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segunda-feira, 25 de maio de 2020

Maria Velho da Costa (1938-2020)


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Todo o amor é abolição de limites até do próprio corpo
in Corpo verde
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Conheci Maria Velho da Costa num pequeno livro de poemas eróticos ilustrado por Júlio Pomar. Trata-se de Corpo Verde, uma edição de 1979, com 46 páginas, que eu ainda conservo como um dos mais preciosos tesouros da minha pobre biblioteca. Na época (por volta de 1980) eu tinha dezoito anos, era então um jovem com veleidades artísticas e o que me levou a adquiri-lo foram, confesso, os desenhos - a carvão, de uma factura quase caligráfica e intuitiva numa soberba liberdade de improviso e de evocação - de Pomar. Foram eles que me levaram a Maria Velho da Costa.
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Foi a descoberta de algo totalmente novo para mim (como referi, eu era um tanto verde, receio, tanto de corpo como de espírito). O erotismo no feminino. O sexo, na óptica da fêmea - na voz (pela palavra) de uma mulher. Sem arroubos pseudo-místicos ou sentimentais, nem eufemismos nem lugares-comuns nem vulgaridades vácuas. 
Não há nada mais magnífico e belo do que uma mulher adulta completamente livre, com voz própria e potente, e talento a condizer e que não se importa de os usar.
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domingo, 24 de maio de 2020

Outro postal d’ América (o nº15, agora do desconfinamento e do non-sense)

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- The Donald Trump, ao ordenar a reabertura imediata dos templos religiosos, e certamente na linha de fazer a América grande outra vez, soltou esta pérola (literalmente) lapidar: “A América precisa de mais orações, não menos.
- The New York Times explicou porquê, com esta primeira página ilustrada, na sua early edition.  
- That´s all, falks! 
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sábado, 23 de maio de 2020

Fritz Lang


Quando a humanidade, subjugada pelo temor da delinquência, 
se tornar louca por efeito do medo e do horror, 
e quando o caos se converter em lei suprema, 
então terá chegado o tempo para o Império do Crime.
Fritz Lang, in O Testamento do Dr. Mabuse
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Adoraria ter feito filmes em 1920, ter vinte anos nessa altura. Ter tirado partido da época dos pioneiros. Quando comecei, o cinema era já coisa arqueológica, já tinha uma história, já havia escolas de cinema e já se tinha estabelecido há muito o processo de o intelectualizar. Nos seus primeiros tempos o cinema pertencia à feira e eu ainda o sinto um pouco assim.” – escreveu Fellini no seu “Fellini conta Fellini".
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Fritz Lang foi um desses pioneiros. Foi ele um dos que tirou o cinema da feira para o tornar no que, como ele próprio referiu - poderia ter sido uma arte, estabelecendo os cânones intelectuais do que viria a ser uma nova linguagem de causar sensações. Sem ele não teria havido Alfred Hitchcock, nem Luís Buñuel. 
Foi a ver os filmes de Lang que ambos descobriram as suas vocações. Buñuel escreveu mesmo, em “O meu último suspiro”: “Foi ao ver As três luzes que senti, sem sombra de dúvida, que queria fazer cinema. Não eram as três histórias propriamente ditas que me interessavam, mas sim o episódio central, a chegada daquele homem de chapéu negro – apercebi-me logo de que se tratava da morte – a uma vila flamenga, e a cena do cemitério. Houve algo neste filme que me tocou profundamente, iluminando a minha vida, sentimento esse que foi confirmado ao ver outros filmes de Fritz Lang, como, por exemplo, Os Nibelungos e Metrópolis.”
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Não é pouco, convenhamos. Por isso vale a pena rever, se se puder, todos os filmes de Lang. Nestes lúgubres e novos tempos de crescente fanatismo e indiferente estupidez, há algo de novo, de iniciático, em rever alguém fazendo as coisas pela primeira vez. Ilumina uma vida.
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sábado, 16 de maio de 2020

Isaac Asimov


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O anti-intelectualismo é uma ameaça constante à nossa vida política e cultural, 
alimentado pela falsa noção de que democracia significa que 
"a minha ignorância é tão boa como o teu conhecimento"
Isaac Asimov
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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Este blogue é certificado

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Há dois meses que me é impossível partilhar na rede social Facebook os postais que edito neste blogue. A única satisfação que o Facebook me fornece é esta, lacónica e algo telegráfica: “Sua mensagem não pode ser enviada pois ela tem conteúdo que outras pessoas no Facebook denunciaram como abusivo.

Sem mais informação e depois de muito pensar, tudo me leva a presumir que os motivos desta censura ostensiva se devem atribuir (só pode) a possíveis sobressaltos em algumas almas melindrosas expostas à leitura deste humilde postal.

Por isto, e como nunca me arrependo de nada do que escrevo ou desenho e torno público, tomei a liberdade de eu próprio me fabricar uma espécie de “selo” ou “certificado” que este blogue vai, a partir de hoje, passar a ostentar com orgulho - não à lapela, mas na barra lateral - como um brasão heráldico.
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quinta-feira, 7 de maio de 2020

História exemplar.


Nelson Fernandes publicou no Face-Book um simples desabafo que eu penso que daria um belíssimo capítulo de uma História da Figueira da Foz.
É que, tal como Fernão Lopes, Nelson também poderia, se quisesse, encher um ou dois tomos com relatos assim sumarentos de outros episódios igualmente pícaros e repletos de factos e de protagonistas e de datas exactas e de documentos irrefutáveis que tudo comprovassem. Seria certamente uma tapeçaria tão sumptuosa de personagens e acontecimentos como a Crónica de el rei D. João I - só que sem povo nem defenestrações – a Figueira, como é sabido,  não tem povo nem público, ninguém age nem assiste - o que é uma maçada, mas como não se pode ter tudo a gente adverte-se com o que tem.
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Se Nelson se quiser dar a esse trabalho, eu ofereço-me já para a ilustrar - graciosamente. Para mim é serviço Público. Tenho a certeza que seria de grande utilidade para memória futura, sei lá, uma coisa assim sem tretas nem finas areias nem berço de sereias nem merdas quejandas, só factos e protagonistas: uma História natural, exemplar e concisa, colorida e ilustrada da Figueira da Foz e seus contornos e figuras, notórias e difusas.
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Mas adiante. O texto de Nelson Fernandes é o que se segue. Aquilatai, pois.

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A FIGUEIRA É DAS ÁGUAS
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A posição do Sr. Vereador Ricardo Silva sobre a concessão dos serviços de água à empresa Águas da Figueira é uma infantilidade política, e uma mentira descarada, de que a imprensa local faz eco. Infantilidade porque sabe que a concessão só pode ser resgatada no final do contrato. Descaramento porque foi o PSD, partido do qual é presidente da Concelhia, que fez e prolongou o contrato inicial. Mentira porque desde sempre a CDU não só se opôs, como sempre denunciou a concessão, sobretudo a iniquidade vigente em que a empresa paga à Câmara anualmente, pela concessão, trezentos mil euros, e cobra à Câmara, também anualmente, mais de quinhentos mil euros. Isto é, um único cliente, o concedente, paga a concessão e ainda sobram mais de duzentos mil euros. Isto é negócio bem feito, para a concessionária, é evidente.
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Mas vamos à história:
Nos idos de 1998 o Eng.º Aguiar de Carvalho, no último ano do seu mandato deixou de acreditar nos totolotos (aeroporto, ou eliminação de resíduos por pirólise) e converteu-se às privatizações como recurso de tesouraria, a exemplo aliás daquilo que acontecia nos governos do bloco central. Vendeu os Serviços Municipalizados de Águas e o Parque Industrial da Gala. O Parque Industrial da Gala vendeu-se rápido. Só apareceu um comprador, e era exatamente aquele que se desejava. O Sr. Aprígio Santos.
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Para as Águas o concurso era mais apetecível. A Câmara tinha acabado de construir e inaugurar a ETA de Vila Verde e a ETAR da Fontela, o abastecimento estava em cerca de 85%, e, portanto, o investimento para a cobertura total era residual. O problema estava na rede de esgotos, com uma cobertura de cerca de 40%, mas para esta, estava assegurado financiamento europeu, inicialmente a fundo perdido e depois a 75%. Aliás no contrato de concessão as candidaturas eram da responsabilidade da Câmara. O Eng.º Aguiar de Carvalho e seus vereadores (Dr. Melo Biscaia, Dr.ª Virgínia Pinto e o Eng.º Casimiro Terêncio) excluíram do concurso duas empresas, e determinaram um vencedor, que só não recebeu a concessão porque, as empresas excluídas, recorreram da decisão de exclusão.
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É sabido que o Eng.º Aguiar de Carvalho não foi o candidato do PS e que o PS perdeu essas eleições para o Dr. Santana Lopes e para o PSD. Remunicipalizou o Parque Industrial da Gala, o que foi uma boa decisão, e anulou o concurso para as águas, abrindo novo concurso, de que saiu vencedora a empresa que o Eng.º Aguiar de Carvalho tinha excluído. Foi pois o Dr. Santana Lopes, e os seus vereadores (Eng.º Daniel Santos, Dr.ª Rosário Águas, Dr. Pereira da Costa, Eng.º Casimiro Terêncio, etc.) que fizeram já em 1999 a concessão definitiva à empresa que se chama hoje Águas da Figueira.
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Este contrato de concessão deveria ter terminado em 2020, portanto este ano. Não terminou porquê? Porque foi prorrogado. A primeira prorrogação aconteceu porque alguém na Câmara, e não foram os serviços, não entregou a tempo os documentos necessários para receber a comparticipação da construção da ETAR de Vila Verde. Foi já o Eng.º Duarte Silva que tirou o coelho da cartola. Sem dinheiro para pagar a ETAR negociou a extensão do contrato e o tarifário. Mais um negócio bem feito, para a concessionária, pois acrescentou anos, creio que cinco, e um tarifário absolutamente leonino.
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O segundo mandato do Eng.º Duarte Silva, é já um descalabro financeiro de tal ordem que os fornecedores, sobretudo os fornecedores de obras públicas, já não se candidatavam às obras municipais. E então muitas dessas obras deixaram de ser ajustadas pela Câmara, e passaram a ser ajustadas como obras da responsabilidade das Águas da Figueira, tendo como pagamento um segundo prolongamento da concessão.
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À época são conhecidas as valiosas intervenções do deputado Municipal do PS Dr. Carlos Monteiro, não contra a concessão, entenda-se, mas por um tarifário mais ajustado à realidade dos consumidores. A negociação já com o Dr. Carlos Monteiro como vice-presidente da Câmara fez-se, mas os resultados tal como os conhecemos hoje são pífios. A Figueira da Foz continua a ter dos tarifários mais caros do país.
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A solução é mesmo não renovar a concessão e voltar aos Serviços Municipalizados. Mas ninguém de boa-fé acreditará que o PSD, (e já agora também o PS) uma vez no poder determine o fim da concessão. Na realidade está na moda substituir a «quadratura do círculo» pela «circulatura do quadrado». Mas com os mesmos protagonistas só são de esperar os mesmos resultados. As privatizações (com ou sem «regulador»), como diria o escorpião ao coelho antes de o morder, é que são a sua natureza.
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À parte. Fez-me bem este bocadinho de história. Desabafei!
Nelson Fernandes
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quarta-feira, 6 de maio de 2020

A língua portugueza, com clareza e com certeza


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Ontem foi o dia da Língua Portuguesa. Hoje, claro, é outro dia. Mas a verdade é que o Ministério da Educação, esse, exprime-se sempre assim. Por escrito.
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«A interdependência entre Programa e Metas Curriculares manifestase no facto de a operacionalização dos conteúdos ser definida nos descritores de desempenho constantes das Metas Curriculares. Assim, no Programa, em cada domínio, os conteúdos são acompanhados da remissão para os objetivos e descritores de desempenho das Metas Curriculares com os quais se articulam. Nas Metas Curriculares estão elencados objetivos e descritores de desempenho avaliáveis, permitindo que os professores se concentrem no que é essencial e ajudando a delinear as melhores estratégias de ensino.»

- E agora, perguntais vós, quem é que escreve esta merda (e outras como esta) lá no mnestério? Será suacelência o snhor mnistro Tiago Brandão Rodrigues himself?
- Pois não faço a mínima. Em todo o caso a verdade é que é ele,  com as suas tamanquinhas, que as assina em baixo.
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terça-feira, 5 de maio de 2020

Mais um postal da pandemia (nº13, foda-se))

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Aldir Blanc morreu. Covid-19.
Este postal chegou-me em forma de tuíte. De outro poeta, Arnaldo Antunes:
Rubras cascatas / Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas”. Quando morre o autor de um verso como esse, entre tantos outros memoráveis, só nos resta chorar e reverenciar. “Glória a todas as lutas inglórias”. Viva Aldir Blanc!
E Ruy Castro, na Folha de S.Paulo, dá mais exemplos.
Viva Aldir Blanc. E putaquepariu o coronavírus.
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