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sábado, 17 de setembro de 2022

O zero à esquerda

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“O primeiro-ministro, António Costa, assegurou esta sexta-feira que o Governo foi até ao limite do que era permitido pela Comissão Europeia nas ajudas às empresas que estão a enfrentar um forte crescimento do custo da energia. É suficiente? Seguramente que não. É aquilo que é o limite legal fixado pela Comissão Europeia e, portanto, a restrição não foi financeira, não foi política. É a restrição legal que vigora em toda a Europa para as medidas de auxílio de Estado”. 

Se bem entendo esta notícia do Observador, António Costa até fazia, mas não faz. Não porque hoje joga o Benfica ou porque o meu pai não quer. É porque a Comissão Europeia não deixa. Está-se mesmo a ver o que é necessário, mas "deus não permite". Ou seja, o país não tem soberania. O seu governo é um zero à esquerda, não risca nada. 

É assim:

Não no dá a pátria, não, que está metida no gosto da cobiça e na rudeza duma austera, apagada e vil tristeza.

Confesso que nunca tinha visto, nem ouvido, um governante português recitá-lo tão ilustradamente, assumindo-o com tão cândida como contentinha e quase orgulhosa imbecilidade.

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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

100 anos a arejar o sovaco


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Adriano Moreira fez cem anos. Entre hossanas e tiroliros, a imprensa hegemónica tem tratado proficientemente da sua beatificação.
Este blogue não podia, naturalmente, passar ao lado de  acontecimento tão incontornável. 
Este desenho é o meu modesto contributo para a alegre iconografia do humanista que mandou reabrir um campo de concentração.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Retrato de Carlos, o terceiro


 

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Enquanto o nosso chefe d’estado fazia o impossível por nos embaraçar a todos, participando activa (e arteiramente) na campanha eleitoral de Jair Bolsonaro enquanto fingia, com aquele ar cândido de pérfida ingenuidade, que participava nas comemorações do bicentenário da independência do Brasil, na Escócia morria a Rainha da Inglaterra.

Não é todos os dias que morre um realejo desta envergadura e relevância. Relevância e envergadura que compõem a pièce de resistance que resume o que salta à vista deste magistral e monumental e definitivo retrato que um dia (certamente quando estava pachorrento) o grande Lucien Freud lhe fez.

(Lucien Freud, no seu atelier, dando os últimos retoques no monumental retrato de Isabel II)
 
Como tal e como para rei morto rei posto, eu tomei a liberdade de retratar o seguinte. Charles the third. Com o triste passamento da senhora sua mãe, Carlos, o terceiro, herda uma fortuna que lhe dava para acabar com a fome no mundo e no seu próprio país e arranja, finalmente, emprego – aos setenta e tal anos.

Não se trata, como julgo evidente, de nada de magistral, monumental e muito menos de definitivo. É apenas um apontamento. Afinal o reinado inda nem começou. Mas promete.

Aqui entre nós, já não é a primeira vez que retrato gente da realeja, enfim de mui alta estirpe e assim. Já uma vez, por exemplo, retratei el rey imérito de Espanha e S.A.R. o rei de Portugal (se quiserdes fazer o obséquio de seguir os linques, um está aqui, o outro ali). Não são nenhuns Lucien Freud, mas haveis de convir que também não estão nada mal.

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terça-feira, 30 de agosto de 2022

O entreguismo e a santíssima ingenuidade


 

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“Não são as reconhecidas dificuldades orçamentais, mas a agiotagem, o compadrio, a submissão aos grandes grupos económicos e a falta de sensibilização social que põem em causa a sustentabilidade do SNS” 

António Arnaut, Discurso de Penela, 2012


Hoje há festa em S. Bento, na Ordem dos Médicos, na dos Enfermeiros e na indústria da doença em geral. Belos tempos para os canalhas, os compadres, os agiotas, os cínicos e os velhacos. A verdade, porém, é que não há fraude sem totós.

Demitiu-se a mais empática (choramingar em público cativa imenso a sensibilidadezinha à flor da pele dos simples e dos sentimentais) e talvez também a mais ingénua das eminências que coadjuvam esse fenómeno de popularidade, hipocrisia e cinismo político que é António Costa.

Marta Temido demitiu-se de madrugada (pla fresca). Embora aparentemente defendesse a prevalência do SNS, Marta Temido sujeitou-se, voluntária e ingenuamente, à tutela do ministério das Finanças, que lhe foi cativando meios e recursos. Por isso sai tarde e mal (por culpa própria) e com o ónus da responsabilidade pelo desastre que está a acontecer no SNS. Agora, Marta Temido irá naturalmente ocupar o seu lugar de deputada no parlamento, onde continuará certamente a cumprir o que prometeu ao seu bravo eleitorado do círculo de Coimbra.

Mas a entrega de tudo aos privados prossegue, naturalmente, com toda a normalidade. É o “socialismo moderno” em liberdade. E a plítica da União europeia.

Há gente que se diz “de esquerda” que votou nesta merda.

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sábado, 27 de agosto de 2022

Programa das festas

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INSTRUÇÕES PARA DAR CORDA AO RELÓGIO


Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo.
Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada.

Julio Cortázar, Manual de instruções, in Histórias de cronópios e de famas

Ontém fiz sessenta anos. Já vou mijando às pinguinhas, ouço mal, dói-me quase tudo. Vai-se andando. Como a conta era redonda, cá em casa acharam justificadas festividades e libações. De maneiras que hoje não me apetece fazer um corno, nem desenhos nem textos para os ilustrar.
Por isso, em lugar de mais um dos meus humildes originais, hoje decidi partilhar duas obras-primas absolutas e incontestáveis. Pedi emprestado um texto a Júlio Cortázar (que também nasceu no dia de ontem) e o desenho a José Guadalupe Posada (a primeira impressão da gravura “la calavera de D. Quixote perseguindo os esqueletos dos anões”) do qual, há anos, me permiti “roubar” o motivo do cabeçalho deste blogue.
No mais, vou continuar a fazer - com as minhas tamanquinhas, como sempre - um pouco mais ou menos o mesmo que até aqui: a investir, de lança em riste e à desfilada, como o quixote de Posada, sobre toda a casta de chiquinhos-espertos, de gigantones imbecis e de anõezinhos lambe-cus desta vida. Compreendo que, lá bem no fundo, já não interessa nada. Espero apenas divertir-me ainda tudo quanto possa.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Salman Rushdie


“’Respeito pela religião’ tornou-se uma frase de código que significa ‘medo da religião’. As religiões, como todas as outras ideias, merecem críticas, sátiras e, sim, nosso destemido desrespeito.”

Salman Rushdie

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domingo, 14 de agosto de 2022

O acaso como causa sem efeito – com resumo e nota de rodapé (em tempo real)


 

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- Era uma vez, a 13 de dezembro de 2015 (um domingo à noite), a TVi fez saber (em nota de rodapé) que o Banif ia ser alvo de uma medida de resolução. A notícia precipitou uma corrida aos depósitos que se concretizou, na semana seguinte, numa quantia de levantamentos muito próxima de mil milhões de euros, segundo afirmaram, mais tarde no parlamento, vários responsáveis.

- A 20 de dezembro de 2015, o Governo e o Banco de Portugal anunciaram a resolução do Banif.

O director de informação da TVi era Sérgio Figueiredo. Foi no mesmo ano que Figueiredo criou para Fernando Medina, então presidente da Câmara de Lisboa, um espaço de opinião política que lhe garantiu não só rendimentos mas também a visibilidade pública e a notoriedade política necessárias para, mais tarde, perder as eleições e chegar a ministro. 

- Em Março de 2020 foram ambos processados (a TVi e Sérgio Figueiredo) por decisão do tribunal da Comarca de Lisboa. Por ofensa à reputação económica do Banif. 

- A 10 de Maio de 2022, a própria TVi, sempre fiel aos seus pergaminhos, noticiou em primeira-mão, e em “acordês” como de costume: "a decisão do Juízo Criminal de Lisboa, hoje conhecida, foi perentória: absolveu a TVI, bem como o Diretor de Informação à data dos factos, por considerar que não estavam preenchidos os requisitos mínimos que pudessem gerar a sua responsabilidade" - o que deve querer dizer,  em português corrente, que o competente Juízo Criminal de Lisboa, instado plo Tribunal da Comarca da mesma cidade, deu como provado que entre causa e efeito não existe a mínima relação. Estas coisas não se inventam. 

Entretanto, a esta altura do campeonato, Sérgio Figueiredo já tinha abandonado a sua fulgurante carreira no jornalismo-de-merda e abraçado outra, igualmente promissora, como vereis, como consultor de sustentabilidade. Fundou, com a sua namorada, a empresa Plataforma Coerente (estas coisas não se inventam) e, em 2020, assinou um contrato com a Câmara Municipal de Lisboa, à época liderada por Fernando Medina, para gizar um plano de comunicação para promover as compras de Natal no comércio tradicional, particularmente afetado pela pandemia e consequentes confinamentos. Este plano, genial e ambicioso (custou trinta mil aéreos aos alfacinhas e levou 13 dias a executar) consistiu numa campanha de vídeos gravados com telemóvel (que podem ser vistos no canal Youtube da CML) nos quais vinte figuras públicas de reconhecida alta-cravadeira social (e óbvia proximidade ao casal plataforma coerente), se deixaram generosamente filmar proferindo doces abobrinhas sobre as maravilhas de fazer compras no comércio tradicional alfacinha. Os resultados da campanha para o comércio tradicional são, no entanto e até agora, desconhecidos. Talvez porque, à época, a CML não tinha ninguém realmente capacitado para monitorar os impactos deste género de plíticas públicas. 

- Destarte, em Julho de 2022, o mesmo Fernando Medina, agora já ministro das Finanças do governo de Portugal, contratou Sérgio Figueiredo para proceder à avaliação e monitorização do impacto das políticas públicas, em tempo real, junto do tecido empresarial, sindicatos e outras instituições da sociedade civil. O contrato, por ajuste directo, terá a duração de dois anos, durante os quais Figueiredo terá um ordenado equiparado ao vencimento mensal base (ilíquido) de um ministro (este montante foi posteriormente corrigido pois Figueiredo vai abichar 139. 990 euros brutos em dois anos, o que equivale a 5.832 mensais, superiores portanto, aos 4.767 inicialmente noticiados). Acrescente-se que, embora impedido de exercer outras atividades que possam representar um conflito de interesses com as que vai desempenhar no Ministério das Finanças, este não lhe exige exclusividade.

Estas coisas também não se inventam.

Resumo: o governo de Portugal, através do seu Ministério das Finanças, contratou um consultor de sustentabilidade em part-time com um cachet superior ao do próprio ministro, para fazer algo que competiria aos funcionários do próprio ministério, a quem é exigido tempo-inteiro e dedicação exclusiva.

Nota de rodapé:  à hora (em tempo real) que fecho a edição desta posta, o novo consultor de sustentabilidade já terá informado o ministro Medina do impacto da sua própria contratação junto do tecido empresarial, sindicatos e outras instituições da sociedade civil.

domingo, 7 de agosto de 2022

Mário Ferreira, o self-made-astronauta


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Eis mais um cromo para o meu álbum dos rostos da classe dirigente. Trata-se de um excêntrico (termo cunhado pelos criativos da Santa Casa para designar todo aquele que se acha rico da noite para o dia depois de investir uma quantia, mesmo parca, num qualquer dos diversos conteúdos lúdicos disponibilizados pla misericordiosa entidade). Mário Ferreira não é, contudo, um excêntrico da Santa Casa. Não, que ele não joga a raspadinha, nem no totobola. Ferreira joga à lerpa, com o Estado. Funciona assim: Ferreira compra um bem ao estado, por menos de metade do seu valor. Logo a seguir, vende-o pelo dobro; de caminho, passa por La Valetta, para tratar dos impostos, e de outras burocracias. Também funciona com a venda de serviços (neste caso, Ferreira cobra o dobro do valor). O estado lerpa sempre e Ferreira torna-se excêntrico. Quanto mais o estado lerpa (é a técnica do acumuladinho) mais excêntrico Ferreira se torna.

Foi assim que Ferreira se tornou um dos 20 homens mais ricos de Portugal, com uma fortuna avaliada em 600 milhões de euros, e o primeiro turista espacial português - numa viagem que realizou a 3 de agosto de 2022 a bordo da New Shepard One da Blue Origin. Levou uma bandeira nacional, como os que vão ver a bola, e uma garrafa de Porto e uma caravela em filigrana (ninguém sabe para quê). Foi de foguete e veio de cápsula travada por pára-quedas. A viagem durou 11 minutos, três dos quais experienciados em microgravidade. O preço? “confidencial”, diz o antigo empregado-de-mesa que é muito conhecido por uns por ser o dono da TVi e da CNN, o das “negociatas com barcos” ou o “tubarão do Douro” e por outros como um escroque, um criminoso fiscal e um tretas.

Contudo Mário Ferreira não é só isto. Ninguém é apenas isto. Ferreira é um self-made-man que, contra a vontade dos pais, partiu, aos 16 anos, para Londres e começou por trabalhar na área da restauração. Foi aprendiz de chef, mas rapidamente saltou da cozinha e tornou-se gerente. Aos trinta já tinha o seu primeiro milhão no banco. Sempre a gerir. Ferreira casou duas vezes. A primeira, com uma rica herdeira norte-americana, que conheceu num cruzeiro. A segunda, com uma juíza portuguesa – o padrinho foi o madeirense Joe Berardo (outro caso notório deste género de excentricidade). Ferreira também é comendador da Ordem do Mérito e comendador da Ordem Civil do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial; e, entre outras certamente também merecidas condecorações, também é o feliz portador da Cruz da Ordem da Terra Mariana, atribuída plo presidente da república da Estónia; da Medalha do Pacificador, atribuída plo Exército do Brasil e da Medalha de Mérito Turístico, Grau Ouro, do Governo de Portugal.

Além de tudo isto, Mário Ferreira está a ser investigado pla Judite por um negócio que fez com o estado (a aquisição do navio Atlântida) e que José Maria Costa, à época presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, explicou assim: O Governo conseguiu criar mais um excêntrico, neste caso o senhor Mário Ferreira, da Douro Azul, que comprou por 7 milhões e vendeu por 21 milhões aquilo que o Estado não soube ou não quis vender por melhor preço” (deve acrescentar-se que o navio tinha sido avaliado em 29 milhões de euros, num relatório dos estaleiros de Viana do Castelo, em 2012). Mas há mais. Em 2017, a venda do Atlântida, através de uma empresa em Malta (que reteve os lucros), foi mencionada nos chamados Malta Files. No ano anterior, o nome de Mário Ferreira constou dos Paradise Papers como um dos empresários portugueses proprietários de empresas com sede em offshores. Mas ainda há mais: uns dias antes de as suas empresas receberem a visita da Judite, o jornal “Público” revelou que, da lista de investimentos aprovados pelo novo Banco Português de Fomento (BPF), 40 milhões de euros (52% do total) foram destinados à sociedade anónima Pluris Investments, de Mário Ferreira, que detém 35,38% da Media Capital, dona da TVI.

Há quem ache que o caso pode levantar suspeitas de “favoritismo”, pois a Pluris Investments não encaixa no “conceito de pequena e média empresa” a quem se destinam os fundos do Programa de Recapitalização Estratégica do Fundo de Capitalização e Resiliência (FdCR). Segundo reputados especialistas nestes assuntos sórdidos, as suspeitas de “favoritismo” podem justificar-se pela notória proximidade de Ferreira a certas figurinhas, por sua vez muito próximas dos governos de Portugal.

É claro que tudo pode ser coisa de despeitados que não podem ver uma camisa lavada num torço esforçado. Mas também pode não ser. Em todo o caso, sempre que a excentricidade se torna concêntrica, até o paisano distraído suspeita e a Judite investiga.
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quarta-feira, 27 de julho de 2022

D. Manuel Clemente, o conivente


 

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A história conta-se em poucas linhas.

D. Manuel Clemente, a eminência parva que lidera em Portugal o franxaizingue da Igreja Católica (conglomerado multi-nacional com sede na cidade do Vaticano) teve conhecimento de um crime perpetrado por um padre sobre uma criança e, em lugar de o denunciar às autoridades competentes, como manda a lei e o bom-senso, protegeu o criminoso. Ou seja, Clemente foi clemente. Mas não só. Também foi conivente. Permitiu-lhe continuar em funções por mais de vinte anos, gerindo tranquilamente uma associação privada que acolhe famílias, jovens e crianças.

Os dados sobre este caso em concreto contam-se entre as mais de 300 denùncias já recebidas pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa. O nome do sacerdote, que chegou a ser responsável por duas paróquias da zona norte do distrito de Lisboa, é também um dos sete que já se encontram nas mãos da Polícia Judiciária para serem investigados.

Quanto a sua eminência reverendíssima, como a sordidez moral não é coisa que repugne os paisanos, e muito menos os fiéis, em breve vamos todos poder vê-lo, como de costume, de sotaina de gala, se não for em pose de Cerejeira com o Ventura dos cheganos, certamente a abrilhantar mais uma inenarrável sessão solene de abertura do ano judicial, onde, entre salamaleques cúmplices e genuflexões piedosas, dará como habitualmente o seu anel a lambuzar às beiças sôfregas e devotas do presidente da república de Portugal.

É assim a vida num país de costumes quase tão brandos como bizarros.

O retrato de sua eminência é de 2013.

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