.

Mostrar mensagens com a etiqueta expressões populares figueirenses. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta expressões populares figueirenses. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 14 de junho de 2023

A lavoura do deserto, o furacão e a pitonisa


 . 

A Figueira da Foz confronta-se há muitos anos com um problema, aparentemente insolúvel, decorrente das obras do prolongamento dos molhes (obras projectadas pelo estado para beneficiar a navegabilidade fluvial e o acesso ao porto comercial). Sem responsabilidade na obra, o município ficou desde então com o ónus de um dos seus nefastos efeitos colaterais: o crescimento exponencial da sua praia urbana, a Praia da Claridade

Assim, todos os anos, em vésperas de época balnear, o município tratava de, como se diz por cá, alindar uma praia cada vez mais interminável - o que consistia, anualmente, em revolver, crivar e terraplanar, metódica e mecanicamente, todos aqueles quilómetros cúbicos de finas areias de modo a impedir que aí medrasse a menor réstia de vegetação. O propósito destes autarcas figueirinhas do tempo do salazarismo (quando se consolidou a solução final de lavrar unicamente a praia urbana, enquanto as praias por assim dizer do campo, foram abandonadas sempre ao mais desleixado pousio) talvez se explique pela vontade de agradar ao turismo que demandava a Figueira na época (uma clientela rica, burguesa e classista, de uma urbanidade tão supostamente sofisticada como suficientemente higienista para não tolerar nada “fora do seu lugar”, como, por exemplo, um pobre no seu bairro ou a ideia de uma planta no deserto).

Pois bem, este deserto, esmeradamente cultivado ao longo de décadas, caldeou no imaginário dos figueirinhas a imagem reluzente e “limpa” do postal da praia; tornou-se, com o tempo, numa espécie de imagem d’Epinal. Muitos deles não concebem uma praia com ante-praia, dunas e vegetação. O seu entusiasmo com o “oásis do Santana” só confirma aliás a assunção arraigada da praia como um deserto, um berço de sereias depurado e terraplanado até à rebentação. Para este bom-povo qualquer vegetação que cresça no areal é uma “prcaria”, “uma vergonha”, um acinte, uma afronta aos seus valores mais intrínsecos, um ultraje aos seus ideais mais elevados, ou sentimentos mais fundos, ou lá o que é..

Há cerca de dez anos, porém, o executivo camarário de João Ataíde, contrariando a santíssima tradição, decidiu pura e simplesmente deixar de subvencionar o cultivo anual do deserto. Ao deixar de “lavrar a praia”, o município permitiu-se poupar cerca de 150 mil euros por ano (eram seiscentos mil num mandato, para o lóbi do tractor). Asperamente criticado pela oposição e por um certo beautiful people que pontifica nas redes sociais,  João Ataíde, embora canhestramente (chegou a admitir que ele próprio também não gostava de ver erva na praia), lá foi resistindo às críticas e aos remoques com o argumento de que essa simples decisão de tesouraria lhe permitiria ainda deixar crescer, espontâneo, um coberto vegetal natural que fixaria as areias (protegendo a avenida do assoreamento sazonal pelos ventos) potenciaria a biodiversidade autóctone e, a prazo, a consolidação de novas áreas aprazíveis, aproveitáveis para a fruição dos cidadãos. 

Quanto a vós não sei, mas a mim pareceu-me um “ovo de Colombo”, tão simples e evidente que era um espanto que nunca ninguém se tivesse lembrado de tal – não só sensato e avisado, mas genial - o verdadeiro sonho molhado de qualquer autarca minimamente honesto e inteligente numa época de vacas magras: a possibilidade de “fazer obra”, ambiental e social, sem literalmente fazer um corno e, sobretudo, sem gastar um chavo do erário público (recorde-se que, à época, João Ataíde via-se e desejava-se para sanear as finanças do município, devastadas anos antes pelo furacão Lopes). 

Entretanto os anos foram passando, tal como ainda outro furacão, o Leslie; João Ataíde foi pregar para outra freguesia onde acabou por falecer e António Tavares (o seu vereador do ambiente e o verdadeiro pai da ideia) de certo modo também, pois dedicou-se à literatura e nunca mais fez ondas. Mas na Praia da Claridade sopram agora, de novo, ventos uivantes. 

O furacão Lopes está de volta e, mal acabou de obter a maioria tão almejada (com um acordo, ou negócio, algo manhoso, numa loja de penhores) logo tratou de fazer saber, em comunicado no facebook, que se encontrava em posse de autorização para remover a camada vegetal que cobre “o nosso lindíssimo areal”.

No dia seguinte, Dia Mundial da Biodiversidade, foi, muito impávido e solene, inaugurar o cantinho da biodiversidade que é, tal como o nome indica, um cantinho, no parque das Abadias, deixado por capinar de propósito para o efeito. Dias depois, porém, fez saber através de outro comunicado que afinal as notícias da retoma do cultivo de deserto eram manifestamente exageradas e, porque sim e porque não ou porque talvez nem por isso ou assim, a empreitada estava suspensa até nova ordem. 

Os figueirenses mais cultivados, dos mais cínicos aos mais blasés, acharam tudo isto perfeitamente normal (eles sabem, é dos livros, que os furacões são imprevisíveis e o Lopes ainda mais - na Figueira todo-o-mundo sabe aliás que ele muda de ideias de cada vez que mija) mas o figueirinhas de lineu, que votou na Fap e se sente profundamente vexado porque brotam tomateiros na praia, deve ter ficado num estado de perplexidade catatónica. Isto, claro, depois de ter passado por um breve transe de entusiasmo triunfante e salivar e por um, igualmente fugaz, êxtase de vingativo contentamento. 

É aqui, agora (neste ponto exacto da estória) que entra a pitonisa.

- E quem caralho é a pitonisa, perguntais vós.

- A pitonisa é um blogueiro que foi mandatário e candidato na lista dos comunistas e a quem o furacão Lopes ofereceu uma sinecura de conselheiro municipal. Depois disso o pobre tomou para si o triste (ou alegre) apostolado de cantar e espalhar-por-toda-a-parte a grandeza do génio político do seu patrono e de como este é directamente proporcional à vácua mediocridade de toda a oposição, da comunicação social e do mundo em geral.

Assim, o comunicado no qual o furacão Lopes anunciava prazenteiro que estava-com-tudo para “mandar remover a camada vegetal que cobre o nosso lindíssimo areal” não foi, segundo a pitonisa, uma simples bravata armada aos cágados para animar o pagode mais reaccionário e saudoso do intigamente dos seus apoiadores, mas sim um facto político de diversão, um ruído acrescentado e genial,  uma mão-cheia-de-areia que, num gesto de magistral e maquiavélico discernimento político, tirou da cartola e lançou aos olhos da apalermada oposição e do público ignaro para que ninguém o questionasse sobre nenhum dos mais que prováveis variados graus de sordidez dos termos do acordo que lhe permitiram obter a maioria na Câmara. 

Como vedes, devido à incapacidade cognitiva de toda a gente, a pitonisa tratou de, elucidando a posteridade, traduzir para miúdos todas as subtilezas de estratégia política saídas da mente brilhante do seu príncipe encantado, que ela já vê aliás como o ajuramentado sucessor de Marcelo em Belém (imaginando-se, quem sabe também, já como chefe da sua casa civil, ou assim). Para a pitonisa, a Figueira é demasiado bisonha para a majestática sapiência do seu príncipe encantado. – Ai ai, diz ela, suspirando: sempre que ele aponta para a lua, na Figueira todos olham para os dedos papudos do meu príncipe, ai ai. 

Enfim, todo o cavaco tem o seu pachecopereira, mas a pitonisa não é o caso típico do intelectual orgânico - trata-se antes de uma espécie de organismo emocional - ou passional, pois muito mais do que uma simples ligação, há ali, nota-se, uma evidente identificação, que seria até quase comovente, se não estivesse tão nitidamente descontrolada e não fosse já suficientemente embaraçosa. 

Nota de rodapé:

Eu estou entre os que não nutrem o menor interesse em conhecer os termos do acordo que proporcionou plenos poderes ao senhor Santana Lopes. Não sinto curiosidade pelos pormenores sórdidos de qualquer negociata política. Sei de que trata esta, sei quem ganha e sei quem lerpa. Como cidadão, isso basta-me.

Já a vegetação que brota na praia, e a biodiversidade em geral, é algo que não me deixa tão indiferente.

Mas o poder exercido com base no capricho, no preconceito e na estupidez (a estupidez é a ignorância armada e couraçada) é que me inquieta profundamente. Cada vez mais.

*Ao alto, uma “expressão gráfica” de um dito popular figueirense.

.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Para acabar de vez com a “cultura” figueirinhas


.
“A Figueira é uma cidade com oferta cultural de grande qualidade. Há um pouco de tudo, desde a programação eclética do CAE (concertos, exposições, cinema, etc.) até à oferta de teatro amador e música pelas várias coletividades, entre centenas de eventos que se realizam um pouco por todo o concelho. Temos ainda uma boa biblioteca municipal, um museu que se vai renovando, e instituições privadas que dinamizam a vida cultural da cidade.

Desponta uma nova geração que mantém viva a chama cultural do concelho. Gente que quer discutir as questões do nosso tempo, sem entrar em partidarismos ou tentar retirar dividendos políticos desse seu esforço. Devemos acarinhar estes jovens, participando, reconhecendo a importância da cultura como forma de libertação individual e coletiva.”



O texto em epígrafe podia ser uma das redacções do menino Zequinha se por acaso este, depois de uma trip de cogumelos esquisitos, escrevesse nos jornais o relato as suas viagens a lugar nenhum. Mas não. Trata-se de um delirante e alucinado texto publicado no “jornal” As Beiras por João Vaz, um circunspecto engenheiro e ex-vereador que vive lá (na Utopia, porra) e, feliz e despreocupado, conta como foi que tudo aconteceu (segundo a sua versão dos factos tudo se deve aos postulados visionários do ex-vereador da cultura António Tavares).
.
Ora, a realidade não existe tal como é relatada na redacção delirante do senhor ex-vereador. Ou seja, o relato do senhor Vaz é demasiado bom para ser verdade; talvez porque a verdade seja demasiado má para ser relatada. E isto podia o sr. Vaz aferi-lo nas palavras avisadas do seu príncipe encantado, o cavaleiro da alegre figura que, aquando do lançamento da sua obra “Arquétipos e Mitos da psicologia social figueirense,” decretou solenemente que na Figueira “falta massa crítica interna”.
.
A verdade é que a Figueira não é a Utopia, um lugar-nenhum. Se a Figueira, aliás, é algum lugar - perdoem-me as almas sensíveis - é um lugar ruim; um pardieiro; uma choldra: uma distopia. E isto não podia deixar de se reflectir na sua, digamos assim, “cultura”. Se não, vejamos: um grande escritor brasileiro injustamente esquecido e agora felizmente em vias de ser “recuperado”, Lima Barreto, disse uma vez que o seu país “não tem povo, tem público”. Queria ele com isto dizer, creio, no início do século vinte, que os brasileiros não agiam, só assistiam. Com a Figueira acontece o mesmo (tiens, também é verdeamarela), só que em pior: a Figueira também não tem público. Não age nem assiste. Os mirones e os papalvos que assistem às inaugurações vêm todos das freguesias; é o chamado “turismo de proximidade”. Não existe, aliás, outro tipo de turismo. Não há cá nada para ver. Na Figueira não há agricultura (deve ser o único concelho deste país meridional que não produz vinho nem qualquer outra cultura diferenciada), nem indústria. Nem comércio local. Não existe um jornal. Nem sequer uma livraria digna desse nome, ou uma galeria de arte. Ninguém vai ao Museu. Ou à Biblioteca. O cinema está às moscas.
.
Oferta cultural de grande qualidade?? - A noite dos esqueletos?, a charanga a cavalo?, o jantar dos não-sei-quantos talheres, senhor engenheiro?
“Programação eclética do CAE”, senhor Vaz?? – Sem produção própria, qual o critério de escolha dos espectáculos programados?
Oferta de Teatro amador”??? –  Para quem cuja cultura teatral estagnou em Ramada Curto, senhor engenheiro Vaz, talvez.
Uma boa biblioteca municipal”?? - Uma que perdeu o espólio doado por um dos vultos da cultura portuguesa do século vinte para um museu de Vila Franca de Xira e onde agora é impossível aceder a uma única obra desse autor?
Um museu que se vai renovando”?? - Qual o orçamento anual desse museu para aquisições, e o critério, já agora, senhor engenheiro?
Instituições privadas que dinamizam a vida cultural??” – Quais? quantas?? Aonde, aonde?
Uma nova geração que mantém viva a chama cultural”’? - Quem? Quando? Quantos são, quantos são??
.
Mas não há como um facto - ou uma atitude, um spleen - para explicar um fenómeno.
A actriz e encenadora Ana Madureira conta aqui um episódio bastante eloquente, que pode ser resumido assim: Ana integra a Troupe Tira-teimas que levou à cena na Sociedade Filarmónica 10 de Agosto a peça em um acto “O pedido de casamento”, de Tchekov, que estreou com casa cheia em Agosto, no dia do aniversário da colectividade. Estando agendados mais dois espectáculos, a Troupe foi entretanto notificada do seu cancelamento em virtude de a alocação do palco, dos meios técnicos, humanos e logísticos da colectividade estarem comprometidos com outras produções. Posteriormente os meios voltaram a ser disponibilizados mas apenas na véspera das datas escolhidas unilateralmente pela colectividade. Em tais condições, a Troupe, constituída inteiramente por amadores, rejeitou, naturalmente, a proposta.
Resumindo: a centenária 10 de Agosto, que se auto-proclamava orgulhosamente de “a teimosa”, por nunca ter desistido do teatro amador, finalmente desistiu. Terceirizou o teatro. Agora dedica-se ao aluguer de instalações e à "prestação de serviços". As “outras produções” em que supostamente estariam alocados o palco e os meios técnicos, humanos e logísticos era afinal o inenarrável tólquechô de variedades do Jotalves, o “jornalista” responsável pela página que um jornal de Coimbra dedica ao noticiário da Figueira. A mesma página onde o senhor Vaz escreve imbecilidades.
.
Concluíndo: se “bactérias num meio é cultura”, é este o meio cultural da Figueira.
.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

un certain regard

Duas anedotas. Sem moral e sem sentido (trata-se de humor cruel).
.
A primeira passou-se diante dos olhos do meu amigo Agostinho que a conta aqui, mas que eu sintetizo assim:
Manuel Luis Pata tem noventa anos. É um velho marinheiro que fez inúmeras campanhas do bacalhau e já navegou de trás para diante por todos os mares conhecidos. Quando por fim se reformou, dedicou-se a escrever a história marítima da Figueira; uma coisa monumental, em vários volumes e que está sempre a fazer-se: da construção naval e das viagens e naufrágios às linhagens dos seus marinheiros. 
Para além disso, Manuel Luis Pata ainda teve tempo e disponibilidade para se dedicar a apontar a dedo, em público e de forma completamente desinteressada, a rotunda imbecilidade de todas as grandes obras, patrocinadas pelo estado e apoiadas pela autarquia, executadas na orla marítima figueirense. O tempo, para sua grande tristeza, só lhe tem dado razão.
Pois bem, na Cova-Gala, durante o lançamento de mais um livro seu – cuja edição só foi possível pela colaboração de várias entidades, entre as quais a Câmara Municipal - o inevitável presidente desta, convidado para a mesa de honra, ao usar da palavra, começou por confessar que não conhecia o autor da obra e acabou por, a pedido de várias entidades presentes, lhe prometer a medalha de mérito cultural.
.
A segunda anedota passou-se diante dos meus olhos. No CAE, durante a breve inauguração do Festival de Cinema da Figueira da Foz, onde me dirigi na segunda à noite para ver a exposição do espólio de José Poeta e um belo filme japonês sobre a memória e o reconhecimento.
Também convidado para a mesa de honra (talvez por ser o anfitrião) o vereador da Cultura, ao usar da palavra (depois de um elemento da organização, que explicou o evento) congratulou esta pela dimensão e prestígio crescentes do Festival, por ter conseguido expor o espólio de José Poeta (coisa que ele próprio já havia tentado e nunca logrado) e, como se nunca o tivesse visto, pelo cartaz, “que é lindíssimo”.
.
A primeira anedota mostra como um homem decente e digno pode ser enxovalhado em público aos noventa anos por cretinos que o desprezam e lhe ignoram a obra.
A segunda não tem sentido nenhum, mas também é humor negro. Ou seja, também faz o riso amarelo.

Em todo o caso ambas ilustram uma certa visão da cultura na Figueira da Foz.
.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Os nus e os mortos

.
Sobre as tragédias recorrentes que têm vindo à rede na foz do rio Mondego desde a construção do desinfeliz molhe-norte pouco há já a dizer, salvo reiterar a estupidez explícita da ingenharia portuguesa e a arrogância ignorante e criminosa dos decisores das obras públicas neste país triste e imbecilizado pela obediência e pela resignação.
A navegação na barra tornou-se um perigo eminente para barcos de pequeno calado e um cemitério para homens bons que ganham a vida honestamente.
.
Sobre o imbecil porta-voz da capitania e da sua inenarrável narrativa da operação de salvamento, assim como sobre o capitão do porto, ausente em parte incerta, também pouco há a dizer - a não ser reiterar o que referi aqui sobre a marinha portuguesa, essa inefável organização cuja cadeia de comando parece ter sido arregimentada entre senhoritos de Cascais.
.
O desprezo desta classe dirigente institicional por quem ganha a vida dura honestamente é tão patente como o seu desvelo solícito pela acumulação de riqueza por uma casta cada vez mais selecta. Num país normal o voluntarismo criminoso dos que assinaram e autorizaram a obra do prolongamento do molhe-norte teria consequências penais. A incompetência dos responsáveis pela logística e operacionalidade das operações de salvamento também.
.
Em França, um meeting de trabalhadores da Air France foi  recentemente notícia em alguns jornais. Segundo a Euronews, talvez por criatividade da tradução, os trabalhadores teriam mesmo “violentado” o director de recursos humanos que lhes teria comunicado o despedimento de cerca de três mil colegas. A verdade verdadinha é que ninguém lhe foi ao cu – limitaram-se a chegar-lhe (um pouco) a roupa ao pêlo.

Imagino se, em lugar de se contentarem com vigílias silenciosas e bandeirolas a meia-haste, os inermes utilizadores da barra da Figueira da Foz tivessem atitudes assim assertivas.

Talvez, que sei eu, os senhoritos da capitania, da marinha portuguesa e do Porto da Figueira da Foz saíssem finalmente das suas zonas de conforto - e começassem a ver também o mar mais alto do que a terra
.

terça-feira, 5 de maio de 2015

um dákar de pacóvios ou a lavoura do deserto

.
.
A Figueira da Foz confronta-se há muitos anos com um dos efeitos mais visíveis do prolongamento dos molhes (obras projectadas pelo estado para beneficiar a navegabilidade fluvial e o acesso ao porto comercial). 
Sem responsabilidade na obra, o município ficou, desde então, com o ónus dos seus efeitos colaterais: o crescimento exponencial da sua praia urbana, a Praia da Claridade
Assim, todos os anos, em vésperas de época balnear, o município tratava de, como se diz por cá, alindar uma praia cada vez mais interminável - o que consistia em revolver, crivar  e terraplanar, por métodos mecânicos, aquelas finas areias de modo a impedir que aí medrasse a menor réstia de vegetação. 
Este deserto, esmeradamente cultivado ao longo de décadas, formatou no imaginário dos figueirinhas o postal da praia; tornou-se, com o tempo, numa espécie de imagem d’Epinal. Muitos deles não concebem uma praia com dunas e vegetação. O seu entusiasmo com o “oásis do Santana” só confirma aliás a concepção arraigada da praia como um deserto, um berço de sereias terraplanado até à rebentação.
.
Por isso, a atitude sem precedentes do actual executivo camarário de, contrariando uma longa tradição, decidir deixar pura e simplesmente de subvencionar o cultivo anual do deserto, foi uma pedrada no charco que me pareceu desde logo algo realmente “fora-da-caixa”. 
E, ao deixar de “lavrar a praia”, o município permitiu-se poupar, ao que me dizem, cerca de 150 mil euros por ano (seiscentos mil num mandato, para o lobi do tractor). 
Amplamente criticado pela oposição e por um certo beautiful people que pontifica nas redes sociais, o executivo de João Ataíde resistiu galhardamente às críticas e aos remoques com o argumento de que essa simples decisão de tesouraria lhe permitiria ainda deixar crescer espontâneo um coberto vegetal natural que fixaria as areias (protegendo a avenida do assoreamento sazonal pelos ventos) e potenciaria a prazo a consolidação de novas áreas aprazíveis, aproveitáveis para a fruição dos cidadãos. 
Parecia-me um “ovo de colombo”, tão simples e evidente que era um espanto que nunca ninguém se tivesse lembrado de tal – não só sensato e avisado, mas genial - o verdadeiro sonho molhado de qualquer autarca minimamente honesto e inteligente numa época de vacas magras: a possibilidade de “fazer obra” sem gastar um chavo do erário público.
Estive mesmo para escrever e publicar (neste blogue, where else) um preito de desagravo ao executivo municipal quando correu nas redes sociais uma petição ao senhor presidente para que se dignasse “limpar a praia” (sim, porque para este beautiful people a vegetação que cresce no areal é uma “prcaria”, “uma vergonha”).
.
Ainda bem que o não fiz. Porque não há boa-vontade que não colida com a estupidez mais explícita. 
-João Ataíde tomou duas decisões e uma atitude que o devem reconciliar de vez com a oposição e com a turba de labregos que o destratam nas redes sociais: ao tomar conhecimento de que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA, ou lá o que é) aprovou o projecto de requalificação do areal urbano da Câmara Municipal, esta apresta-se para lá edificar “uma pista de atletismo, uma via mista para ciclistas e peões, um novo parque de skate” e, entre outras obras realmente estruturantes, soterrar as valas do vale do Galante e de Buarcos (o que deve significar, suponho, o emanilhamento dos esgotos que desembocam na ante-praia directamente para a rebentação, numa solução ecológica certamente do agrado do bom povo das redes sociais). E, numa “segunda fase” virá “uma piscina”, um anfi-teatro redondo” e, segurem-se, uma “ala das artes”. Tudo na ante-praia.
-Depois, João Ataíde admitiu candidamente, em assembleia municipal, que ele próprio também não gosta de ver a erva na praia.
Mas não é só. 
-O executivo que, resistindo a imensas e insanas críticas e dixotes, “investiu” pacientemente na criação espontânea de um coberto vegetal autóctone na ante-praia, acabou por autorizar para lá uma concentração de veículos todo-o-terreno- um cumbíbio, motorizado. Nem mais. 
A oposição, a restauração (que adoram eventos) e os pacóvios amantes da higienização balnear devem estar que nem podem de contentamento. Eles adoram veículos todo-o-terreno; se pudessem todos teriam um, mas como não podem devem ter lá ido em romaria só para os ver de perto. E como eram às centenas, deve ter sido uma autêntica orgia a céu aberto, uma liturgia, uma missa campal em louvor do ambiente e do motor a diesel, com milhares de labregos a apascentarem alegremente os veículos enquanto estes lavravam as finas areias, berço de sereias.
.
Não há pachorra. Vá-se foder, senhor presidente.
E leve consigo todos os seus cinco vereadores,
e a oposição,
e os milhares de labregos que se sentem vexados porque nascem tomateiros na praia mas não se sentem indignados pela “erecção” do busto de Aguiar de Carvalho à porta do município (não o acham obsceno); nem atingidos com o fecho da maternidade (não a acham necessária); nem ofendidos por o seu hospital público funcionar dentro de um parque de estacionamento privado (não acham ultrajante). A estes pacóvios nunca ocorreria assinar petições contra nada disto. Nem sequer a favor, por exemplo do cultivo da várzea (não o acham estruturante), ou da reflorestação da serra (não a acham imperativa). Porque nada disto os afecta. 
O que realmente os tira do sério é o que vegeta na praia. A cultura do deserto.

.
(clicar para ver melhor)
*Ao tomar conhecimento desta notícia (da edição do “jornal” As Beiras do dia 22 de Abril) também fiquei a saber várias coisas que não sabia.
-Em primeiro lugar, que a Figueira possuía um canil municipal (pensava que a actividade já tinha sido toda entregue à iniciativa privada);
- em segundo, que o município necessita que alguém lhe aponte os locais onde existem lixeiras a céu aberto no concelho (pensava, oh santa ingenuidade, que além de mais de uma dezena de presidentes de Junta de Freguesia, o município também tinha fiscais para o efeito);
e, last but not least, fiquei desvanecido por o município estar interessado em apoiar esse desporto popular (ou laifestaile ou lá o que é) amigo do ambiente e dos animais que é o todo-o terreno.

Há coisas do caralho não há? Quero dizer, fantásticas.
.

sábado, 31 de janeiro de 2015

A ganância ainda vai dar cabo disto tudo

.
“O espectáculo grotesco e boçal que observamos à nossa volta – política incluída - e os reflexos dele na nossa existência são a circunstância da nossa vida.(...) Porém, quando as decisões políticas, além de ultrapassarem a nossa compreensão, nos esmagam em sacrifícios, é imperioso tentar fazer alguma coisa.
Denunciar os sacanas - se a causa estiver nas sacanices; denunciar os incompetentes - se a causa estiver na incompetência.
Denunciá-los todos - se as causas forem estas.
O homem é ele e a sua circunstância. Por isso, deve denunciar as más circunstâncias.
Por isso, não podemos calar, pois se assim fizermos "a ganância ainda vai dar cabo disto tudo"...! (daqui)

O meu amigo António Agostinho tem vindo - ao longo de vários posts, no seu blogue "Outra Margem” - a denunciar a  pulhice, a incompetência, a ganância e a má gestão que se consubstanciam, ano após ano, na erosão do litoral costeiro. Ele é particularmente sensível a este fenómeno porque é natural e habita na Cova-Gala, uma terra bastante vulnerável à avidez da ganância e aos avanços do mar.
.
Eu, que habito em Maiorca, uma freguesia interior, também podia testemunhar esse mesmo triunfo da estupidez e da ganância com provas documentadas: do empreendedorismo públicóprivado que levou ao actual estado de abandono, decadência e eminente derrocada do Paço de Maiorca, por exemplo. É o que farei aliás, em breve.
.
Fazemos ambos no entanto o papel do fedelho, da estória de Andersen, que diz que o rei vai nú. O problema é que, entre nós, toda a gente o sabe e ninguém se importa. A prova disto é o facto, não dispiciendo, de o senhor cavaco ainda ser presidente. Toda a gente sabe que o estupor é um escroque, vai nú (e é medonho) mas ninguém se ri nem sequer se importa.
.
Ao contrário porém de Agostinho, que parece acreditar  numa putativa regeneração cívica  - e daí na utilidade da denúncia pública - eu só o faço mesmo para memória futura. E, confesso, por pura derisão, e escárnio.
Perante o cinismo colectivo desta cidadania de merda (a consciência alargada de que “caladinho é que se vai longe”) é apenas do que sou capaz.
.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Cultivar o riso

.
Rir de tudo é de tontos; não rir de nada é de estúpidos
Erasmo
.
Apesar de achar o humor um bela panaceia para a vida, a verdade é que ele é inacessível a uma vasta gama de pessoas. Isto é, há gente cujo riso não passa pelo entendimento - o seu cerebrosinho blindado é inexpugnável tanto à mais fina ironia como ao mais espesso sarcasmo. O problema é que é gente que não se cala, busca sempre a última palavra; e há deles que até o fazem com inefável espírito circunspecto e rasteira elevação. Só visto.
.
Para Balzac, “a estupidez tem duas maneiras de ser: ou se cala ou fala. A estupidez muda é suportável”. Mas eu não tenho ilusões; sei que é impossível calá-la. A “estupidez muda” é um sonho lindo mas inexequível, uma quimera. Tal como a quadratura do círculo, a reencarnação ou a sociedade sem classes, ela é uma utopia, uma “impossibilidade matemática” - ou seja, um problema “com mais incógnitas do que equações”.
Mas há mais. E pior – há “impossibilidades matemáticas paradoxais”, que são aquelas que já nascem resolvidas: é impossível, por exemplo, explicar a estupidez a um imbecil, ou discutir religião com um convertido, ou política com um prosélito – porque eles já têm a solução.
.
O único remédio é resignar. Deixá-los falar. Quiçá até incentivá-los. Com uma boa e velha expressão popular figueirense. 

Depois de lançados, são imparáveis. 
Bem sei que é diversão que deve parecer pouco edificante. Que se foda. 
Antes isso do que chorar.
.

sábado, 4 de outubro de 2014

A imagem gráfica do verbo popular

.
Existem expressões orais que, usadas na linguagem de todos os dias, consubstanciam idiossincrasias regionais, ou seja, identificam uma vasta e diversa gama de pessoas que as partilham e entendem. 
Estas expressões, algumas de origem obscura, condensam a “sabedoria popular” no achado engenhoso e surpreendente de uma frase curta, incisiva, por vezes maliciosa ou rude. Repetidas de geração em geração, cristalizam a experiência das “coisas da vida” num humor filosófico cuja aparente ingenuidade é sempre condimentada ou contrariada pela veemência da intenção desencantada ou da atitude jocosa. Estas expressões são um património valioso porque são o nervo vivo daquilo que se chama identidade cultural.  
.
Todas as terras tem o seu património destas “frases feitas”. A Figueira da Foz também. Quem não conhece expressões tão peculiarmente figueirenses como: “’tá o mar um cão”, “fumo pra tavarede”, ‘tá cheiroso este bueiro”, “trinta mares te comessem”, “’pera aí que já cospes”, etc., etc.?
Há tempos ocorreu-me desenhar uma “expressão visual” ou “imagem gráfica”, para cada uma destas conhecidas expressões populares figueirenses. Pode ser que um dia me resolva editá-las numa colecção de cartões-postais, ou, pior ainda, a imprimi-las em t-shirts (diz que há mercado para tudo).
.
Isto vem a propósito de um pentelho que se propôs (cheio de eufemismos, como um genuíno figueirinhas) insultar-me sem o fazer: o desinfeliz (que diz chamar-se Rui Beja e se supõe uma espécie de porta-voz oficioso da Câmara Municipal) “presume” que eu sou “profundamente ignorante” porque “não quer crer” que “haja má-fé” no teor deste cartoon, que me foi suscitado por esta notícia, e que editei no blog do meu amigo Agostinho.
.
Ora quanto a fé, batatas – não fui agraciado com qualquer delas; nem boa, nem má, nem assim-assim – e receio que não haja nada a fazer.
Já quanto a ignorância, fui apanhado, reconheço-o - há, de facto, demasiadas coisas que ignoro. Contudo, sei que nada sei, e isto tem-me permitido aprender, tomar conhecimento, entender uma data de outras coisas intangíveis a lambe-cus como o senhor Beja. Por exemplo esta: a democracia é (ou devia ser) o governo através da discussão. Ora uma sessão de esclarecimento não é o mesmo que uma discussão pública  – uma é vertical, de cima pra baixo; outra é horizontal, uma coisa entre iguais – na primeira, o consenso é o triunfo de quem dá as respostas (em geral já prontas); no segundo o consenso é a satisfação das aspirações, ou da simples curiosidade, de quem faz as perguntas, ou seja, a democracia.
.
Outra das coisas que me tem permitido o reconhecimento da minha ignorância (e que visivelmente também não está ao alcance do senhor Beja) é o entendimento da função do humor em sociedade: a mim desopila-me o fígado e permite-me comentar a iniquidade do mundo com um olhar distanciado e uma certa urbanidade; isto é, sem ceder a arroubos mais primários, como o insulto soez ou a bomba. Mas igualmente sem eufemismos. Eu mato a cobra e mostro o pau.
.

Por isso decidi editar aqui hoje uma das minhas “expressões visuais” de um dito popular figueirense que talvez elucide o senhor Beja e outros pentelhos.
,