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terça-feira, 6 de agosto de 2019

Stª Catarina de Ribamar, os piratas e os grunhos

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Há monumentos ou sítios que se tornam símbolos, ícones, ex-libris de um local ou de uma comunidade. Há outros que, além disso, se tornam também emblemáticos de uma atitude colectiva e de uma prática sistemática, por indiferença ou premeditação. De certa maneira, uma maneira muito enviesada e figueirense, este é o caso do Forte de Stª Catarina de Ribamar da Figueira da Foz.
Em todo o concelho há, infelizmente, mais casos semelhantes (o fortim de Palheiros, a capela de Stª Eulália, o Paço de Maiorca, o convento de Seiça), mas esta fortificação militar é o exemplo acabado e ilustrado deste paradigma genuinamente figueirense. Trata-se de um monumento que representa emblematicamente, como talvez nenhum outro, a indiferença ressentida e rancorosa e o desprezo vingativo que são os ingredientes da atitude, do sentimento, que os figueirenses (as autoridades e os paisanos, de geração em geração) nutrem pelos seus sinais identitários, pelo seu património em espaço público e pela história, a memória, a cultura e a arte em geral (sobre este assunto específico já me permiti algumas copiosas considerações, aqui).
Embora esta sanha vingativa e exterminadora, prazenteiramente masoquista na auto-mutilação, tenha vindo a ser notícia, nos últimos tempos, a propósito da mais recente investida municipal contra o património vegetal, esta posta é sobre o edificado, a memória histórica e, mais precisamente, sobre o Forte de Stª Catarina. Muitos já se lhe referiram e eu próprio, não desfazendo, também já uma vez me debrucei sobre ele neste blogue, mais precisamente a propósito das obras na sua zona envolvente. É que o velho forte está de novo na posse dos piratas – ou dos grunhos (no es lo mismo, pero es igual), senão vejamos:
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O forte de Stª Catarina integrava, com a fortificação de Buarcos e o Fortim de Palheiros, o sistema defensivo da enseada que se estendia para norte até ao cabo Mondego, contra os assaltos de corsários e piratas, frequentes neste litoral ao tempo dos Filipes. Edificado nessa altura, sobre uns rochedos a que chamavam Monte de Stª Catarina de Ribamar, foi tomado por Sir Francis Drake, “el draco” em pessoa, em 1602.
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Em 1643, no contexto das guerras da Restauração, foi reforçada uma das suas cortinas para comportar quinze peças de artilharia. Mas em 1680 já apresentava sinais de ruína (..)inspecionado pelo Sargento-mor Jerónimo Velho de Azevedo que avaliou a reparação em 600.000 reis. Tendo o Conselho da Fazenda mandado arrematar a obra em hasta pública, não se sabe se chegou a ser feita a reparação.
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Em 1808 foi de novo tomado, desta vez pelo duque de Abrantes himself pardon, pelo general Junot lui-même, Junot la tempête em carne e osso. Retomado pla tropa fandanga do académico Zagalo, foi entregue ao almirante Charles Cotton que, no comando da esquadra britânica ao largo da costa portuguesa, pôde dessa forma assegurar o desembarque seguro de 13.000 homens sob o comando do general Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington, na costa de Lavos.
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Em 1822 está de novo em ruínas, "Precisa-se levantar os 3 merloens da Bateria, fazerem-se as 8 plataformas da mesma, concertar-se o telhado, paredes, portas e janellas da caza arruinada proxima ao Forte, e fazerem-se as tarimbas". dizia então o relatório do Nacional e Real corpo de engenheiros.
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Em 1888 foi instalado um farol de ferro no centro da fortificação, importante auxílio à navegação na entrada da barra do Mondego, desativado em 1969.
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Em 1911 uma casamata da bateria foi provisoriamente cedida ao Instituto de Socorro a Náufragos. 
Em 1930 parte da esplanada anexa ao forte foi arrendada à direcção do inenarrável Tennis Club Figueirense (como este, inexplicavelmente, ainda lá está, presumo que tenha sido arrendado definitivamente).
Entretanto, durante todo o século vinte, foi sendo vítima de todo o tipo de tropelias e sevícias mais ou menos trepanantes às mãos do inevitável Tennis Club e de outras entidades ligadas ao turismo e, claro, à animação de praia.
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Last but not least, e como não há nada de patético ou grotesco que não lhe aconteça, foi classificado imóvel de Interesse Público, pelo Decreto n.º 44.075, publicado no Diário do Governo, I Série, n.º 281, de 5 de dezembro de 1961.
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Este é um monumento mártir, como aliás a santa de quem usa o nome. Só lhe saem duques e cenas tristes no jogo da História. Sempre que é tomado aos piratas é, invariavelmente, entregue aos grunhos.
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Sob a tutela da gloriosa Marinha Lusitana (ou do Ministério da Defesa ou lá o que é) até há poucos anos, foi finalmente entregue à Câmara Municipal. E os resultados estão à vista. Se as obras da zona envolvente, em 2013 (às quais já me referi aqui) foram o que se sabe, o uso que os grunhos que dirigem o município lhe reservaram indicia que o único interesse que o público figueirinhas vê num imóvel classificado é o da venda da cervejola a copo.
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O Forte está hoje tomado, ou ocupado, por uma bjecaria – um botequim, uma loja de bjecas gurmê. O logo de uma cervejola, pintado num toldo, flutua agora, como um pavilhão de piratas, ao lado do velho farol que, obsoleto, foi transformado num triste e surrealista bibelot decorativo. A sua capela maneirista foi transformada num alarve armazém de vasilhame e os seus baluartes e passadiços, pejados agora de ladrilhos vidrados, de guarda-sóis tropicais e de mobília de jardim, numa nefanda esplanada-de-praia. Só falta envidraçar todo o conjunto para transformar de vez o velho forte numa marquise, como todos os outros ícones da restauração figueirinhas (lá chegaremos, com certeza).
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- É verdade que o imóvel podia ter sido aproveitado para um museu militar ou de História, um local de exposições sei lá, um centro de interpretação, onde se explicasse aos fedelhos e aos pais deles (que também não gostam muito de ler) a história das devastadoras investidas dos piratas no tempo dos Filipes, a das guerras da Restauração, a da resistência à ocupação napoleónica, a do socorro a náufragos e a do auxílio à navegação. Ou a história das centenas ou milhares de pescadores que o forte viu embarcarem para a Gronelândia ou para a Terra-Nova e dos que não tornaram a vê-lo porque nunca voltaram desse infame degredo esclavagista. E, já agora, também se lhes podia explicar quem foram Sir Francis Drake, o duque de Abrantes e o de Wellington, o almirante Cotton e até o académico Zagalo.
- Poder, podia. Se o objectivo fosse o conhecimento, e a sua divulgação.
Mas não era a mesma coisa. 
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Porque o verdadeiro objectivo assumido, ainda que inconfessado, é o entorpecimento, pela animação – o entretenimento, o mais elementar e redondo utensílio daquilo que eu chamo educação para a estupidificação.
Afinal esta é a terra que festeja corsários e piratas (os mesmos que outrora aterrorizavam os antepassados dos actuais figueirinhas) e até lhes dedica uma feira temática anual onde, mui pedagogicamente e com o alto patrocínio da Câmara Municipal, do seu pelouro cultural e da junta de Freguesia, eles são alegre e amnesicamente apresentados como muito patuscos, amigáveis e folgazões - exactamente, sem tirar nem pôr, como nos filmes do Errol Flynn que o presidente da junta via, quando era rapaz novo, no galinheiro do Parque-Cine, essoutro ícone do esquecimento e da (auto)degradação figueirense.
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*A foto que ilustra esta posta foi tirada do exterior porque o “estabelecimento” estava encerrado. De qualquer modo, o leitor interessado pode sempre deslocar-se lá para aferir com os próprios olhos o critério de sofisticado bom-gosto que presidiu à escolha dos novíssimos ladrilhos que “alindam” agora os pavimentos superiores, bem como dos guarda-sóis, da mobília de jardim e do bar de praia instalado no baluarte a nascente.

segunda-feira, 19 de março de 2012

O deputadinho por Coimbra


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João Portugal, o deputado sucialista por Coimbra que também é figueirinhas, descobriu que a vala de Buarcos é uma questão de saúde pública. Diz que “quer uma solução imediata” e preconiza mesmo o seu “emanilhamento”.
O deputado Portugal acha que encanar eflúvios de porcaria para o mar resolve os problemas da ecologia. Julga ele, pauvre petit con, que na praia da Claridade a merda, escondida ou dissoluta em água salgada, não fede.
-Eu cá acho que uma fiscalização eficaz e uma punição exemplar a quem conspurca linhas de água seria bem mais barato e realmente definitivo - mas isto sou eu a dizer; que nunca consegui sequer eleger um deputado.
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Contudo, para além destas, Joãozinho diz outras, mais, muitas merdas.
Aqui há tempos, disse que veria com bons olhos uma grande superfície comercial na baixa figueirinhas. Devia estar a referir-se, claro, ao edifício do actual Mercado Municipal e envolventes. Os promotores das obras de beneficiação da zona envolvente do Forte de Santa Catarina também devem ter os olhos nele - para além de um espelho de água artificial a poucos metros da foz natural do maior rio português e do grande oceano Atlântico, o projecto também já prevê umas escadas rolantes para o chópingue, perdão, mercado municipal remodelado
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Os pacóvios do país homónimo do deputadinho Portugal adoram espelhos de água. E escadas rolantes. E centros comerciais e o caralho. Enfim, obras realmente estruturantes.

- Por isso é que João Portugal já foi eleito uma porção de vezes e eu nunca consegui eleger um único deputado.

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Ramalho e o mistério da praia da claridade

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"A Figueira participa do carácter que tem Coimbra, um pouco para pior, porque os estudantes que frequentam a Figueira são ordinariamente os piores, os mais broncos, os que não saem de Coimbra, aqueles em que os efeitos do vício universitário se desenham mais profundamente.

Estes senhores com o seu afectado desdém, com o seu mau ar de críticos, com o seu espírito de troça, e os srs. professores com a sua sobranceria catedrática, constituem o grande senão da sociedade da Figueira, sobre a qual destingem a sua cor especial.
E, não obstante, nenhuma outra praia em Portugal possui as condições desta para tornar agradável a estação dos banhos.
Batida do grande mar, tendo à direita a bonançosa baía de Buarcos e à esquerda os rochedos em que assenta o castelo de Santa Catarina, que defende a foz do Mondego, a vila da Figueira oferece aos banhistas incomparáveis condições.
A povoação é rica pelo comércio do sal e pela exportação dos vinhos da Bairrada.
Uma companhia edificadora tem construído casas agradáveis, em um bairro novo junto à foz do Mondego, em sítio elevado e sadio. Neste bairro há um hotel, Foz do Mondego, onde se recebem hóspedes a 1$000 reis por dia.
A vila tem ainda mais dois hotéis, o Figueirense e o da Praça Nova, um pequeno teatro, uma praça de touros e dois clubes: a Assembleia Recreativa, no bairro novo, onde se dança às terças e sextas-feiras, e a Assembleia Figueirense, no antigo palácio dos condes da Figueira, onde se dança à quinta-feira e ao domingo.
Além das soirées nos dois clubes, as senhoras costumam organizar concertos e bailes. A soirée é uma das grandes preocupações desta praia, e não será por falta de contradanças que os banhistas deixarão de se regozijar neste sítio.
As burricadas e os pic-nics a Buarcos, ao farol da Guia, ao palácio de Tavarede, vão-se tornando cada vez mais raros.
Por uma disposição superior, cujo alcance debalde nos esforçamos por atingir, é proibido o ingresso dos burros no interior da vila, o que não obsta a que lá entrem muitos - disfarçados.
O passeio predilecto dos banhistas é a Palheiros, pequena povoação de pescadores, a meio caminho de Buarcos, onde recolhem as redes da sardinha.
Na Figueira, entre a população fixa, que habita a antiga vila e frequenta a Assembleia Figueirense, e a povoação flutuante, que habita principalmente o bairro novo e frequenta a Assembleia Recreativa, não há hostilidades, mas existe uma forte emulação provinciana que se descarrega muitas vezes em pequenos episódios dignos de Dickens ou de Balzac.
A viagem da Figueira é bastante pitoresca, mas não isenta de incomodidades. Quer o viajante chegue a Coimbra às 3 1/2 horas da tarde, quer chegue às 4 horas da manhã, tem de esperar até às 6 horas da manhã ou até às 2 1/2 da tarde para poder seguir para a Figueira na diligência, que gasta seis horas neste caminho e pede 1$000 reis por cada lugar.
Na imperial da diligência, como artista, em companhia alegre; ou em carruagem descoberta, que se pode alugar em Coimbra, o caminho não parece longo, porque a estrada é boa e a paisagem lindíssima.
Entra-se na vila por uma estreita garganta que se alonga para o viajante como o bico de um funil. Se não é fácil a entrada pela foz do Mondego...a entrada em diligência pelo funil acima referido não é menos perigosa. Somente, pela via de terra é permitido ao viajante um expediente, que se não usa na superfície líquida, e vem a ser: desembarcar a distância respeitosa e entrar cada um na vila pelo seu pé.

Ramalho Ortigão in As praias de Portugal - 1876

Quando Ramalho Ortigão passeava pla praia da claridade o seu largo chapéu desabado e o seu bigode frondoso, à segundo império, nenhuma outra possuía então “as condições desta para tornar agradável a estação dos banhos”. Nesses tempos a Figueira era uma povoação “rica pelo comércio do sal e pela exportação dos vinhos da Bairrada”. Os banhistas ricos, de hotel e de salão, chegavam em Junho e por cá residiam até meados de Setembro; só em Outubro vinham os pobres, os gandareses, os banhistas de alforge - todos os dias pla fresca, regressando a casa pla noitinha.

Entretanto - embora se tenha esforçado sempre por se parecer com a imagem que quis ver do relato de Ramalho, e sempre sem reparar demasiado no seu óbvio acento irónico - a Figueira mudou. Foi mudando. Hoje em dia já nenhum banhista aqui reside de Junho a Setembro.

Recentemente Isabel Brites, presidente de uma pitoresca associação de restaurantes local, confiou a um jornal que “Estamos a ter, definitivamente, o verão mais baixo dos últimos anos”. E que “há menos turistas em permanência. Durante o dia não se consegue encontrar um lugar de estacionamento onde colocar o carro, mas de noite a cidade está devoluta. Aquilo que nós concluímos é que as pessoas vêm de manhã à praia e regressam a casa ao final da tarde; ou seja, só o banhista de alforge vem à Figueira - mas já não fica de Junho a Setembro; nem sequer para as soirées. O que é um mistério insondável, porque à terrinha não lhe falta animação.

Entretanto também foi revogada a proibição de entrada de burros na vila, o que é irrelevante porque a livre circulação - tanto de visitantes como de residentes, disfarçados - sempre foi um facto reconhecido que justifica plenamente a afirmação de que na Figueira é carnaval todo o ano.
A vila fez-se cidade. Já não tem teatro (nem pequeno nem grande), nem contradanças ou concertos, nem sal, nem vinhos da Bairrada para exportar, nem folha periódica onde o comércio local possa fazer publicar os seus anúncios (é notório, aliás, que a cidade já quase não tem comércio local).
Mas tem casino (uma catedral), praça de touros, cinema (quatro salas num buraco, num centro comercial), alguns hotéis, e muitos e muitos bares e restaurantes e cervejarias. E outras tantas grandes-superfícies-comerciais. Ah, ainda tem comboio para Coimbra. E, isto é claro e indiscutível, muito melhores acessibilidades rodoviárias do que no tempo do Ramalho.

Da ramalhal figura é que nem sinal. Nem uma placa, pequeno busto ou memorial. Nada. Nenhum vestígio do seu passo enérgico e da sua grossa bengala, inglesa, nem da sua ironia fina.


terça-feira, 29 de março de 2022

O senhor Putin, o vilão do nosso tempo



É realmente notável o efeito da propaganda. Mesmo espíritos aparentemente sofisticados e exigentes, que eu julgava dotados de algum cepticismo, premissa de todo o distanciamento, depois de uma mais ou menos larga exposição aos efeitos de noticiário superiormente dirigido, depressa revelam os mais baixos instintos e logo adoptam os atavismos, e os costumes maria-vai-com-as-outras, da turba: o fanatismo normalizado, o pensamento único, a visão a preto-e-branco e a intolerância implacável e inflexível com todos os matizes de quem pensa e se exprime de forma distinta.

Eu permiti-me um post no qual acentuava o non-sense e o despropósito da guerra e a belicosidade ridícula do nacionalismo amussolinizado do Tarass Bulba de opereta que é a nova unanimidade ocidental, um chuchuzinho cossaco para todos os que, entre nós, comem gelados com a testa.

O que fui fazer. A minha caixa de comentários (sobretudo no face book) encheu-se de despropósitos insultuosos e de delírios acusatórios mais ou menos imbecilizados pelo fanatismo. O que prova quão sensíveis e melindráveis são afinal as almas viris mais entusiastas da guerra. Eu podia tentar explicar-lhes que o post em causa era sobre o pulha do senhor Zé Lensqui e não sobre o desgraçado povo ucraniano, e muito menos uma apologia do estafermo do senhor Putin. Mas reconheço que isso seria exigir-lhes um esforço intelectual visivelmente acima das suas possibilidades (para os prosélitos da santa-guerra quem-não-é-por-nós-é-contra-nós e mainada porque tudo na vida deles se resume a Benficas e Sportingues, Fonsecas e Madureiras, alecrins e manjeronas, mas sobretudo a nós e eles). Tive até o caso de um reconhecido escritor que há tempos fez o argumento de uma grande produção cinematográfica sobre as agruras épicas de uma família latifundiária alentejana durante o verão quente de 1975, uma espécie de Dr. Jivago da Amareleja, que me disse que eu devia ter vergonha. E tenho, caro senhor. Creia que tenho imensa vergonha – de que gente que aparentemente sabe escrever (até o faz no meu mural) afinal não sabe ler.

Mas deixemo-nos de coisas tristes e passemos a coisas sérias que este post é sobre Vlad, o arrombador, ou o esbardalhador. O senhor Putin.

O senhor Putin, tal como o senhor Zé Lensqui, é um tiranete impregnado de autoritarismo e de nacionalismo tóxico. Tudo o que o senhor Zé Lensqui está a tentar fazer na Ucrânia (instalar o mais amplo liberalismo económico, privatizando tudo o que ainda é público no país e oferecendo-o de bandeja à sua clique de sponsors e empreendedores) o senhor Putin já fez na sua mãe-Rússia - só que, não sei porquê, só aos sponsors do senhor Putin se chamam oligarcas. Sendo ambos amantes das mais amplas liberdades económicas, e igualmente adversários dos mínimos direitos cívicos e laborais, é natural que toda a gente se pergunte por que raio é que eles se não entendem. Pois não sei. Não sou especialista em geoplítica. Mas sei alguma coisa de história das nações. E leio romances. Agora ando a ler Ivan, o terrível. Tolstoi. Não é para beibes.

Ao contrário da Ucrânia, que é uma nação sem história e um estado sem passado nem instituições, a Rússia é uma nação muito antiga e tem uma longa e cabeluda história de grande estado de muitas nações (entre as quais a Ucrânia) guardada numa arca.

Quando a União Soviética se desmoronou e, durante o desvario alcoólico-capitalista do senhor Yeltsin, se dividiu em não sei quantos novos estados independentes (entre os quais a Ucrânia) no meio de uma enorme crise social e económica, a novel e depauperada Federação Russa e os seus milhões de russos humilhados e ofendidos precisavam urgentemente de um novo cimento ideológico para segurar as nações que lhe restaram e assim substituir a ideologia do país dos sovietes, que tinha sido o cimento de uma super-potência.

Foi aí que Vlad Putin, que, entretanto, tinha sucedido a Yeltsin, mandou buscar a arca. A arca russa. E Vlad que, ao contrário de Yeltsin, nunca bebe nem fuma, quando abriu a Arca, inalou.

- O ar de séculos, fétido de miasmas de almas mortas e de espíritos; - o suflo ácido da idolatria, da superstição e da santíssima religião, mui ortodoxa e medieval, e dos seus popes borrachos, lúbricos e fanáticos; - a exalação viral da violência instituída e da obediência hereditária; - o bafo quente e gelado das entranhas da Santa Mãe-Rússia; - o hálito azedo do poder absoluto e brutal, o mesmo hálito dos csares Ivan, o Terrível, Boris Godunov e Pedro, o Grande; da Grandessíssima Catarina, a segunda e do não menos terrível Zé´staline, primeiro e único; - o alento severo do homem-forte e do pai-protector.

Quando Vlad fechou a arca, tossicou intoxicado, teve uma trip e logo a seguir uma epifania.

Vlad, o senhor Putin, não era ainda, nesta época, o vilão malvado e retorcido que o ocidente iria passar a gostar de odiar. Ele vai começar por consolidar o seu poder. Primeiro vai neutralizar o poder e influência de alguns oligarcas demasiado enriquecidos pelos favores corruptos do seu antecessor e mentor, Yeltsin. E fá-lo como manda a tradição na mãe-Rússia. À bruta. Confisca-lhes as fortunas, um ou outro aparece misteriosamente falecido e os outros na prisão por muitos anos. Assim re-nacionaliza várias empresas de petróleo e gás, o que lhe permite ir saldando a dívida externa e fazer crescer o rendimento médio. Ainda assim, mais de oitenta por cento das empresas privadas do país estão hoje nas mãos dos seus oligarcas. E estes, nas suas. Vlad só poupa os que se lhe submetem. Persiste na liberalização da economia e, mesmo que as desigualdades aumentem ao ponto de quase igualar as do Brasil, o campeão mundial absoluto deste triste campeonato, elas continuam a crescer alegremente ao mesmo ritmo a que a Rússia vai conquistando a confiança dos mercados, o prestígio internacional e até o seu status tradicional de potência mundial, abandonado nas últimas décadas. Putin torna-se cada vez mais o homem-forte, o pai-protector da grande mãe-Rússia. E torna-se também um exemplo e uma inspiração, em todo o mundo, para toda aquelas sensibilidadezinhas frígidas que só se excitam verdadeiramente com lideranças musculadas.

Vlad Putin não é um homem grande e até tem um andar engraçado. Mas não é bailarino. É velhaco. E obstinado. Já bateu Zé´staline em anos de permanência no Kremlin. Sempre a assar frangos. À bruta. Contudo, ao contrário de Yeltsin, o gigantone que só queria enriquecer e emborrachar-se, Putin é um homem pequeno com uma grande ideia de si próprio. Uma grande, enviesada e retorcida ideia de si próprio. Mas também do seu país. E sobretudo do seu papel na história do seu país. Uma coisa vai com a outra. Como Napoleão, ou o Csar.

À mínima renitência ou objecção, lança sobre os seus detractores o bafo gelado e colérico da grande Mãe Rússia, na forma da mão pesada e implacável do seu aparelho judiciário. Clama que a pátria está em perigo. Que cercam a Rússia. Mostra os mapas. E está. Está mesmo. A Mãe-Rússia está mesmo cercada de bases da OTAN por todos os lados. Sente-se humilhado e ofendido. Sente-se traído.

Enquanto, sempre aconselhado pelo FMI e plo departamento do tesouro dos Estados Unidos, liberalizava a economia e cultivava o seu viveiro de corruptos predilectos que seriam os parceiros de negócios do ocidente, este cercara-o de bases militares por todos os lados. Está furioso. Sente-se encurralado. Mas ainda havia pior.

A Ucrânia, a sua amada Ucrânia, a outra Rússia, que se tinha tornado independente com a garantia de neutralidade e de desarmamento nuclear, tinha afinal passado os últimos anos, fornecida pelos países da OTAN, a armar-se até aos dentes; e o seu presidente, o actor Zé Lensqui, ufano de estupidez natural e com as costas quentes - talvez esquecido, ou ignorante, de que nunca se deve cutucar um urso furioso com uma vara demasiado curta - tinha mesmo reiterado a vontade explícita do seu país se tornar também uma potência nuclear. Irra. Foi a mosca na sopa de Vlad, o senhor Putin.

Foi então que Vlad se lembrou que a Santa Rússia também era uma super-potência. Era altura de passar a comportar-se como tal. E resolveu explicar ao mundo como aprendeu a parar de se preocupar e a amar a Bomba - fazendo exactamente (by the book) como os Estados Unidos da América já fizeram uma porção de vezes e nunca lhes correu mal: invadir um país independente, violando a carta das Nações Unidas e todas as leis internacionais conhecidas.

E foi assim que Vlad, o senhor Putin, se tornou o vilão do nosso tempo. Invadiu a Ucrânia.. E vai esbardalhar aquilo tudo até se lambuzar. E ninguém mete a colher. É o metes. Porque Vlad tem a Bomba. E não se importa de a usar.

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Em 2008 fiz este desenho de Putin.

Agora fiz o que está reproduzido acima. Suspeito que seja isto um retrato acabado.
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terça-feira, 20 de agosto de 2013

do sumséte ao fiúzingue e ao espelho d'água, ou a metáfora da figueirinha loira

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Tenho uma amiga que me acusa de dizer mal de tudo. Mas eu tenho um problema, Paula: sou hiper-sensível à fealdade e à estupidez e não tenho culpa de só eu reparar em certas merdas. Ou, pelo menos, de só eu o escrever, tornando públicas as minhas perplexidades.

Num texto de 2009, a que chamei “singularidades de uma figueirinha loira”, eu atribuía à comunicação social (que na Figueira é, verdade seja dita, exponencialmente mais sabuja do que na generalidade do país do respeitinho), alguma responsabilidade conivente nessa “marcha lenta e descendente” que é o triste e patético declínio da Figueira da Foz.

Depositava eu, então, alguma esperança nas redes sociais das novas tecnologias da informação.
Pensava, oh santa ingenuidade, que a facilidade de acesso à comunicação, dotando as pessoas de uma liberdade de expressão sem precedentes, levaria uma cidadania até aí silenciada (pela conveniência dos donos do poder) e alienada (com a conivência dos donos dos tradicionais meios de comunicação), a uma espécie de redenção: que a expressão livre da opinião e o debate alargado e sem filtros proporcionassem condições que, inevitavelmente, contribuíssem para consciencialização dos cidadãos e que, enfim, algum progresso fosse possível.

Não foi bem uma desilusão. Como na altura também referi, a constatação da realidade dificilmente defrauda as expectactivas de um pessimista. Parafraseando o grande José Mário Branco no seu devastador desabafo, “FMI”: “esta merda não muda porque a malta não quer que esta merda mude”. Mainada. Ponto.

Basta seguir com alguma atenção, mesmo distraída, os interesses e comentários dos usuários figueirinhas das redes sociais para se aquilatar da qualidade, e até do grau de alfabetização, de uma cidadania acéfala, acrítica, abúlica e imbecilizada pelo entretenimento vazio a que, babada e alarvemente, chama “animação”.
Receio por isso ter sido demasiado severo com a imprensa local; Convenhamos que, se esta é mole, reverente, beija-mãos, arrasta os pés e lambe-cus é porque afinal está à imagem da maioria dos seus leitores, o seu “público alvo”.

Esse público alvo é o mesmo que se manifesta nas redes sociais, enlevado e empolgado com eventos como o “sumséte”, uma iniciativa comercial que consistiu em convocar para um local específico, circunscrito na praia da Claridade, uma mole inaudita de pacóvios para desfrutarem, ao som de baile mandado por música gravada, de um fenómeno que se pode apreciar todos os dias, em qualquer lugar, sem consumo obrigatório ou compulsivo e de forma bem mais tranquila: o pôr-do-sol.

Essa cidadania voluntariamente inerme é a mesma que aplaude entusiasmada outro evento comercial, supostamente iniciativa de uma misteriosa “associação de jovens” que, sustentada por inusitados apoios empresariais e institucionais, levou a toda a cidade “o fiúzingue” que, segundo a organização, é “a fusão da arte, da música e da gastronomia” e que é todo um novo conceito de “animação”: contrataram bandas musicais da moda, conhecidos chefs da televisão e artistas muito in que pintaram garbosos e muito bem comportados grafittis nos mais visíveis muros da cidade (nada de caralhos nem fodasses nem morras ou abaixos nem outras obscenidades equívocas, mais ou menos lascivas, políticas ou sequer subversivas). Ah, e tudo muito in ingliche, ófecórse, para gáudio de toda uma geração de novos labregos que tem visíveis dificuldades com a língua portuguesa mas que cultiva uma compulsiva necessidade de demonstrar a si própria e ao mundo em geral que comunica entre si perfeitamente na língua do tio Sam e dos super-heróis da Marvel; um fenómeno que está aliás, a contagiar até a boa-sociedade: reparei num restaurante muito gurmê da cidade que, na sua tasquinha (uma dessas quitandas abarracadas que agora é moda instalar dentro destes eventos), anunciava, solícito: “sopas and fritos” - foda-se, e porque não “churrascos and caldeiradas”, caralho? E, já agora, porque não também “arroz doce and, you know, baba de camelos”, unh? Puta que pariu.

Essa cidadania embrutecida e alarve é o público alvo ideal para as inaugurizações do período pré-eleitoral. Num concelho em que a rede de saneamento básico não cobre ainda todo o território, as obras de requalificação da zona envolvente do Forte de Stª Catarina por exemplo, são um luxo absurdo no qual foram investidas somas pornográficas em materiais nobres como o granito natural, o aço patinável e o inox; e nem um cêntimo sequer na requalificação do forte propriamente dito. Não foi feito nem um pequeno esforço para aliviar esta edificação militar (património do tempo de D. João I, reconstruído pelos filipes e testemunha das guerras peninsulares) dos ridículos acréscimos que lhe foram sendo feitos durante mais de um século por inefáveis entidades ligadas ao turismo e por um inenarrável club de tennis que lhe está colado à ilharga, como uma carraça, desde 1917. Todavia ainda tiveram engenho para o intervencionar escalavrando-lhe, a nascente, mesmo junto à muralha, uma medonha escadaria, toda em betão armado.

Mas, como antevi aquia pièce de resistence da requalificação da zona envolvente do forte foi, sem dúvida, a construção de um espelho de água artificial à sua volta, a meia dúzia de metros da foz natural do maior rio português e do oceano atlântico.
E, na inauguração, estavam lá todos: as forças vivas - com as entidades oficiais e os seus séquitos, as oficiosas, com as suas eminências e as suas boas famílias (como os cardosos e seus afins) logo na primeira fila - e as mortas com os seus papalvos, aos milhares, de boca aberta, para assistir à fanfarra dos discursos e molhar os pés cansados no espelho de água.

Ninguém reparou que este reflecte uma ruína.
Estavam todos inebriados com o luxo asiático da zona envolvente.
Penso que esta imagem é bem a metáfora perfeita de uma cidadania de merda. Ou melhor, o retrato fiel de uma figueirinha loira.
Uma figueirinha decadente e loira que se mira ao espelho e nem sequer vê o triste e baço despojo que ele reflecte, hipnotizada com o brilho fátuo da moldura dourada.
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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Os amigos da figueira

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O sintoma funesto das nações perdidas 
é a indiferença pública, o egoísmo vilão e cobarde 
destes lazaroni que catam os piolhos ao sol 
do terreiro do Paço e erguem a cabeça 
para saudar os ministros que entram 
Camilo Castelo Branco
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Fiquei a saber recentemente que, em 1999, a Figueira correu o risco de perder um dos seus ex-libris. A sério. 
Em 1999, a câmara municipal, ao tempo presidida por Santana Lopes, acolitado pelo então vereador Miguel Almeida (agora candidato a presidente plo Somos Figueira) aprovou, por unanimidade julgo (isto é, com a anuência, decerto entusiasmada, dos vereadores sucialistas, então na oposição), um projecto da Sociedade Figueira-Praia que visava a demolição da piscina-praia e a edificação, no seu lugar, de um hotel que arranharia os céus, em forma de cubo e com uma piscina no seu interior, para uso exclusivo dos seus clientes. 
Tal atentado à lesa-majestade do património construído figueirinhas só foi impedido graças a um grupo de figueirenses, “daqueles que amam mesmo a Figueira”, que fizeram um abaixoassinado e o enviaram ao IPPAR, assim conseguindo a classificação da bendita piscina e da sua prancha de saltos.
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Bom, passados alguns anos (14), a Figueira não só não perdeu um dos seus ex-libris como o adquiriu para património. É verdade. Santana & Miguel Almeida, não só não permitiram que se demolisse a santa piscina dos figueirinhas como a adquiriram para o município, num negócio-dachina para a Sociedade Figueira-Praia (em cujo contrato esta consagrou ad eternum o usufruto gratuito da piscina pelos seus clientes sem gastar um tusto na sua manutenção).
Ora digam lá se a Figueira (Praia) não tem amigos. Tem pois. E daqueles que a amam mesmo. É por isso que o Amorim das cortiças está cada vez mais podre de rico e o município cada vez mais endividado de podre.
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Mas o que é um facto é que a piscina-praia ainda lá está. Embora já sem a prancha de saltos que, se me acompanharam, tinha sido classificada plo IPPAR. Mas não importa, como diz o povo, vaiamse os dedos, ficamsenosios aneis, ólá o quié.
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Curiosamente, não me lembro de ver alguma acção tão enfática dos “verdadeiros amigos da Figueira” quando a  mesma Sociedade Figueira-Praia, num alvar negócio imobiliário, vendeu às parcelas o seu parque Sottomayor e um empreendedor empreiteiro aí aterrou o fortim de palheiros no meio de mais uma rutilante urbazinação.
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Também não me alembro de nenhum baixassinado ao IPPAR a propósito da infame reconstrução do Paço de Tavarede que, patrocinada pla câmara municipal, está para o restauro de monumentos mais ou menos como as mézõns dos emigrantes para a arquitectura. Uma espécie de quinta essência da boçalidade.
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Tampouco me recordo de nenhum apelo ao IPPAR, ou IGESPAR (ou a outro putativo defensor do bom gosto e do bom senso) a propósito do que a mesma câmara municipal alarvemente perpetrou - após o último incêndio da Serra da Boa-Viagem - no único projecto do arquitecto Raul Lino construído no concelho da Figueira, o Abrigo da Montanha.
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Nem em defesa do Paço de Maiorca, outro ex-libris da Figueira, que a câmara municipal adquiriu por uma pipa de massa aos herdeiros da família possidente e depois ofereceu de mão beijada, num negócio taralhouco, ao sórdido Júdice que se lambuzou nele até às lágrimas - este caso, como já referi aqui, podia constar de um compêndio ilustrado sobre a lei económica dos vasos comunicantes, que é aquela que explica como se acumulam fortunas particulares na exacta proporção em que se endividam as autarquias e se vai depauperando o erário público.

E, assim de repente, também não me ocorre nenhum manifesto que esses figueirenses que “amam mesmo a figueira” tivessem alguma vez feito - repugnados, indignados ou sequer perplexos - por um mui selecto e privado club de tennis ter anexado, há quase um século, um imóvel de interesse público como o Forte de stª Catarina.
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Assim como também não me lembro que se tivessem manifestado sobre a recente “requalificação” da zona envolvente do mesmo forte. Requalificação que não só se “esqueceu” da competente ordem de despejo ao inefável club de tennis como do monumento propriamente dito (que pretendia valorizar, creio) e ainda lhe escalavrou, a nascente, uma horrenda escadaria em betão armado e aço inox e, a poente, um tanque onde, de manhã, chapinham as gaivotas e, pla tardinha, os figueirenses mais pacóvios vão dar banho às almas e aos cães.
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Registe-se aliás que estes – com a sua natural tendência para a abjecção alarve - depressa ali descobriram uma nova praia do cagalhão - ainda antes da conclusão da requalificação da outra, integrada nas obras da zona ribeirinha.

Sim, porque os outros, os que “amam mesmo a Figueira”, esses, como é óbvio também devem estar a banhos - mas no Ólgarve.
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Ao alto, o Paço de Maiorca, visto do terreiro

Post-scriptum - Entendi por bem acrescentar o morceau em epígrafe (que achei na correspondência de Camilo ao visconde de Ouguela, que ando a ler) porque penso que lhe fica a matar. Ou se preferirem, "como uma cerveja no tópingue".
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