O
escritor Leonardo Sciascia amava o seu paese, como
os italianos gostam de chamar à sua terra. Deixou
disso brilhantes testemunhos em páginas soberbas de lucidez
desarmante e comovida. Mas
não era cego. O seu olho clínico implacável permitiu-lhe, por
exemplo, detectar na proverbial, maligna e quase identitária
complacência da Sicília com o crime uma predisposição natural dos
seus paisanos para um
certo cretinismo ”não desprovido de malícia”.
Jorge Luís Borges não nutria o mesmo género de empatia complexa, ou contraditória, pelo seu país, a Argentina. Salvo raras excepções, os argentinos são sul-americanos que pensam que são europeus. Borges leu “A Odisseia” e “As mil e uma noites” em inglês e gostava de pensar que eram clássicos ingleses. Borges pensava, certamente em inglês, que a civilização britânica era a quinta-essência da civilização.
Realmente, há que o reconhecer, o legado da Inglaterra à humanidade é inquestionável. Além do chá das cinco, da máquina a vapor, do gin-tonic, do escutismo, da segregação racial, dos Beatles e do vinho do Porto, a Inglaterra também inventou o extractivismo, o golfe, a exploração laboral em larga escala, o fair-play, a poluição industrial, asas de frango fritas, o capitalismo monopolista e, sem falar de uma porção de novos países sem os quais o mundo de hoje não seria o mesmo – como Portugal (para chatear os espanhóis), o Brasil (para chatear o Bolívar), o Uruguai (para chatear o Brasil e a Argentina), a Bélgica (para chatear a França), a Arábia Saudita (para chatear os outros árabes), o Paquistão (para chatear a Índia), a África do Sul e a Rodésia (para chatear todos os africanos) e Israel (para chatear todo o mundo) - também inventou o futebol.
Jorge
Luís Borges era um génio, e algo reaccionário. Mas era cego; e
como todos os cegos, não era “desprovido de malícia”. Num
desses momentos de aguda clarividência, Borges reconheceu a
bestialidade da coisa
e deixou cair: “O futebol é um dos maiores crimes da Inglaterra”.
Ele considerava o futebol “um jogo feio e estúpido”,
inextricavelmente ligado à manipulação
de massas
do nacionalismo. “O nacionalismo só permite afirmações, e toda a
doutrina que descarta a dúvida, a negação, é uma forma de
fanatismo e estupidez”, escreveu. E disse: “Existe uma idéia de
supremacia, de poder (no futebol) que me parece horrível”.
Receio que a transmissão televisiva do espectáculo de logro, fraude, manipulação, ostentação de poder e de fanatismos patrióticos exacerbados proporcionado pelo campeonato mundial de futebol tenha sido uma exibição eloquente do potencial de uma bestialidade inglesa que, como todas as outras, não é de todo “desprovida de malícia”.
Não
porém daquela malícia sórdida, imbecil e fatalista, de vencidos,
pressentida por Sciascia nos seus paisanos,
mas de uma outra, aparentemente inócua, mas mais malévola e
velhaca, que confirma a percepção do cego de Buenos Aires – uma
malícia muito mais insidiosa, vingativa, burocrática e
totalitária, com uma rapacidade agora ainda mais anglo-saxónica,
infantina,
caprichosa e supremacista,
que acumula milhões, estabelece regras e excepções, prescreve
restrições e exclusões e impõe punições, petulante de
impunidade.
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