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Artistas – Todos uns
estouvados.
Ganham rios de dinheiro, mas atiram-no pela janela fora.
São, muitas vezes, convidados para jantar fora.
O que eles fazem não pode dizer-se que seja trabalhar.
Ganham rios de dinheiro, mas atiram-no pela janela fora.
São, muitas vezes, convidados para jantar fora.
O que eles fazem não pode dizer-se que seja trabalhar.
Gustave Flaubert, in Dicionário das ideias
feitas
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O desaparecimento do pintor António da Cunha Rocha, aos
oitenta e quatro anos, é um sinal do tempo. Um toque a finados de uma época que
se desvanece. E que não volta mais. Um fenómeno (ao qual já me referi aqui) que
permitiu a um pequeno núcleo de talentosos artistas, locais ou radicados, viver
honesta, decente e exclusivamente do seu trabalho numa cidade de província.
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O António foi um dos que descobriu mais cedo as
preferências de uma clientela muito exclusiva. E servia-lhes sempre o prato
cheio, em doses generosas.
Nas suas aguarelas o céu é sempre azul, as casas
sempre brancas e as árvores sempre verdes; o céu está sempre por cima das casas,
as árvores sempre por detrás destas e as águas sempre transparentes por baixo
dos barcos. Não há sobressaltos nem fantasias na arte de Cunha Rocha.
A sua
arte parece, à primeira vista, muito menos ousada (do que os arroubos
geometrizantes do sintetismo hierático de Zé Penicheiro ou do que a figuração
tumultuosa e expressionista de Mário Silva, por exemplo) e muito mais complacente
com o gosto do pitoresco dessa
burguesia que preza tudo, reconhecível, no seu lugar.
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Cunha Rocha não o fazia contudo por oportunismo ou
cinismo calculista, não. Ele não pintava o mundo como ele é, ou como o via, mas
como gostava que fosse. Nas suas paisagens não há céus cinzentos nem águas
turvas ou revoltas, nem barcos de recreio, nem automóveis, nem plásticos, nem
casas roxas, nem cabos eléctricos, nem eucaliptos ou cepos, nem sequer pessoas.
António detestava o feio (não era uma simples implicância, era ódio mesmo, frio e obstinado). A Beleza era o seu ideal. Passou toda a vida a pintar
a Arcádia; e a mostrá-la às pessoas. A ordem era o seu método. “a aguarela é fácil” - dizia ele, na sua
voz funda de barítono tonitruante, entre gargalhadas - “é muita água e pouca rela”. E sempre sem tons dissonantes, nem cores
sujas, nem gestos imprecisos ou pinceladas fortuitas. Não há, aliás, acasos, acidentes, em toda a sua obra. É tudo premeditado, como um crime perfeito. Como dizia Degas que toda a arte devia ser.
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Confesso, no entanto, que a sua capacidade de agradar à clientela endinheirada que
lhe admirava a perícia na reprodução de imagens que podia facilmente identificar
me enfurecia (o meu conceito de arte é outro). Mas tenho hoje que reconhecer que talvez esses burgueses não
fossem afinal tão beócios e obtusos como eu
pensava e que adquirir-lhe uma aguarela talvez fosse uma forma de levarem para
casa um registo - ainda que diáfano porque pintado com simples água lisa, mas por isso mesmo precioso e indelével - da sua própria consciência
de uma certa harmonia perdida, a nostalgia da Arcádia.
E é isso que não existe mais. Os burgueses endinheirados de
hoje já não compram arte - agora compram gadgets
e aplicações, automóveis de prestigio e telemóveis de aparato; os
pobres vandalizam a arte pública ou roubam os bronzes dos bustos para refundir:
Renderam-se todos à técnica, dando razão a Flaubert que, no seu Dicionário das ideias feitas
do nosso tempo registou: “Arte – leva ao
hospital. Para que serve se pode ser substituída pela mecânica, que faz melhor
e mais depressa?”
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Cunha Rocha viveu muito e intensamente. Sobreviveu a
moléstias que costumam ser funestas e a tragédias demolidoras (como se resiste à
morte-matada de um filho?) e nunca permitiu, entre litros e litros de café e
quilos e quilos de tabaco, que nada contaminasse a sua arte, o seu ideal.
Além disso era de
uma generosidade genuína e desconcertante. Admirador do meu talento (só os verdadeiramente grandes
podem ver alguma grandeza num simples pentelho),
várias vezes mo reiterou pessoalmente; contudo, porque era conhecedor do meu parco êxito, digamos assim, comercial achava-o
mal-empregado. Uma vez, numa
inauguração, chamou minha mulher Isabel
à parte e tentou convencê-la a persuadir-me a mudar de assunto, de temas, de motivos; ainda o ouvi (o António não sabia
falar baixo) dizer-lhe “com o talento que
tem, ele pode fazer qualquer merda que estes gajos gostem e queiram levar para
casa” (”estes gajos” eram os seus próprios clientes).
Está bem, António. Ela nunca tentou, porque sabe o que a
casa gasta. Mas eu nunca me esqueci.
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1 comentário:
Belo texto.
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