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sexta-feira, 12 de junho de 2026

David Hockney (1937-2026)

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Como já referi aqui, penso que o deleite estético como experiência sensorial  proporcionada pela arte contemporânea é como o orgasmo da frigidez: fingido, snob e por sugestão auto-induzida; só se "chega lá" através de vasta literatura anexa.

Mas David Hockney não pertence a esta tradição

Ao contrário de Marcel Duchamp, David Hockney não é um filósofo que questiona a arte, é um artista que questiona a vida. 

Ao contrário de Duchamp (e dos seus herdeiros), Hockney não tem pruridos com o prazer retiniano nem com o labor oficinal. 

Ele é um dos últimos de uma longa linhagem de artistas para quem o acto de ver é tão fundamental como o de fazer; e é isso que ele faz: observa e faz, dá a ver. Para isso serve-se, com as mãos ambas, de todas as técnicas tradicionais conhecidas e até de tecnologia de ponta.

A sua obra é um imenso prazer para a vista; um espectáculo de petites sensations fundamentais, como sentir e raciocinar. Ou seja, é um privilégio para a inteligência.*

David Hockney morreu ontem, “pacificamente, em casa, a 11 de Junho, um mês antes do seu 89º aniversário".


*Este texto é de 2012, tal como o desenho.

domingo, 17 de maio de 2026

João Abel Manta (1928-2026)


 

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João Abel Manta morreu; aos 98 anos. Trata-se de um artista visual cuja obra monumental e multifacetada tem uma dimensão que não cabe num obituário. Era filho único do pintor Abel Manta e da pintora Maria Clementina Carneiro de Moura. Em 1971 auto-retratou-se, como sempre “com traço limpo e maneirinho”, com o seu amigo José Cardoso Pires em demanda do burro-em-pé. A verdade porém é que João Abel andou toda a vida nessa peregrinação; quase sempre sozinho - “circulando entre os dedos espetados, alçapões e sinais de alto lá que povoam a comarca e suas regedorias”. Toda a sua vasta e diversificada obra é uma crónica, “em papel público”, disso mesmo. Desenhou selos e cartazes, cenários e tapeçarias, painéis de azulejos e padrões de calçada portuguesa, edifícios e caricaturas. 

E fez-se cartunista - primeiro contra a ditadura e depois pela revolução. Após a morte desta, e de seu pai, dedicou-se finalmente à pintura. "Nestas obras pratico uma inocente pintura a óleo sobre tela, […] para explicar a quem interesse o que penso do mundo e das coisas do passado e do presente", diz que disse. 

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Tempos tenebrosos.

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A Bienal Internacional de humor gráfico Luiz d'Oliveira Guimarães, organizada há 18 anos pela humorgrafe, de Osvaldo Macedo de Sousa, em Espinhal - Penela, acabou. Já não terá a sua décima edição. Não por falta de compromisso da organização na sua continuidade, nem por razões económicas, nem por falta de adesão de artistas de todo o mundo ou de cumplicidade e simpatia do público local. Forças estranhas, incompreensíveis, resolveram destruir este projecto que era não só um balão de oxigénio local como internacional” - referiu Osvaldo, em comunicado publicado no blogue humorgrafe.

Sediada no Espinhal, terra natal do escritor e humorista Luiz d'Oliveira Guimarães, a Bienal de humor era - em palavras de António Antunes Alves, então presidente da Câmara Municipal de Penela no prefácio do catálogo da sua terceira edição em 2012 - “a demonstração de que também é possível realizar acções culturais de elevada qualidade e de âmbito mundial em territórios de baixa densidade como é o concelho de Penela”.

Assim, aquela que era uma referência luminosa na paisagem cultural da região e uma das mais relevantes iniciativas do seu género no nosso país foi “descontinuada”, de forma categórica e inflexível, por forças estranhas, incompreensíveis, que agora gerem as instituições que a tornaram possível durante nove edições. Contra isso e apesar de todas as minhas tentativas, nada posso fazer”, escreve ainda Osvaldo que conclui o seu comunicado com um desabafo lúcido e que espero não desalentado: “Vivemos tempos tenebrosos e o humor é cada vez mais perseguido e calado”.

Eu tive o privilégio e a honra de ter colaborado com Osvaldo e com a sua Bienal – em 2012 integrei, como caricaturista convidado, o juri de selecção da sua terceira edição participando (extraconcurso) com uma pequena exposição dos meus desenhos. Mais recentemente, em 2024, integrei, também a convite de Osvaldo, a exposição “50 ícones da resistência e resiliência humana”, com outros 17 artistas gráficos, todos portugueses - uma grande mostra que ele quis integrada no âmbito da comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e foi mais uma das imensas iniciativas paralelas que o Osvaldo tinha por hábito organizar à margem da Bienal. No início de 2025 pedi-lhe um texto para o catálogo de uma grande exposição de 170 dos meus desenhos que tinha programada para Setembro desse ano e, na volta do correio (electrónico) recebi, graciosa e generosamente, um copioso, exaustivo e luminoso estudo sobre o humor na história da arte a propósito da minha “obra”, que infelizmente ainda está inédito - o projecto, à míngua de espaços expositivos disponíveis, não se concretizou - porque também na Figueira se vivem tempos tenebrosos.

Historiador por formação, Osvaldo dedicou quarenta e cinco anos da sua vida à investigação, divulgação e dignificação da arte da caricatura e - nas palavras do caricaturista José Oliveira - “da sociabilidade dos cultores desta arte”. Ainda segundo José Oliveira, “o seu trabalho tem dimensão gigantesca, sem a mínima correspondência em proveitos materiais. O documento mais visível do seu trabalho de investigação é a obra monumental (mais de duas mil e cem páginas, em cinco volumes) intitulada História da Arte da Caricatura de imprensa em Portugal, publicada entre 1998 e 2002, com edição partilhada pela Secretaria de Estado da Comunicação Social”. Uma obra que ele generosamente me ofereceu - talvez para me compensar por me ter sujeitado ao muito honroso mas algo desconfortável privilégio de avaliar os meus pares - proporcionando-me assim o ensejo de avaliar a dimensão de uma obra que nem sequer era a sua actividade principal. Osvaldo era cantor lírico; integrava o coro do Teatro S. Carlos; o humor gráfico e a arte da caricatura são apenas o seu “violon d’Ingres”- um violino que ele “toca” como um virtuoso, promovendo o riso e a reflexão pelo bom humor, a sociabilidade entre os autores e os apreciadores do desenho atrevido, a edição de valiosos catálogos e preciosas monografias e ainda concursos, exposições, encontros e colóquios por todo o país e até no estrangeiro.

Por tudo isto não posso deixar de lhe estar profundamente grato. E é precisamente por a Bienal de humor Luiz d'Oliveira Guimarães ter sido, das suas iniciativas, a que obteve “mais êxito geral, a que alcançou o maior índice de participantes, nacionais e internacionais e a que atingiu o mais alto nível estético e filosófico” que também estou ansioso pelo seu próximo projecto. Precisamos de mais luz nestes tempos tenebrosos.