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domingo, 9 de agosto de 2026

Retrato de um senhor infantino (como ícone, ou troféu)

O escritor Leonardo Sciascia amava o seu paese, como os italianos gostam de chamar à sua terra. Deixou disso brilhantes testemunhos em páginas soberbas de lucidez desarmante e comovida. Mas não era cego. O seu olho clínico implacável permitiu-lhe, por exemplo, detectar na proverbial, maligna e quase identitária complacência da Sicília com o crime uma predisposição natural dos seus paisanos para um certo cretinismo ”não desprovido de malícia”.

Jorge Luís Borges não nutria o mesmo género de empatia complexa, ou contraditória, pelo seu país, a Argentina. Salvo raras excepções, os argentinos são sul-americanos que pensam que são europeus. Borges leu “A Odisseia” e “As mil e uma noites” em inglês e gostava de pensar que eram clássicos ingleses. Borges pensava, certamente em inglês, que a civilização britânica era a quinta-essência da civilização.

Realmente, há que o reconhecer, o legado da Inglaterra à humanidade é inquestionável. Além do chá das cinco, da máquina a vapor, do gin-tonic, do escutismo, da segregação racial, dos Beatles e do vinho do Porto, a Inglaterra também inventou o extractivismo, o golfe, a exploração laboral em larga escala, o fair-play, a poluição industrial, asas de frango fritas, o capitalismo monopolista e, sem falar de uma porção de novos países sem os quais o mundo de hoje não seria o mesmo – como Portugal (para chatear os espanhóis), o Brasil (para chatear o Bolívar), o Uruguai (para chatear o Brasil e a Argentina), a Bélgica (para chatear a França), a Arábia Saudita (para chatear os outros árabes), o Paquistão (para chatear a Índia), a África do Sul e a Rodésia (para chatear todos os africanos) e Israel (para chatear todo o mundo) - também inventou o futebol.

Jorge Luís Borges era um génio, e algo reaccionário. Mas era cego; e como todos os cegos, não era “desprovido de malícia”. Num desses momentos de aguda clarividência, Borges reconheceu a bestialidade da coisa e deixou cair: “O futebol é um dos maiores crimes da Inglaterra”. Ele considerava o futebol “um jogo feio e estúpido”, inextricavelmente ligado à manipulação de massas do nacionalismo. “O nacionalismo só permite afirmações, e toda a doutrina que descarta a dúvida, a negação, é uma forma de fanatismo e estupidez”, escreveu. E disse: “Existe uma idéia de supremacia, de poder (no futebol) que me parece horrível”.

Receio que a transmissão televisiva do espectáculo de logro, fraude, manipulação, ostentação de poder e de fanatismos patrióticos exacerbados proporcionado pelo campeonato mundial de futebol tenha sido uma exibição eloquente do potencial de uma bestialidade inglesa que, como todas as outras, não é de todo “desprovida de malícia”.

Não porém daquela malícia sórdida, imbecil e fatalista, de vencidos, pressentida por Sciascia nos seus paisanos, mas de uma outra, aparentemente inócua, mas mais malévola e velhaca, que confirma a percepção do cego de Buenos Aires – uma malícia muito mais insidiosa, vingativa, burocrática e totalitária, com uma rapacidade agora ainda mais anglo-saxónica, infantina, caprichosa e supremacista, que acumula milhões, estabelece regras e excepções, prescreve restrições e exclusões e impõe punições, petulante de impunidade.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

David Hockney (1937-2026)

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Como já referi aqui, penso que o deleite estético como experiência sensorial  proporcionada pela arte contemporânea é como o orgasmo da frigidez: fingido, snob e por sugestão auto-induzida; só se "chega lá" através de vasta literatura anexa.

Mas David Hockney não pertence a esta tradição

Ao contrário de Marcel Duchamp, David Hockney não é um filósofo que questiona a arte, é um artista que questiona a vida. 

Ao contrário de Duchamp (e dos seus herdeiros), Hockney não tem pruridos com o prazer retiniano nem com o labor oficinal. 

Ele é um dos últimos de uma longa linhagem de artistas para quem o acto de ver é tão fundamental como o de fazer; e é isso que ele faz: observa e faz, dá a ver. Para isso serve-se, com as mãos ambas, de todas as técnicas tradicionais conhecidas e até de tecnologia de ponta.

A sua obra é um imenso prazer para a vista; um espectáculo de petites sensations fundamentais, como sentir e raciocinar. Ou seja, é um privilégio para a inteligência.*

David Hockney morreu ontem, “pacificamente, em casa, a 11 de Junho, um mês antes do seu 89º aniversário".


*Este texto é de 2012, tal como o desenho.

domingo, 17 de maio de 2026

João Abel Manta (1928-2026)


 

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João Abel Manta morreu; aos 98 anos. Trata-se de um artista visual cuja obra monumental e multifacetada tem uma dimensão que não cabe num obituário. Era filho único do pintor Abel Manta e da pintora Maria Clementina Carneiro de Moura. Em 1971 auto-retratou-se, como sempre “com traço limpo e maneirinho”, com o seu amigo José Cardoso Pires em demanda do burro-em-pé. A verdade porém é que João Abel andou toda a vida nessa peregrinação; quase sempre sozinho - “circulando entre os dedos espetados, alçapões e sinais de alto lá que povoam a comarca e suas regedorias”. Toda a sua vasta e diversificada obra é uma crónica, “em papel público”, disso mesmo. Desenhou selos e cartazes, cenários e tapeçarias, painéis de azulejos e padrões de calçada portuguesa, edifícios e caricaturas. 

E fez-se cartunista - primeiro contra a ditadura e depois pela revolução. Após a morte desta, e de seu pai, dedicou-se finalmente à pintura. "Nestas obras pratico uma inocente pintura a óleo sobre tela, […] para explicar a quem interesse o que penso do mundo e das coisas do passado e do presente", diz que disse. 

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