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domingo, 26 de março de 2017

Cesário Verde, Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
    Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
    E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
    E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
    Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
    Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
    Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
    Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
    Que mundo! Coitadinha!
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terça-feira, 14 de março de 2017

O Rentes

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Os ideais dos gramáticos reaccionários não podiam deixar de aclamar o estilo de um homem cuja obra é uma escola de imbecilidade. Porque o que, em Vieira podemos levar à conta de uma loucura de génio, é em Bernardes a cretinice obsessiva de um filho natural de judeu e de mãe dissoluta, que quer todos os cristãos à escala da sua castração mental.
Jorge de Sena
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Rentes de Carvalho é a mais recente estrela literária do firmamento das letras luzitanas. O êxito contudo aconteceu-lhe já tarde na vida e de fora para dentro. Rentes tornou-se conhecido com um êxito editorial na Holanda, onde está radicado há mais de cinquenta anos. É verdade, no país das tulipas e das tamancas.
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Mas Portugal depressa o descobriu - diga-se que para ter sucesso no país do sol-posto (a ocidental praia lusitana) não há como ter sucesso lá fora. Os tugas adoram vencedores.
De origem humilde e sucesso tardio, o Rentes tornou-se porta-voz do que a nossa direita não confessa mas professa; uma espécie de intelectual orgânico invertido, ou às avessas; um saramago-de-direita. Um maitre a penser cujo determinismo tremendista encanta os leitores do Observador e os fãs de Francisco José Viegas, leva-os ao sétimo céu: apesar de ter obtido êxito e vencido na vida, o Rentes declama peremptório que isso não é para todos.
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Rentes é um prato cheio para quem aprecia um português “bom de lei”, como eles dizem. Na sua escrita (vê-se que leu com proveito o padre Manuel Bernardes) não há cá modernices, as histórias começam sempre no princípio e acabam invariavelmente no fim; e no meio, que é onde está a virtude - como certamente sabem os devotos do Padre Manuel Bernardes - é aí que ele parcimoniosamente dispõe as virgulas, os advérbios e até os complementos directos. Eu tenho contudo para mim que o que encanta esta turba na escrita do Padre Bernardes não é tanto a bela prosa como aquilo que vem embrulhado naquele português bom de lei que tanto exasperava Jorge de Sena: o fedor a bafio, a imbecilidade e ao mais reaccionário e xaroposo conformismo.
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O Rentes é careca. O Rentes é holandês. E fala como isso, como um skinhead  holandês. O Rentes diz cousas que eles nem pensam (eles não pensam) mas sentem; o Rentes fala-lhes ao coração.

O Rentes vota na extrema-direita. Não por convicção – diz ele – mas por protesto. Por reacção, portanto.
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sábado, 11 de março de 2017

Jaime Nogueira Pinto e a queixa das almas velhas censuradas

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O professor e politólogo salazarista assumido Jaime Nogueira Pinto foi convidado por uma novel organização fascista que dá plo mavioso nome de Nova-Portugalidade para dar uma palestra na Universidade Nova, em Lisboa.
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O velho lusito deve ter salivado com a possibilidade de instruir a nova mocidade portuguesa nas delícias do livre pensamento único. Mas a palestra foi cancelada.
Agora as velhas almas salazaristas queixam-se – Ah e tal a liberdade de expressão - coitadinhos, realmente não se faz.  A queixa teve enorme repercussão pública nos meios da notícia publicada. Muito mais do que se o velho estafermo tivesse de facto logrado arengar aos novos lusitos.
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Entretanto, os democratas do PNR manifestaram-se à porta da Universidade. Contra o totalitarismo. Só visto.
Assim, para que aos arautos do livre pensamento único nunca lhes falte palanque para palestra, nem aos imbecis liberdade de expressão  a Associação vintecincodAbril, dirigida pelo inefável ex-capitão dabril Vasco Lourenço, sempre na defesa de todas as santas liberdades, incluindo a de expressão, já franqueou as suas portas ao Nogueira Pinto. Para que possa livremente expressar as suas ideias. Digam lá que não é lindo.
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E estamos nisto.

Mas se foi para que Jaime Nogueira Pinto pudesse exprimir livremente as suas ideias que fizeram o 25dAbril, acho estúpido. Ele já tinha esse privilégio.
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sexta-feira, 3 de março de 2017

A bela e o herói do contribuinte centrista

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Assunção Cristas, a beta que leva a bandeira do partido dos contribuintes, disse que Paulo Núncio (sobre quem já me debrucei aqui) “mostrou grande elevação de caráctere que “o país lhe deve muito pelo trabalho de combate à fraude e evasão fiscal”.
Nem mais.
A fofa só não é loura mas de resto tem tudo para agradar ao país do CDS, encarecido e penhorado ao hercúleo esforço do bravo Núncio no combate sem tréguas “à fraude e à evasão fiscal”.
Oh captain!, my captain!, os seus dois neurónios dão gritinhos em uníssono, empenhadamente agradecidos.
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Fiz-lhe o retrato, em pin-up. Antes porém que me acusem de sexismo, machismo troglodita ou mais além, digo já que se trata apenas de uma suave referência àquele tipo leve de erotismo tão do agrado da cultura de massas - enfim, à cultura pop.
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sábado, 25 de fevereiro de 2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O estranho caso do conselheiro-quadrilheiro

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Este é mais um retrato de um rosto da classe dirigente. 
Trata-se de António Lobo Xavier, um ex-dirigente do CDS-PP que é simultaneamente conselheiro de Estado (designado por Marcelo), vice-presidente do BPI (logo abaixo de Ulrich, de quem é parente) e administrador do jornal Público
Um senhorito. Advogado por coimbrameudeus (accionista de uma das maiores sociedades deles); gestor de ponta e administrador não executivo de uma porção de sociedades e confrarias.
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Depois de dar conhecimento das comunicações entre Domingues (de quem é amigo e foi parceiro) e Centeno ao Presidente da República, o seu conteúdo foi publicado pelo jornal de que é administrador. Digam lá que não é lindo. E edificante.
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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Retrato de homem sentado com África na cabeça

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Tal como Kurt Schwitters, eu também prego os meus quadros. 
Ao contrário porém do grande artista alemão que morreu no exílio (num campo de refugiados, em Londres), eu não tenho qualquer esperança. Nem na Arte, nem no futuro, nem sequer na validade ou préstimo do meu trabalho. Mas isso não me inibe de o fazer.
Os tempos também são outros, embora pareça que se repetem, assustadoramente semelhantes. E não é em farsa. É em comédia, triste e negra. Sem humor nem remissão.

Assim, ainda que embarcado à força numa nave de loucos, vou deixando marcos, testemunhos, sinais exteriores do meu próprio exílio nesta viagem sem volta. Como este homem sentado com África na cabeça, uma composição de 130x94 com tábuas inúteis e velhos sarrafos que me tem ocupado os dias deste inverno.
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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

o legado de Ataíde – o ataidismo e o triunfo da pessegada

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o que vale a pena ser feito vale a pena ser feito bem
Nicolas Poussin
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A Figueira da Foz é, infeliz e consabidamente, uma cidade bastante pobre no que diz respeito ao património de arte pública. O pouco que tem de inegável qualidade estética deve-se mais à acção voluntariosa de alguns, poucos, cidadãos do que a iniciativa dos poderes locais instituídos - o caso, por exemplo, do pequeno busto em bronze de David de Sousa, de Leopoldo de Almeida, com arranjo arquitectónico do arquitecto Carlos Ramos, iniciativa de alguns amigos do músico. Ali, à entrada do Bairro Novo, a dimensão escatológica do desprezo público que os figueirenses votam à Arte e à Memória sublima-se no relvado fronteiro, emblematicamente transformado pelo uso num verdadeiro cagódromo canino.
A estátua de Manuel Fernandes Tomás, na praça Nova, é aliás a única excepção e a única de dimensão verdadeiramente monumental (três metros de altura de bronze sobre um pedestal também imponente). Apenas tornada possível por uma subscrição popular (em 1907, para a qual contribuiu, dizem, o próprio rei D. Carlos), desencadeada por quatro operários cujos nomes ainda lá estão, em letras de bronze, sobre a pedra do pedestal. Inaugurada em 1917, a estátua não é a habitual imagem majestática de um seráfico legislador ou de um estadista triunfante mas sim a de um revolucionário em acção, toda inconformismo, movimento e inquietação; a mesma inquietação que movia os quatro operários que a encomendaram e que inspirou a ousada sensibilidade do portuense Fernandes de Sá, um notável e quase esquecido escultor a quem posteriormente não chegaram as encomendas do Estado Novo e que morreu amargurado em 1959 porque nunca lhe permitiram sequer que ensinasse nas Belas-Artes.
Mas existe ainda, claro, o exuberante pelourinho da Praça Velha; o admirável memorial modernista a João de Barros, do arquitecto Alberto Pessoa; o busto solene de António Santos Rocha, de Raul Xavier, agora nas Abadias e, ainda de Leopoldo de Almeida, dois frizos em baixo-relevo sobre as portas da Caixa Geral de Depósitos; e dois painéis em pastilha de vidro: o de António Lino, no Tribunal, e o de Zé Penicheiro, em notório estado de degradação, na companhia das águas. Convenhamos no entanto que é muito poucochinho, e pobrezinho, mesmo para uma cidade com apenas cento e trinta anos. - Ah!, existe ainda uma soberba peça do meu amigo João Sotero, que ele, num achado genial, deu a forma de um totem a que chamou “desleixo” e que representa precisamente, com desencantada ironia, e algum sarcasmo bastamente escarninho, esta relação dos figueirenses com o seu espaço público comum.
Esquecida, ou negligenciada, pelo poder central durante meio século - não existe na Figueira e em todo o seu concelho qualquer monumento ou sinal público da política do espírito do Estado Novo - nem heróis da expansão, nem mártires da evangelização (nem sequer o imbecil e sacramental bronze do soldado colonial com a G3 em punho e o pretito às costas em missão civilizadora, do estertor do regime). Isto talvez explique porque na Figueira, e entre figueirinhas, não existe o salutar hábito de celebrar o herói cívico - ou a gesta colectiva, ou o exemplo insigne, ou o poeta excelso, etc. - de forma elevada, pela Arte; nem a tradição da educação visual desde piquenos; nem o gosto, entre os mais crescidos, da contemplação da simples beleza das formas pela sublimação da emoção ou pelas subtilezas da alegoria. A verdade é que o figueirinhas não gosta de História, prefere a anedota. Não aprecia o Belo, nem o Misterioso, nem o Único, nem o Autêntico - deleita-se com o bonitinho, o vulgar, a réplica, o sentimental. Detesta ópera mas adora telenovela. Abomina o que é excepcional, transcendente, elevado. Prefere tudo ao seu nível: banal, literal, raso, acessível. É a esta pitoresca estética do acessível que os poderes locais tentam agradar.
Vai daí, recuperada a democracia e o poder local, a cidade rapidamente recuperou atraso e o concelho é, hoje, no que concerne à arte pública monumental ou ornamental (estátuas, memoriais, murais, etc.), um verdadeiro museu, mas ao gosto do freguês, ou seja ao peculiar gosto do eleitor local. - Toda esta pessegada obscena, incluindo a que grassa plas freguesias, que é de arrepiar, teve o alto-patrocínio do poder local democrático. Trata-se, portanto, de obra-feita de autarcas eleitos. Uma verdadeira galeria do medonho, a céu aberto, que tem de tudo, como um bazar de horrores: do francamente patético do busto de José Coelho Jordão, herança de Santana Lopes, (meio corpo numa bandeja, na rotunda do Parque de Campismo) ao amplamente ridículo da estátua do Pescador, em Buarcos, do tempo de Aguiar de Carvalho, (uma bizarra figura de plasticina a cagar no alto de um cocuruto de betão armado dentro de um tanque no meio de uma rotunda) e ao ridiculamente pretensioso triunfalismo da estátua do centenário, da gestão de Joaquim de Sousa - num estilo estalinista vagamente requentado ou aprés la lettre que parece ter saído de uma qualquer merdalávia nos confins da antiga União soviética e de aí ter servido para comemorar mais um bizantino plano quinquenal (bem sei que Dorita Castel-Branco é uma boa escultora mas todos temos maus dias, ninguém é perfeito – a Monica Belluci certamente também se peida mas tem o cuidado de jamais o fazer em público), passando pelo grotesco do inenarrável (do consulado de Duarte Silva) e indiscritível monumento a Baden-Powell (esse mesmo, o oficial e cavalheiro do império britânico que gostava de acampar com rapazinhos).
Agora no entanto que se aproximam de novo as eleições, é tempo de avaliar o legado de dois mandatos consecutivos do autarca de turno, João Ataíde.
Ataíde é um ex-juiz para quem as leis são para interpretar. Como as partituras. Isso permite-lhe, por exemplo, isentar de taxas um determinado espéctáculo por o achar de interesse público. Também lhe permite reunir à porta fechada, encerrar o hospital público dentro de um parque de estacionamento privado e condecorar com a medalha municipal do altruismo um aviário cujo primeiro accionista é conhecido plo petit nom de “o negreiro”. Ou seja, governar a Figueira, para ele é música. Mas o seu legado não se fica por aquí.
Como já enunciei acima, entre as idiossincrasias do beautiful people que elege o poder local na Figueira figura a crença, ou a “ideia feita” que uma das atribuições do autarca eleito é “alindar” a choldra que habitam. Ora foi isso mesmo que Ataíde fez. Mas fê-lo cumprindo à risca as rigorosas regras da estética do acessível que mencionei acima. E assim elevou a pessegada a nunca vistas cumeeiras .
Começou com o busto do Aguiar e nunca mais parou. Ataíde já inaugurou mais bustos, memoriais, murais, estátuas, monumentos e arranjos e re-arranjos urbanísticos e paisagísticos do que todos os seus antecessores juntos. O seu legado é um prodígio político no apoio à arte pública e ao empreendorismo na decoração de exteriores. Um frenesim de arrojo e de bom-gosto cujos méritos curiosamente um articulista avençado do “jornal” As Beiras atribuiu, embevecido, a António Tavares, o vereador da cultura. Na Figueira nunca há unanimidade: nem quanto ao nome do pai da criança.
A verdade porém é que o ataídismo, como qualquer outro ismo de índole populista, não foi possível apenas pela vontade de um homem, é desígnio de muitos – tem sido um autêntico trabalho de equipa. Assim, embora Tavares seja o patinho-feio do ataidismo, aquele que os figueirinhas gostam de odiar, a verdade é que foi ele que lhes restituiu a escultura mais amada e que melhor os representa, sequestrada por Duarte Silva desde as obras do jardim público num pátio interior do museu municipal. A obra não é nenhum Miguel Ângelo, nem sequer um Henry Moore, trata-se apenas de uma réplica em cimento de uma peça em barro que o escultor Laranjeira Santos submeteu a avaliação no exame de escultura do seu curso de Belas-Artes. Um nu académico algo rígido cuja pose languidamente reclinada o povo figueirinhas primeiro estranhou, depois entranhou e logo a seguir, na sua infinita perspicácia, crismou como Preguiça, e assim interpreta desde então, e como talvez nenhuma outra, o verdadeiro spleen da cidade.
Mas se António Tavares é o éderzito da equipa de Ataíde, o seu crestianoreinaldo é sem dúvida, José Tavares - ou José Esteves, como é mais conhecido - o presidente da junta de Buarcos. Tavares, o José, ou José Esteves, é um verdadeiro pontadelança da pessegada. Um concretizador nato que leva o ataídismo aos píncaros. Ousado. Inovador. Criativo. Incansável. Pertinaz. A vida em Buarcos é uma festa permanente. Nem nos anos negros da crise faltou a iluminação festiva. No Natal e no S. João. No Natal há presépios por todo o lado, com palhinhas verdadeiras. Na Páscoa cruzes e palmas em todas as encruzilhadas, a cidade parece o vale dos caídos, é lindo (nunca como nos dias do ataidismo os sinais exteriores da religiosidade popular estiveram tão presentes e em todo o lado). E no S. João, ah no S. João. E depois, ou antes, é a feira dos piratas, e a medieval. E procissões. É só eventos. E animação claro, muita animação. E entre as estações, o carnaval, que dura todo o ano. Todo um modo de vida, subvencionado pla autarquia.
Mas Esteves é sobretudo incansável no incentivo ao empreendorismo na arte pública. Sempre ousado e numa atitude insólita e pioneira, elevou o ready-made à dignidade de monumento (pegou num absoleto farol de socorro a náufragos e espetou-o numa rotunda - assim nasceu a rotunda do farolito, como o povo lhe chama);
e a instalação (o monumento ao mineiro do Cabo Mondego, com a sua assemblage inacreditável de ferramentas, é um must de ousadia e de literalidade – só lá falta, para a anedota sentimental ser ainda mais explícita, o capacete com o coto de vela, o bornal da merenda e a gaiola com o passarinho morto).
Esteves ousou intervir no muro do cemitério - é preciso abrir aqui um parêntesis (para ressalvar que é sempre muito problemática a intervenção em espaços que o povo considera sagrados – há tempos um presidente da junta quase foi linchado porque permitiu que uma entidade ligada ao património mandasse rebocar dois baluartes da muralha de Buarcos. Ninguém quer saber que a muralha era árabe e que o reboco consolida e impede a desagregação de construções de pedra desigual. Para o bom povo a muralha quer-se au naturel, com a pedra à vista e as juntas pintadinhas de branquinho de preferência, como era nos livros da terceira classe e mainada. Nunca mais ninguém tentou consolidar a muralha sagrada; é o consolidas, filho).
Entretanto o painel de ladrilhos no muro do campo santo foi um sucesso. Desenho esquemático e cor da anemia (como decerto convém ao espírito do lugar). Sincrético. E sintético. De ir às lágrimas. Uma verdadeira elegia à horizontalidade. Parece um Malangatana desenhado com as mãos atadas e os olhos vendados e pintado com os pés com uma paleta frígida;
Esteves atreveu-se também com o do it youself, o monumento que não carece de artista; é assim: Esteves quer e a obra nasce. Assim nasceu o monumento presumo que às cantarinhas (um poço fake, em tamanho natural com roldana e tudo, também fake, na rotunda da cantarinha).
Tudo isto faz da Figueira um case-study da arte pública; ou vá lá, da decoração de exteriores. Hão-de cá vir sharters de especialistas para estudar o fenómeno.
Mas Esteves não pára. Agora já ameaçou com um monumento ao Infante D. Pedro. Esse mesmo. O duque de Coimbra. Senhor de Buarcos. O filho mais esperto de D. João I. Irmão de D. Duarte. Regente em nome de Afonso V. Um príncipe da idade média. O povo de Buarcos, descendente dos servos da sua gleba, e os seus representantes socialistas não o esquecem. É ele o herói cívico cuja memória querem ver perpetuada em estátua.
Lá vem mais pessegada. Sim, porque Ataíde espera ser reeleito para um último mandato. E dizem que Esteves vai a vereador. 
Isto parece que muda aos três. Mas a pessegada é que nunca mais acaba. 
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Mathias Énard

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O ano de 2016 foi um ano de merda. Mas foi, como também são todos, um ano de descobertas para quem lhe sobreviveu . Uma delas foi, para mim, a de um grande escritor. Mathias Énard. Há quem o compare a Balzac, a Malraux, a Céline, a Joyce, até a Homero. Tretas. Eu acho que se trata de um caso único. De outro caso. Um Caso à parte.
Torrencial, erudito, inventivo na linguagem, ousado na forma, ambicioso na atitude com que encara a literatura como obra de arte total, Énard foi para mim a revelação de que esta pode ser algo bem mais elevado do que a pessegada fácil e sentimental que se vende nos entrepostos grossistas de papel que agora passam por livrarias e nas grandes superfícies.

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Leiam. A Dom Quixote já lhe editou em português pelo menos Zona, Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes e, mais recentemente, Bússola. O rapaz (é mais novo do que eu, o cabrãozinho) é dos bons. Vão por mim.
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