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quarta-feira, 8 de março de 2023

O sexo dos anjinhos com elefante na sala


 

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O problema não é um Deus que não existe, mas a religião que O proclama

José Saramago

Parece que cresce entre os portugueses, mesmo entre os católicos, uma grave e indignada perplexidade com o cinismo alarve e a hipocrisia atrevida dos mais altos “dignitários”(!) da santa madre igreja em relação às consequências do relatório devastador de uma comissão independente sobre os abusos sexuais no seu santo seio. Há mesmo quem se espante por não haver grandes e ruidosas manifestações cívicas de protesto e de repulsa, mas também com a despropositada reverência respeitosa com que ainda são tratados estes velhos pulhas viciosos nos meios de comunicação social e até por responsáveis políticos eleitos (alguns destes chegam mesmo a babar-lhes as manápulas para lhes lambuzar os anéis): entre salamaleques e genuflexões, por “Reverendíssimo”, “Dom não-sei-quê”, “Eminência”, “Excelentíssimo” ou quejandos, e não simplesmente por “bandalho” ou “filhodaputa” e à chapada e a pontapé-no-cu ou na cabeça que é como são tratados, nas esquadras de polícia portuguesas, todos os suspeitos de crimes repugnantes e hediondos.

Os portugueses chegaram ao ponto de terem de esperar sentados que um grupo impávido de velhos lúbricos, babados e de olhos vermelhos, discuta cinicamente entre si o sexo dos anjos (se a pedofilia é realmente crime sórdido e horrendo ou apenas uma simples contra-ordenação, um pecadilho que se resolve com três painossos e duas avémarias).

Tudo leva a crer que a sociedade civil portuguesa não sabe como lidar com uma organização pederástica e mafiosa, sustentada numa hierarquia rígida, num código de silêncio e de obediência cega e inflexível e liderada por uma gerontocracia cínica, cheia de manhas e de vícios e ungida de inexplicados privilégios.

A sociedade civil portuguesa tem, obviamente, um elefante na sala.

Pode continuar a fingir que ele não está lá, como sempre fez, até agora - mas não é por isso que ele não deixa de lá estar, paquidérmico, sempiterno, ignóbil, masturbador, nauseabundo, venéreo, pederástico e insinuante, como nunca. Ou então, pode fazer algo por si própria, por uma vez. E livrar-se do elefante para sempre.

Há duas maneiras de conseguir o desiderato. A “bíblica” e a “democrática”.

A “bíblica” ou “pombalina” (também chamada “à antiga portuguesa”) consiste basicamente em tomar-lhes os colégios, as residências, os seminários e as igrejas onde foram consumados os crimes e chegar-lhes fogo. Depois arrasá-los. Por fim, salgar a terra. Esta é a opção mais cara e complexa (exige uma pesada logística), invasiva (talvez um tanto brutal) demodée e, em simultâneo, menos eficaz e definitiva - porque não assegura que a actividade criminosa não possa prosseguir noutros locais.

A melhor opção é, pois, a “democrática”. Desta maneira, mais limpa, a sociedade civil portuguesa pode facilmente livrar-se do paquiderme no meio da sala sem sequer questionar minimamente a santa integridade da propriedade privada - respondendo, em referendo, a duas perguntas singelas:

1 - Concorda com a Concordata?

2 - Concorda com a isenção de impostos da Igreja Católica?

- Se a maioria dos portugueses concordar com a Concordata (um tratado infame assinado, pela parte de Portugal, por um estafermo nefando que já retratei aqui e que, inexplicadamente, ainda circula em liberdade) sociedade civil continua a impedir qualquer tribunal português de interrogar padrecas, bispos e até cardeais (sempre que julgar pertinente), de os levar a julgamento (se julgar necessário) e de os condenar (se julgar justo).

- Se a maioria dos portugueses concordar com a (também incompreensível) isenção de impostos da citada organização criminal, sociedade civil continua a permitir o seu financiamento e, com isso, a perpetuar o crime.

- Se a maioria dos portugueses discordar de ambas, sociedade civil livra-se finalmente do elefante. Simples assim.

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