez tão literal que não faz rir ninguém - nem os palestinianos, porque é trágico; nem os israelitas, porque é verdade; nem mais ninguém porque é trágico e é verdade - mas faz pensar. E é isso que desperta o ódio e a intransigência do senhor embaixador de Israel e da “comunidade judaica”, que pregam o anátema, o isolamento, o despedimento e até a morte do valente Gargalo que, como o menino do conto de Andersen, se limitou a dizer o que está à vista de todos mas ninguém quer encarar.
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Aqui há poucas semanas um clube de futebol espanhol, o Rayo Vallecano, também foi severamente punido pelas instituições que gerem esse desporto por alegada “intolerância” da sua massa associativa.
E que fez a massa associativa do popular clube de Vallecas?, perguntais vós.  
-Pois bem, chamou gato a um gato ou os bois pelos nomes - limitou-se a, em uníssono e alta-voz, chamar fascista a um fascista - a um fascista não presumido mas publicamente assumido.
Vivemos tempos terríveis. Os fascistas não gostam que lhes chamemos fascistas. O que faz pensar e não deixa de ser cómico. 
Por isso deixo aqui a minha solidariedade ao Vasco Gargalo e dedico este desenho, talvez também muito mais literal do que caricatural (que já tinha editado aqui), ao senhor embaixador do estado de Israel e à melindrosa “comunidade judaica”.
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E não, eu também não sou anti-semita. Anti-semita é o estado de Israel que - todos os dias e à vista de todos - tenta aniquilar fisicamente, até à extinção, um povo semita, o da Palestina.
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sábado, 30 de setembro de 2017

Liberdade para Ramón Esono

(Esono na sua prancheta, em Julho deste ano)
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O pintor e desenhador de humor gráfico Ramón Esono Ebale foi detido na capital do seu país, a Guiné Equatorial, e levado para uma prisão conhecida popularmente pelo sugestivo nome de Guantánamo, onde está incomunicável desde então. 
Sem acusação, sabe-se que foi abundantemente interrogado a propósito de uns quantos desenhos onde retrata o seu inefável presidente (que eu próprio já retratei aqui) nas mais variadas posições


parece que as autoridades de Malabo são particularmente sensíveis à difusão destes bonecos pla internet - e em estórias ilustradas igualmente eloquentes, como esta, por exemplo:



Como se trata de um país irmão, membro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e tudo, espero que a todo o momento, o nosso presidente da República se manifeste a propósito e o nosso ministro dos estrangeiros também tenha algo enfim a dzer, em português já agora, ao embaixador do país do senhor Obiang. Enfim sobre liberdade de expressão e essas merdas.
Cá por mim, como não gosto que alguém seja incomodado por dizer e escrever e desenhar o que pensa, estou solidário com o bravo Ramón Esono.
E vós que me visitais, se por acaso também estais, fazei como eu, o que o senhor Obiang não gosta: repliquem os desenhos de Esono na internet.
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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Breve declaração política

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Embora há anos tenha participação política activa emprestando o meu nome a uma candidatura (sempre a mesma, a CDU, Coligação Democrática Unitária), esta é contudo a primeira vez que, levado pelas circunstâncias, me vejo (e ao meu nome) numa posição ou lugar elegível. Este dado, assim adquirido, também me dá mais responsabilidades. É neste contexto que, agora que se inicia a campanha eleitoral, encaro como útil a publicação de uma declaração de princípios. Que é também a primeira promessa eleitoral que faço na minha vida. Faço-o no meu blog e na minha página do Facebook, que são os meios que tenho, confiando na viralidade das redes sociais para a sua justificada repercussão.

Declaro que não sei quem fez isto (o que a foto documenta). Nem quero saber. Considero no entanto que, ao contrário do que por vezes se diz e alardeia,
 a sociedade civil existe mesmo. Mesmo em Maiorca existe alguém que se importa. 
E importa-se ao ponto de se tirar dos seus cuidados e fazer este notável manifesto gráfico de uma evidência que nos envergonha a todos.

Declaro mais, solenemente, que, se eu for eleito e a lista que represento vencer as eleições, esta placa tão veementemente pichada ficará em exposição permanente, para opróbrio dos responsáveis, o tempo que for necessário - até à conclusão definitiva das obras de recuperação do Paço de Maiorca.

Declaro ainda que só então, recuperada a dignidade de um património único no concelho, a placa será retirada (e para um museu, de memória histórica).

Vale,
Fernando Campos

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terça-feira, 20 de outubro de 2015

a Luaty Beirão

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Há quem ache estranho o silêncio dos “intelectuais”, sobretudo dos artistas angolanos, a propósito do suplício “voluntário” de Luaty Beirão - o activista angolano em greve de fome numa prisão de Luanda há 30 dias. Está detido preventivamente desde Junho com outras quatorze pessoas acusadas de ”actos preparatórios de rebelião e atentado contra o Presidente.
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Eu, como tenho opinião e não me importo de a usar, também acho. 
O silêncio das elites intelectuais é, de facto, estranho. Não apenas sobre o causo específico de Luaty, e de cada um dos seus quatorze companheiros, mas sobre a sua causa: a de um estado cujo regime político que, suportado por uma elite inepta e venal, em quarenta anos de independência já possui o exército e a polícia mais bem equipados de toda a África mas não foi sequer capaz de tentar implantar o mais tímido esboço de um sistema de saúde ou de ensino universais, ou uma simples estratégia de distribuição de correio em todo o seu território. Um estado de um país estupidamente rico de recursos tornado refém de uma elite cujo transformismo cínico passou, em poucos anos e sem pruridos nem sobressaltos de alma, de um marxismo esquemático à mais pertinaz e sôfrega apropriação primitiva de riqueza - sonegando-a a todo um povo que definha inerme na mais infame miséria e degradação.
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Claro que nada disto seria possível sem a caução internacional dos santos mercados e sobretudo sem a colaboração interessada da elite portuguesa dos negócios, cuja corrupção moral e cupidez sem escrúpulos a leva, aceitando proveitosos dividendos e comissões, a acolher no seu seio os investimentos de figurinhas mais ou menos obscenas ou sinistras como Isabel dos Santos, Álvaro Sobrinho, seus consortes e generais.

Neste contexto, o silêncio de certos artistas não é tão estranho como isso. Colaboracionista ou apenas pusilânime, trata-se afinal da posição natural dos que também prosperam - como jacarés na água turva deste rio podre de escravatura. 

É contra o sórdido festim de fusões, aquisições, kuduro, fadinho e concursos de misses e contra o glamour de celofane desta nova high-society luso-tropical que se insurge a gesta patética e desesperada de Luaty e dos seus companheiros. E esta pequena obra, improvisada, que lhes dedico. 
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