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sábado, 4 de outubro de 2025

Alevanta-te e diz qualquer coisa, Vasquinho.


 

O coronel Vasco Lourenço considera que “a esquerda deve adoptar uma estratégia de unidade”, por isso apoia António José Seguro e pede a António Filipe que desista.

Depois da sentença do caso dos Anjos qualquer bardamijo acha que pode dizer qualquer merda porque aos humoristas ninguém os leva presos. Não é certamente o caso do coronel Vasco Lourenço. Mas meter “António José Seguro” e “esquerda” na mesma frase é de génio - não lembrava ao diabo. Taquepariu. Há muito que não me ria tanto.

sábado, 30 de agosto de 2025

Luís Fernando Veríssimo (1936-2025)


 

Sou um gigolô das palavras. Vivo à custa delas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Exijo submissão. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família, nem o que os outros já fizeram com elas. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito

Luís Fernando Veríssimo



Um dia chega a Cântaro um jovem trovador, Lipídio de Albornoz. Ele cruza a Ponte de Safena e entra na cidade montado no seu cavalo Escarcéu. Avista uma mulher vestindo uma bandalheira preta que lhe lança um olhar cheio de betume e cabriolé. Segue-a pelos becos até um sumário — uma espécie de jardim enclausurado — onde ela deixa cair a bandalheira. É Lascívia. Ela sobe por um escrutínio, pequena entrada estreita, e desaparece por uma porciúncula. Lipídio a segue. Vê-se num longo conluio que leva a uma prótese entreaberta. Ele entra. Lascívia está sentada num trunfo em frente ao seu pinochet, penteando-se. Lipídio, que sempre carrega consigo um fanfarrão (instrumento primitivo de sete cordas), começa a cantar uma balada. Lascívia bate palmas e chama:

Cisterna! Vanglória!

São suas escravas que vêm prepará-la para os ritos do amor. Lipídio desfaz-se de suas roupas — o satrapa, o lúmpen, os dois fátuos — até ficar só de reles. Dirige-se para a cama cantando uma antiga minarete. Lascívia diz:

Cala-te, sândalo. Quero sentir o seu vespúcio junto ao meu passepartout.

Atrás de uma cortina, Muxoxo, o algoz, prepara seu longo cadastro para cortar a cabeça do trovador.

A história só não acaba mal porque o cavalo de Lipídio, Escarcéu, espia pela janela na hora em que Muxoxo vai decapitar seu dono, no momento entregue ao sassafrás, e dá o alarme. Lipídio pula da cama, veste seu reles rapidamente e sai pela janela, onde Escarcéu o espera.

Lascívia manda levantarem a ponte de safena, mas tarde demais. Lipídio e Escarcéu já cavalgam por motins e valiuns, longe da vingança de Lascívia.”

Luís Fernando Veríssimo, in Palavreado - em que se fala do reino de Cântaro. Mas também de Pantufo, Rei da Cizânia, cuja capital é Nova Velha (a Velha Velha fora destruída por um paroxismo).

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Em jeito de proclamação (especial)

Pedro Santana Lopes admite querer candidatar-se à presidência da república, avançou o canal NOW. O canal que garante informação privilegiada adiantou ainda que “o autarca da Figueira da Foz considera que tem a experiência necessária”. Diz que só lhe faltam sondagens favoráveis.

Então é assim. Como ele já tem tudo o que é preciso, e só está mesmo à espera da vaga de fundo, eu permiti-me contribuir graciosa e desinteressadamente para a superação do seu piqueno handicap. Tomei a liberdade de redigir uma espécie de manifesto, ou proclamação que, dirigida especialmente a indecisos, confusos, recalcitrantes e ao povo em geral, talvez ajude a formar a hola!


Afixe-se.

Santana a presidente

manifesto panegírico

em forma de pequeno ensaio

sobre uma grande figura

com notas de rodapé


Ele não para e nunca dececiona os seus adetos indefetíveis; sempre recetivos a qualquer dos seus atos, quaisquer que sejam as aceções destes ou o aspeto que aparentem. Sob esta ótica, ele é um político fraturante, de fação, de rutura, de reação, de fato. Um olfato venatório, um tato circunspeto, um caráter percetivo, um instinto matador e um génio disrutivo temperado de eletricidade estática ininterruta permitem-lhe projetar epifenómenos de um afeto entusiasmado, anticético e abstrato, num trajeto muito adjetivado arquitetado em perfuntórias perspetivas que adotam sempre novas direções.

O parágrafo que acabastes de ler foi laboriosamente redigido para vosso exclusivo prazer e deleite. A pura verdade, como o evangelho, no mais puro português de lei. Dir-se-ia du Padre Vieira, mas sem espinhas; depurado e palatável: com menos consoantes mudas e mais vogais surdas. Reconheço que o logrei concluir, deste modo ortograficamente correto, com muita dificuldade.

Mas felizmente existe agora mais do que apenas uma geração que já se exprime assim com toda a naturalidade. Toda uma basta gente instruída e alfabetizada deste modo admirável.

E isto deve-se a um português ímpar1. Sim, .-porque são poucos, cada vez menos ou nenhuns, os que, através de uma acção benemérita e desinteressada logram influir assim, de modo estruturante e perdurável, na formação e edificação de gerações futuras.

Trata-se de alguém cujo contributo voluntarioso e pertinaz foi fundamental para tornar exequível este aggiornamento, este desabrochar2 da língua, este milagre do português redivivo, enfim, este épanouissement da escrita de expressão lusitana.

Mas deixemos-nos de galicismos, itálicos e rodriguinhos: foi este bravo que, confessadamente, tomou por missão patriótica o desígnio de Cavaco de fazer aprovar o acordo ortográfico de 1990.

Ele integrava então, como secretário d'estado da cultura, o governo que na mesma época também eucaliptizou o país (Cavaco, considerava - certamente bem informado, como sempre - que o eucalipto seria o “nosso” petróleo verde).

Muitos anos depois, o país não se tornou exactamente um petro-estado mas a verdade é que arde sempre mais um pouco a cada ano - o que prova que o nosso petróleo, se não é tão carburante, é pelo menos tão inflamável como o dos outros. E é ainda mais verdade que a nossa língua escrita, e até a falada, não só nunca mais foi a mesma como nunca há-de voltar a ser simplesmente uma língua como as outras.

Trata-se, já adivinhastes, do inefável, imarcescível, inimitável, inconfundível, inolvidável, imprescindível, inimputável, inamovível, imperturbável, irredutível, incontornável, e insubstituível...

Pedro Santana Lopes.

Mas o desempenho do actual e recidivo presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz não se ficou apenas pelo brilharete na ortografia da língua; o que, num país reconhecido, já seria suficiente para lhe ser concedida a honra vitalícia de empunhar o estoque de Condestável ou, no mínimo, de conselheiro de estado. Somos uma república ingrata, essa é que é essa.

Santana, que recentemente confidenciou a um canal de televisão que se sente com qualidades para o desempenho do cargo de presidente da república de Portugal, já prestou muitos outros, bastos e relevantes, serviços à pátria, desempenhando sempre as mais variadas presidências – sempre eleito, por convite ou nomeação: a do Sporting; a da Santa Casa da Misericórdia; a do município de Lisboa, a de um partido político, por si mesmo criado para o efeito e ao qual se referia sempre no feminino; até a do mesmíssimo Governo de Portugal. Sempre com o mesmo aprumo e sainete3, amplamente reconhecidos, e igual impacto estruturantemente decisivo e perdurável no devir de todas as felizes instituições contempladas.

Ele é um homem nascido para mandar, para decidir, para influir, para dirigir. Porque não para presidir à república portuguesa? Sim, porque se a república é ingrata, o povo, esse, é muito agradecido e penhorado. O coração do povo é como um diamante dentro de um cofre-forte e Santana é um desses, poucos, predestinados (como o Cavaco e o Marcelo) que lhe conhecem o segredo. Eu conto-vos como ele abriu o cofre do povo da Figueira e se apoderou do coração daquela terra.

Em 1997, a Figueira vivia amancebada há mais de quinze anos com um velho dinossauro4 xelentíssimo e sucialista, numa relação tóxica que arrefecia. A Figueira é como a loura das telenovelas; ciumenta como uma leoa mas volúvel como uma borboleta: só tá bem onde não tá, só quer o que não tem, sempre à espera do príncipe encantado que, segundo um psicólogo social local5, há-de vir um dia em manhã de nevoeiro. Quando Santana chegou, estava nevoeiro e não se via nada. Bom, não era nevoeiro, era fumo; estava a Naval a arder6, mas era de manhã e não se via nada. Quando ela finalmente o lobrigou, ele era o príncipe encantado que sempre desejara, jovem e garboso e bonito como o galã cafajeste das novelas que mata cabras só com o olhar. E assim foi. Mal ele lhe pôs a vista em cima, foi de caixão à cova; fulminante: paixão recíproca e amor, fatal. Foi o início de uma chanfana intensa, que dura até hoje, cheia de peripécias e infidelidades. Uma vez ele chegou mesmo a trocá-la por outra (outra câmara municipal7) deixando-a para trás a ver navios e com um montão assim de dívidas para pagar8. Mas ela perdoa-lhe tudo e acolhe-o sempre de volta, com os braços quentes de carinho, no seu leito sempre ardente de paixão. Mas vai-e-volta ele diz que vai. E ela então diz-lhe Não venhas tarde, meu torresmo. E ele vem sempre mais tarde, porque não sabe fugir de si mesmo.


Notas de rodapé:

1--ímpar quer dizer raro, ou ainda mais, único. 

2 – desabrochar, neste contexto específico, quer dizer tirar da boca. 

3 - qualidade agradável ou que causa prazer = GOSTO, GRAÇA, PIADA. 

4 – Manuel Alfredo Aguiar de Carvalho, presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz entre 1982 e 1997. 

5 – António Tavares, professor no Liceu, vereador eleito e escritor premiado. 

6 – Aconteceu mesmo. No dia 4 de julho de 1997. 

7 – a de Lisboa, essa galdéria. 

8 – facto que ele finalmente assumiu mas reconhece como “despesas de investimento”

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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Discurso sobre a Figueira


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Todos os homens discorrem sobre o que sabem, ou o que presumem. Giovanni Pico della Mirandola, por exemplo, discorreu sobre a Dignidade do Homem. Descartes sobre o Método. Étienne de la Boétie sobre a Servidão Voluntária. Jean-Jacques Rousseau, que presumia sobre uma data de assuntos, discorreu sobre A origem e Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, mas também sobre As Ciências e as Artes.

Eu próprio, não desfazendo, também presumo a respeito das mais diversas matérias. Tenho, contudo, vindo a debruçar-me especificamente sobre apenas uma, que tão logo se transformou no meu objecto preferencial de observação, curiosidade e contemplação. De maneiras que depois de mui atento estudo e concomitante conhecimento acumulado, também me permiti discorrer longamente a propósito, em obra escrita. Ou seja, como uma ostra no fim do seu confinamento, também acabei por soltar a pérola que hoje, finalmente, no último dia deste ano miserável, tenho a honra de vos apresentar, em forma de Discurso público.

Este Discurso sobre a Figueira e por extenso Execração dos Figueirinhas foi pacientemente composto nos últimos trinta dias, ainda que sustentado em inúmeros apontamentos, reflexões e considerações editadas neste mesmo blogue ao longo de vários anos. O confinamento a que a pandemia a todos tem obrigado proporcionou-me o tempo de os reunir, escolher, corrigir, acrescentar, burilar, ilustrar e colorir; mas também me permitiu a reflexão e o distanciamento necessários para escolher a forma e o tom que julguei apropriados para compor e dar um sentido mais do que vagamente estruturado à sumula de tudo o que reuni sobre assunto tão espinhoso, ainda que suculento.

Assim, este Discurso tomou a forma de um panfleto sarcástico e o tom despretensioso de um Divertimento, essa composição musical (para um número reduzido de instrumentos, de caráter ligeiro e tom casual e alegre, que possui uma quantidade livre de movimentos, semelhante às suítes sem, porém, seguir um padrão pré-determinado), tão em voga no século XVIII. 

Como tal, e como não morigera nem desmoraliza, todo o texto deste panfleto, os seus vários àpartes e os diversos movimentos, incluídas as suas sumptuosas ilustrações metafóricas, foram compostos e editados por mim no espírito libertino e licencioso desse magnífico século iluminado pela fantasia e pelo livre-pensamento. O texto, da primeira (que reproduzo acima) à última das suas trinta páginas, foi composto e paginado com caracteres da família Trajanus Roman, redesenhados em 1993 por Roger White.

Muito mais do que uma simples edição de autor, trata-se de um verdadeiro livro d’artista com a edição limitad(íssima) de apenas 25 múltiplos, exemplares únicos e irrepetíveis (não será feita outra edição) que serão todos numerados e autenticados pela minha assinatura manuscrita.

Cada um destes múltiplos será um raro objecto de desejo, de puro deleite, de selecta colecção, que sei eu, uma verdadeira música de câmara, acessível apenas a espíritos sofisticados e exigentes como os privilegiados happy few que visitam este blogue e que o desejem encomendar, pelo módico preço que eu vier a fixar, mais custos de envio, através do endereço de e-mail que está aqui na barra lateral.

Aqui chegados, os meus leitores mais dedicados já se devem ter apercebido que estou metido num lindo molho de brócolos: acabei de escrever um livro sobre uma terra que não interessa a ninguém, nem mesmo a si própria, posto que não lê.

Vendo-me por isto mesmo contrito a recorrer à generosidade, ou à curiosidade, dos meus leitores de todo o mundo (apesar do seu alcance residual, também tenho plena consciência de que este blogue é acedido desde os lugares mais remotos e difíceis de pronunciar) posso desde já afiançar-lhes, sob palavra de honra e para mal dos meus pecados, que este pequeno panfleto insignificante tem tudo o que basta para se tornar um Clássico. Isto, claro, se ser um Clássico for a capacidade de alcançar o Universal partindo do muito particular, ou mesmo do insignificante. Foi o que fez Euclides da Cunha com um arraial remoto nos sertões da Bahia, e Garcia Marquez com um lugar recôndito da sua imaginação. Gogol fez isso com um simples nariz. E eu, deus me perdoe, acabo de o fazer com a Figueira da Foz.

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sábado, 2 de fevereiro de 2019

O cómico da Situação (2)


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Numa das habituais reflexões com que tenho por hábito ilustrar os pobres desenhos que edito neste blogue, enunciei uma vez que o humor consequente não é moral nem imoral, é amoral; isto é, move-se em terrenos do senso comum, não da moral, que é um dos domínios do preconceito. Não me ocorreu, no entanto, acrescentar que também penso que, mesmo que se mova no amplo mar do senso comum, nunca o humor aí deve navegar à bolina; ao invés, deve fazê-lo sempre ao contrário: sempre contra os ventos dominantes e sempre sempre contra a corrente. Sob o risco de se tornar previsível, redundante, consensual. recomendável. E não há nada mais pífio e frouxo do que o humor recomendável.

Luís Afonso é o humorista gráfico mais recomendado, disputado e requisitado pelos editores do humor publicado em Portugal.  Trabalha diariamente para uma porção de jornais e outras publicações (o que dá a sensação de que não existe no país mais nenhum outro humorista gráfico no activo), mas agora está literalmente em todo o lado, incluindo na rádio e na televisão.
E o que faz o trabalho de Luís Afonso tão recomendado e recomendável?, perguntais vós.
- Pois bem, não são certamente os seus méritos estritamente gráficos, suponho (o desenho e tal) - como o próprio, aliás lucidamente, reconhece. Esmiucemos então o seu humor padrão, digamos assim.
- O humor de Luís Afonso tem aquele jenesécoá que não ata nem desata, não torce nem amola, não incha nem desincha, não aquece nem arrefece, não adianta nem atrasa, não chove nem molha e não cheira nem fede que se consubstancia num apreço tão óbvio pelo “incontornável” que o torna previsível e redundante e por isso tão consensual, amável, e sobretudo tranquilizador, para os directores e chefes de redacção dos jornais em que publica (para eles é um descanso, porque sabem que dali nunca há-de vir melindre na caixa de comentários, nem indignação nas redes sociais, nem telefonema lá de cima, nem processo judicial).

A sua Mosca, à qual é impossível escapar (se não a apanhamos na rádio apanha-nos na televisão), é o exemplo acabado  e irritante de uma irreverênciazinha mole, uma sátirazinha inócua e uma ironiazinha pífia com moralzinha edificante e rematezinho sentencioso que não só não me faz rir como me enfurece; e nem sequer me faz pensar – a não ser que Luís Afonso é o caso ilustrado do cómico da situação.

Porque, confesso, o que realmente a mim me tira do sério (me faz rir) é quando o imprevisto, o incongruente, o abrupto, o grotesco, o irracional, o equívoco, o bizarro, o obsceno e exagerado absurdo do não sentido de coisa nenhuma atropela à força toda o senso comum das certezas absolutas.
Como um peido num funeral. Ou uma vuvuzela num concerto de violinos; ou vice-versa.
Ou como uma Kizomba no panteão nacional. Ou um assassinato num conselho de administração; ou vice-versa.
Ou como um hipopótamo no lago dos cisnes. Ou um terramoto em Fátima; ou vice-versa. Sei lá.
Enfim, aquele humor que é um remédio do qual Siné dizia qui fait mal et ça fait du bien. Não este cómico da situação, esta espécie de placebo xaroposo que prescreve Luís Afonso.
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O cómico da situação (1)


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Sendo o cómico a intuição do absurdo, ele afigura-se-me mais desesperante do que o trágico.
Eugène Ionesco

Um cidadão português que, acabando de assistir a uma infame arbitrariedade policial, teve um desabafo indignado (parece que exclamou qualquer coisa como “bosta de bófia”) logo foi estrafegado (nas redes sociais) por milhares de ululantes boas-almas cujos santos valores patrióticos foram vilmente ultrajados.
Logo-a-seguir, mais de uma dezena de milhar de pessoas assinou uma petição de uma cidadã que se declara «Portuguesa e civilizada» e que não pode permitir que o «tipo de pessoa» a que o Mamadou Ba pertence tenha uma palavra a dizer na gestão do país. Tudo isto acontece no país que não é racista, masele que vá lá prá terra dele. Ora, não querem lá ver o filho-da-puta do… do… do… preto”.
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A verdade é que eu também sou português, como Mamadou Ba. E não preciso de ser negro, como Mamadou, para me indignar com a prepotência e com a injustiça. Por isso compreendo o seu desabafo. Eu penso que violência arbitrária sobre gente já segregada é uma baixeza. Até porque na minha família sempre ouvi dizer que ”polícia é abaixo de cão cinco graus”.
Mas o facto de isto ser aprovado por uma mole humana que se diz “civilizada” e chocada por alguém insultar a santa corporação que o pratica não deixa de ter um certo potencial por assim dizer, cómico.
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É, portanto, no campo aberto do cómico, que estamos. E já que aqui chegámos, resolvi esmiuçar, não o humor dos portugueses, que sei que é melancólico e ressabiado, mas o dos humoristas de que eles se riem. Os profissionais. Aqueles a quem os portugueses pagam para que lhes suscitem o riso. E seleccionei dois que devem ser os mais unânimes e requisitados pois são autênticas vedetas, verdadeiras instituições no seu género, ou ramo: Ricardo Araújo Pereira, no humor televisivo e Luís Afonso, no humor gráfico (mas este fica para outra posta, que bem o merece).
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Esmiucemos então Ricardo Araújo Pereira. 
Embora seja um fenómeno televisivo, Ricardo está por todo o lado (tal como o Afonso, aliás): na televisão, na rádio, nos jornais, na publicidade. O rapaz é um deus, omnipresente. É bem-parecido diga-se, e tem uma cultura geral bem acima da média, reconheça-se também. Teve uma educação religiosa, em colégios exclusivos, onde viu a luz e se fez ateu. Hoje é perfeitamente de esquerda (vota no Livre, que é de um rapaz lá amigo dele); o que não o impede, contudo, de sujeitar as filhas a frequentar também muito exclusivos colégios. Confusos?
É a estas extravagâncias de dândi que os tugas acham um piadão (mais as tugas, de meia idade - eu já referi que ele era bem parecido?). Ah, também é um assumido benfiquista, o que o identifica à partida, com a imensa maioria da “moldura humana” que assiste às suas performances, desde logo muito mais predisposta à condescendência.
Ricardo também alimenta uma espécie de ódio d’estimação pelo seu homónimo Salgado porque, ao que sei - e só o sei por ele próprio, nos programas de entretenimento em que participa (eu não leio revistas de celebridades) – a conselho de Cavaco, Ricardo terá confiado no BES e Salgado ter-lhe-á dado sumiço ao pecúlio de poupanças zelosamente ganho a fazer rir os portugueses.
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Mas de que se riem os portugueses?, perguntais vós.
 - Não de si próprios, claro, isso nunca (os tugas têm a auto-estima em alta estima). Nem dos milagres de Fátima, nem dos aventalinhos da maçonaria, nem dos látegos da opus dei; nem dos consórcios de advogados; nem dos pareceres dos catedráticos de coimbrameudeus; nem sequer do empreendedorismo, da caridadezinha, das imagens de marca e da cultura gurmê, muito menos do racismo larvar, da polícia, do exército ou dos tribunais (os portugueses têm também muito alta estima plo respeitinho).
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Então, perguntais vós, de quê ou de quem é que Ricardo Araújo Pereira faz rir os portugueses, porra?
- Pois eu digo-vos: de tudo o resto.
Ricardo Araújo Pereira, no seu mais recente programa televisivo, um suplemento humorístico do noticiário da noite dominical da TVi (digam lá que as piadas não se fazem sozinhas) faz o que, na opinião de gente que eu considero, é “humor inteligente e com qualidade” e “sem medo de afrontar os instalados do regime. Da esquerda à direita do espectro político nacional, varreu tudo e todos”.
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E quem são os instalados do regime que Ricardo supostamente “varreu”?
- Pois bem, são os que erram (Bernardino Soares), os vencidos (Luís Montenegro), os falhados (Rui Rio), os que caem (o já condenado Armando Vara). Porque é disso que o povo gosta. De ver escarnecer os infelizes, de ver bater em mortos. É isso, e apenas isso, que realmente faz rir os portugueses. E é assim que Ricardo alcança a sua imensa popularidade. Sem jamais arriscar a mais leve dissonância ao ululante e inflexível senso comum das maiorias.
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É por isso que estou convencido de que ele é um verdadeiro, um autêntico, cómico da situação.
O que não estou certo é se ele já se apercebeu do absurdo da coisa – enfim, se captou totalmente a piada, ou seja, se intuiu todo o potencial realmente desesperante, ou desanimador, da comicidade de tal situação. Receio que não.
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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O engraçadismo é triste

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si le mot cul est dans une phrase, le public, fût-elle sublime, n'entendra que ce mot
Jules Renard

O humor em Portugal, pelo menos o que se publica, é uma coisa triste.
 A verdade é que “os portugueses não sabemos rir com espírito; gargalhamos com os queixos”, como dizia Camilo.
Falta-nos o espírito.
Ter espírito, como presumo que o entendia Camilo, é ter mundo, referências e, em simultâneo, um certo distanciamento de si próprio e do seu tempo que muitas vezes convoca o desconforto ou a incomodidade.
O espírito abomina o óbvio, mas aproveita-se do acaso e deleita-se com o invulgar, o imprevisto, até com o incongruente. Para isto é necessário uma certa sofisticação que lhe vem do cepticismo. É impossível achar este desprendimento entre crentes ou prosélitos; neste campo, como se sabe e enunciou José Alberto Braga, “o espírito sopra ao contrário”.
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No humor publicado em Portugal já não há Camilo, nem Júlio César Machado, nem Bordalo, nem Celso Hermínio, nem Eça, nem Ramalho, nem Almada, nem Carvalhais, nem sequer Vilhena ou José Alberto Braga ou Santos Fernando. Deduzo que não haja público, ou mercado, para eles.

Para o que há público, ou mercado, em Portugal é para um engraçadismo sem substância que não seja o gargalhar com os queixos ignóbil, acéfalo, redundante e imbecil. Ocupa a última página dos jornais. Por exemplo, com o desinfeliz da padaria portugueza no correiodamanha e com João Miguel Tavares, no Público. 
E estamos nisto.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Jon Stewart

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O humorista Jon Stewart é uma celebridade. Apresenta, há dezassete anos, o Daily Show, um programa nocturno na televisão norte-americana onde, através do humor livre e da sátira consequente, trata de se divertir e divertir as pessoas tornando todos os dias mais evidente a estupidez dos propósitos da mentalidade mais conservadora do seu país.
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A verdade é que nesse grande país que é o seu, apesar de minoritário, há mercado para o humor inteligente. Stewart é mesmo um dos comediantes de televisão mais bem sucedidos e, dizem, uma das personalidades mais influentes da América. Já anunciou porém a sua retirada definitiva do programa para Agosto.
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Tenho visto com gosto alguns dos seus últimos programas que a SIC-Notícias transmite. Apesar da habitual inteligência crítica e assertividade sem concessões tenho constatado, em pequenos ápartes do seu discurso, uma cada vez mais notória melancolia.
Sempre lúcido, Jon parece não acreditar muito na velha máxima latina “ridendo castigat mores”- “Há 16 anos que faço o Daily Show e o mundo que gostaria que tivesse mudado não mudou. Por muito poder que a sátira possa ter, não é suficiente”, disse ele no ano passado, em entrevista ao “Diário de Notícias”.
De facto, o riso não corrige os costumes. A verdade é que quanto mais inteligente e sofisticado é o humor, mais limitado é o seu alcance -  e quanto mais contundente e explícito for mais ineficaz se revela perante a blindagem inexpugnável da estupidez dominante.

Jon Stewart sabe disto. Como ele refere: Há sempre limites e a mudança não vem da sátira. A mudança chega com aqueles que estão no terreno! Às vezes, a sátira bem feita pode ter alguma influência - por vezes, positiva... noutras negativa. A mudança é dos ecossistemas mais complexos."

Porém, tentou. E foi isso que foi (tem sido) magnífico.
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sábado, 18 de outubro de 2014

Zé Oliveira

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A cooperativa Trevim, da Louzã, está a comemorar o 47º aniversário do seu jornal “Trevim” e o 30º do “Bronkit”, o seu suplemento humorístico.
Integrada nas comemorações consta uma homenagem ao caricaturista Zé Oliveira e também ao seu personagem “o Broncas”, nascido nas páginas do Bronkit.

No passado dia 4 foi inaugurada uma exposição com uma retrospectiva dos 30 anos do Broncas e com 30 desenhos de homenagem realizados por 30 artistas amigos.

Hoje, dia 18, (pelas 15h, no Museu Etnografico Dr. Louzã Henriques) será lançado um álbum com esses desenhos - assim como um Bronkit especial.

Para Osvaldo Macedo de Sousa, grande conhecedor do humor gráfico em Portugal, o Broncas é uma espécie de zé-povinho – “um pobre mas atento serrano com coragem para dizer o que pensa”.

Instado por Osvaldo, que comissariou a exposição, não quis deixar de participar nessa justíssima homenagem. Enviei o desenho acima. Foi o que me ocorreu para dizer o que penso do grande Zé Oliveira. 
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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Do humor e suas intenções

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O objectivo de uma piada não é degradar o ser humano, 
mas lembrar que ele já é degradado
 George Orwell
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“Analisar o humor, terá dito Elwyn Brooks White, um dos nomes mais antigos da revista “The New Yorker”, “é como dissecar uma rã. Poucas pessoas se mostram interessadas e no fim a rã morre”. A frase é certeira e não é difícil demonstrá-lo: nada tem menos graça do que ter de explicar uma graça.” (daqui)
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Vem isto a propósito de um curioso comentário ao meu boneco do Eusébio e, em termos mais gerais, a propósito das interpretações de um desenho que escapam às intenções do seu autor.
É preciso ressalvar que o desenho é uma convenção. Utiliza uma série de códigos mais ou menos estilizados que se tornam inteligíveis porque foram convencionados entre o artista e o público – por exemplo, dois simples traços curvos num papel sugerem uma ave no firmamento, um traço vertical encimado por um círculo pode sugerir uma árvore, etc. – as pessoas aceitam e entendem estes sinais embora saibam (pelo menos as mais inteligentes) que o mundo representado pelo desenho não é assim.
Isto ainda é mais verdade no desenho de humor, na caricatura. Aqui nada é, nunca, literal - nem o traço, nem a cor.
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As coisas escapam porém, amiúde, ao controle de quem as cria - a criatura ao criador, a arte ao artista. O significado último ou definitivo de uma obra não depende do seu criador, mas do observador. O ónus da interpretação cabe sempre a quem observa - à sua sensibilidade e mundivisão. Por vezes há tantas interpretações e significados quantos os observadores. Sobretudo em terrenos movediços como o da Arte (neste capítulo aliás, as obras de fascínio mais duradouro são aquelas que escapam a qualquer entendimento ou interpretação - como a Gioconda ou As Meninas ou qualquer coisa de Vermeer ou de di Chirico, por exemplo) ou como o do Humor, onde as obras mais fascinantes são aquelas cujo significado pode ter vários e simultâneos sentidos para o mesmo observador.
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A verdade é que, como diz o poeta Alberto Pimenta, “cada coisa pode ser o contrário do que é”, porque “a função das coisas é ser aquilo que se quer que elas sejam”.
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terça-feira, 27 de agosto de 2013

O “talent de bien faire”

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Ah, a Marinha portuguesa. Tanto haveria a dizer sobre a armada lusitana. E dos seus “nove séculos de história”.
Além de ter dado ao país um inesquecível presidente da república tem, entre os seus “heróis”, um rei (que se deixou assassinar - magnificamente, a tiro de clavina - enquanto se passeava de charrete no Terreiro do Paço); isto para lá, evidentemente, de um número imarscecível de fidalgos - condes e marqueses, da alta e da baixa nobreza - entre os quais um tal de Ferreira do Amaral, avoengo do actual ci-ai-ou da Lusoponte (este deixou-se também massacrar gloriosamente mas “a cutiladas”, pelos chinocas, enquanto passeava a cavalo).
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Enfim, é uma história trágicómarítima. Mas que deixou profundas e indeléveis marcas no actual carácter cordato dos portugueses e até no seu modo de falar – a expressão “ir para o caralho” por exemplo, tem origem em certas regras disciplinadoras da rapaziada a bordo (quem ia “para o caralho” nunca mais lá queria voltar - não era propriamente como passar em Alcobaça). Assim, o facto de os portugueses hodiernos permitirem que se lhes faça tudo sem tugirem nem mugirem, tem razões profundamente navais – eles nutrem um verdadeiro - entranhado, atávico e genuinamente sincero - pavor de ir para o caralho.
Contudo, a glória da armada portuguesa não se reduz aos seus métodos pedagógicos dissuasores, civilizadores, ou pacificadores. A sua história também é uma história de inovação tecnológica; como por exemplo a invenção, um tanto precoce, cem anos antes da descoberta oficial (era um conceito gurmê na época – envolvia seda natural), do “cartucho”.
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Mas não vou por aí. O que concitou a minha atenção foram os seus feitos mais recentes. Sim, porque a marinha portuguesa está sempre a fazer coisas - tem aliás como lema “talent de bien faire” – vontade de bem fazer, a divisa do infante D. Henrique.
A Marinha portuguesa condecorou recentemente o grande navegador havaiano Garrett McNamara. Com a medalha Vasco da Gama. Não só por ele ter trepado a uma onda de trinta metros a cavalo numa prancha, na Nazaré - mas também, e sobretudo, por ter feito chegar o nome desse lugar remoto e de Portugal aos ainda mais alcantilados píncaros das páginas do niuiórquetaimes.
Os portugueses são assim, ficam deleitados quando se fala deles “lá fora”. E quando é no niuiórquetaimes então, ou mesmo vá lá, no uóxintomposte, ficam completamente desvanecidos, e dão tudo. Fazem tudo. Foi isso que a nossa armada fez.
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Para agradecer ao seu novo herói, a marinha portuguesa, através do site do Instituto Hidrográfico, criou um serviço que passa agora a divulgar as previsões das condições de surfe em todo o país e nas regiões autónomas. Nem mais. Chama-se “qual é a tua onda?”- o serviço. António Silva Ribeiro*, o contra-almirante que dirige o Instituto Hidrográfico da Marinha, veio à Figueira apresentar este serviço e frisou que mais tarde será lançada uma versão específica deste programa dedicada ao apoio das actividades da pesca artesanal ou de cerco e alar para terra, que utilizam aliás os mesmos litorais arenosos e as mesmas ondas que são utilizadas pelos surfistas.
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Ou seja, a Marinha Portuguesa, sempre no afã de bem fazer, apoia prioritariamente actividades realmente estruturantes, que criam empregos, riqueza, enfim. fixam populações. Também não se esquece, evidentemente, das actividades mais residuais, extravagantes, puramente recreativas e até mesmo diletantes, como a pesca, por exemplo. Nem dos pescadores, esses dândis. Mas ficam para mais tarde.
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É que, por São Jorge, segundo outro dos seus lemas, a armada lusitana tem “o mar por vocação, o país por horizonte.

*António Silva Ribeiro, o contra-almirante da armada que veio à Figueira mostrar o serviço do seu Instituto Hidrográfico, aproveitou a sua excursão à praia da Claridade para dissipar do espírito dos locais uma dúvida excruciante: deu-lhes a sua palavra de oficial e cavalheiro de que a Nazaré tem, de facto, a onda mais alta do mundo; mas a Figueira tem a mais comprida.
O que, de certo modo, faz algum sentido.
Se pensarmos bem, o comprimento da onda figueirinhas deve ser directamente proporcional à extensão da sua praia. Só pode.
Ou seja, a ciência, através do instituto hidrográfico da Marinha, reconcilia os figueirinhas com a sua auto-estima, tão afectada pela cagança dos nazarenos.
Viva a armada lusitana. Por São Jorge.
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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Urbano a presidente


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O tour-de-force que, nas redes figueirinhas do Face-Book, tentou impor Urbano Pinto, o bobo da corte noctívaga local, para rei do carnaval não logrou sensibilizar os doutos decisores do grande turismo da praia da Claridade. Estes não o julgaram com dignidade suficiente para tão circunspecto evento. Em tempo de crise e em vez de um autêntico bobo preferiram um simples idiota, embora cínico mas bem mais mediático que, para gáudio alarve da populaça, em troca de uma soma pornográfica não se importou de fazer de bobo pelo tempo de um desfile, ou dois.
Confesso que o que inicialmente me pareceu uma bem-humorada pândega para debochar o patético entrudo figueirinhas, o movimento “Queremos Urbano Pinto a rei do Carnaval”, depressa se revelou algo muito mais sério – sem ponta de graça – uma espécie de movimento fundamentalista bastante abrangente (chegou a juntar seiscentos e tal laiques) em defesa acrisolada da pureza imaculada dos valores regionais figueirinhas e da genuinidade imbecil do seu rei mômo contra os perversos reis mômos vindos de fora, pagos a peso de ouro pela  malvadez corrompida dos malvados decisores da Figueira-Grande-Turismo.
Ou seja, o que no princípio me parecia sinal de algum sentido de humor enfim, de alguma vida inteligente, depressa se revelou um fórum de labregos semi-analfabetos e envaidecidos da sua hereditariedade. Fui descomposto por uma menina analfabeta de apelido sonante e consoantes dobradas que se sentiu ultrajada por que lhes chamei “pândegos” e por achar que “caralho” é um palavrão. Enfim, fiquei elucidado sobre o género de causa que mobiliza a cidadania figueirense nas redes sociais.
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Agora contudo que o carnaval das autárquicas se aproxima, já se perfilam as habituais candidaturas que, como de costume, propõem natural e alegremente mais do mesmo ao bom povo que aprecia obra feita, merdas bonitas, sorrisinhos fótóxope, carnavais sérios, aventais de plástico e reis mômos impantes de dignidade.
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A mais idiota de todas estas candidaturas é porém a do santanéte Miguel Almeida. Miguel, como eu penso que demonstrei aqui e aqui, não é um simples idiota. É um autêntico cretino, um verdadeiro asno. Um profissional, portanto. Para aferir isto, nada melhor do que ver como ele se expressa, por escrito. Por exemplo, no seu blogue. Fui ver e, para além de um voluntarismo ingenuamente bacôco e egomaníaco, o seu discurso bisonho e paroquial está repleto de lugares-comuns, alguma esperteza saloia, imensas banalidades e erros ortográficos: logo no post mais recente fui agredido pela “metrologia”, que me impediu de o ler até ao fim. Combalido, ainda tentei ler o seguinte mas desisti quando fiquei a saber da “primeira vez” que conheceu Pedro Santana Lopes porque deduzi que a vida social do pobre diabo deve ser um tanto entediante, de repetitiva.
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Foi então que cheguei à conclusão que não compreendo porque uma populaça - que acha que a seriedade do carnaval e a dignidade do rei mômo são uma questão de prestígio regional, que se queixa dos políticos mas não vê alternativa credível ao rotativismo repetitivo e que já elegeu uma anta como Miguel Almeida vereador e até deputado* - não elege Urbano Pinto para presidente.
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Com um verdadeiro bobo a presidente, a animação seria permanente. Mais simples sei lá, mais pura. Mais autêntica. Sem o cinismo velhaco e pretensioso deste género de idiotas.
Agora sim, faria sentido uma vaga de fundo – no Face-Book ou ailleurs -que levasse o pobre Urbano ao lugar – esse sim - que lhe é devido, com todo o merecimento.
O non-sense faria enfim algum sentido.
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*deputados são uns senhores que propõem, discutem, aprovam e redigem as leis porque a populaça se rege.
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terça-feira, 12 de março de 2013

Na Figueira da Foz.


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A Figueira da Foz já foi (antes do turismo de massas) um sítio de veraneio de referência (quando não havia outros) para uma certa burguesia muito selecta - no tempo em que, à volta, as massas viviam na mais abjecta penúria. 
Mas a visão risonha desse passado de festas, animação e cosmopolitismo deriva sobretudo dos efeitos de duas guerras (a de Espanha e a Mundial) cujos refugiados em trânsito enchiam (no final dos anos 30 e no início dos 40) as suas ruas de mundana animação, as esplanadas dos seus cafés de risos e os seus casinos de lucros.
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A verdade é que, nesses tempos, a maior parte dos figueirenses mourejavam na mais negra miséria - mulheres e crianças nas secas do bacalhau e nas conservas ou, homens feitos e rapazinhos, em estaleiros navais, nas minas de carvão, fábricas de vidro e de cimento ou então, num infame degredo esclavagista, na pesca do bacalhau.
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Entretanto, acabaram-se a pesca do bacalhau e a seca, as conservas, os estaleiros navais, as minas de carvão, a fábrica de cimento e até a da cal (recentemente os políticos locais cantaram hossanas em uníssono ao encerramento desta última, que assim desafectou valiosos terrenos que reservam - naturalmente em prestimosas parcerias publicóprivadas - a gloriosos empreendimentos turísticos).
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Mas a memória dos figueirinhas é selectiva e a Figueira da Foz de hoje vive, melancólica e docemente, da recordação exclusiva de um antanho de glamour tão ilusório quanto imaginado.
A verdade é que os figueirenses não são dados ao empreendedorismo. Salvo o hoteleiro. O turístico, claro. Como refere o filósofo e vereador local António Tavares, na sua obra “Arquétipos e Mitos da psicologia social figueirense”, “A Figueira da Foz está sempre à espera de algo que vem de fora”. Criar riqueza é uma coisa que não os assiste. Preferem servir os que têm alguma.
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Alugar-lhes quartos, por exemplo. O desenho reproduzido acima - de Cândido Costa Pinto, um figueirense - publicado no “Sempre Fixe” a 5/8/1937 (em plena guerra civil espanhola), de um humor negro talvez demasiado politicamente incorrecto para que hoje fosse sequer publicável, é um retrato impiedoso mas ainda fiel da mais perene mentalidade figueirinhas.
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

A caricatura - de curso

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A edição de um livro (ou plaquette) de caricaturas de estudantes finalistas de um curso académico é uma tradição retintamente portuguesa - iniciada em Coimbra em 1903.
Este costume de perpetuar uma memória amável e risonha do tempo de estudante estendeu-se depois progressivamente a outras universidades do país.
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Zé Oliveira é um dos grandes caricaturistas de imprensa que se especializou em caricaturas académicas para livros de curso. Ao ponto de, com o seu desenho ágil, sintético e carismático, ter criado como que uma espécie de “cânone” do género, difícil de igualar.
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Recentemente porém, a crise económica e os prestimosos artifícios do Governo de Portugal criaram um fenómeno sem precedentes na história do ensino em Portugal: o abandono escolar massivo por motivos económicos - o que vem potenciando um inefável, e inédito em democracia, nivelamento por cima: os futuros doutores deste país serão, tal como no passado, oriundos exclusivamente das classes mais possidentes. E esta, hem?
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Talvez por isso resolvi, também eu, investir nesse ”nicho de mercado”. Que quereis, tenho tendência para investimentos de risco.
Sem tentar, como julgo evidente e razoável, concorrer com o inimitável Zé Oliveira proponho-me, modestamente claro, fazer humildemente o retrato de alguns desses nóveis dótores, representantes da futura classe dirigente, quando ainda tenros. No género pra memória futura.
Até já fiz um cartaz (reproduzido acima) que espalharei por toda a parte. Especialmente pelos locais apropriados.
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domingo, 26 de agosto de 2012

Tirando sarro


Tout rire vient d’une attente trompée Joseph Joubert
Hoje faço cinquenta anos.
Vai-se andando. Mas envelhecer é foda.
É preciso fazer das tripas coração para cultivar o riso - único recurso das nossas expectativas sempre goradas por um futuro que nunca chega como o esperávamos.
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E cá vou indo, como Camilo Castelo Branco, de hérnia em hérnia intestinal até à completa ruína gástrica; o que, como já deve ter reparado quem visita este pobre diário ilustrado, não é bem ir cantando e rindo. É mais ir indo porém arreganhando os dentes.
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