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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

O Maló d'Abreu e a “lição de Coimbra”


 

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O mercado de transferências está ao rubro. Maló de Abreu é a mais retumbante contratação do partido Chega. Veio do PSD a custo zero.

Maló não é um qualquer. Maló é um gajo que é doutor de Coimbrameudeus (embora se tenha licenciado em Lisboa) e chegou a ser vice-presidente do PSD e tudo, no tempo de Rui Rio. Mas desarriscou-se.

Irá agora concorrer pelo Chega no Circulo de Fora da Europa, o mesmo que o elegeu para a XV legislatura, onde foi Presidente da Comissão de Saúde, Deputado efetivo na Comissão de Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, Membro da Assembleia Parlamentar da CPLP e Presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-África do Sul.

Mas o ponto mais alto da carreira de Maló, a sua coroa de glória, foi em 1980, quando presidiu à Associação Académica de Coimbra e decidiu retomar as tradições académicas, após onze anos de interregno decretado pelo luto académico de 1969. 

Estas santas tradições académicas consistem basicamente no retomar de velhos hábitos medievais: os estudantes (e as estudantas) vestem-se todo-o-ano, mui alegre e rigorosamente, de preto como pinguins viúvos, e infligem consentidamente aos mais novos, de forma também muito cerimonial e sistemática, todo o género de sevícias mais ou menos humilhantes. Trata-se de, num culto festivo e em transe hipnótico e colectivo, da sagração da autoridade doutoral mais arbitrária e inflexível e da subserviência mais imbecil. É muito pitoresco. Já uma vez ilustrei esta linda e vetusta tradição, aqui.

A verdade é que há universidades que se distinguem pelo seu fascínio pelas luzes, pela aventura da descoberta, pela busca do conhecimento, sei lá, algumas até pelo número de prémios Nobel. São as escolas de Atenas. Não é o caso da de Coimbra. A de Coimbra é lusapenas - desde el-rei nosso senhor D. João III. O seu traço distintivo, digamos assim, é uma irreprimível atracção pelas trevas eivada de um tão arraigado como orgulhoso apreço pela prática, a céu aberto, de costumes medievais.

Mas a lição de Coimbra e o prestígio dos seus doutores estão ainda tão vivos no coração dos pacóvios que não há parvónia luzitana ou subúrbio mal frequentado que não ambicione uma extensão de qualquer uma das suas faculdades - tal como na consciência dos eleitores de fora da Europa que vão votar no Maló e no partido Chega. Todos eles acham a treva radiosa e querem um futuro assim trajado, a condizer.

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