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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Uma coisa assim.



Um cargo qualquer é sempre o que o homem que o exerce quer que seja

Stefan Zweig


A 9 de Junho de 2017, o jornal Expresso anunciava, numa peça assinada pelos jornalistas Valdemar Cruz e Isabel Paulo, que o presidente Marcelo já tinha escolhido o seu retrato oficial, de autoria de um desconhecido artista com atelier na rua do Almada, no Porto”. Segundo o substancioso relato (não há nada nele que se deite fora) o retrato escolhido pelo presidente numa visita ao Porto teria sido elaborado ao longo de dois meses a partir de duas fotografias e seguiria para Belém onde, no final do mandato, seria oferecido à Galeria dos Presidentes.

- O feliz contemplado pela escolha arrebatada do presidente foi António Bessa, um mestre desconhecido que se tornou conhecido por pintar retratos de pessoas conhecidas a partir de fotografias num atelier com montra muito fotografado pelos turistas. Já havia pintado retratos de Pinto da Costa e de Rui Moreira, e haveria de pintar um do Zélensequi e até do Papa, e está representado no museu do Futebol Clube do Porto.

A 12 de Fevereiro de 2026, com meio país já com água pela barba e o outro meio ainda acabrunhado sob os efeitos da depressão Kristin, Marcelo decidiu anunciar algo realmente importante: o jornal Expresso, desta vez pela mão de Christiana Martins, noticiou que “o Presidente da República escolheu Alexandre Farto, aka Vhils, para produzir o retrato que vai figurar no Museu da Presidência”. A 13 de Fevereiro, Marcelo disse à Agência Lusa, que “a razão principal” para esta opção foi, além de gostar das obras de Vhils, “o considerar um expoente, um símbolo de uma época, como o foram outros retratistas de outros presidentes noutras épocas”. Marcelo também confirmou, desta vez ao Observador, que o seu retrato oficial será apresentado em Março, na última semana do seu mandato, e quenão é um retrato - é uma coisa assim“.

- Alexandre Farto aka Vhils é um artista que também se tornou conhecido, e igualmente muito fotografado pelos turistas, por reproduzir fotografias de pessoas anónimas ou conhecidas em escala monumental com a sua “técnica única de escultura destrutiva”. Está representado em todas as grandes cidades do universo e até, dizem, no espaço.

Uma vez neste blogue permiti-me sugerir o nome de Noronha da Costa como o artista português mais capaz de “de captar convincentemente a intensidade atmosférica da fátua densidade psicológica da figura de Cavaco Silva”. Pensava eu quea técnica do sfumatto "à pistola" seria amais adequada à fixação precisa das impressões mais fugidias”. A verdade é que, como era fácil de prever, Cavaco optou pela técnica do lambidinho de Carlos Barahona Possollo e acabou por ter o retrato que merece e sobre o qual já me pronunciei aqui..

Assim, embora também aprecie o lambidinho, como se viu aliás pela sua primeira escolha, Marcelo acabou finalmente por escolher a técnica do martelo pneumático, aka motopico. É natural que o seu retrato definitivo não seja bem um retrato mas uma coisa assim, isto é, algo intrinsecamente parecido com a forma como ele quis exercer o cargo, tão do agrado popular e dos turistasÉ de esperar por isso que, já a partir de Março, o Museu da Presidência tenha capacidade instalada para atrair mais basbaques do que o Museu dos Coches.

Entretanto, por estes mesmos dias cabisbaixos, Manuel Nina, presidente da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis (EMER) 2030 resolveu juntar-se ao stand up marcelino e, numa performance de não menos desopilante timing cómico, nomeou um enfermeiro para coordenar o licenciamento de projetos de energias renováveis. A ministreza do Ambiente, que tutela a estrutura, fez saber que só tinha tomado conhecimento desta estruturante nomeação pela comunicação social e, em lugar de exigir a demissão imediata do senhor Nina de presidente da referida estrutura, consta que o terá pressionado a pressionar o enfermeiro a demitir-se, o que aconteceu uma semana depois.

O primeiro-ministro, muito ocupado a mostrar-se muito ocupado em visita a Coimbra ameaçada pela cheia, meteu água e logo a seguir a pata na poça debitando, entre outras não menos alagadoras necedades, que tinha estado a monitorizar o Mondego com a Espanha. Mas não demitiu a ministra do Ambiente. O presidente da república, muito entretido a amenizar a parlapatetice alarve e atrevida de um primeiro-ministro sem instrução primária, também não o demitiu.

Manifestamente estes sujeitos querem que os cargos que exercem sejam uma coisa assim.

Todavia, os sujeitos que assim exercem estes cargos são eleitos democraticamente, re-eleitos uma e outra vez e assim sucessivamente. Isto quer dizer, receio, que a base se revê no topo – que a nata é apenas a parte da substância que assoma, ressuda e cristaliza. Os montes (negros) e as suas cordilheiras não passam afinal de erupções do magma.

As coisas são o que são. E são assim por uma espécie de determinismo vulcânico, uma força da natureza que infunde o triunfo inflexível e inexorável de uma vontadinha que vem do fundo, porque sim. 


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