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Como já referi aqui, penso que o deleite estético como experiência sensorial proporcionada pela arte contemporânea é como o orgasmo da frigidez: fingido, snob e por sugestão auto-induzida; só se "chega lá" através de vasta literatura anexa.
Mas David Hockney não pertence a esta tradição.
Ao contrário de Marcel Duchamp, David Hockney não é um filósofo que questiona a arte, é um artista que questiona a vida.
Ao contrário de Duchamp (e dos seus herdeiros), Hockney não tem pruridos com o prazer retiniano nem com o labor oficinal.
Ele é um dos últimos de uma longa linhagem de artistas para quem o acto de ver é tão fundamental como o de fazer; e é isso que ele faz: observa e faz, dá a ver. Para isso serve-se, com as mãos ambas, de todas as técnicas tradicionais conhecidas e até de tecnologia de ponta.
A sua obra é um imenso prazer para a vista; um espectáculo de petites sensations fundamentais, como sentir e raciocinar. Ou seja, é um privilégio para a inteligência.*
David Hockney morreu ontem, “pacificamente, em casa, a 11 de Junho, um mês antes do seu 89º aniversário".
*Este texto é de 2012, tal como o desenho.
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