sexta-feira, 12 de abril de 2019
terça-feira, 9 de abril de 2019
segunda-feira, 8 de abril de 2019
O genoma do gambuzino ou a fé na treta
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Ensinar não é transferir conhecimento mas criar as possibilidades de o produzir
Paulo Freire
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Em Portugal, a prática das medicinas alternativas está
legalizada desde 2003. Em 2013, a sua prática foi regulamentada. Há pessoas,
como David Marçal, por exemplo, que acham que isto “é como legalizar o comércio
de torradeiras avariadas”.
Ah, a lei que regulamenta a sua prática, também autoriza as
universidades a criarem licenciaturas,
doutoramentos e mestrados nessas áreas do, digamos assim, conhecimento. Ou seja, as universidades, esses templos da ciência
(do conhecimento testado), também sancionam algo que “parte de uma base não
científica“. David Marçal, ainda ele, não se conforma: “Não faz sentido criar licenciaturas em coisas
que não têm fundamentação científica. Dizer que estas práticas funcionam até
porque são dadas num curso superior é dar-lhes uma credibilidade artificial.
Também devemos dar cursos superiores de astrologia?”
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Dito de outro modo, se a assembleia (o povo, através dos
seus representantes) reconheceu o gambuzino, a universidade portuguesa
identificou-lhe o genoma. A seguir dividiu-o em cátedras. E, assim, o ensino
superior passou a sancionar a treta e
até a formar os seus especialistas. Em
graus: licenciados, doutorados e mestres. Os especialistas da treta.
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Mas não é só David Marçal que se insurge contra este
verdadeiro culto da treta – ou seja, do logro e da estupidez armada aos cágados - também há este senhor.
Mas não é só
através da denúncia e do escárnio que se combate a fé na treta. A arma mais demolidora desta forma insidiosa de
estupidez, de ignorância armada, é a educação; o problema é quando e aonde,
como agora em Portugal, a estupidez é ensinada a gente grande, em escola superior. Eu refiro-me à verdadeira Educação
(deve ser pronunciada à maneira de Mário Viegas: ”es-co-la”).
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É por isso que Paulo Freire é o nome mais odiado pela clique que manda agora no Brasil (talvez
mais até que o do próprio Lula). Porque Freire, o mentor de uma educação para a consciência, defendia,
como objetivo da escola, ensinar o aluno a "ler o mundo" para poder
transformá-lo.
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O Bozo e os nazionários chamam-lhe doutrinário e odeiam-no porque uma gente educada nesta pedagogia é
muito céptica em relação ao calcitrim,
ao céu, ao inferno, ao cogumelo do tempo, aos benefícios da acumulação, aos
meninos de azul e às meninas de rosa, à frigideira que frita sem gordura (especial porque tem tampa mas se comprar já
recebe a tampa grátis), aos gestores não-executivos, aos zingarelhos para
ouvir melhor, às curas milagrosas do bispo Edir Macedo, às maravilhas de
empreendorismo, aos milagres de Fátima, às leis do mercado – isto é, perde completamente
a fé na treta - na, esta sim doutrinação, da ignorância.
E isso eles não perdoam.
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domingo, 31 de março de 2019
Algumas ideias para a iconografia do nada ou da coisa em forma de assim.
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Então é assim: a Figueira da Foz, a bem dzer, tem tudo. A
única coisa que lhe falta mesmo é um “ícone” turístico. Assim uma coisa em
forma de assim mas que atraia o turismo; e as massas, claro.
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Quem o diz é o ex-vereador Vaz, engenheiro e tal. Ainda e sempre no “jornal” As Beiras - a prova provada, para que se veja, de que à Figueira
não falta nada; nem idiotas nem sobretudo plataformas onde eles se manifestem, explanem as suas ”ideias” – é assim: o “jornal”
dá-lhes espaço e eles, eureca!, espalham-se,
explanam-se ou seja, dão ideias. Como
por exemplo um “passadiço à volta da Serra” ou um “edifício subaquático”.
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E porque não, engenheiro Vaz, um edifício à volta da Serra
e um passadiço sub-aquático? Hmmm?
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Mas porque não, engenheiro,
recorrer à arte? Nada como a arte para criar “ícones”, “dar carácter”, “empolgar
as pessoas”. Porque não encomendar uma escultura a Botero, por exemplo? – Um figo.
Um figo equestre. Seria um figo gordo, claro (a gordura ainda é formosura, em arte).
Atrairia muitos papalvos. Garboso, doirado e monumental. À porta do mercado,
por exemplo. Parece que já estou a ver.
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Ou então porque não
encomendar uma intervenção ao artista Whils (aka Alexandre Farto) na cidade? A arte do moto-pico atrai muitos
pacóvios, também. Podia ser, por exemplo, nas paredes de vidro do Casino. Um
espectáculo. Pensem nisso.
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Ou então, porque não pedir a
Joana Vasconcelos uma instalação? No Largo da Má Língua, por
exemplo. Parece que já estou a ver: uma língua monumental, retorcida e reluzente
de lédes de várias cores, toda feita de plástico reciclado, claro; ou, melhor
ainda, de pensos higiénicos ou tampões.
Viriam charters apinhados de
palermas para ver.
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Sim, porque uma cidade que
já tem tudo para que precisa de uma maternidade, de creches públicas, de
ligações ferroviárias, de livrarias, de lojas de ferragens, de estaleiros
navais, de um teatro, de jardins, de uma rede de transportes públicos? Ou de amor-próprio,
de conhecimento da sua história, de consciência da sua própria identidade e, enfim,
de alguma cultura geral?
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Ah e tal “Os ícones vendem bem, em termos turísticos.
Há que saber criar um bom chamariz, que dê carácter e possa empolgar as pessoas,
locais e forasteiros. Na Figueira não temos tido quem o saiba fazer” -
diz o engenheiro eureca Vaz, naquele peculiar linguajar de marqueteiro, ou de
merceeiro empreendedor.
E o Vaz sabe. Ele é
engenheiro. E xcreve nas Beiras.
O que o Vaz não sabe, nem
imagina, é que depois as pessoas hão-de cá vir ver o “ícone” e, como de
costume, vão embora depressa. Circulam, engenheiro Vaz.
Porque, mesmo os mais
néscios dos papalvos, também hão-de dar-se conta de que, a toda a volta do ícone, não há rigorosamente mais nada para
ver; nem para fazer.
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terça-feira, 26 de março de 2019
sábado, 23 de março de 2019
Serviço público.
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Os meus
caminhos nunca vão dar ao casino (a qualquer casino).
Hoje, por exemplo, os
meus passos dirigir-me-ão ao Salão Brasil, em Coimbra. Para ouvir falar de
humor, a sério.
Cada um faz a sua estrada.
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sexta-feira, 15 de março de 2019
domingo, 10 de março de 2019
sexta-feira, 1 de março de 2019
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019
O carnaval avança a todo o vapor
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A Primavera, é sabido, chega cada vez mais cedo. Os dias
amenos desinibem. Até a estupidez (sobretudo esta) desabrocha, rutila,
resplandece. E com ela o carnaval.
Na Venezuela, por exemplo, o auto-proclamado rei-momo,
defende alegremente uma invasão militar estrangeira. Guaidó (é esta a sua
graça) foi designado presidente interino
por uma comissão presidida à distância pelo vice dos Estados Unidos, o
não-menos carnavalesco Mike Pence. Foi imediata e internacionalmente
reconhecido pelos Estados Unidos e por um sem número de governos, entre os quais o
nosso. é carnaval, ninguém leva a mal, aposto que devem ter pensado. Os Estados Unidos são presididos por Donald Trump, alguém também
bastante carnavalesco, não desfazendo.
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Já no Brasil, o carnaval não é um chá dançante. O rei Momo
é o presidente eleito. Trata-se de um ex-capitão, expulso do exército por
insubordinação, que comanda um governo vice-presidido por um tal de Mourão,
general no activo. O governo é constituído em partes equilibradas por militares
obtusos, bancarroteiros fanáticos (ou vice-versa) e uma beata, igualmente
fanática e obtusa; todos no activo.
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Em Portugal o presidente perde popularidade. É verdade. O
povo viu finalmente o cu ao populismo. Estava escrito nos astros (vinha no Sol). Para a próxima, Marcelo perde para
o Tino de Rans, logo à primeira volta. Digam lá que isto não tem potencial
carnavalesco.
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Potencial carnavalesco tem a Câmara Municipal de Torres
Vedras que patrocina o carnaval das matrafonas. Cem anos depois da implantação
da República retirou obedientemente uma imagem farsola do cortejo (uma virgem
com cara de bola) para não melindrar a santa sensibilidade da igreja católica
local, essa inefável e carnavalesca congregação pederástica de matrafonas. O
que todavia torna tudo ainda mais carnavalesco é a reverência geral, a bonomia
do respeitinho; como se a aceitação
pacífica de uma arbitrariedade imbecil fosse um facto da vida, uma coisa natural.
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Ainda em Portugal, na Figueira da Foz, onde como é sabido o
carnaval nunca acaba (na sua peculiar tradição secular o ano figueirinhas não
tem quarta-feira de cinzas). O rei e
a rainha do carnaval foram recebidos nos paços do concelho com pompa e
circunstância e Avelino Gaspar, o patrão da Lusiaves (empresa condecorada pelo
município por altruísmo) foi acusado
plo ministério público de insolvência dolosa e branqueamento de capitais, ou
seja, bancarrotismo.
Ainda na Figueira, o pugrama do Jotalves vai para uma
segunda temporada. As coisas boas e realmente relevantes nunca acabam.
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Entretanto, o grande educador da classe operária, o
camarada Arnaldo Matos, bateu a caçuleta; esticou o pernil, foi fazer tijolo.
O revolucionário
mais bem visto pelas elites moderadas
do país – tinha, dizem, um particular
gosto em conversar com o Dr. Mário Soares - entregou a alma ao criador, como referiu Pacheco
Pereira. Dele disse também o presidente Marcelo que “ficará na memória de todos como um defensor ardente da liberdade”.
Segundo o circunspecto Observador,
a principal actividade política do camarada Arnaldo no último ano e meio passou
plo twitter. Tinha 3500 seguidores directos. Foi através desta plataforma que
chamou “monhé” a Costa, ”putedo” á geringonça, apelou à luta armada, desejou as melhoras a Marcelo,
defendeu os atentados terroristas de Londres e, preocupadíssimo com a saúde do
papa, alertou que o palco dos encontros
da juventude é um local “difusor de legionella”.
Ah, mas o “nosso
rasputinezinho”, como lhe chamava Natália Correia, não foi para câmara de
gás (foi cremado) sem o protagonismo (ainda que passivo) em mais um episódio, o
derradeiro, carnavalesco: o seu partido (o émeérrepêpê, porra) foi ardentemente acusado pelo filho de lhe
sequestrar o cadáver que arrefecia no velório.
Mainada. O carnaval avança a todo o vapor.
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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
o conselheiro de segurança
Este é John R. Bolton. Trata-se do Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Trump. Não é bem a
ele que o nosso SS (Santos Silva) reporta, mas sim a Mike Pompeo, que está logo
abaixo na chamada cadeia de comando, mas adiante.
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Bolton é um diplomata, advogado e ex-militar muito
influente nos meios conservadores lá do sítio. Enfim, é o que nos círculos mais
informados da plítica externa dos gringos se chama vulgarmente um falcão; ou um águia, não sei bem; em todo o caso trata-se de uma ave de rapina. Apesar
do seu aspecto patusco de velhote lunático e inofensivo, Bolton é um dos mais
fanáticos e irredutíveis teóricos da agressividade expansionista da actual plítica
externa do seu país e um dos mais esbaforidos apóstolos da utilização de meios cada
vez mais assumidamente virulentos e violentos para a concretização no terreno
desse velho imperialismo de conquista. Trata-se, portanto, de um duro.
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Mas como se temperou o aço de toda aquela dureza?,
perguntais vós.
Pois para o saber não é necessário ir muito longe nem muito
fundo. Basta ir à Wikipédia, e está lá tudo escarrapachado: na juventude, de
1970 a 1976 (durante a guerra do Vietnam), John R. Bolton serviu na Guarda Nacional
do exército dos Estados Unidos, no Maryland.
E vuálá, eis a verdadeira índole da ave rara. Ou seja, no fundo nofundo, toda a águia, ou falcão, tem
dentro de si uma galinha.
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sábado, 2 de fevereiro de 2019
O cómico da Situação (2)
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Numa das habituais reflexões com que tenho por hábito ilustrar os pobres
desenhos que edito neste blogue, enunciei uma vez que o humor consequente não
é moral nem imoral, é amoral; isto é, move-se em terrenos
do senso comum, não da moral, que é um dos domínios do preconceito. Não me
ocorreu, no entanto, acrescentar que também penso que, mesmo que se mova no
amplo mar do senso comum, nunca o humor aí deve navegar à bolina; ao invés,
deve fazê-lo sempre ao contrário: sempre contra os ventos dominantes e sempre sempre contra a corrente. Sob o
risco de se tornar previsível, redundante, consensual. recomendável. E não há
nada mais pífio e frouxo do que o humor recomendável.
Luís
Afonso é o humorista gráfico mais recomendado, disputado e requisitado pelos
editores do humor publicado em Portugal.
Trabalha diariamente para uma porção de jornais e outras publicações (o
que dá a sensação de que não existe no país mais nenhum outro humorista gráfico
no activo), mas agora está literalmente em todo o lado, incluindo na rádio e na
televisão.
E
o que faz o trabalho de Luís Afonso tão recomendado e recomendável?, perguntais vós.
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Pois bem, não são certamente os seus méritos estritamente gráficos, suponho (o
desenho e tal) - como o próprio, aliás lucidamente, reconhece. Esmiucemos então
o seu humor padrão, digamos assim.
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O humor de Luís Afonso tem aquele jenesécoá que não ata nem desata, não torce nem amola, não incha nem
desincha, não aquece nem arrefece, não adianta nem atrasa, não chove nem molha
e não cheira nem fede que se consubstancia num apreço tão óbvio pelo “incontornável” que o
torna previsível e redundante e por isso tão consensual, amável, e sobretudo tranquilizador, para os directores e chefes de redacção dos jornais
em que publica (para eles é um descanso, porque sabem que dali nunca há-de vir
melindre na caixa de comentários, nem indignação nas redes sociais, nem
telefonema lá de cima, nem processo
judicial).
A sua Mosca, à qual é impossível escapar (se não a apanhamos na
rádio apanha-nos na televisão), é o exemplo acabado e irritante de uma irreverênciazinha mole,
uma sátirazinha inócua e uma ironiazinha pífia com moralzinha edificante e
rematezinho sentencioso que não só não me faz rir como me enfurece; e nem
sequer me faz pensar – a não ser que Luís Afonso é o caso ilustrado do cómico
da situação.
Porque,
confesso, o que realmente a mim me tira do sério (me faz rir) é quando o
imprevisto, o incongruente, o abrupto, o grotesco, o irracional, o equívoco, o
bizarro, o obsceno e exagerado absurdo do não sentido de coisa nenhuma atropela
à força toda o senso comum das certezas absolutas.
Como
um peido num funeral. Ou uma vuvuzela num concerto de violinos; ou vice-versa.
Ou
como uma Kizomba no panteão nacional. Ou um assassinato num conselho de
administração; ou vice-versa.
Ou
como um hipopótamo no lago dos cisnes. Ou um terramoto em Fátima; ou
vice-versa. Sei lá.
Enfim,
aquele humor que é um remédio do qual Siné dizia qui fait mal et ça fait du bien.
Não este cómico da situação, esta espécie de placebo xaroposo que prescreve Luís Afonso.
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019
da incontinência
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Mais um cromo para o meu álbum do rosto da classe dirigente. Este é um predestinado. Para o mando. Já
foi uma vez secretário d’estado, sete vezes deputado, ministro cinco vezes. Já mandou
em quase tudo: na Educação, na Cultura, na Defesa, nos Assuntos Parlamentares. Não
se lhe conhece obra de jeito em nenhuma destas áreas.
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Augusto
Santos Silva começou no Liceu pla extrema esquerda revolucionária;
depois fez-se trotskista; apoiou Otelo e depois Ramalho Eanes; a seguir
Pintasilgo e, na segunda volta, Mário Soares. Entretanto fez-se académico. E descobriu
o Partido Socialista. É um sábio. Com obra publicada e tudo. Mas tornou-se
conhecido pela incontinência com que larga bojardas a despropósito de porra
nenhuma. Como esta, que lhe valeu o cognome de “o malhador”: “Eu cá gosto é de malhar na direita e gosto de malhar com
especial prazer nesses sujeitos e sujeitas que se situam de facto à direita do
PS e são das forças mais conservadoras e reacionárias que eu conheço e que
gostam de se dizer de esquerda plebeia ou chique, estou-me a referir ao PCP e
ao Bloco de Esquerda”. Agora manda nos negócios estrangeiros.
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Negócios
estrangeiros, salvo raras excepções na história de Portugal
(como, por exemplo, no tempo de Pombal, em que foram realmente relações exteriores), sempre foi o
eufemismo mais ou menos pomposo e elegante que qualifica a forma, quase sempre
canhestra, como o país faz alinhar a sua diplomacia
com a da potência que protectora a sua “independência”
- é verdade, meus bravos heróis do mar,
somos um protectorado. Antigamente (desde D. João I) era o império Britânico. Agora
(desde o final da segunda guerra) são, como é sabido, os Estados Unidos da
América.
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Neste sentido, Augusto Santos Silva limita-se a ser o
porta-voz da Secretaria de Estado. O “malhador” está finalmente sentado na sua “cadeira
de sonho”, o ex-esquerdista nas suas sete-quintas.
Deve ter sido aliás nessa qualidade que se largou, com mais
uma das suas irreprimíveis bojardas. Manifestando o seu pleno respeito “à vontade inequívoca” (!!!!)
mostrada pelo povo da Venezuela (!!!) disse esperar que Nicolas Maduro “compreenda
que o seu tempo acabou”.
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
O cómico da situação (1)
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Sendo
o cómico a intuição do absurdo, ele afigura-se-me mais desesperante do que o
trágico.
Eugène Ionesco
Um cidadão português que,
acabando de assistir a uma infame arbitrariedade policial, teve um desabafo
indignado (parece que exclamou qualquer coisa como “bosta de bófia”) logo foi
estrafegado (nas redes sociais) por milhares de ululantes boas-almas cujos
santos valores patrióticos foram vilmente ultrajados.
Logo-a-seguir, mais de
uma dezena de milhar de pessoas assinou uma petição de uma cidadã que se
declara «Portuguesa e civilizada» e que não pode permitir que o «tipo de
pessoa» a que o Mamadou Ba pertence tenha uma palavra a dizer na gestão do
país. Tudo isto acontece no país que não
é racista, mas “ele que vá lá prá
terra dele. Ora, não querem lá ver o filho-da-puta do… do… do… preto”.
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A verdade é que eu também
sou português, como Mamadou Ba. E não preciso de ser negro, como Mamadou,
para me indignar com a prepotência e com a injustiça. Por isso compreendo o seu
desabafo. Eu penso que violência arbitrária sobre gente já segregada é uma baixeza.
Até porque na minha família sempre ouvi dizer que ”polícia é abaixo de cão cinco graus”.
Mas o facto de isto ser
aprovado por uma mole humana que se diz “civilizada” e chocada por alguém
insultar a santa corporação que o pratica não deixa de ter um certo potencial
por assim dizer, cómico.
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É, portanto, no campo aberto do cómico, que estamos. E já
que aqui chegámos, resolvi esmiuçar, não o humor dos portugueses, que sei que é
melancólico e ressabiado, mas o dos humoristas de que eles se riem. Os profissionais.
Aqueles a quem os portugueses pagam para que lhes suscitem o riso. E seleccionei
dois que devem ser os mais unânimes e requisitados pois são autênticas vedetas, verdadeiras instituições no seu
género, ou ramo: Ricardo Araújo Pereira, no humor televisivo e Luís Afonso, no
humor gráfico (mas este fica para outra posta, que bem o merece).
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Esmiucemos então Ricardo Araújo Pereira.
Embora seja um
fenómeno televisivo, Ricardo está por todo o lado (tal como o Afonso, aliás): na
televisão, na rádio, nos jornais, na publicidade. O rapaz é um deus,
omnipresente. É bem-parecido diga-se, e tem uma cultura geral bem acima da
média, reconheça-se também. Teve uma educação religiosa, em colégios
exclusivos, onde viu a luz e se fez
ateu. Hoje é perfeitamente de esquerda
(vota no Livre, que é de um rapaz lá amigo dele); o que não o impede, contudo, de
sujeitar as filhas a frequentar também muito exclusivos colégios. Confusos?
É a estas extravagâncias de dândi que os tugas acham um
piadão (mais as tugas, de meia idade
- eu já referi que ele era bem parecido?). Ah, também é um assumido benfiquista, o que o identifica à
partida, com a imensa maioria da “moldura humana” que assiste às suas performances, desde logo muito mais predisposta à
condescendência.
Ricardo também alimenta uma espécie de ódio d’estimação pelo
seu homónimo Salgado porque, ao que sei - e só o sei por ele próprio, nos
programas de entretenimento em que participa (eu não leio revistas de
celebridades) – a conselho de Cavaco, Ricardo terá confiado no BES e Salgado ter-lhe-á
dado sumiço ao pecúlio de poupanças zelosamente ganho a fazer rir os
portugueses.
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Mas de que se riem os portugueses?, perguntais vós.
- Não de si próprios,
claro, isso nunca (os tugas têm a auto-estima em alta estima). Nem dos
milagres de Fátima, nem dos aventalinhos da maçonaria, nem dos látegos da opus dei; nem dos consórcios
de advogados; nem dos pareceres dos catedráticos de coimbrameudeus; nem sequer do empreendedorismo, da caridadezinha, das imagens de marca e da cultura gurmê, muito menos
do racismo larvar, da polícia, do exército ou dos tribunais (os
portugueses têm também muito alta estima plo respeitinho).
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Então,
perguntais vós, de quê ou de quem é que Ricardo Araújo Pereira faz rir os
portugueses, porra?
- Pois eu digo-vos: de tudo o resto.
Ricardo Araújo Pereira, no seu mais recente programa televisivo,
um suplemento humorístico do noticiário
da noite dominical da TVi (digam lá que as piadas não se fazem sozinhas) faz o que,
na opinião de gente que eu considero, é “humor inteligente e com qualidade” e “sem
medo de afrontar os instalados do regime. Da esquerda à direita do espectro
político nacional, varreu tudo e todos”.
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E quem são os instalados
do regime que Ricardo supostamente “varreu”?
- Pois bem, são os que erram (Bernardino Soares), os
vencidos (Luís Montenegro), os falhados (Rui Rio), os que caem (o já condenado Armando
Vara). Porque é disso que o povo gosta. De ver escarnecer os infelizes, de ver bater
em mortos. É isso, e apenas isso, que realmente faz rir os portugueses. E é
assim que Ricardo alcança a sua imensa popularidade. Sem jamais arriscar a mais
leve dissonância ao ululante e inflexível senso comum das maiorias.
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É por isso que estou convencido de que ele é um verdadeiro,
um autêntico, cómico da situação.
O que não estou certo é se ele já se apercebeu do absurdo
da coisa – enfim, se captou totalmente a piada, ou seja, se intuiu todo o
potencial realmente desesperante, ou desanimador,
da comicidade de tal situação. Receio
que não.
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