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quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A luta contra a corrupção está ao rubro


 

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Depois de uma longa e apurada averiguação preventiva à empresa da família do senhor Montenegro, a arquivadoria-geral da republica deliberou que afinal está tudo nos trinques: o senhor Montenegro pode continuar a perpetrar seja lá o que for que está a tentar.

Esta tudo bem assim e nem podia ser de outra maneira, terá suspirado o procurador Amadeu Guerra depois de muito procurar e não achar e antes de dizer - arquive-se.

A luta contra a corrupção continua. É uma guerra. Não é para meninos, amadeu.

domingo, 21 de setembro de 2025

em cartaz


 

HOJE, DIA 21 DE SETEMBRO, DIA INTERNACIONAL DA PAZ, o EnCAntar pela Paz TEM A HONRA DE APRESENTAR, PELA PRIMEIRA VEZ NA FIGUEIRA DA FOZ, O FILME “NO OTHER LAND”, PREMIADO EM 2025 COM O OSCAR DO MELHOR DOCUMENTÁRIO DE LONGA METRAGEM.

ÀS 21.30H, NO AUDITÓRIO MADALENA BISCAIA PERDIGÃO

Como Abertura desta sessão dedicada à evocação do DIA INTERNACIONAL DA PAZ, o actor Vitor Filipe irá interpretar, com acompanhamento musical de Pedro Abreu e videográfico de David Fadul, o poema dramático “A Gota de Mel”, de Léon Chancerel; um libelo pela paz que foi estreado em Portugal por António Pedro no TEP em 1959 e proibido pela censura.

No Other Land é um filme documentário palestino-norueguês realizado em 2024 por Basel Adra, Hamdan Ballal, Yuval Abraham e Rachel Szor, um colectivo israelo-palestiniano que trata da ocupação israelita na Cisjordânia, território palestiniano, e das destruições de propriedades palestinianas por Israel. O filme foi concebido um acto de resistência durante a guerra em Gaza, começada em 2023.

Teve estreia mundial em 2024, no 74º Festival de Cinema de Berlim, onde mereceu o Prémio Panorama, o galardão do público para o melhor documentário. Em 2025 também mereceu o Oscar do Melhor Documentário mas não a distribuição em salas nos Estados Unidos. Tal como em Israel. Esta é a primeira vez que é exibido na Figueira da Foz.

Após a exibição do filme, a noite culminará com uma acção performativa a partir do poema “Mais guerras, não” de Alberto Uva, pelo Colectivo Poético d’ODezanovedeJunho.

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quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Da série “da justiça em Portugal”


Em setembro de 2023, quando editei este retrato, ilustrei-o com este texto:

"Então foi assim.

Em 2021, por decisão, do Conselho Superior de Magistratura, Orlando Nascimento, presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, foi suspenso de funções por cento e vinte dias, sem vencimento.

Foi também em 2021 que o mesmo orlandíssimo juiz fez um pedido para voltar a analisar processos na mesmíssima Relação de Lisboa, algo que foi aceite pela presidente deste Tribunal, Guilhermina de Freitas. Assim, para efeitos práticos, este orlandíssimo magistrado continuou em funções.

Acontece que, em Setembro de 2023, o Supremo Tribunal de Justiça, considerando que a alegada infracção disciplinar aplicada ao orlandíssimo juiz estaria prescrita, anulou a decisão do Conselho Superior de Magistratura, que tratou de explicar os efeitos práticos da decisão ao jornal Público, dando-lhe conta de que “tendo sido já cumprida a decisão aplicada”, será “reposta a remuneração”.

Se me acompanharam até aqui, terão entendido, como eu, que o orlandíssimo magistrado Nascimento tem estado a analisar processos na Relação de Lisboa desde 2021 sem ser remunerado.

É de relembrar que o orlandíssimo foi suspenso de funções por 120 dias sem remuneração por, alegadamente (deve-se sempre sublinhar alegadamente) ter estado envolvido na distribuição irregular de processos judiciais no Tribunal da Relação de Lisboa e por - também alegadamente, claro - ter cedido, de forma abusiva, o Salão Nobre desse mesmo Tribunal para julgamentos privados.

Vistos os autos, decidi fazer-lhe um retrato. Fica aqui.

Mas poderia ser pendurado na Relação de Lisboa. Ou até, porque não? no Supremo Tribunal de Justiça. Para memória futura.”

Hoje, segundo uma “história da Agência Lusa” (estas coisas não se inventam) publicada pla TVI, O juiz desembargador Orlando Nascimento, que abandonou em 2020 a presidência do Tribunal da Relação de Lisboa (TRL) na sequência da Operação Lex por alegadas irregularidades na distribuição de processos, foi promovido ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ).

A deliberação foi tomada no último plenário do Conselho Superior da Magistratura (CSM) e publicada em Diário da República na segunda-feira, na qual Orlando Nascimento é um dos oito magistrados recém-nomeados para o STJ, já com tomada de posse agendada para 03 de outubro, segundo adiantou o órgão de gestão e disciplina dos juízes.

Entretanto, segundo fonte oficial da PGR ao Correio da Manhã, “A Procuradoria-Geral da República (PGR) confirma que Orlando Nascimento, o desembargador que foi apanhado na 'Operação Lex’ e foi agora promovido ao Supremo, continua a ser investigado pelo Ministério Público em dois inquéritos-crime.

Ou seja, revistos os autos, isto é (numa metáfora futebolística sem exageros alegadamente caricaturais) mais ou menos como se o macaco dos superdragões acabasse de ser convocado para a selecção nacional.
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sábado, 9 de setembro de 2023

Da justiça em Portugal


 

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Então foi assim.

Em 2021, por decisão, do Conselho Superior de Magistratura, Orlando Nascimento, presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, foi suspenso de funções por cento e vinte dias, sem vencimento.

Foi também em 2021 que o mesmo orlandíssimo juiz fez um pedido para voltar a analisar processos na mesmíssima Relação de Lisboa, algo que foi aceite pela presidente deste Tribunal, Guilhermina de Freitas. Assim, para efeitos práticos, este orlandíssimo magistrado continuou em funções.

Acontece que, em Setembro de 2023, o Supremo Tribunal de Justiça, considerando que a alegada infracção disciplinar aplicada ao orlandíssimo juiz estaria prescrita, anulou a decisão do Conselho Superior de Magistratura que, por sua vez, tratou de explicar os efeitos práticos da decisão ao jornal Público, dando-lhe conta de que “tendo sido já cumprida a decisão aplicada”, será “reposta a remuneração”.

Se me acompanharam até aqui, terão entendido, como eu, que o orlandíssimo magistrado Nascimento tem estado a analisar processos na Relação de Lisboa desde 2021 sem ser remunerado.

É de relembrar que o orlandíssimo foi suspenso de funções por 120 dias sem remuneração por, alegadamente (deve-se sempre sublinhar alegadamente) ter estado envolvido na distribuição irregular de processos judiciais no Tribunal da Relação de Lisboa e por - também alegadamente, claro - ter cedido, de forma abusiva, o Salão Nobre desse mesmo Tribunal para julgamentos privados.

Vistos os autos, decidi fazer-lhe um retrato. Fica aqui (entre nós, claro). Mas poderia ser pendurado na Relação de Lisboa. Ou até, porque não? no Supremo Tribunal de Justiça. Para memória futura.

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quarta-feira, 8 de março de 2023

O sexo dos anjinhos com elefante na sala


 

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O problema não é um Deus que não existe, mas a religião que O proclama

José Saramago

Parece que cresce entre os portugueses, mesmo entre os católicos, uma grave e indignada perplexidade com o cinismo alarve e a hipocrisia atrevida dos mais altos “dignitários”(!) da santa madre igreja em relação às consequências do relatório devastador de uma comissão independente sobre os abusos sexuais no seu santo seio. Há mesmo quem se espante por não haver grandes e ruidosas manifestações cívicas de protesto e de repulsa, mas também com a despropositada reverência respeitosa com que ainda são tratados estes velhos pulhas viciosos nos meios de comunicação social e até por responsáveis políticos eleitos (alguns destes chegam mesmo a babar-lhes as manápulas para lhes lambuzar os anéis): entre salamaleques e genuflexões, por “Reverendíssimo”, “Dom não-sei-quê”, “Eminência”, “Excelentíssimo” ou quejandos, e não simplesmente por “bandalho” ou “filhodaputa” e à chapada e a pontapé-no-cu ou na cabeça que é como são tratados, nas esquadras de polícia portuguesas, todos os suspeitos de crimes repugnantes e hediondos.

Os portugueses chegaram ao ponto de terem de esperar sentados que um grupo impávido de velhos lúbricos, babados e de olhos vermelhos, discuta cinicamente entre si o sexo dos anjos (se a pedofilia é realmente crime sórdido e horrendo ou apenas uma simples contra-ordenação, um pecadilho que se resolve com três painossos e duas avémarias).

Tudo leva a crer que a sociedade civil portuguesa não sabe como lidar com uma organização pederástica e mafiosa, sustentada numa hierarquia rígida, num código de silêncio e de obediência cega e inflexível e liderada por uma gerontocracia cínica, cheia de manhas e de vícios e ungida de inexplicados privilégios.

A sociedade civil portuguesa tem, obviamente, um elefante na sala.

Pode continuar a fingir que ele não está lá, como sempre fez, até agora - mas não é por isso que ele não deixa de lá estar, paquidérmico, sempiterno, ignóbil, masturbador, nauseabundo, venéreo, pederástico e insinuante, como nunca. Ou então, pode fazer algo por si própria, por uma vez. E livrar-se do elefante para sempre.

Há duas maneiras de conseguir o desiderato. A “bíblica” e a “democrática”.

A “bíblica” ou “pombalina” (também chamada “à antiga portuguesa”) consiste basicamente em tomar-lhes os colégios, as residências, os seminários e as igrejas onde foram consumados os crimes e chegar-lhes fogo. Depois arrasá-los. Por fim, salgar a terra. Esta é a opção mais cara e complexa (exige uma pesada logística), invasiva (talvez um tanto brutal) demodée e, em simultâneo, menos eficaz e definitiva - porque não assegura que a actividade criminosa não possa prosseguir noutros locais.

A melhor opção é, pois, a “democrática”. Desta maneira, mais limpa, a sociedade civil portuguesa pode facilmente livrar-se do paquiderme no meio da sala sem sequer questionar minimamente a santa integridade da propriedade privada - respondendo, em referendo, a duas perguntas singelas:

1 - Concorda com a Concordata?

2 - Concorda com a isenção de impostos da Igreja Católica?

- Se a maioria dos portugueses concordar com a Concordata (um tratado infame assinado, pela parte de Portugal, por um estafermo nefando que já retratei aqui e que, inexplicadamente, ainda circula em liberdade) sociedade civil continua a impedir qualquer tribunal português de interrogar padrecas, bispos e até cardeais (sempre que julgar pertinente), de os levar a julgamento (se julgar necessário) e de os condenar (se julgar justo).

- Se a maioria dos portugueses concordar com a (também incompreensível) isenção de impostos da citada organização criminal, sociedade civil continua a permitir o seu financiamento e, com isso, a perpetuar o crime.

- Se a maioria dos portugueses discordar de ambas, sociedade civil livra-se finalmente do elefante. Simples assim.

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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

O belo Ximénes, o nobél enrabador


 

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Plos vistos toda a gente em Timor sabia - o povo, a “resistência”, as elites. É lícito supor que Sampaio e Guterres, o Gama, o nosso ministro dos estrangeiros, Ana Gomes, a nossa inefável embaixatriz em Jacarta e até o paladino de Timor na nossa comunicação social também não o ignorassem; para não falar no inenarrável cardeal Policarpo. Toda a gente sabia, menos a opinião pública, portuguesa e internacional. Valeu tudo para acrescentar mais um país católico ao catálogo das nações - e nas barbas do islão. Um feito de padrecas e de xananas, uma nota gloriosa, só comparável, nas biografias de toda esta gente impante e triunfante, à Batalha de Diu.

Mas perante tão generalizada e cúmplice complacência com a indignidade e perante o logro ignóbil e corrupto do bunga-bunga ininterrupto que tem sido a “independência” de Timor, presumo que também seja lícito perguntar: qual era mesmo o problema com Suharto? Sim, o que era mesmo que os timorenses (e os portugueses) reprovavam tanto à Indonésia?

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quarta-feira, 27 de julho de 2022

D. Manuel Clemente, o conivente


 

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A história conta-se em poucas linhas.

D. Manuel Clemente, a eminência parva que lidera em Portugal o franxaizingue da Igreja Católica (conglomerado multi-nacional com sede na cidade do Vaticano) teve conhecimento de um crime perpetrado por um padre sobre uma criança e, em lugar de o denunciar às autoridades competentes, como manda a lei e o bom-senso, protegeu o criminoso. Ou seja, Clemente foi clemente. Mas não só. Também foi conivente. Permitiu-lhe continuar em funções por mais de vinte anos, gerindo tranquilamente uma associação privada que acolhe famílias, jovens e crianças.

Os dados sobre este caso em concreto contam-se entre as mais de 300 denùncias já recebidas pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa. O nome do sacerdote, que chegou a ser responsável por duas paróquias da zona norte do distrito de Lisboa, é também um dos sete que já se encontram nas mãos da Polícia Judiciária para serem investigados.

Quanto a sua eminência reverendíssima, como a sordidez moral não é coisa que repugne os paisanos, e muito menos os fiéis, em breve vamos todos poder vê-lo, como de costume, de sotaina de gala, se não for em pose de Cerejeira com o Ventura dos cheganos, certamente a abrilhantar mais uma inenarrável sessão solene de abertura do ano judicial, onde, entre salamaleques cúmplices e genuflexões piedosas, dará como habitualmente o seu anel a lambuzar às beiças sôfregas e devotas do presidente da república de Portugal.

É assim a vida num país de costumes quase tão brandos como bizarros.

O retrato de sua eminência é de 2013.

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

O calvário de Julian Assange.

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O país que se recusou a extraditar um estafermo como Pinochet prepara-se para o fazer com Julian Assange. 

Sem Assange nunca saberíamos, por exemplo, que em Portugal, o presidente Cavaco deu aval à sórdida trasfega de carne humana para Guantánamo congratulando-se, na sua cândida imbecilidade, porque o país “tem uma imprensa muito suave”.

Eis uma coisa que nunca saberíamos pelos jornais.

Receio que correrá muita água debaixo das pontes até que um jornal de “referência” português defenda (e pratique) uma verdadeira liberdade de informação - sem critériosinhos de oportunidade.

Mas Assange deu-nos a saber muito mais coisas que nunca saberíamos só pelos jornais. E até coisas que os jornais, com os seus critériosinhos d’oportunidade, nunca divulgaram. Eu, por exemplo, ainda estou à espera da lista dos “jornalistas” avençados do senhor Salgado.

Suponho que também é isso que não lhe perdoam.

 

terça-feira, 4 de maio de 2021

O direito por linhas tortas


 

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Luis Menezes Leitão, o bastonário da Ordem dos Advogados, acha que a requisição, para acolher pessoas vulneráveis e doentes, da totalidade dos imóveis do empreendimento ZMar Eco Experience, em Odemira, pode lesar direitos humanos e violar a Constituição.

Sobre empregar pessoas como escravos e alojá-las como gado, o eminente jurista: moita carrasco.

Portanto, pra este eminente jurista, e para o grémio de patuscos que se reclama como baluarte do Estado de Direito e “dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos”, o que se passa em Odemira com os frutinhos vermelhos (e noutras explorações agrícolas do país) - a exploração laboral e o alojamento desumano - a escravatura - deve ser constitucional, ou seja, não deve lesar os direitos humanos.

Por isto, e para lhe fazer justiça, ainda que com linhas tortas, tomei a liberdade de lhe desenhar um retrato. Espero que não lesione demasiado os direitos dos leitões.

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sábado, 10 de abril de 2021

A fraudulência


Parece que lavra grande indinação nas redes sociais. Tudo porque um juiz, Ivo Rosa de sua graça, resolveu inocentar uma porção de pulhas cujos crimes foram longamente investigados pelo ministério público que, acolitado pelo super-herói do correio da manha, o juiz Carlos Alexandre – mesmo assim foi incapaz de apresentar uma acusação limpa, isenta de tretas e irrefutável de factos.

Está claro que para o correio da manha não há mal que  lhe não venha bem. Em lugar de endeusar um juiz, em breve passará a demonizar outro. Em vez de um super-herói passará a ter mais um super-vilão, um malvado de toga. E a vender ainda mais papel (para grande gáudio do grupo empresarial a que pertence).

Quanto ao leitorado do jornal, aos indignados das redes sociais e ao eleitorado do Chega também lhes cairá bem. A bem dzer porque nofundonofundo todos gostam de odiar, mas certamente também porque muitos deles, tal como a loira das telenovelas, também se sentem irresistivelmente atraídos pelo cafajeste.

Belos tempos para os canalhas, os cínicos, os velhacos e, claro, para os ingénuos. Sim, porque não há fraude sem tótós.

Estamos, portanto, no campo da fraudulência, de que já vos falei aqui. E, como então referi, “Não há melhor palavra para descrever, com propriedade, o clima venéreo dos dias que correm, o seu ar do tempo e o inconfundível fedor do que propagam os jornais”.
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Pablo Hásel



Em Portugal, Manuel Morais, um sindicalista da Polícia, foi suspenso de todo o serviço porque, entre outras coisas do âmbito da sua actividade sindical, disse que “André Ventura é uma aberração”.

Em Espanha, Pablo Hásel, um cantor rap, foi condenado a prisão efectiva por cantar (ou lá o que eles fazem no rap) que a monarquia é corrupta (algo assim como “los borbónes son ladrónes, ónes, ónes”).

Bem vistas, quero dizer, vistas de perto, estas situações parecem-me ambas casos óbvios de duas pessoas duramente castigadas por dizerem em alta voz e em público o que toda a gente já sabe, isto é, algo que nem sequer é segredo de estado.

Perguntem-se porquê.

Se fosse na Rússia ou na China ou, sei lá, na Venezuela, a nossa imprensa liberal já tinha armado um verdadeiro circo (com palhaços transformistas e trapezistas) a favor de todas as santas liberdades e da de expressão. Mas não, é o silêncio dos cemitérios na união ibérica democrática.

Perguntem-se porquê.

domingo, 23 de setembro de 2018

da joana - os submarinos e as avionetas


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Ainda ninguém foi dentro. Muito menos restituiu a massa. Contudo, o nosso imarcescível presidente da república acha que a luta contra a corrupção é para continuar. Acha que está bem assim.  Enfim, maisómenos nos mesmos moldes.
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Eu creio todavia que a justiça portuguesa não é cega - tem é vista grossa, coitadinha. Um pouco, aliás, à imagem dos portugueses em geral. E da procuradora Joana Marques Vidal.
Só têm olhos para as gordas do correio da manha, para o empório da Crestina Ferreira na Sic, para o peso certo do Fernando Mendes na RTP, para as telenovelas da Liga nos (Benfica benfica, Lourosa lourosa, Marrazes marrazes) em todos os canais.
De maneiras que nem reparam que têm elefantes na sala; e avionetas da tecnoforma; e submarinos a voar.
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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Manuel Vicente: do Minho ao Cunene, a vitória é certa

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Aqui há anos o Tribunal de Felgueiras conseguiu provar, sem margem para dúvidas, a existência de corrupção num determinado caso em julgamento. Do acórdão desse processo não saiu todavia qualquer condenação. Isto é, a justiça portuguesa mostrou ao mundo a prova de que corrupção é possível, mesmo sem corruptos. A prova viva, e autorizada, que Portugal funciona, mesmo sem portugueses. A electricidade sem fios.
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A justiça portuguesa está porém apostada em mostrar ao mundo ainda mais peculiaridades locais da corrupção, esse cancro que devora as sociedades.
Desta vez o ministério público deteve o ex-procurador Orlando Figueira por alegadamente ter recebido trezentos mil aéreos do vice-presidente da República de Angola, Manuel Vicente, para arquivar um caso de corrupção. É aqui que entra a idiossincrasia da corrupção portuguesa: a Procuradora-Geral da República esclareceu: "Neste momento, o inquérito tem três arguidos constituídos - uma pessoa colectiva e duas singulares - não se encontrando entre os mesmos Manuel Vicente". 
Se bem compreendi, a tese do ministério público é que em Portugal a corrupção funciona só com um fio – isto é, é possível mesmo sem o agente activo, o corruptor - apenas com o corrupto, o agente passivo.
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Suponho que para a defesa de Orlando Figueira, o processo seja de favas contadas. Mesmo que o desinfeliz estafermo contrate um cepo como advogado, para derimir o argumento da acusação bastará apelar à jurisprudência do Tribunal de Felgueiras. A coisa funciona mesmo sem fios..

Ou seja, para Manuel Vicente a vitória é certa - como rezava um slogan muito em voga quando a república de que é vice-presidente ainda era popular
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O fiel depositário ou o enriquecimento ilícito para tótós.

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Para além da estimável questão do padre de Canelas e dos elucidativos depoimentos parlamentares da casta espírito santo com que o povo se recreia, a verdade é que o debate  (ao mais alto nível, o académico) sobre a corrupção está ao rubro. 
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Depois do douto lente de coimbrameudeus que retratei abaixo a ter justificado com todas as letras como uma das inelutabilidades da vida em comunidade - comum-unidade -, (em parecer jurídico lavrado a pedido de sueminência reverendíssima o senhorDoutor ricardoespíritosantosalgado), eis que agora surge uma ideia alternativa. Do jurista Guilherme d’Oliveira Martins.
Guilherme d’Oliveira Martins já foi deputado; e secretário d’estado; e até ministro - da Educação, das Finanças, e da Presidência. Também já foi do Pêpêdê. E do Pêésse (é uma lástima que nunca se tivesse lembrado disto em qualquer dessas oportunidades mas ninguém é perfeito e antes tarde que nunca). Agora é um independente do “arco da governação”. Para além disso, é presidente do Tribunal de Contas: e do Conselho de Prevenção da Corrupção; e do Centro Nacional de Cultura.
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Pois bem, D’Oliveira Martins acha que é possível simsenhores criminalizar o enriquecimento ilícito: “através da figura do fiel depositário
O homem defende uma legislação que preveja que todo aquele que tenha a seu cargo dinheiros públicos” seja abrangido por esta “figura”, a do fiel depositário. Segundo ele,  “Não há ónus da prova, nem violação do princípio da presunção da inocência, uma vez que estes funcionários e responsáveis políticos são fiéis depositários”, ou seja, “a prova deve ser feita por aquele sob o qual impende a dúvida”.
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Não sei que vos diga. Afinal era tão simples (a “figura” do “fiel depositário” sempre esteve aí e nunca ninguém reparou nela) que não sei como é que ninguém se lembrou  antes. É o ovo de colombo. Ge-ni-al.
A verdade porém é que d’Oliveira Martins nunca chegaria lá sozinho (os progressos da jurisprudência portuguesa fazem-se tradicionalmente por aggiornamento, ou mimetismo; jamais por reflexão própria ou alta-recriação) - os chinocas chegaram lá primeiro: a ideia já vigora na legislação de Hong-Kong.
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Contudo se esta chinesice for aprovada em Portugal receio que seja o fim do mundo tal como o conhecemos. Acabar-se-ão os favores, os conselhos, as recomendações, os jeitinhos, as informações, as gentilezas sei lá, enfim tudo aquilo que faz, segundo o doutor Calvão da Silva, as delícias da vida em comunidade (em comum-unidade, porra). Será o fim do “bom princípio geral de uma sociedade que quer ser uma comunidade – comum unidade -, com espírito de entreajuda e solidariedade”. Essa é que é essa.
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Ou, então, o que me parece mais provável, o início de um imbróglio jurídico de proporções nunca registadas nos anais. Conhecendo a jurisprudência portuguesa, mais umas décadas de pareceres bizantinos sobre, sei lá, o sexo dos fiéis-depositários ou assim.
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sábado, 6 de dezembro de 2014

A América, em desenhos



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A América é um país 
que passou da barbárie à decadência 
sem passar pela civilização
Oscar Wilde
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Os nossos jornais de referência, sempre tão solícitos a dar brado aos relatórios anuais do Departamento de Estado sobre os direitos humanos no mundo, nunca dizem nada sobre os direitos humanos na América.
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As televisões também não. Para além da habitual anedota sobre os perús da Acção-de-Graças e outras graçolas presidenciais, os seus correspondentes em Washington não acham nada mais relevante a reportar da terra do tio Sam. Nem razões para enviados-especiais em ofegantes directos de, por exemplo, Ferguson, Missouri.
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A verdade porém é que, agora que começou de novo a caça ao preto nas suas ruas, a América está afinal apenas a ser igual a si própria - à sua tradição selectiva, à sua história de brutalidade e à sua cultura de violência.

Para o aferir bastaria consultar a própria imprensa americana. 
Mesmo quem não gosta muito de ler (como os nossos correspondentes) poderia informar-se só plos desenhos. 
Alguns são autênticos editoriais (é verdade, esta é também uma das tradições da América: por lá os cartunistas não se  limitam a ilustrar graçolas d'oportunidade - servem-se do humor para exprimir opinião). 
Como o demonstram aliás, a título de exemplo com a devida vénia, estes magníficos, incisivos e corajosos exemplos do humor gráfico local, que catei na net ao acaso.
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domingo, 12 de outubro de 2014

Roberto Saviano

Actualmente os grandes cartéis não utilizam
(ou utilizam menos) os paraísos fiscais,
usam a banca europeia
Roberto Saviano
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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A procuradora Marques Vidal

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O senhorsalgado foi detido porque, segundo as notícias,  havia a hipótese de, em liberdade, destruir provas. Após algumas horas de ameno interrogatório, na presença do seu advogado (sobre quem já me debrucei aqui), foi-lhe prescrita uma caução de três milhões de euros. Assim uma coisa “à americana”. O senhorsalgado foi em paz e segundo as notícias, tinha um mês para pagar ou recorrer. O senhor salgado, certamente aconselhado plo seu advogado, deve ter prometido que se portava bem e não destruia provas ou assim. Soube-se agora que o pulha já pagou – por transferência bancária e sem a prestação de garantias. Três-3-três milhões de aéreos.
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A justiça em Portugal é assim. Não é como na América. Num país de direito (e de liberdades e de garantias) como Portugal, a um arguido são–lhe sempre dadas imensas garantias - só vai dentro se, por exemplo, não tiver um advogado como o do senhorsalgado. Na América não. Na América, um escroque como o senhorsalgado, o senhor Madoff, foi julgado, condenado, expropriado (e toda a família) e posto a ferros – depois deitaram fora a chave. 
Em Portugal diga-se, também ja se tratou assim os escroques, mesmo os de famílias influentes. Eram postos a ferros, as famílias expropriadas e banidas – até o chão que lhes pertencia era salgado – devia ser por causa das moscas. Mas isso foi no tempo terrível do malvado Sebastião José de Carvalho e Melo, quando este país não era um país de direito ou assim, sei lá, abençoado plo espíritosanto.
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Hoje já não há intendente. Hoje em dia em Portugal os escroques têm todas as garantias. Até porque quem lidera a investigação criminal, a senhora procuradora Joana Marques Vidal, não teme que eles destruam provas, que continuem na má-vida (sei lá, a praticar crimes ou assim) ou que fujam para o estrangeiro.
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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Sem clemência

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Não se retém quase nada sem o auxílio das palavras, 
e as palavras quase nunca bastam para transmitir precisamente o que se sente
Denis Diderot, in "Pensées Détachées sur la Peinture"

O cardeal Manuel Clemente acha que os ”direitos das minorias são referendáveis, sim senhor”. Ou seja, se bem compreendi, a alma tísica e indecorosa deste hugo soares de saiote pensa(!) que os direitos humanos devem depender dos humores de uma maioria circunstancial de cretinos.

Devo dizer que não acredito na existência de deus, embora aceite pacificamente (sou um espírito tolerante) que a alma humana recorra à fantasia como refúgio existencial para o pavor da vida e da morte. Compreendo - sou um livre-pensador - embora ache absurdo.
O que eu não entendo - porque acho estúpido - é para que precisa a alma humana de intermediários nessa equívoca relação com um produto da sua imaginação.

Ou seja, não consigo entender para que servem os padres (e os diáconos e os presbíteros e os cónegos e os bispos e os cardeais e o papa), enfim o clero, essa fauna de velhacos que fazem da hipocrisia e do cinismo um modo de vida e da Igreja uma organização política intemporal que, sempre em nome de deus e sempre tirando santos dividendos, abençoou o tráfico intercontinental de escravos, o extermínio dos judeus, a perseguição ao livre pensamento, ao conhecimento científico e a todas as formas de emancipação (social, racial, sexual). E ainda hoje continua a patrocinar a superstição, a culpa, o conformismo, a resignação e o atraso de vida – policiando as consciências e os costumes enquanto enraba rapazinhos e vai sacando dividendos da lavagem de dinheiro e da especulação financeira.

Na sua obra Extrait des sentiments de Jean Meslier, este padre cura da comuna francesa de Étrépigny deixou escrito que "O homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre", frase que foi citada deste modo lânguido por Diderot, no seu poema Les Éleuthéromanes: "Et ses mains ourdiraient les entrailles du prêtre / Au défaut d'un cordon pour étrangler les rois”.

Todavia, devido à incompetência de todas as revoluções políticas posteriores (da francesa à russa passando pla da república portuguesa), esta excrescência rançosa e medieval conseguiu chegar aos nossos dias. E está no meio de nós - imbecis como o cardeal Clemente, espécie de cerejeira de opereta (passe a redundância) ainda andam por aí – a assombrar as consciências e os petizes.

Por isso prescrevi a mim próprio uma doce penitência: hei-de achincalhá-los até à morte.

Bem sei que as palavras “quase nunca bastam”. É por isso que também faço desenhos.
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