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quinta-feira, 22 de julho de 2021

Bezos e o novo catecismo do jornalismo de merda.


 

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A riqueza supérflua só pode comprar coisas supérfluas

Henry David Thoreau

Confesso que não gosto de ricos. Nunca gostei. Até já uma vez expliquei porquê, aqui.

Jeff Bezos é o mais rico de todos. Jeff Bezos foi ao espaço e voltou. A Jeff Bezos já não lhe chega o planeta. O espaço é o próximo alvo para a sua avidez. Trata-se de um ser verdadeiramente repugnante. Quase tão repugnante como a “peça” que a SIC transmitiu uma destas noites, como se fosse um trabalho jornalístico, durante o serviço noticioso apresentado por Clara de Sousa (a quem também já me referi aqui).

Durante imensos, penosos e inacreditáveis minutos, uma propaganda descarada, eivada daquele fascínio pascácio pela extravagância dos ricos, foi instruindo as massas no catecismo da senhora Thatcher, segundo o qual “a ganância é um bem“ –  fazendo passar a ideia de que a acumulação gananciosa e obsessiva, a fraude fiscal sistemática e a exploração implacável do trabalho dos outros em condições medievais são exemplos de procedimento e de que um filho-da-puta destes é um modelo a seguir. A bancada da iniciativa liberal teve um delíquio - foi a consagração da sua moral doutrinária em hora nobre.

No fim, Clara de Sousa suspirou, deu mais uma notícia e, imperturbada, despediu-se sem perder a compostura ou, sequer, vomitar. Mais uma noite bem passada, e bem remunerada, na baiuca do jornalismo de merda.

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segunda-feira, 19 de julho de 2021

Discurso sobre a Figueira - segunda edição.

Figueirenses e Figueirensas!,

a edição deste discurso, em Janeiro durante o confinamento, esgotou-se logo no mês seguinte, para minha grande surpresa e satisfação. No entanto os pedidos que me chegaram vieram, na sua maior parte, de fora do concelho e para lá foram sendo expedidos, deixando-vos lamentavelmente à mingua de conhecimento de uma obra que vos concerne e que, em primeira mão, vos era destinada. 

Entretanto ululam outra vez, na Figueira, ventos messiânicos. A História da Figueira é a história do sebastianismo-de-praia, em círculo vicioso e viciado, repetitivo e redundante. A atracção colectiva pelo abismo é uma dança macabra e celebra-se alegremente, cantando e rindo. O que foi comédia triste promete repetir-se em farsa patética. A Figueira, que já é uma anedota pronta, prepara-se de novo para ser a risota do país. 

Ocorreu-me, por isto, pagar a impressão de uma segunda edição, igualmente restrita a cinquenta exemplares, mas desta vez destinada exclusivamente ao, digamos assim, mercado bibliófilo figueirense. Bem sei que este é um investimento de alto risco, num universo de apenas setenta mil almas alfabetizadas, mas que quereis, eu gosto de viver perigosamente.

Está disponível, a partir de hoje, na Papelaria Luzitana. 

Portanto, Figueirenses e Figueirensas, surpreendam-me. E surpreendam-se, antes que esgote.

Trata-se afinal de uma obra rara, única no seu género; um estudo exaustivo do meio, do ambiente e do factor humano figueirenses. Tem tudo para se tornar um Clássico (como aliás explico no preâmbulo), com perspectiva histórica, análise microscópica de contexto, visão distanciada e tal. Uma verdadeira monografia, pouco académica é certo, mas muito séria (no sentido da honestidade) e nada complacente - características pouco habituais em discursos a vós dirigidos, sobre vós e sobre o vosso quinhão de território. Se houvesse um plano municipal de leitura esta obra seria obrigatória: se não para instruir novas e futuras gerações, pelo menos para as desenganar. 

Não obstante, se por acaso achardes a sua leitura de difícil digestão, dolorosa ou até penalizante - habituados que estais a discursos melados de vistas parciais favorecidas (com palas) e perlados de pílulas douradas e lugares-comuns cúmplices e contentinhos - lembrai-vos da estoica sapiência dos antigos: o que dói faz bem. Se doer muito, fará melhor ainda.

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sábado, 3 de julho de 2021

O Cabrita.


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Todos se encabritam contra o Cabrita. Todos querem a cabeça do Cabrita. O Cabrita é desastrado. O Cabrita tem mau-feitio. O Cabrita parece prepotente. O Cabrita não tem “boa imprensa”. O Cabrita é como um cavalo num hospital. Todavia, e a bem-dizer, o Cabrita não é pior do que qualquer dos outros. Ele é, apenas, o mais azarado.

Dizem que, ao designar um general, Napoleão perguntava-lhe sempre “se tinha sorte”. Não sei se António Costa tem este costume a propósito da nomeação dos seus ministros. Não me parece. A verdade é que, em Portugal, ninguém espera de um ministro (nem quem o designa) que tenha rasgo ou, melhor que tudo, “sorte”. O que se espera de um ministro em Portugal é que “faça o lugar” e não ondas.

O que me parece é que, quando nomeou Cabrita, Costa já sabia. Assim ninguém repara nos outros. Apesar disso também me parece que, para colher tanto ódio da direita e dos jornais, em algo o Cabrita deve ter acertado. 

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sexta-feira, 25 de junho de 2021

A diletância como desígnio da pátria


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o país não é governado por especialistas

Marcelo Rebelo de Sousa

A abobrinha em epígrafe é fulminante, como o estrondo da verdade. O presidente, como pitonisa do oráculo da pátria, revelou ao mundo, cândida e melifluamente, certamente para tranquilidade dos mercados, aquilo que, se não sabíamos já, todos intuímos desde piquenos: o país não é, de facto, governado por especialistas. Nunca foi. É assim desde a fundação.

Foi sempre assim que a pátria triunfou. Foi assim que conquistou todas as glórias. De S. Mamede a Aljubarrota, de Alcácer-Quibir ao Acto Colonial; da fuga das galinhas perdão, da corte para o Brasil à criação do Tarrafal. Sempre governada por diletantes. E sempre, sempre com muito sofrimento, incalculáveis preces, incontáveis milagres e inexplicáveis cálculos matemáticos.

A selecção do chuto na bola também. Também é governada por um diletante - enfim trata-se de um especialista, mas em engenharia, plo ISCTE (diz-se isqueté), embora nunca tenha praticado demasiado. O que ele pratica, sem pudor, é a arte, por excelência, dos diletantes, a crença em valha-me deus. Trata-se, portanto, de um prosélito.

A sua estratégia, aparentemente tortuosa, é afinal simples: dez garbosos infantes e um condestável com agenda e objectivos pessoais a declamarem, a goela em ovo estrelado, contra os canhões marchar marchar (isto arrepia sempre os nunos luzes). A táctica, engenhosa, também não é complicada: muita fé em deus e na virgem e igual perseverança na estupidez natural, entre muitos passes curtos, muita posse, alta-pressão à saída e alguma profundidade, claro. Tudo em episódios de noventa minutos com o alto-patrocínio de uma marca conhecida (mais a publicidade e os descontos) repletos de emoções aos saltos, altos e baixos: da vitória pífia, à derrota copiosa e ao empate penoso e assim sucessivamente, até ao mata-mata da má-sorte de sermos portugueses na lotaria dos penaltis. Tudo muito sofrido, muito penoso, muito estremecido, muito sentimental, para gáudio cínico dos velhacos e dos nunos luzes a arfar a arfar até ao apoteótico e milagroso finale que é a suprema alegria dos alarves e dos simples.

Campeões, campeões, campeões, banho de bjeca, cantorias suadas e vingativas, volta apoteótica ao redondel, espera no aeroporto, recepção entusiástica, procissão de autocarro, condecoração pública dos heróis e visita (privada) ao santuário de Fátima -para agardecer, claro. Campeões, campeões, campeões.

Não, este país não é para especialistas, ‘taquepariu. Olha se fosse.

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sábado, 5 de junho de 2021

Ai Weiwei ou o excessivismo dos tótós


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O sonho do capitalismo é criar valor sem criar riqueza, 

fazer dinheiro eliminando a ideia de trabalho 

- a "arte contemporânea" realiza isto.

 Franck Lepage

 Ai Weiwei é um artista. Mas Ai não é um artista qualquer. Ai não faz nada com as suas próprias mãos. Ele delega. Ai tem assim uma espécie de fábrica cheia de colaboradores que lhe fazem as maravilhas com que ele encanta os connoiseurs.

Mas Ai não é um artista qualquer porque ele é também um activista político. Oh sim. No Ocidente, em geral, o activismo plítico não costuma ser bom para o artista (enfim, para a sua boa cotação no mercado). Não é o caso de Ai. Porque Ai é um artista capitalista. Mais do que apenas isso, Ai é um artista anti-comunista. Ai preocupa-se com o ambiente. Ai é um sábio de bons sentimentos. Ai é o artista-escuteiro. Ai é o artista candidato a miss que deseja sol na eira do género humano e chuva no nabal do manuel germano. Assim, Ai tem sempre aquilo que se costuma chamar boa imprensa. Digamos que a sua cotação no mercado é directamente proporcional ao seu activismo plítico. Recentemente Ai foi declarado o artista mais popular do mundo pela The arts Newspaper, uma publicação que quase ninguém que eu conheço conhece.

Ai é um cidadão chinês que, aleivosamente perseguido no seu país por fraude fiscal, vive agora livre em Portugal, onde adquiriu uma herdade. No Alentejo.

Ai abriu recentemente um grande showroom das suas obras na Cordoaria Nacional. A coisa é produzida pela promotora de eventos Everything is new, do empresário de variedades Álvaro Covões. A imprensa não fala de outra coisa. Ai o Aiweiwei, ai o Aiweiwei. Entre as obras de arte que Ai expõe está um enorme bloco de mármore de Estremoz em forma de rolo de papel higiénico cuja transcendência é um enlevo para os connoiseurs. Tem também uma pirâmide de bicicletas que é um espanto.

Integrado num movimento que dá pelo capitoso nome de excessivismo, o segredo (bem visível, aliás) da sua obra é a monumentalidade (é tudo em grande, para que não escape nada aos papalvos) mas também a diversidade: Ai esculpe, Ai pinta, Ai desenha, Ai tricota, Ai instala, Ai performa, Ai amassa, Ai escreve, Ai filma, Ai fotografa, Ai projecta – ai perdão, Ai não, os seus colaboradores. Ai é uma espécie de Joana Vasconcelos hirsuta e de olhos em bico. Ai é o artista preferido por aqueles que não fazem a mínima ideia do que é a arte.
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terça-feira, 4 de maio de 2021

O direito por linhas tortas


 

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Luis Menezes Leitão, o bastonário da Ordem dos Advogados, acha que a requisição, para acolher pessoas vulneráveis e doentes, da totalidade dos imóveis do empreendimento ZMar Eco Experience, em Odemira, pode lesar direitos humanos e violar a Constituição.

Sobre empregar pessoas como escravos e alojá-las como gado, o eminente jurista: moita carrasco.

Portanto, pra este eminente jurista, e para o grémio de patuscos que se reclama como baluarte do Estado de Direito e “dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos”, o que se passa em Odemira com os frutinhos vermelhos (e noutras explorações agrícolas do país) - a exploração laboral e o alojamento desumano - a escravatura - deve ser constitucional, ou seja, não deve lesar os direitos humanos.

Por isto, e para lhe fazer justiça, ainda que com linhas tortas, tomei a liberdade de lhe desenhar um retrato. Espero que não lesione demasiado os direitos dos leitões.

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