sexta-feira, 3 de julho de 2026
terça-feira, 30 de junho de 2026
domingo, 28 de junho de 2026
quarta-feira, 24 de junho de 2026
terça-feira, 23 de junho de 2026
domingo, 21 de junho de 2026
sexta-feira, 12 de junho de 2026
David Hockney (1937-2026)
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Como já referi aqui, penso que o deleite estético como experiência sensorial proporcionada pela arte contemporânea é como o orgasmo da frigidez: fingido, snob e por sugestão auto-induzida; só se "chega lá" através de vasta literatura anexa.
Mas David Hockney não pertence a esta tradição.
Ao contrário de Marcel Duchamp, David Hockney não é um filósofo que questiona a arte, é um artista que questiona a vida.
Ao contrário de Duchamp (e dos seus herdeiros), Hockney não tem pruridos com o prazer retiniano nem com o labor oficinal.
Ele é um dos últimos de uma longa linhagem de artistas para quem o acto de ver é tão fundamental como o de fazer; e é isso que ele faz: observa e faz, dá a ver. Para isso serve-se, com as mãos ambas, de todas as técnicas tradicionais conhecidas e até de tecnologia de ponta.
A sua obra é um imenso prazer para a vista; um espectáculo de petites sensations fundamentais, como sentir e raciocinar. Ou seja, é um privilégio para a inteligência.*
David Hockney morreu ontem, “pacificamente, em casa, a 11 de Junho, um mês antes do seu 89º aniversário".
*Este texto é de 2012, tal como o desenho.
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terça-feira, 2 de junho de 2026
sexta-feira, 29 de maio de 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
domingo, 17 de maio de 2026
João Abel Manta (1928-2026)
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João Abel Manta morreu; aos 98 anos. Trata-se de um artista visual cuja obra monumental e multifacetada tem uma dimensão que não cabe num obituário. Era filho único do pintor Abel Manta e da pintora Maria Clementina Carneiro de Moura. Em 1971 auto-retratou-se, como sempre “com traço limpo e maneirinho”, com o seu amigo José Cardoso Pires em demanda do burro-em-pé. A verdade porém é que João Abel andou toda a vida nessa peregrinação; quase sempre sozinho - “circulando entre os dedos espetados, alçapões e sinais de alto lá que povoam a comarca e suas regedorias”. Toda a sua vasta e diversificada obra é uma crónica, “em papel público”, disso mesmo. Desenhou selos e cartazes, cenários e tapeçarias, painéis de azulejos e padrões de calçada portuguesa, edifícios e caricaturas.
E fez-se cartunista - primeiro contra a ditadura e depois pela revolução. Após a morte desta, e de seu pai, dedicou-se finalmente à pintura. "Nestas obras pratico uma inocente pintura a óleo sobre tela, […] para explicar a quem interesse o que penso do mundo e das coisas do passado e do presente", diz que disse.
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quarta-feira, 13 de maio de 2026
domingo, 10 de maio de 2026
quarta-feira, 29 de abril de 2026
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Tempos tenebrosos.

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A Bienal Internacional de humor gráfico Luiz d'Oliveira Guimarães, organizada há 18 anos pela humorgrafe, de Osvaldo Macedo de Sousa, em Espinhal - Penela, acabou. Já não terá a sua décima edição. Não por falta de compromisso da organização na sua continuidade, nem por razões económicas, nem por falta de adesão de artistas de todo o mundo ou de cumplicidade e simpatia do público local. “Forças estranhas, incompreensíveis, resolveram destruir este projecto que era não só um balão de oxigénio local como internacional” - referiu Osvaldo, em comunicado publicado no blogue humorgrafe.
Sediada no Espinhal, terra natal do escritor e humorista Luiz d'Oliveira Guimarães, a Bienal de humor era - em palavras de António Antunes Alves, então presidente da Câmara Municipal de Penela no prefácio do catálogo da sua terceira edição em 2012 - “a demonstração de que também é possível realizar acções culturais de elevada qualidade e de âmbito mundial em territórios de baixa densidade como é o concelho de Penela”.
Assim,
aquela que era uma referência luminosa na paisagem cultural da
região e uma das mais relevantes iniciativas do seu género no nosso
país foi “descontinuada”, de forma categórica e inflexível,
por forças
estranhas, incompreensíveis, que
agora gerem as instituições que a tornaram possível durante nove
edições. “Contra
isso e apesar de todas as minhas tentativas, nada posso fazer”,
escreve ainda Osvaldo que conclui o seu comunicado com um desabafo
lúcido e que espero não desalentado: “Vivemos
tempos tenebrosos e o humor é cada vez mais perseguido e calado”.
Eu
tive o privilégio e a honra de ter colaborado com Osvaldo e com a
sua Bienal – em 2012 integrei, como caricaturista convidado, o juri
de selecção da sua terceira edição participando (extraconcurso)
com uma pequena exposição dos meus desenhos. Mais recentemente, em
2024, integrei, também a convite de Osvaldo, a exposição “50
ícones da resistência e resiliência humana”, com
outros 17 artistas gráficos, todos portugueses
- uma
grande mostra que ele
quis
integrada
no
âmbito da comemorações dos 50 anos do 25 de Abril
e
foi mais uma das imensas iniciativas paralelas que o Osvaldo tinha
por hábito organizar à margem da Bienal. No
início de 2025 pedi-lhe um texto para o catálogo de uma grande
exposição de 170 dos meus desenhos que tinha programada para
Setembro desse ano e, na volta do correio (electrónico) recebi,
graciosa e generosamente, um copioso, exaustivo e luminoso estudo
sobre o humor na história da arte a propósito da minha “obra”,
que infelizmente ainda está inédito - o projecto, à míngua de
espaços expositivos disponíveis,
não se concretizou - porque também na Figueira se vivem tempos
tenebrosos.
Historiador
por formação, Osvaldo dedicou quarenta e cinco anos da sua vida à
investigação, divulgação e dignificação da arte da caricatura e
- nas palavras do caricaturista José Oliveira - “da
sociabilidade dos cultores desta arte”.
Ainda segundo José Oliveira, “o
seu trabalho tem dimensão gigantesca, sem a mínima correspondência
em proveitos materiais.
O
documento mais visível do seu trabalho de investigação é a obra
monumental (mais de duas mil e cem páginas, em cinco volumes)
intitulada
História
da Arte da Caricatura de imprensa em Portugal,
publicada entre 1998 e 2002, com edição partilhada pela Secretaria
de Estado da Comunicação Social”. Uma
obra
que ele generosamente me ofereceu - talvez para me compensar por me
ter sujeitado ao muito honroso mas algo desconfortável privilégio
de avaliar os meus pares - proporcionando-me assim o ensejo de
avaliar a dimensão de uma obra que nem sequer era a sua actividade
principal. Osvaldo era cantor lírico; integrava o coro do Teatro S.
Carlos; o humor gráfico e a arte da caricatura são apenas o seu
“violon
d’Ingres”-
um
violino que ele “toca” como um virtuoso,
promovendo o riso e a reflexão pelo bom humor, a sociabilidade entre
os autores e os apreciadores do desenho
atrevido,
a edição de valiosos catálogos e preciosas monografias e ainda
concursos, exposições, encontros e colóquios por todo o país e
até no estrangeiro.
Por tudo isto não posso deixar de lhe estar profundamente grato. E é precisamente por a Bienal de humor Luiz d'Oliveira Guimarães ter sido, das suas iniciativas, a que obteve “mais êxito geral, a que alcançou o maior índice de participantes, nacionais e internacionais e a que atingiu o mais alto nível estético e filosófico” que também estou ansioso pelo seu próximo projecto. Precisamos de mais luz nestes tempos tenebrosos.
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