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domingo, 2 de janeiro de 2022

o discurso do salazarinho armado aos cágados

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Santana Lopes, o represidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, deu uma entrevista ao “jornal” As Beiras. O homem que veio para virar tudo do avesso e “pôr ordem nesta merda,” reconhece afinal que tem dúvidas “se deve dar continuidade à requalificação da frente marítima de Buarcos e da Baixa figueirense”, essa coisa muito esperta.

O represidente, que deu continuidade à plítica do anterior executivo no alto-patrocínio a eventos idiotas ou despropositados (o carnaval, a náutica motorizada, a música apimbalhada e o foguetório) cujo único propósito inconfessado é atrair o número suficiente de pacóvios que garanta uma massa clientelar contínua para a restauração local, acrescentou que o próximo ano deverá ser de “clarificação” para diversos dossiês que herdou do anterior executivo, apontando, por exemplo, a expansão da Zona Industrial e o areal urbano.

O represidente tem trabalhado imenso Há uma série de assuntos…“ e não gosta de perder tempo, porque “os mandatos passam muito depressa. Portanto, em 2022, se Deus quiser, os figueirenses já verão vários resultados do trabalho que estamos a fazer”. Mas também destacou um assunto que deverá marcar a sua gestão autárquica em 2022. “[É um desiderato] termos uma polo universitário a funcionar aqui como deve ser. É difícil, mas vou fazer tudo para ser possível começar já no próximo ano letivo”, afiançou. Entretanto, o próprio “jornal” As Beiras confirmou que decorrem conversações entre o presidente da câmara e a reitoria da Universidade de Coimbra. 

Uff. Que alívio. A restauração pode dormir descansada porque, se deus quiser, a continuidade da venda da bjeca-a-copo para além da época-alta está garantida. A começar já na próxima época-baixa, iupi.

Mas o que me surpreendeu na entrevista do represidente foi a sua atitude de verdadeiro estadista de marca branca ou candidato a miss. Assim, Santana espera “que a Figueira, Portugal e o mundo vivam mais tranquilos e sem tanta ansiedade e angústia, como tanta gente sente”. E “que o país tenha estabilidade e que se trate a sério de assuntos sérios. Acho que precisamos de tino institucional e respeito; respeitar quem pensa diferente de nós e os que estiveram antes de nós; e que haja mais decência”Gostaram? Ainda há mais.

O represidente também se permitiu umas reflexões filosóficas sobre o exercício do poder (ainda que do local). À pergunta sobre o que é que os figueirenses podem esperar dele e da vereação que lidera - Serviço. E servir, servir e servir. Isto [a atividade autárquica] é uma missão. É quase como ir para um convento, garantiu Pedro Santana Lopes. 

Ou seja, se bem entendo, mandar é, para o represidente da Câmara Municipal de Figueira da Foz, uma espécie de servidão voluntária, em missão monástica, abnegada, toda feita de muita renúncia, muito silício, mão no peito, ora pro nobis e imenso se deus quiser.

Eis um discurso algo anacrónico (fora do tempo) e um tanto farsola que - se faz dele um Etienne de la Boétie invertido, às avessas ou talvez com os copos - também tem um óbvio público-alvo cativo, pois o odor a bafio que exala está muito próximo do acanalhado e bolorento cinismo de sacristia do spleen do perfeito salazarinho de opereta; enfim, de um salazarinho armado aos cágados.

 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

O calvário de Julian Assange.

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O país que se recusou a extraditar um estafermo como Pinochet prepara-se para o fazer com Julian Assange. 

Sem Assange nunca saberíamos, por exemplo, que em Portugal, o presidente Cavaco deu aval à sórdida trasfega de carne humana para Guantánamo congratulando-se, na sua cândida imbecilidade, porque o país “tem uma imprensa muito suave”.

Eis uma coisa que nunca saberíamos pelos jornais.

Receio que correrá muita água debaixo das pontes até que um jornal de “referência” português defenda (e pratique) uma verdadeira liberdade de informação - sem critériosinhos de oportunidade.

Mas Assange deu-nos a saber muito mais coisas que nunca saberíamos só pelos jornais. E até coisas que os jornais, com os seus critériosinhos d’oportunidade, nunca divulgaram. Eu, por exemplo, ainda estou à espera da lista dos “jornalistas” avençados do senhor Salgado.

Suponho que também é isso que não lhe perdoam.

 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

a 25 de Novembro

Estava para nem o referir (este não é um blogue de efemérides) mas dado o relevo que lhe tem sido dado pelas redes sociais, decidi, também eu, comemorar o 25 de Novembro. Decidi fazê-lo com um retrato de Jaime Neves (quem mais?) o ídolo da juventude liberal, hoje tão festejado.

O retrato vai ilustrado com um texto colorido e é um entre outros 124 que compõem um álbum de caricaturas cuja edição estou a preparar e que, em princípio, se vai chamar qualquer coisa como:  Portugal – Os rostos da classe dirigente - 125 caricaturas desenhadas a traço fino com circunspecção analítica copiosamente ilustradas com outros tantos textos judiciosos e coloridos”.

Jaime Neves

Militar e empresário, de sucesso. Herói da Pátria (quase tão condecorado como Marcelino da Mata, ainda que mais promovido).

Filho de um polícia transmontano, Jaime Neves entrou para a Escola do Exército com dezassete anos. O exército nunca mais saiu dele. Aos vinte e nove, como Major, recebeu a cruz de guerra de primeira classe porque levou um tiro de raspão. Aos trinta e cinco, como Major graduado, já comandava o Batalhão de comandos de Montepuez e chefiava 2500 homens - era o senhor da guerra em Moçambique. De helicóptero, ia até à frente de combate. Coordenava as operações por rádio, desde o ar, “uma experiência que uma vez sentida nunca mais se esquece”.

Foi assim, esvoaçando entre as valquírias, que perpetrou outro dos actos de heroísmo que lhe valeram o reconhecimento de pares e superiores e imenso prestígio em todas as rodésias: o massacre de Wiriyamu, em Dezembro de 1972. Os números exactos nunca serão conhecidos e nunca ninguém foi julgado, mas segundo a descrição do padre jesuíta Adrien Hastings na ONU, queimaram-se pessoas vivas em cabanas, mataram-se crianças à machadada, jogou-se futebol com as cabeças dos mortos. Guiada por informações da Direção Geral de Segurança, antiga PIDE, a 6ª companhia de comandos, do Batalhão de Montepuez, a tropa de Jaime Neves, dizimou um terço da população civil de Wiriyamu. E ficou na zona, heroicamente, a matar civis desarmados durante, pelo menos, três dias.

Acabada a comissão, Jaime Neves regressou à metrópole. Mas muito descontente com o regime – não por ser uma ditadura, mas por não lhe dar meios para vencer a guerra. Por isso juntou-se a Otelo e, a 25 d’Abril de 1974, foi um dos operacionais decisivos para, heroicamente, sem dar um tiro, depor o regime e entregar o poder a uma junta de salvação presidida por dois dos generais mais destacados do regime deposto.

Durante todo o processo revolucionário Neves, a tiro ou à chapada, resolveu heroicamente motins, suprimiu greves, controlou manifestações. Também foi destacado para forçar a rendição de duas companhias de Comandos em Moçambique: a 20-43 e a 20-45, que recusaram parar de lutar após a Revolução e continuavam alegremente a matar pretos, contra as ordens do exército português e dos acordos de cessar-fogo. Conseguiu-o sem dar ordem de detenção a um único dos Comandos insurrectos.

A 25 de Novembro de 1975, Jaime Neves foi o operacional fundamental na neutralização definitiva do PREC (processo revolucionário em curso) salvando a pátria dos malvados dos comunistas, tornando-se assim um dos heróis do novo regime e outro dos inúmeros pais da nossa democracia. Foi promovido a tenente-coronel no próprio dia.

Em 1981 passou à reserva. Foi para a privada. Dedicou-se aos negócios. Primeiro ao serviço de Jorge de Brito, um magnata do antigo regime, a quem ajudou a recuperar património nacionalizado durante a revolução. Depois, descobriu o maravilhoso mundo da segurança privada e, sempre preocupado com a segurança da pátria, uma outra maneira de, mesmo na reforma, poder continuar a servi-la, de pantufas. Criou uma empresa nesse ramo de actividade e baptizou-a com o nome de uma das companhias de comandos que tinha ido resgatar a Moçambique - a 20-45, que tinha continuado a matar mesmo depois da paz ser decretada. Deu-lhe fardas escuras e boinas vermelhas.

Em 20 anos, a empresa com nome de Companhia de Comandos tornou-se um gigante da segurança privada. Graças a prestimosos contratos para servir o estado, de quem recebeu 40 milhões e 8oo mil euros.

O estado, e a classe que o dirige, não paga a traidores; mas aos heróis recompensa-os copiosamente. Mas também os reconhece. Em 2009, já reformado, foi promovido a Major-General.

Em 2013 o negócio que ajudou a montar já contava com mais efectivos do que todo o exército e as polícias juntas. Morreu, então, descansado - a pátria amada estava, finalmente, em segurança (privada). 

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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Nos cem anos do Zé

No passado dia 15 José Penicheiro teria celebrado cem anos. Os serviços culturais da Câmara Municipal da Figueira da Foz assinalam a efeméride (ou a oportunidade, ou lá o que é) com duas exposições no CAE que, confesso, ainda não visitei.

Se há vantagem em morar longe é que sempre se poupa algumas decepções.                                                    Porque se este tributo for o reflexo do press-release mil vezes repetido por todos os órgãos de informação, receio que a homenagem seja, como de costume, a meia dúzia de lugares-comuns mil vezes repetidos, mais umas quantas banalidades e a exposição de outras tantas peças sem critério nem contextualização – o serviço mínimo habitual nuns serviços culturais que se auto-justificam numa rotina da celebração de oportunidades (ou de efemérides, ou lá o que é).

A verdade, porém, é que o centenário do nascimento de José Penicheiro seria de facto uma oportunidade ideal para uns serviços culturais que tutelam um museu municipal  com responsabilidade e verdadeira vocação pedagógica organizarem “a grande exposição” que pudesse ilustrar o xelentíssimo publico-zinho, mas também as novas gerações, sobre o contexto e circunstâncias  da sua formação, influências, maturidade e sobretudo sobre a dimensão exacta da grandeza, sempre ferozmente independente de qualquer academia, de uma das obras criativas mais originais e fecundas produzidas por um artista que não trouxe a glória de fora (do estrangeiro e das grandes capitais) porque soube sempre merecê-la entre nós, onde viveu toda a vida.

Aquando da sua morte, em 2014, dediquei-lhe uma posta, com caricatura e tudo e até um linguado, que reproduzo ipsis verbis.

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Louvor e simplificação de José penicheiro

Todos os quadros têm teias de aranha no cu
Marcel Duchamp

Nos anos oitenta do século passado, o chuveirinho de fundos perdidos proveniente da então CEE achou em Portugal solo fértil para o milagre económico e sociológico do novo-riquismo, que ficou popularmente conhecido por “cavaquismo”. Mas também acabou por proporcionar um outro fenómeno sociológico, e económico, inaudito na história de Portugal: a eclosão de um mercado de arte na província.
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É verdade. De repente, num país atrasado e atavicamente pouco dado a coisas do espírito - acabadinho de sair de uma ditadura de quatro décadas, de um pequeno sobressalto “revolucionário” e de duas intervenções assistenciais do FMI - pessoas acabadas de ascender a uma próspera e inesperada classe média-alta descobriram em si um ideal abstracto e, num inusitado interesse plo espírito das coisas, o amor acrisolado pela arte. Foi assim que médicos, engenheiros, advogados, magistrados, altos funcionários e pequenos empresários com poder aquisitivo e alma de connoisseurs, de coleccioneurs ou de investideurs criaram as condições para que um pequeno núcleo de artistas, alguns já activos desde os anos 40 e 50, se pudesse dedicar à arte a tempo inteiro. Foi o caso de José Penicheiro.
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O poder autárquico, pla aquisição de obras e encomendas de arte pública, também deu um valioso contributo para a consagração destes petits maitres regionais; assim como o Serviço Nacional de Saúde que, com o seu generoso patrocínio das multinacionais do medicamento, permitiu a impressão mecenática de sucessivas e copiosas edições limitadas de serigrafias e litografias cujos exemplares, assinados e numerados pelos artistas, reproduziam originais e eram distribuídas, como oferendas, em alegres congressos médicos pla província - num contributo precioso, e definitivo, para a divulgação das suas obras e para a sua imensa popularidade.
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Na Figueira, por exemplo, não há casa nem casebre que não possua as paredes engalanadas com uma destas (já desbotadas, no caso das litografias) reproduções. O povo tinha mesmo os seus artistas preferidos. Contudo, nunca houve unanimidade. A admiração popular, tal como no futebol, ainda hoje se divide plos três grandes: Cunha Rocha, Mário Silva e José Penicheiro.
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E contudo, dos “três grandes”, Penicheiro era o artista menos óbvio para agradar ao novo gosto dos novos burgueses emergentes - o seu trabalho era prejudicado pela má qualidade dos suportes (cartão ou platex) e dos materiais (o guache e a tinta plástica) e o seu imaginário, enraizado ainda em modelos neo-realistas, era povoado de gente humilde e anónima numa paisagem ribeirinha sempre ligada ao universo do trabalho árduo e penoso: no salgado, na pesca, na lota, em andaimes e estaleiros - os novos-ricos, mesmo de origem humilde, não gostam que lho recordem. Também desprezam o trabalho duro, que acham desqualificado, e desconfiam da arte que o representa: invariavelmente acham-na subversiva ou, no mínimo, inconveniente. 
Mas foi isso mesmo que Penicheiro fez: encheu-lhes as paredes das vivendas e dos palacetes de trolhas e marnotos, costureiras, pescadores, moliceiros, lavadeiras e cavadores.
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A grande arte de Zé Penicheiro
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Filho de um carpinteiro, Zé Penicheiro começou pela caricatura em madeira. Bonecos em volume, como ele dizia. Auto-didacta orgulhoso (quase até à arrogância) aprendeu o desenho e aprimorou o traço na tarimba do humor gráfico e da caricatura de imprensa, nos anos de chumbo da censura. Desenhador compulsivo, o seu traço vigoroso, sintético e eloquente era alicerçado num sentido da composição rigoroso, numa sensibilidade de colorista requintado – adquiridos ao longo de muitos anos de trabalho na publicidade e na decoração – e num instinto ornamental que se foi tornando cada vez mais sofisticado e exuberante.
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Quando o conheci, em 1981, trabalhei com ele em publicidade. Aprendi imenso (a relevância do seu contributo para a linguagem desta arte de comunicação dava para escrever um tratado, um capítulo à parte na sua vasta obra criativa (só semelhante ao de outro figueirense, Cândido Costa Pinto. Este até com obra teórica publicada sobre o assunto, embora nunca tenha exercido actividade na região). Mas em 84 (ou 85), quando trabalhei para ele - na impressão serigráfica dos seus trabalhos – já ele se dedicava finalmente, em exclusivo, à sua paixão de toda a vida, a pintura. Tinha mais de sessenta anos.
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Numa idade em que a maior parte dos homens calça as pantufas e se senta ao borralho a olhar para ontem, Penicheiro preparava-se para começar outra vida. Criativa. E para consumar a sua obra – uma obra que teria, contudo, um carácter sempre reminiscente, também a olhar para ontem, numa espécie de interminável “Amarcord”. 
Todavia, ao contrário de Fellini, não existe em Penicheiro o conflito, o pormenor, o improviso, a blasfémia, o humor (ou o sarcasmo), a revolta, a gargalhada, a obscenidade, a subversão, o grito. 
Não há rostos, nem olhares, nem expressões na sua obra. Nem se vêem das mãos as linhas da vida, ou as unhas negras e as calosidades. Apenas vultos. Os homens, de chapéu; as mulheres, de lenço na cabeça, sempre curvada. Tudo sob um manto intrincado de manchas opacas, numa densa bruma esquartejada de harmoniosas decomposições tonais atenuadas. E uma indelével impressão de nostálgica e solene mansidão resignada. 
Penicheiro não pinta o que vê, pinta o que viu. Ou melhor, a impressão com que ficou.
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Foi esta visão sentimental, silenciosa e velada pela distância do tempo que talvez tenha tranquilizado os novos (e até os velhos) burgueses. A-do-ra-ram. Penicheiro tornou-se mesmo o artista mais premiado e homenageado  pelos “clubes de serviço”.  Arrematavam tudo, em alegres e selectas jantaradas. À peça ou à molhada. 
A consagração popular veio depois, naturalmente. O povo, como é sabido, aplaude sempre os vencedores.
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Porém, a coroa de glória de Zé Penicheiro, a verdadeira consagração, surgiu já quase no fim da sua vida (e carreira, que os artistas trabalham sempre até ao fim), em 2004: a encomenda de um mural monumental pela Universidade de Aveiro, para comemoração dos seus trinta anos.
Nada mal. Para um homem que se tinha feito a si próprio, que se gabava de nunca ter ido à escola e de toda-a-vida ter nutrido um sincero desprezo pelo conhecimento académico.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2021

para compreender melhor o “santanismo”

"Entretanto ululam outra vez, na Figueira, ventos messiânicos. A História da Figueira é a história do sebastianismo-de-praia, em círculo vicioso e viciado, repetitivo e redundante. A atracção colectiva pelo abismo é uma dança macabra e celebra-se alegremente, cantando e rindo. O que foi comédia triste promete repetir-se em farsa patética. A Figueira, que já é uma anedota pronta, prepara-se de novo para ser a risota do país,” vaticinava eu, a 19 de Julho. 

Dito e feito (eu só não acerto no euromilhões). Hoje, o triunfo do sebastianismo de praia é uma realidade consumada na Figueira e, com o regresso em ombros do desejado, o santo nome da Figueira está de novo onde os figueirinhas tanto gostam que esteja: na imprensa cor-de-rosa, na marron, na rubrica de faits-divers dos telejornais e nas expressões dos humoristas.

Na Figueira ninguém se questiona sobre o estranho fenómeno que leva gente aparentemente sensata e habitualmente circunspecta a uma euforia ensandecida pela idolatria (presumo que para os groupies figueirinhas se trate de uma simples questão de fé, ou seja, de algo que dispensa por completo o entendimento). Não obstante, esta espécie de messianismo patusco, o santanismo, é um fenómeno tipicamente figueirense - ou seja, algo circunscrito ao seu território; uma especificidade regional. Na verdade, trata-se de um estado-de-espírito latente na cultura popular local e agora a reviver mais uma das suas múltiplas reencarnações.

Para compreender o santanismo é necessário conhecer as razões profundas de uma fé cega num caudilho com dois olhos, meia-idade e uma grande cabeça sem programa nem ideias que se vejam. Mas também é preciso conhecer o meio, a gente, o contexto, a história, a circunstância e a bizarria do único lugar de Portugal e talvez do mundo, onde é possível que, num espaço de vinte anos, caia duas vezes o mesmo raio. É indispensável conhecer a Figueira.

O “Discurso sobre a Figueira”, que compus durante o confinamento, é, penso, obra para satisfazer essa curiosidade. A primeira edição esgotou-se logo em Fevereiro entre os leitores deste humilde blogue. Permiti-me, em Julho, pagar a impressão de uma segunda, destinada à venda em banca na Figueira da Foz, que se revelou, como certamente logo calcularam (eu também) o mais pré-anunciado fiasco da história da auto-edição. De maneiras que tenho em armazém quase cinquenta exemplares de uma obra única, essencial, para quem quer saber mais, saber tudo sobre a Figueira e sobre todos os seus fenómenos e epifenómenos, e assim.

Trata-se de um

Divertimento em forma de panfleto sarcástico

composto em prosa jocosa e escarninha

alguns apartes entre parênteses

e vários movimentos

sumptuosamente ilustrados

com preciosas metáforas

e impresso em resma de eucalipto

sem notas de rodapé

por um tal Fernando Campos de Maiorca

nesta cidade

No ano desgraçado de MMXX

Figueira da Foz

e é afinal de uma obra rara, única no seu género; um estudo exaustivo do meio, do ambiente e do factor humano figueirenses. Tem tudo para se tornar um Clássico (como aliás explico no preâmbulo), com perspectiva histórica, análise microscópica de contexto, visão distanciada e tal. Uma verdadeira monografia, pouco académica é certo, mas muito séria (no sentido da honestidade) e nada complacente.

Assim, quem quiser adquirir esta obra, basta contactar-me para fernaocampos1@gmail.com manifestando-me esse desejo. 
De seguida, contactá-lo-ei facultando-lhe as coordenadas do meu IBAN. 
Assim que depositar 12.06€ (10€+2.06€ de custos de correio) na minha conta, logo cuidarei de lhe enviar o exemplar para o endereço desejado, onde chegará certamente com a celeridade que permite a eficiência dos nossos CTT.
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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Mogais Sagmento e o “full-service”



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Nuno de Albuquerque de Morais Sarmento é um político português. Vice-presidente do PSD. Já foi a ministro duas vezes. Também é comentador político, na SIC Notícias, na RTP e na TSF. E advogado e tudo. O Mogais Sagmento já era maizómenos conhecido do grande público, mas só agora é que se tornou realmente popular. Desde que se viu o seu nome escrito nos papéis de Pandora. Foi aí que ficámos a saber que o Mogais Sagmento também é um investidor no estrangeiro.

Ele é um dos rostos mais emblemáticos da velha classe dirigente lusitana, mais precisamente da sua ala mais ressessa, reaccionária e ultramontana, aquela onde abundam os apelidos de consoantes dobradas que são invariavelmente precedidos pela partícula “de”. Esta ala da classe dirigente nacional é uma excrescência medieval que, apesar de todos os avanços sociais, políticos e científicos do século vinte, do ensino obrigatório ao direito ao voto e ao DDT, conseguiu sobreviver até aos nossos dias - como os padres, as pulgas e os chatos. Trata-se de uma classe social favorecida pela sorte nos negócios e nos acasalamentos (perpetua-se por endogamia) e por uma sempiterna proximidade do poder. Também presume grande prurido pelos pergaminhos de uma tão suposta como antepassada fidalguia. Esta curiosa e um tanto mórbida fixação pelo título de nobreza e por uma lânguida e ressabiada nostalgia do privilégio, sublimadas mais recentemente por igual fascinação pascácia pelo doutoramento no estrangeiro, faz desta elite do atraso - cem anos após a implantação da República e cinquenta depois do 25 d’Abril de 1974 - um caso patológico que seria apenas risível se não fosse também bastante confrangedor.

Assim, embora tenha pinta de meteco, ou talvez por isso, o seu verbete na wikipedia afiança que Mogais Sagmento é o garboso “terceiro filho e terceiro varão de João Vilaça de Morais Sarmento, pertencente à família Botelho de Morais Sarmento, dos Guardas-Mores do Sal de Setúbal de juro e herdade, e dos Condes de Armamar -. Licenciado em Engenharia Química (IST e Universidade de Louvain, Bélgica) e Administrador de Empresas, e de sua primeira mulher Maria Madalena de Miranda Ferrão de Albuquerque. É bisneto ainda pelo lado paterno, do Par do Reino António Eduardo Vilaça, que foi Ministro dos Estrangeiros várias vezes, dos Reis D. Carlos I e D. Manuel II”.

Mas não é só. Ou apenas. Há mais: “Casou em Óbidos na Quinta das Gaeiras, a 9 de Julho de 1988 com Ana Filipa de Moser Lupi), 5.ª neta dum italiano, neta materna duma judia sefardita, 5.ª neta do 1.º visconde do Cartaxo, sobrinha-5.ª-neta do 1.º Conde da Póvoa e 1.º Barão de Teixeira e bisneta do 2.º Conde de Moser da qual se divorciou em Fevereiro de 2016.”

Gostaram? Reparam nos “de”?

Mas muito para além deste arrazoado imbecil, quase cómico de tão vácuo e tão tosco, o que me chamou a atenção foi a sua actividade, digamos assim, causídica, que pode talvez explicar o seu envolvimento no caso dos papeis da Pandora.  Reparei que Mogais Sagmento é atualmente sócio da PLMJ - A. M. Pereira, Sáragga Leal, Oliveira Martins, Júdice & Associados, RL. Um consórcio de advogados.

Pois bem, segui o link e entrei num outro mundo. O mundo maravilhoso de uma sociedade Full-Service.

Esta preciosidade, que pode ser aferida clicando em quem somos, revela o que pode ser realmente uma sociedade de advogados para todo o serviço. Segurem-se e leiam. São apenas dois parágrafos, mas valem por toda uma literatura.

“Somos uma sociedade de advogados com sede em Portugal que combina a oferta de um escritório full-service com a maestria e competência de uma relojoaria jurídica.

Possuímos um genuíno entusiasmo na resolução de impossibilidades que nos leva a lugares “menos comuns” que transformam velhas certezas em novas disrupções. Há mais de 50 anos que nos pautamos por abordagens arrojadas e transformadoras que se traduzem em soluções concretas que tanto respeitam as exigências da lei como promovem uma defesa eficaz dos interesses dos nossos clientes.”

Gostaram? De antologia. Pois não só è vero como è ben trovato.

Se bem entenderam, Mogais Sagmento é sócio de Júdice, sobre quem também já me debrucei aqui. Júdice, ele próprio também empresário, é um advogado com uma visão próxima do cliente; foi aliás certamente o seu genuíno entusiasmo na resolução de impossibilidades e a sua proximidade quase promiscua ao banqueiro Rendeiro que levaram recentemente este último a lugares menos comuns que transformam velhas certezas em novas disrupções. Toparam?

Não admira por isso que também Mogais Sagmento, como empresário e investidor no estrangeiro (Ilhas Virgens, Moçambique e tal), tenha afinal uma visão tão próxima do advogado.

É que o que melhor define o Mogais Sagmento e a sua classe - mais do que aquela ressessa presunção de antiga fidalguia; mais do que a sonsa nostalgia da legitimidade do privilégio e muito mais do que aquele, mais recente, fascínio laparoto pelo doutoramento no estrangeiro – é, sem dúvida, a avidez irreprimível. A atracção sórdida pelo dinheiro. E a compulsão para o full-service.

domingo, 26 de setembro de 2021

Se cá nevasse, fazia-se cá se qui


 

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O European Council on Foreign Relations, um grupo de estudos internacionais fundado em 2007 e com sede em Londres, realizou uma série de sondagens sobre "o que esperam os europeus depois das eleições na Alemanha". Uma das pesquisas analisada mostra que a maioria dos portugueses (52%), votaria em Angela Merkel para "presidente" da Europa, se este cargo existisse.”

Hoje vota-se na Alemanha, para as eleições gerais. Em Portugal também, mas para as autarquias locais.

Hoje a maioria dos portugueses também votaria maciçamente na CDU. Se não padecesse do síndroma de Estocolmo. Não sei se estão a ver.

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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O walesa do cais da figueira ou a parábola da idiotia útil


Manuel Gonçalves é estivador e sindicalista. É presidente do SINPORFOZ, o sindicato dos trabalhadores portuários da Figueira da Foz. Gonçalves nunca deu entrevistas ao “Económico” como o Walesa da Moita, mas ainda pode vir a dar, sei lá, ao boletim da CIP, ou à revista Caras. Sim, porque Manuel Gonçalves já fez tudo para merecer pelo menos uma menção honrosa no boletim daquela confederação de empresários ou uma referência, ainda que de pé-de-página, na publicação portuguesa que dedica mais atenção ao laife-setaile dos famosos e à carreira plítica de outro dos protagonistas da estória que se segue.

“Hoje, Pedro Santana Lopes, Paulo Mariano e uma Comitiva de candidatos do Movimento Figueira a Primeira visitaram o Porto da Figueira da Foz mais concretamente a Operfoz para auscultar as necessidades e problemas que os estivadores sentem, tentando perceber como a Câmara Municipal pode ajudar a resolver.

Foram recebidos pelo Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Portuários da Figueira da Foz, Manuel Gonçalves.

Desta visita resultou uma conversa franca e aberta de ambas as partes tendo sido apresentadas por parte do sindicato algumas medidas que gostavam de ver aplicadas frisando um ponto incompreensível, que é o facto deste ser o único porto do país onde um camião tem de pagar para entrar (2,85 €).”

 

Na Figueira qualquer campanha eleitoral para as autárquicas é um prato cheio de toda a sorte de bizarrias mais ou menos peculiares que ilustram, sempre com cores pitorescas, a essência eminentemente anedótica e paroquial da prática política local.

A deste ano não desmerece. Já houve vandalismo (ao património e à propaganda dos comunas), denúncias ao tribunal, acusações, ofensas, ameaças, queixas, visitas, passeatas, comícios, porco no espeto, munto cumbíbio, artistas convidados, bailinho e cantorias, discursos ditirâmbicos, promessas mirabolantes, mais promessas, inaugurações e indemnizações à boca das urnas, discursos inflamados, mais promessas, etc. Enfim, o habitual.

No meio desta vida loca habitual, o episódio que reproduzi acima, retirado ipsis verbis da página da candidatura de Santana Lopes no facebook, é uma dessas estórias exemplares.

Santana foi ao porto da Figueira. Podia ter ido, por exemplo, à Marinha das Ondas auscultar as necessidades e problemas dos trabalhadores da Lusiaves e tentar perceber como a Câmara Municipal pode ajudar a resolver uma questão gritante de direitos humanos. Mas não era a mesma coisa. Afinal não se trata de portugueses e, embora colectados não estão recenseados, por isso também não são eleitores. Além disso iriam decerto pigmentar desnecessariamente de tonalidades inconvenientes a alvura delicada das páginas da revista Caras; talvez mesmo ofuscar-lhes o brilho acetinado - não ficava bem. Por isso Santana foi ao porto da Figueira visitar a fina-flor da classe operária figueirinhas – é muito mais clean.

Lá chegada a comitiva, na qual pontificava Paulo Mariano, o primeiro candidato à Assembleia Municipal, foi visitar a OPERFOZ (empresa da qual o senhor Mariano é um garboso accionista) e auscultar as necessidades e problemas que os estivadores sentem. Foram recebidos pelo presidente do sindicato dos trabalhadores portuários da Figueira da Foz, Manuel Gonçalves. E foi aí que, na presença do patrão e depois de uma conversa franca e aberta de ambas as partes, Manuel Gonçalves abriu finalmente o livro de reivindicações.

Agora segurem-se. Gonçalves podia ter falado da condição dos estivadores precários (os novos ganhões, conhecidos no cais por “pipocas”, por não terem vínculo laboral) ou da segurança no trabalho, referindo mesmo o caso recente de um traumatismo craniano de um colega seu (precário) transferido com urgência para Coimbra por o hospital local não possuir serviço de cuidados intensivos. Mas não era a mesma coisa. Sim, porque o hospital distrital até tem um belíssimo parque de estacionamento exterior e uma magnífica pista de slalom até às urgências, mas não tem cuidados intensivos, nem maternidade, nem sequer gabinete de medicina legal. Talvez um putativo presidente de câmara municipal que promete aos papalvos fazer da Figueira a capital do mar e centros de ciência e de investigação pudesse fazer algo para ajudar a resolver problemas afinal tão comezinhos. Mas qual quê. Tal não ocorreu a Manuel Gonçalves. O que preocupa realmente o presidente do sindicato dos trabalhadores portuários figueirinhas não são os direitos laborais dos trabalhadores eventuais, nem a segurança no trabalho, nem o direito dos trabalhadores a serviços essenciais de proximidade, nem, por solidariedade ou decência cívica, a dignidade humana dos seus colegas da Lusiaves.

Mas então o que pode fazer alguém que já tem tudo senão ajudar quem realmente precisa? Foi assim que Gonçalves lá abriu o livro e recitou algumas medidas que gostavam de ver aplicadas frisando um ponto incompreensível, que é o facto deste ser o único porto do país onde um camião tem de pagar para entrar (2,85 €).

Perceberam? A principal reivindicação do sindicato dos trabalhadores portuários da Figueira da Foz é a resolução dos problemas de tesouraria do seu patrão. Não é lindo e comovente? É fantástico. Com sindicatos assim fofinhos a CIP não precisa de solicitadores, nem Paulo Mariano de advogados. E o putativo futuro presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz também já tem tudo para, junto da tutela, ajudar a resolver os problemas empresariais do seu candidato à Assembleia Municipal. Porque uma mão lava a outra. Pois, como dizia mestre Gil, assi se fazem as cousas na paróquia. Com duas lousas.

Quanto a Santana Lopes, um político supostamente de primeira divisão, a sua fácil e visivelmente entusiasmada adesão a este paroquialismo serôdio parece indicar como plenamente justificada a sua descida ao último escalão. Se ele não vencer agora, como parecem indicar as sondagens, ainda havemos de o ver candidatar-se a uma junta de freguesia, disputando os regionais.
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