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terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Eis o homem


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               No regime burguês os que trabalham não lucram e os que lucram não trabalham

Friedrich Engels

Este é mais um retrato cantinflesco. Da galeria dos ministros de António Costa. Neste caso um ex. Ex-ministro. Pedro Nuno Santos.

Tal como Friedrich Engels, Pedro Nuno Santos também é filho de um industrial (um no ramo dos lanifícios, em Manchester, no século dezanove; outro no ramo do calçado, em S. João da Madeira, na actualidade). Ambos socialistas, bem-parecidos, altaneiros e façanhudos. Mas receio que as semelhanças fiquem por aí.

Se não, vejamos: Frederico foi um socialista que defendeu abertamente a igualdade entre os homens numa sociedade sem classes pugnando contra o regime burguês e contra tudo o que este prezava, como a propriedade privada, a usura, o lucro, a ganância, a acumulação, a herança, a santa religião, o casamento (e o baptismo, a confissão, a penitência, até mesmo a extrema unção). Protector e principal colaborador de Karl Marx, Frederico escreveu uma porção de obras (A Sagrada Família, 1845; Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, 1880 e A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, 1884, por exemplo) que ajudaram a consolidar aquilo que hoje se chama marxismo.

Pedro Nuno, por seu lado, é um socialista que já foi ministro (demitiu-se por causa de um diz-que-disse-que-não-sei-quê-que-não-me-alembra-mas-já-vou-ver-no-meu-noutebuque) e, segundo alguma imprensa, também bastante acantinflada, representa a “ala esquerda” de um partido socialista que defende a economia de mercado (!).

Como vedes, não tem nada que ver.

A não ser o facto (talvez não despiciendo) do homem não se importar de pertencer a um clube que o aceita como sócio.
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

O bi-“botas” (ou salazarinho 0.2 ou “de segunda”)


 

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O PSD de Montenegro não despenca. Diz que no partido vão aparecendo vozes críticas; que ninguém dá um passo para contestar o líder mas que Pedro Passos Coelho é o desejado. O jornalismo especulativo já se interroga se haverá condições políticas para o seu regresso à liderança do PSD.

Pedro Passos Coelho afigura-se assim - para esta estirpe de jornalismo enFerrojado e para sensibilidadezinhas piedosas que ficam todas molhadinhas à sugestão de um líder musculado - uma espécie de D. Sebastião com hormonas que espera sentado o apelo da pátria ansiosa para depois, como um salazar viúvo, de cabeça rapada e barba de três dias, a poder libertar de vez dos comunistas, dos sindicatos, dos buzinões, das greves, dos pobres, dos pretos, dos ciganos, dos imigrantes, dos identitários e das melgas que espantam os turistas, mas também para lhe sanear o défice das finanças públicas e “federar a direita balcanizada”, isto é, meter num bolso todos os queques coloridos do liberalismo luzitano e até mesmo os rolõezinhos pretos do integralismo chegano.

Representei-o assim mesmo, meio encoberto algures em Massamá, sentado num mocho com rodinhas à espera da vaga de fundo - com o seu pugrama para as classes média e baixa nas mãos e ambos os pés enfiados nas botas da defunta múmia de Santa Comba.

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terça-feira, 10 de janeiro de 2023

A Cantinflada ou a manipulação do caos

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Diz-se que uma vez, no teatro, o actor mexicano Mário Moreno esqueceu-se de uma deixa e resolveu dizer tudo o que lhe veio à cabeça, num novelo incoerente e improvisado de frases invertidas e palavras truncadas. Foi um sucesso imediato na geral embora tivesse sido severamente censurado nas filas da frente, por causa da sintaxe. Contudo, segundo o escritor Carlos Monsivais, Moreno “deu-se logo conta que o destino tinha posto nas suas mãos a sua característica distintiva, o estilo que é a manipulação do caos. Na semana seguinte inventou o nome que marcou a invenção: Cantinflas. Moreno foi modulando o seu personagem e os tiques do seu peculiar estilo de linguagem em vários papeis numa vasta lista de filmes ao longo de várias décadas e conquistou fama e fortuna em todo o mundo hispânico (mas também entre nós) e um lugar no panteão do cinema, mas também a consagração pela Real Academia Española que, em 1992, incluiu no seu Diccionário de la Lengua o verbo cantinflear e as palavras cantinflas e cantinflada e posteriormente haveria de acrescentar ainda os adjectivos cantinflesco, cantinflero, e acantinflado e ainda o substantivo cantinfleo. Tudo isto relativo à prosápia sem sentido ou à facúndia sem conteúdo.

Quando António Costa disse pretender "estabelecer um circuito que permita evitar desconhecer factos que não estamos em condições de conhecer" não sei se teve a mesma epifania que Moreno, isto é, não sei se teve a consciência súbita que tinha também logrado a sua característica distintiva, o seu estilo de manipular o caos. Também não faço a mais mínima ideia se o termo cantinflada existe no léxico português ou no inefável “Dicionário” da Academia das Ciências, mas o conceito não é de todo estranho à praxis e ao discurso políticos da ditosa pátria.

António Costa, mesmo que não tenha disso consciência, é um político cantinflesco (domina como poucos a arte de falar muito sem dizer porra nenhuma com aprovação geral, como o presidente Marcelo e Mário Moreno) e lidera um governo também ele, benza-o deus, bastante acantinflado.

Eu tomei a liberdade, deus me ajude, de fazer o retrato e a ficha a todos os seus ministros (ou pelo menos aos mais proeminentes, os mais ditosos na arte de manipular o caos).

Hoje calhou a vez a Manuel Pizarro. Pizarro é médico, ainda que não muito praticante, e diz-se socialista, algo que pratica ainda menos. Mas quando fala também ninguém o leva preso. O que ele pratica com gosto e proveito é política, em público, e consultadoria, em privado (não se trata exactamente de consultas médicas, mas da venda de conselhos de negócios, na área da saúde). Contudo, para ele poder ir gerir a pasta da Saúde Pública a modos que se viu obrigado por lei a encerrar a sua actividade empresarial de consultadoria na mesma área. Os sacrifícios de que um homem empreendedor é capaz para governar este país.

Acham que o retrato ficou satisfatório, ou esperavam algo mais… sei lá, cantinfleiro?
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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

A secretária do nosso tesouro


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“Nunca aceitei e devolveria de imediato” qualquer quantia fora do “estrito cumprimento da lei”.

Alexandra Reis é a imagem mais capitosa da classe dirigente lusitana. O retrato mais vivo e fiel da nossa gestão-de-ponta. Mas também, receio, do português comum. Reis foi constrangida à demissão por questões morais, não por questões legais. A Lei, em Portugal, não é informada pela moral, ou pla ética.

Reis foi para a TAP despedir pessoas. Despediu mais de três mil. Foi avara nas indemnizações. Aos que ainda lá ficaram também os constrangeu a reduzir remunerações. Depois, também ela foi dispensada. Não se coibiu, no entanto, de reclamar para si a mais repolhuda das compensações. A Lei permite-o, aos gestores, o que não faz aos trabalhadores. De seguida foi estrafegada nos jornais e nas redes sociais. Um escândalo; imoral, clamaram; até gorda e feia lhe chamaram as almas puras e castas e elegantes e belas e censuradoras.

Não vi ninguém clamar contra a imoralidade de uma lei que consagra o privilégio e, por tanto, a iniquidade. Talvez porque é este o tesouro que realmente prezam todos os portugueses, desde sempre: os da classe dirigente, com os seus cavalos, bispos, torres e gestores-de-ponta; e os da classe dirigida, com os seus peões.

Um tesourinho consagrado nesta reveladora e deprimente máxima do senso-comum português de Lineu, intuída por todos desde piquenos: quem parte e reparte e não fica com a melhor parte ou é tolo ou não entende da arte.
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domingo, 18 de dezembro de 2022

O “panorama” Santana Lopes: do xuto na incubadora à fuga do pé para a chinela


 

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“Queria aproveitar esta oportunidade para dizer o seguinte, a Figueira da Foz não tem a dimensão que tem Coimbra (…), é uma cidade média, com uma história de que se orgulha, com uma atratividade enorme (…) e, portanto, tem de agir, na área da comunicação, com respeito por essa história, por esse estatuto, por essa vontade. E isso não é consentâneo – e nada tem a ver com os profissionais da comunicação social presentes – com o tratamento - e não falo pelo protagonismo de quem dirige o município neste momento, porque não necessito -, que é devido, nomeadamente na região e nos órgãos da região. Esta é uma questão de honra para o município. Porque o município, de facto, é bem tratado por quem nos visita e vem de fora, e por quem cá está e nos conhece bem também temos de o ser. Já o manifestei aos proprietários dos órgãos de comunicação e quero aproveitar esta cerimónia para o reafirmar. Porque se o panorama não mudar, da sociedade civil outras iniciativas terão de ter lugar para mudar este panorama”.

Pedro Santana Lopes, em cerimónia pública realizada quinta-feira dia 15 de Dezembro, na Casa do Paço, Figueira da Foz (transcrito pela Revista Óbvia e copiado da página desta do facebook, com a devida vénia)

 

O cidadão Charles Foster Kane nofundo-nofundo só queria que gostassem dele. Para isso era capaz de todo o tipo de patifarias mais ou menos revoltantes. Tal como, nos nossos dias, Elon Musk, outro milionário triste, patético e prepotente. 

Santana Lopes, o represidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz, padece aparentemente da mesma estirpe de melancolia mórbida, uma espécie de necessidade compulsiva, quase mística, de aprovação. Santana não suporta a objecção, a reticência, a discordância; muito menos a crítica, a ironia, o dichote ou o afrontamento; apenas se satisfaz com o entusiasmo. 

Assim, depois de ter derretido uns milhares de euros do erário municipal em tenças e mantenças a alguns dos mais solícitos lambe-cus da praça figueirinhas, depressa chegou, porém, à conclusão de que jamais haveria nos cofres municipais (nem nos do Banco da América) dinheiro suficiente para recompensar o ditirambo mercenário a todos os lambe-cus da paróquia. Por isso passou aos finalmentes. Falou com os “proprietários dos órgãos de comunicação” e disse-lhes meus meninos ou gostam de mim ou gostam de mim. Não satisfeito, passou, às ameaças: “se o panorama não mudar, da sociedade civil outras iniciativas terão de ter lugar para mudar este panorama”. 

Ou seja, se bem entendi o arrazoado, o panorama pode ser descrito, muito mais sobriamente, deste modo singelo:

-se não dizem bem do Santana, vem aí o homem-do-saco, que é amigo dele, e faz uma OPA ao calinas, ao jornal Asbeiras, ao Figueirense e até ao “O Dever” e ao jornal do Lidl e integra-os todos num grande grupo de comunicação, um empório de jornalecos que diga tão bem dele como o do citizen Kane dizia do cidadão Charles Foster. E se isto não chegar, compra também o twitter ao Elon Musk. E faz como este: corta o pio a quem disser mal dele. 

Estão a ver o panorama?

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Álvaro Pacheco ou o futebol como metáfora da vida


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O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia

Millôr Fernandes

O Brasil já foi, aos pés da Croácia. O virtuosismo deslumbrado, oxigenado e imbecil vencido pela competência.

Portugal também. Também já foi. Aos pés de Marrocos. A presunção e a fé-na-virgem-e-não-corras (de uma geração de jogadores ungida de superlativos e adulada até à idolatria por uma imprensa medíocre e laparota, fascinada por cotações de mercado, milhões e contratações) vencidas pelo mérito, pelo esforço e pelo talento.

Sem espinhas. E, como sempre, sem honra nem glória nem dignidade: o capitão e ídolo da equipa, um canastrão com 37 anos, sai do estádio lavado em lágrimas como um fedelho de cueiros (para grande e emocional comoção de todos os adeptos, ou adictos, toldados por um sentimentalismo patriótico, tóxico e imbecilizado pela narrativa cínica dos media) enquanto o sub-capitão da equipa que passou o jogo quase todo a atirar-se para o chão tentando cavar cartões aos adversários e a almejada “grande penalidade” põe a merda toda no ventilador insinuando culpas para a arbitragem.

Quem não sabe perder com dignidade não sabe, nunca saberá, vencer com mérito. Faltar-lhe-á sempre respeito sincero por si próprio, pelo adversário e pelo público; amor genuíno pelo jogo; e igual desprezo pelo resultado.

É o que não falta aos verdadeiros campeões. Como Álvaro Pacheco por exemplo, o treinador agora despedido pela SAD do Vizela Futebol Clube (clube que representava desde 2019, época em que disputou o campeonato de Portugal, antes de duas subidas consecutivas até à I Liga) por “divergência de opiniões em relação ao projecto desportivo do clube”, num dos episódios mais paródicos e sinistros do inenarrável “futebol português”.
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