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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Tempos tenebrosos.

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A Bienal Internacional de humor gráfico Luiz d'Oliveira Guimarães, organizada há 18 anos pela humorgrafe, de Osvaldo Macedo de Sousa, em Espinhal - Penela, acabou. Já não terá a sua décima edição. Não por falta de compromisso da organização na sua continuidade, nem por razões económicas, nem por falta de adesão de artistas de todo o mundo ou de cumplicidade e simpatia do público local. Forças estranhas, incompreensíveis, resolveram destruir este projecto que era não só um balão de oxigénio local como internacional” - referiu Osvaldo, em comunicado publicado no blogue humorgrafe.

Sediada no Espinhal, terra natal do escritor e humorista Luiz d'Oliveira Guimarães, a Bienal de humor era - em palavras de António Antunes Alves, então presidente da Câmara Municipal de Penela no prefácio do catálogo da sua terceira edição em 2012 - “a demonstração de que também é possível realizar acções culturais de elevada qualidade e de âmbito mundial em territórios de baixa densidade como é o concelho de Penela”.

Assim, aquela que era uma referência luminosa na paisagem cultural da região e uma das mais relevantes iniciativas do seu género no nosso país foi “descontinuada”, de forma categórica e inflexível, por forças estranhas, incompreensíveis, que agora gerem as instituições que a tornaram possível durante nove edições. Contra isso e apesar de todas as minhas tentativas, nada posso fazer”, escreve ainda Osvaldo que conclui o seu comunicado com um desabafo lúcido e que espero não desalentado: “Vivemos tempos tenebrosos e o humor é cada vez mais perseguido e calado”.

Eu tive o privilégio e a honra de ter colaborado com Osvaldo e com a sua Bienal – em 2012 integrei, como caricaturista convidado, o juri de selecção da sua terceira edição participando (extraconcurso) com uma pequena exposição dos meus desenhos. Mais recentemente, em 2024, integrei, também a convite de Osvaldo, a exposição “50 ícones da resistência e resiliência humana”, com outros 17 artistas gráficos, todos portugueses - uma grande mostra que ele quis integrada no âmbito da comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e foi mais uma das imensas iniciativas paralelas que o Osvaldo tinha por hábito organizar à margem da Bienal. No início de 2025 pedi-lhe um texto para o catálogo de uma grande exposição de 170 dos meus desenhos que tinha programada para Setembro desse ano e, na volta do correio (electrónico) recebi, graciosa e generosamente, um copioso, exaustivo e luminoso estudo sobre o humor na história da arte a propósito da minha “obra”, que infelizmente ainda está inédito - o projecto, à míngua de espaços expositivos disponíveis, não se concretizou - porque também na Figueira se vivem tempos tenebrosos.

Historiador por formação, Osvaldo dedicou quarenta e cinco anos da sua vida à investigação, divulgação e dignificação da arte da caricatura e - nas palavras do caricaturista José Oliveira - “da sociabilidade dos cultores desta arte”. Ainda segundo José Oliveira, “o seu trabalho tem dimensão gigantesca, sem a mínima correspondência em proveitos materiais. O documento mais visível do seu trabalho de investigação é a obra monumental (mais de duas mil e cem páginas, em cinco volumes) intitulada História da Arte da Caricatura de imprensa em Portugal, publicada entre 1998 e 2002, com edição partilhada pela Secretaria de Estado da Comunicação Social”. Uma obra que ele generosamente me ofereceu - talvez para me compensar por me ter sujeitado ao muito honroso mas algo desconfortável privilégio de avaliar os meus pares - proporcionando-me assim o ensejo de avaliar a dimensão de uma obra que nem sequer era a sua actividade principal. Osvaldo era cantor lírico; integrava o coro do Teatro S. Carlos; o humor gráfico e a arte da caricatura são apenas o seu “violon d’Ingres”- um violino que ele “toca” como um virtuoso, promovendo o riso e a reflexão pelo bom humor, a sociabilidade entre os autores e os apreciadores do desenho atrevido, a edição de valiosos catálogos e preciosas monografias e ainda concursos, exposições, encontros e colóquios por todo o país e até no estrangeiro.

Por tudo isto não posso deixar de lhe estar profundamente grato. E é precisamente por a Bienal de humor Luiz d'Oliveira Guimarães ter sido, das suas iniciativas, a que obteve “mais êxito geral, a que alcançou o maior índice de participantes, nacionais e internacionais e a que atingiu o mais alto nível estético e filosófico” que também estou ansioso pelo seu próximo projecto. Precisamos de mais luz nestes tempos tenebrosos.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

A Exopotâmia* sur-mer - crónica de um sultanato no deserto sem notícias


Vamos todos a caminho do esquecimento, essa doce praia
Daniel Abrunheiro

Segundo o estudo “Desertos de Notícias Europa 2025”, coordenado em Portugal pelo Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior (UBI), mais de metade do território nacional não tem fontes de informação confiáveis e regulares sobre a realidade do próprio concelho. Mais de 80 municípios não têm actualmente um único jornal e 74 não têm uma única rádio. Este fenómeno tem sido acompanhado por um fortalecimento dos gabinetes de comunicação dos municípios.

“Sem jornalismo local, o escrutínio de políticos, empresários e gestores públicos é nulo. Como é que as pessoas votam se Portugal é um deserto de notícias?” Perguntava-se a jornalista Bárbara Reis, há tempos, no Público.

Existe porém algo pior do que um deserto de notícias. Na Figueira da Foz, por exemplo, há anos que não existe imprensa residente, mas pulula a correspondente. Durante a mais recente campanha eleitoral autárquica, esta comunicação social não só não foi capaz de promover um único debate público entre todos os candidatos, como também não logrou achar espaço nas suas páginas para uma única entrevista a qualquer um deles – um privilégio religiosamente consagrado apenas ao actual presidente do município, ritual repetido aliás todos os três-quinze-dias durante todos os seus anos de mandato.

O que se segue é o relato de alguns sucessos num concelho onde as únicas notícias que se publicam são as redigidas ou autorizadas pelo gabinete de comunicação do município. A sua leitura talvez sirva para elucidar almas gentis como Bárbara Reismas, como é óbvio, não dispensa a consulta dos resultados eleitorais.

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Em Junho de 2025, a junta de freguesia de Maiorca inaugurou um inacreditável monumento, que apresentou como uma “celebração da devoção religiosa dos maiorquenses”. Segundo a imprensa, que reproduziu religiosamente o mesmo texto emitido pelo gabinete de comunicação do município, a obra em causa pretendia elevar o impacto da religiosidade na comunidade local, teria sido “suportada financeiramente e executada pela Junta de Freguesia de Maiorca”, e representado um investimento de 24 mil euros com apoio municipal em cerca de 90% dos materiais e matérias-primas, na sua grande maioria reaproveitados de outras obras municipais.

A obra “CRUCIS – Homenagem ao Divino Senhor da Paciência”, localizada na Rua do Senhor da Paciência, em Cruzes (estas coisas não se inventam) no alto de uma pequena colina com vistas largas para dois palácios em ruínas, foi inaugurada numa sexta-feira à noite pelo presidente da Junta, Rui Ferreira, na presença do padre Daniel que abençoou a santa coisa e do presidente da Câmara Municipal Pedro Santana Lopes em pessoa, que descerrou a lápide sacramental. Trata-se de uma espécie de instalação delirante e surrealista, um cadáver (realmente muito) esquisito, constituída por um manipanso gesticulante e maneta, um walking dead de pau feito (autêntico eucalipto nacional) sobre um altar com três degraus na esquina de uma casa com um talude, entre um guarda-corpo em aço inox decorado de exóticos motivos vegetais e uma espécie de roda cujos raios parecem cornetas, ou canhões, em chapa recortada e pregada na empena da parede cega, como uma anti-aérea com os canos apontados para todos os azimutes. Mas a santa bricolage só atingiu os píncaros do escaganifobético mais explícito com o remate final, a sua pièce de resistance: nove marcos instalados no chão em volta que, para o presidente da junta, representam cada um dos locais de culto religioso na freguesiae para muitos paisanos apenas a cerveja no tópingue de um simplório porém flamejante e monumental atentado consumado à sua paciência, sensibilidade e inteligência. Da imprensa nem ai nem ui; nem do destrambelho estético do monumento, nem do desatinado despropósito do investimento, nada.

Sublinhe-se que este investimento público numa homenagem à devoção por uma confissão religiosa foi, cândida e orgulhosamente, perpetrado (mais de cem anos depois do decreto-lei de 1911, do senhor Afonso Costa, que instituiu a Separação do Estado das Igrejas, e cinquenta depois da Constituição de 1976, mesmo que muito timidamente, a reinstituiu) por um autarca então ainda socialista – Rui Ferreira haveria, depois de virar a casaca, de se recandidatar pela força que apoiou Santana Lopes e perder a re-eleição para o Chega, o partido fascista que agora governa Maiorca, em mui alegre geringonça com o socialista.

Esta devoção pela devoção à santa tradição religiosa não foi apenas um episódico e idiossincrático capricho de um expedito prsdnte de junta de aldeia armado aos cucos. É uma tendência, pastosa e palpável, um ar do tempo que já tomou a cidade – como a febre da raspadinha, os ratos, as lojas de penhores, os oculistas, as gaivotas, as igrejas evangélico-sionistas e os supermercados.

A mesma tendência mórbida, com a sua peculiar e sintomática sensibilidadezinha para as coisas da cultura, tornou-se evidente no decorrer da 10ª edição do ciclo de conferências “Temas de Arqueologia”, que pela primeira vez se alargou também a Temas de Arte. Promovido pelos Serviços Culturais do município, como sempre em parceria com a Universidade Sénior da Figueira da Foz, este notável ciclo de conferências decorreu de 4 de Fevereiro a 18 de Março, às quartas-feiras, no Auditório Municipal Madalena Biscaia Perdigão. Contudo – apesar de integradas nas comemorações do 132º aniversário do Museu Municipal e da indiscutível relevância da revelação de surpreendentes formas de arqueologia (o conceito de escavação do presente, explicado na magistral palestra de Tânia Casimiro) e da divulgação pública de novas descobertas no estudo do seu próprio espólio arqueológico e artístico – tornou-se iniludível um facto ostensivo: nem uma destas conferências mereceu a presença de um representante da tutela (o pelouro da Cultura) nem de qualquer chefia dos serviços culturais. A imprensa local, como de costume, também disse nada; limitou-se a divulgar religiosamente, como sempre, o anúncio do evento, aliás muito competentemente confeccionado já em forma de notícia, como habitualmente, plo gabinete de comunicação.

Logo a seguir, a Câmara Municipal da Figueira da Foz, “ciente do carácter diferenciador e características únicas das cerimónias da Semana Santa e da Páscoa em Buarcos, associou-se à Paróquia de Buarcos e à Santa Casa da Misericórdia de Buarcos na sua valorização, consequente projeção do concelho como um destino de turismo religioso de referência, neste período”. Ou seja: o município acaba de fazer das tradições pascais de uma confissão religiosa numa das suas freguesias o eixo de toda a sua programação cultural de Primavera – oferecendo celebrações profundas de 21 de março a 5 de abril de 2026. O programa inclui procissões tradicionais (Senhor dos Passos, Ecce Homo, Enterro do Senhor), concertos gratuitos na Igreja da Misericórdia e de São Pedro, e a exposição “Memórias da Paixão”, e ainda cruzes e palmas em todas as esquinas e até um mercadinho medievo no jardim público decorado com motivos pascoais.

Se o transformismo do martírio do senhor em produto turístico não choca os fiéis católicos figueirenses (nem o massacre de inocentes em curso na Palestina os impressiona por aí além), a transfiguração da fé católica em cartaz turisticócultural da cidade também parece não ter afectado demasiado os figueirenses fiéis de outras confissões, os espíritas, os cépticos impenitentes, os columbófilos, os incrédulos notórios, os agnósticos confessos, os apicultores, os ateus assumidos, os surfistas conhecidos e os alcoólicos anónimos. Da comunicação social nem falar – nem objecção, nem reticência, nem sequer perplexidade em toda a opinião publicada. Ninguém ousou discutir publicamente o discernimento e o arbítrio caprichoso e discricionário de um ungido e mui preclaro autarca de uma parvalheira de província que diz que lhe dizem que devia ter-se candidatado a presidente da república.

Miguel Torga observou uma vez no país “um fenómeno curioso: falta-lhe o romantismo cívico da agressão”, apontou ele no seu Diário. Já na Figueira existe um outro fenómeno, não menos curioso, que decerto também não teria escapado ao poeta se ele alguma vez tivesse deambulado por cá nas suas longas caminhadas reflexivas; algo que não carece mas remanesce: o pragmatismo cínico da omissão, com a sua compulsão para a conivência, o bico calado, o conformismo e a genuflexão.

Tudo indica portanto que a Figueira da Foz burguesa, laica, plural, democrática, progressiva, hedonista e cosmopolita já não existe. Desistiu do mundo porque descobriu a gândara, que é de onde lhe chega o seu turismo de proximidade. Gandarisou-se. O bafo atávico do portugal profundo, beato e reaccionário, chega-lhe do interior, das entranhas doantigamente, com o hálito azedo e ansiolítico do determinismo fanático e da superstição – como uma nortada macacómica e (ul)tramontana cruzada de patrioteirismo paroquial (aquele portuguesismo com zê, de água-benzida e mapa-cor-de-roza-colonial) com fundamentalismo de acento canarinho evangélico ou pentecostal.

Por tudo isto talvez se deva concluir que pior, muito pior, do que um deserto de notícias é uma espécie de Exopotâmia sur-mer  – governada por um sultão beato e sem dinastia, envelhecido e marreco como um outonal patriarca entediado (só está bem onde não está), intratável quando contrariado e inacessível à sua própria corte – uma choldra impávida e decadente onde triunfa o fogo de artifício e a aridez cultural e vegeta a alma réptil e venenosa de uma comunicação social rastejante e dependente, tão celerada e analfabeta como medíocre, inepta e relapsa, que não reporta e tão-pouco se importa, que não quer saber nem quer que se saiba e cuja única actividade consiste em publicar anúncios como notícias copiando, cortando, truncando e colando, mal e porcamente, com bizantinos critérios de oportunidade, narrativas pré-confeccionadas em gabinetes de comunicação

E pensar que esta já foi a cidade do livre-pensador Fernandes Tomás; do arqueólogo maçon Santos Rocha; do filósofo espinosista Joaquim de Carvalho; do pedagogo republicano João de Barros; de José Ribeiro, o encenador e valente redactor de “A Voz da Justiça”; do intrépido jornalista Albano Duque; de Cristina Torres, a corajosa activista do laicismo e da educação cívica; de José Martins, o engenhoso director do “Barca Nova”; de Cândido Costa Pinto, homem complicado e pintor inconformado; de  Joaquim Namorado, o incómodo poeta matemático e comunista; do irreverente e libertário Mário Silva; do herético cineasta João César Monteiro. Era bem outra cidade, de toda uma outra tradição.

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- *Exopotâmia foi um termo inventado por Boris Vian para designar o deserto descrito no seu romance patafísico-surrealista “O Outono em Pequim”, uma obra cujo título obviamente não tem nada que ver com a sua estória. Nem com esta.

- ao alto: “CRUCIS – Homenagem ao Divino Senhor da Paciência”, Cruzes, Maiorca (foto de Fernando Campos) 

- Este texto também foi publicado na revista on-line Passarola

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Uma coisa assim.



Um cargo qualquer é sempre o que o homem que o exerce quer que seja

Stefan Zweig


A 9 de Junho de 2017, o jornal Expresso anunciava, numa peça assinada pelos jornalistas Valdemar Cruz e Isabel Paulo, que o presidente Marcelo já tinha escolhido o seu retrato oficial, de autoria de um desconhecido artista com atelier na rua do Almada, no Porto”. Segundo o substancioso relato (não há nada nele que se deite fora) o retrato escolhido pelo presidente numa visita ao Porto teria sido elaborado ao longo de dois meses a partir de duas fotografias e seguiria para Belém onde, no final do mandato, seria oferecido à Galeria dos Presidentes.

- O feliz contemplado pela escolha arrebatada do presidente foi António Bessa, um mestre desconhecido que se tornou conhecido por pintar retratos de pessoas conhecidas a partir de fotografias num atelier com montra muito fotografado pelos turistas. Já havia pintado retratos de Pinto da Costa e de Rui Moreira, e haveria de pintar um do Zélensequi e até do Papa, e está representado no museu do Futebol Clube do Porto.

A 12 de Fevereiro de 2026, com meio país já com água pela barba e o outro meio ainda acabrunhado sob os efeitos da depressão Kristin, Marcelo decidiu anunciar algo realmente importante: o jornal Expresso, desta vez pela mão de Christiana Martins, noticiou que “o Presidente da República escolheu Alexandre Farto, aka Vhils, para produzir o retrato que vai figurar no Museu da Presidência”. A 13 de Fevereiro, Marcelo disse à Agência Lusa, que “a razão principal” para esta opção foi, além de gostar das obras de Vhils, “o considerar um expoente, um símbolo de uma época, como o foram outros retratistas de outros presidentes noutras épocas”. Marcelo também confirmou, desta vez ao Observador, que o seu retrato oficial será apresentado em Março, na última semana do seu mandato, e quenão é um retrato - é uma coisa assim“.

- Alexandre Farto aka Vhils é um artista que também se tornou conhecido, e igualmente muito fotografado pelos turistas, por reproduzir fotografias de pessoas anónimas ou conhecidas em escala monumental com a sua “técnica única de escultura destrutiva”. Está representado em todas as grandes cidades do universo e até, dizem, no espaço.

Uma vez neste blogue permiti-me sugerir o nome de Noronha da Costa como o artista português mais capaz de “de captar convincentemente a intensidade atmosférica da fátua densidade psicológica da figura de Cavaco Silva”. Pensava eu quea técnica do sfumatto "à pistola" seria amais adequada à fixação precisa das impressões mais fugidias”. A verdade é que, como era fácil de prever, Cavaco optou pela técnica do lambidinho de Carlos Barahona Possollo e acabou por ter o retrato que merece e sobre o qual já me pronunciei aqui..

Assim, embora também aprecie o lambidinho, como se viu aliás pela sua primeira escolha, Marcelo acabou finalmente por escolher a técnica do martelo pneumático, aka motopico. É natural que o seu retrato definitivo não seja bem um retrato mas uma coisa assim, isto é, algo intrinsecamente parecido com a forma como ele quis exercer o cargo, tão do agrado popular e dos turistasÉ de esperar por isso que, já a partir de Março, o Museu da Presidência tenha capacidade instalada para atrair mais basbaques do que o Museu dos Coches.

Entretanto, por estes mesmos dias cabisbaixos, Manuel Nina, presidente da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis (EMER) 2030 resolveu juntar-se ao stand up marcelino e, numa performance de não menos desopilante timing cómico, nomeou um enfermeiro para coordenar o licenciamento de projetos de energias renováveis. A ministreza do Ambiente, que tutela a estrutura, fez saber que só tinha tomado conhecimento desta estruturante nomeação pela comunicação social e, em lugar de exigir a demissão imediata do senhor Nina de presidente da referida estrutura, consta que o terá pressionado a pressionar o enfermeiro a demitir-se, o que aconteceu uma semana depois.

O primeiro-ministro, muito ocupado a mostrar-se muito ocupado em visita a Coimbra ameaçada pela cheia, meteu água e logo a seguir a pata na poça debitando, entre outras não menos alagadoras necedades, que tinha estado a monitorizar o Mondego com a Espanha. Mas não demitiu a ministra do Ambiente. O presidente da república, muito entretido a amenizar a parlapatetice alarve e atrevida de um primeiro-ministro sem instrução primária, também não o demitiu.

Manifestamente estes sujeitos querem que os cargos que exercem sejam uma coisa assim.

Todavia, os sujeitos que assim exercem estes cargos são eleitos democraticamente, re-eleitos uma e outra vez e assim sucessivamente. Isto quer dizer, receio, que a base se revê no topo – que a nata é apenas a parte da substância que assoma, ressuda e cristaliza. Os montes (negros) e as suas cordilheiras não passam afinal de erupções do magma.

As coisas são o que são. E são assim por uma espécie de determinismo vulcânico, uma força da natureza que infunde o triunfo inflexível e inexorável de uma vontadinha que vem do fundo, porque sim. 


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Nós os ricos, táver...


 

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"Vamos ter residências todas renovadas que, daqui a cinco anos, vão estar todas degradadas. Quando metemos pessoas de rendimentos mais baixos a beneficiar do serviço público, sabemos que se deteriora. É assim nos hospitais e nas escolas públicas". Fernando Alexandre, ministro da educação e do ensino superior.

Este discurso, de um classismo sofismático armado aos cágados, é um atavismo reaccionário profundamente português. Nem sequer é um pensamento político - apenas o reflexo de um sentimento generalizado; uma falta de consciência política que culpabiliza os pobres pela pobreza e interioriza que “ter rendimentos mais baixos” é um anátema insuportável.

O que o torna patético é ter sido proferido em público pela cândida imbecilidade de um gandarês que nasceu na Gafanha da Nazaré, já aviou copos numa discoteca em Quiaios, tem responsabilidades políticas e fala com a presunção suficiente e petulante de nós os ricos, táver...

É mais um cromo para o rosto hediondo da javardice.

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A luta contra a corrupção está ao rubro


 

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Depois de uma longa e apurada averiguação preventiva à empresa da família do senhor Montenegro, a arquivadoria-geral da republica deliberou que afinal está tudo nos trinques: o senhor Montenegro pode continuar a perpetrar seja lá o que for que está a tentar.

Esta tudo bem assim e nem podia ser de outra maneira, terá suspirado o procurador Amadeu Guerra depois de muito procurar e não achar e antes de dizer - arquive-se.

A luta contra a corrupção continua. É uma guerra. Não é para meninos, amadeu.