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sábado, 10 de abril de 2021

A fraudulência


Parece que lavra grande indinação nas redes sociais. Tudo porque um juiz, Ivo Rosa de sua graça, resolveu inocentar uma porção de pulhas cujos crimes foram longamente investigados pelo ministério público que, acolitado pelo super-herói do correio da manha, o juiz Carlos Alexandre – mesmo assim foi incapaz de apresentar uma acusação limpa, isenta de tretas e irrefutável de factos.

Está claro que para o correio da manha não há mal que  lhe não venha bem. Em lugar de endeusar um juiz, em breve passará a demonizar outro. Em vez de um super-herói passará a ter mais um super-vilão, um malvado de toga. E a vender ainda mais papel (para grande gáudio do grupo empresarial a que pertence).

Quanto ao leitorado do jornal, aos indignados das redes sociais e ao eleitorado do Chega também lhes cairá bem. A bem dzer porque nofundonofundo todos gostam de odiar, mas certamente também porque muitos deles, tal como a loira das telenovelas, também se sentem irresistivelmente atraídos pelo cafajeste.

Belos tempos para os canalhas, os cínicos, os velhacos e, claro, para os ingénuos. Sim, porque não há fraude sem tótós.

Estamos, portanto, no campo da fraudulência, de que já vos falei aqui. E, como então referi, “Não há melhor palavra para descrever, com propriedade, o clima venéreo dos dias que correm, o seu ar do tempo e o inconfundível fedor do que propagam os jornais”.
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terça-feira, 30 de março de 2021

O inefável Matos Fernandes


 

O senhor Matos Fernandes, ministro do Ambiente e da Ação Climática (é assim que se designa, em acordês, a sua função oficial) disse que ah e tal “eu não sou de todo um ambientalista”. Nada que me espante. Era mesmo do eu já andava a desconfiar – pelo menos desde que ele contratou para secretário (d’estado) o finadíssimo Ataíde das Neves logo depois de este, como alcaide da Figueira, ter perpetrado (ou incentivado, ou permitido) mais um abominável crime ambiental. Tratou-se, naturalmente, de um prémio de desempenho.

Eu compreendo que o ministro do Ambiente não tenha de ser um ambientalista. Afinal o ministro das pescas também não tem de ser pescador, nem o da educação professor, nem o da saúde esculápio ou enfermeiro. Em Portugal pode-se chegar a ministro de qualquer coisa sem perceber bulhufa de porra nenhuma (os casos são inúmeros e exemplares, como este, este, ou esta). Mas, se o governo for socialista, o infeliz pode mesmo chegar a ministro sem nem sequer ser socialista.

É o caso do ministro Matos Fernandes. Ele também acha, por exemplo, que a água potável devia aumentar de preço porque “se o produto água se está a tornar escasso, o seu preço deve refletir essa escassez".

Esta é uma prática tida em conta por todos os primeiros-ministros socialistas desde Mário Soares, que convidou uma vez, certamente por lapso, para ministro da Saúde, um gajo que era mesmo socialista - que teve a desfaçatez de fazer aprovar o Serviço Nacional de Saúde em assembleia legislativa sem o apresentar previamente em conselho de ministros - a partir daí todos os primeiros-ministros socialistas escolhem os seus ministros muito parcimoniosamente. É por isso que em Portugal nunca mais um genuíno socialista chegou a ministro.

É também por isso que o ministro do Ambiente de Portugal premeia criminosos ambientais, perdoa milhões em impostos a uma multinacional e cultiva, a céu aberto, a lógica capitalista e mercantil da água potável como um “produto” e não como um bem de primeira necessidade.

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quinta-feira, 4 de março de 2021

Monteiro, não vás porque já "fostes"


 

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A plítica local está ao rubro. Por todo o lado os partidos escolhem criteriosamente os seus candidatos (os cabeças de lista) às autarquias. Em todos os concelhos os notáveis locais de todos os partidos digladiam-se entre si para serem os escolhidos. Não na Figueira da Foz. Na Figueira, ao contrário de em qualquer outro povoado, um partido que queira vencer as eleições sabe que só tem uma opção: escolher um candidato de fora.

Foi o que fez desta vez o PSD. O escolhido é de fora e isso é quanto basta para cativar o interesse, e o entusiasmo, do eleitorado figueirinhas. O figueirinhas eleitor não quer saber que o desejado foi muito recomendado por este artolas que se lambuzou até às lágrimas no sórdido negócio do hotel de charme no Paço de Maiorca; nem que o desejado é o príncipe encantado destoutro artolas que foi o porta-voz do governo mais à extrema-direita que o país conheceu desde o 25 d’Abril; nem que foi imensamente encomiado por um enorme estafermo como o pequeno Marques Mendes, na televisão.

A verdade é que o escolhido poderia ter sido Santana Lopes, mas o PSD sabe que Santana é já um figueirinhas; também sabe que os outros figueirinhas já lhe viram o cu; e sobretudo também sabe que os figueirinhas, entre si, devoram-se uns aos outros, como os caranguejos.

De maneiras que o escolhido, foi Pedro Machado. Ainda preside ao Turismo do Centro. É doutorado em turismo e tudo, por Aveiro e tudo, mas não importa. Porque acima de tudo, é de fora. Já ganhou.

A Figueira da Foz, fiel ao seu “sebastianismo de praia”, sempre aberta e disponível a tudo o que vem de fora, está que nem pode. De contentamento.

O emplastro imprestável que lá está, que nem sequer é capaz de inaugurar uma obra, não tem a mínima hipótese. Monteiro, já fostes (devorado plos outros caranguejos).

 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O “Discurso sobre a Figueira,” por quem o leu (4)

(…) para além de uma narrativa sarcástica de toda a história da Figueira, passada e presente, pode observar o leitor atento "estados de alma" do autor, utilizando sempre palavras de um ácido viperino e até de mordaz escárnio, que os próprios “Figueirinhas” nunca lhe irão perdoar, figura de estilo que devidamente enquadrada, se poderia sem grande imaginação, transcrever para um todo nacional (…)

Xavier Longo, aqui.


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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Pablo Hásel



Em Portugal, Manuel Morais, um sindicalista da Polícia, foi suspenso de todo o serviço porque, entre outras coisas do âmbito da sua actividade sindical, disse que “André Ventura é uma aberração”.

Em Espanha, Pablo Hásel, um cantor rap, foi condenado a prisão efectiva por cantar (ou lá o que eles fazem no rap) que a monarquia é corrupta (algo assim como “los borbónes son ladrónes, ónes, ónes”).

Bem vistas, quero dizer, vistas de perto, estas situações parecem-me ambas casos óbvios de duas pessoas duramente castigadas por dizerem em alta voz e em público o que toda a gente já sabe, isto é, algo que nem sequer é segredo de estado.

Perguntem-se porquê.

Se fosse na Rússia ou na China ou, sei lá, na Venezuela, a nossa imprensa liberal já tinha armado um verdadeiro circo (com palhaços transformistas e trapezistas) a favor de todas as santas liberdades e da de expressão. Mas não, é o silêncio dos cemitérios na união ibérica democrática.

Perguntem-se porquê.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

agora em quiosque

O reconfinamento foi prolongado até Março.

As livrarias continuam zelosamente fechadas pois, como é do conhecimento geral, em Portugal elas são um tenebroso factor de ajuntamentos e, por isso, um virulento veículo de propagação da pandemia.

A venda de livros foi autorizada, mas apenas aos supermercados, esses templos da assepsia. Há, porém, coisas na vida que se não podem comprar em supermercados. Invariavelmente, são as melhores.

O que vale é que os quiosques estão abertos. Quem governa o povo tem consciência de que a este não pode nunca, em caso algum, faltar a raspadinha; nem à Santa Casa financiamento - a miséria humana, e a pobreza de espírito, nunca dormem, nem confinam. 

De qualquer modo, a partir de hoje, se quiserdes ler o Discurso sobre a Figueira também o podereis comprar, com toda a segurança, no Quiosque da Praça 8 de Maio.

Apressai-vos, antes que esgote.

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Benjamin Péret












O maravilhoso está em todo o lado, 

dissimulado dos olhares do vulgo, 

mas pronto a explodir como uma bomba relógio

Benjamin Péret

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

a ideologia figueirinhas



“Numas eleições autárquicas, não devia haver partidos mas sim, pessoas da terra, interessadas no desenvolvimento da Autarquia, respeitando os cidadãos, O PDM, o meio ambiente. Alguém que, com dedicação e sem protagonismos de qualquer espécie, se assuma como um líder, em prol do bem estar dos cidadãos. Nesta perspetiva, era olhar para trás, e ver quem, ao longo dos vários mandatos, independentemente dos partidos a que pertencem, melhor se dedicou ao desenvolvimento da autarquia. Pegar nesse grupo de pessoas, e colocá-los numa câmara. Tínhamos uma supercâmara!”

Este naco de prosa, que catei no Face book, no mural de uma “amiga”, é o cândido exemplo de muito mais do que a “consciência política” de uma certa cidadania que até vota e tudo – trata-se de uma verdadeira ideologia; ou, melhor dizendo, do exemplo acabado do mais autêntico pensamento político figueirinhas.

O seu orgulhoso autor (de quem piedosamente não me apetece mencionar o nome) não é, contudo, um cândido analfabeto, pois apresenta-se como “librarian”, o que indicia que é alguém capaz de partilhar com os outros a sua visão do mundo de candidato a miss em, pelo menos, duas línguas.

Na curiosa forma de democracia proposta por este filósofo figueirinhas, os eleitores escolheriam os seus representantes mais ou menos como se identificam os suspeitos numa esquadra de polícia: a dedo. Seria lindo. Muito melhor que com esta coisa dos partidos, e da democracia representativa oláoquié, que é muita confusão. Todo um pugrama, em poucas linhas - que é para se fazer entender melhor.

Não me espanta nada que esta sensibilidadezinha cívica já esteja toda molhadinha e particularmente predisposta aos avanços de Miguel Poiares Maduro, essoutro filósofo figueirinhas (sobre quem já me debrucei aqui) que foi porta-voz do governo mais à extrema-direita que este país teve desde o 25 de Abril, aquele que adoptou orgulhosamente o terrorismo social como pugrama.

Poiares Maduro agora vem coordenar a candidatura do pêpêdê à Câmara Municipal. E apresenta-a – segurem-se - como a candidatura “supra-partidária”.
 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

O "Discurso sobre a Figueira" por quem já o leu (3)



O "Discurso sobre a Figueira", um panfleto que é mais uma caricatura/retrato de uma cidade que nem a areia sabe distribuir...

"A FIGUEIRA É HOJE UMA CIDADE ESTÉRIL, IMPRODUTIVA, LÚGUBRE, SEM VIDA INTERIOR, SEM TRANSPORTES PÚBLICOS, SEM JUVENTUDE NEM ESPERANÇA, NEM UMA ÚNICA LIVRARIA OU UM JORNAL PERIÓDICO, MAS REPLETA DE BARES ÀS MOSCAS, DE COMÉRCIO FALIDO OU ENCERRADO, DE RUAS VAZIAS, DE EDIFÍCIOS EMPAREDADOS, DE INSTITUÇÕES DE CARIDADE, DE AGÊNCIAS IMOBILIÁRIAS, DE LOJAS DE PENHORES, DE IGREJAS EVANGÉLICAS, DE FANÁTICOS, DE CRETINOS, DE VELHACOS E DE SUPER-MERCADOS." Fernando Campos, In “Discurso sobre a Figueira”

“Fernando Campos é um homem de poucas palavras e de poucos traços. Não é por timidez, mas porque é um artista de essências, de contenção." Desta vez exagerou: gastou 7305 para nos presentear com um panfleto sarcástico, com tudo ao léu. Gabo a imaginação do Fernando: conseguir escrever 7305 palavras sobre uma cidade "que não tem nada de realmente diferenciado para oferecer", é obra. 

Ela própria, a Figueira, qual cidade maldita, se encarregou de fazer o caminho até chegar aqui: "o (pouco) património que existiu foi depredado e avacalhado até à indignidade e à humilhação". António Agostinho, aqui.

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