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segunda-feira, 21 de Julho de 2014

da banalidade

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Leonel Moura, sucialista militante e colunista do “negócios” é também o artista que acredita que a arte morreu e em breve será substituída por uma “maquinização da produção”. Talvez tenha sido por isso que Leonel se tenha dedicado a criar máquinas “com vontade estética” (inventou, entre outras pessegadas a que já me referi aqui, o robot que pinta quadros e decide sozinho quando a obra está acabada). Mas Leonel também faz esculturas. Ou melhor, manda fazer, porque como ele pensa que a arte morreu, o seu acto criativo limita-se a uma ordem de impressão. Em todo o caso vende-as. Vendeu ainda agora uma impressão em 3D de resina ao parlamento (foi uma encomenda) por 18 mil aéreos.– o que leva a crer que com a morte da arte prossegue o comércio, mas de cadáveres; ou seja, ainda há mercado para aquilo (quanto mais não seja o oficial); presumo que seja a isso que se pode chamar, com alguma autoridade, um negócio necrófilo.
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Entretanto, alguma intelectualidade de direita (deduzo que deve ser da nova) vai-se entretendo, na comunicação social, a reflectir sobre o que é a Arte.  Há quem ache um refrigério. O que não deixa de me lembrar o que uma vez li sobre a resposta de Louis Armstrong à pergunta de um jornalista sobre o que seria o swing – diz-se que a Satchmo a resposta lhe saíu espontânea, como um solo: “Se tem necessidade de perguntar é porque nunca vai entender, my friend”.
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A verdade é que vivemos, como refere aqui o Daniel Abrunheiro, a era do vazio. O eco que lhe oferece a comunicação social apenas lhe amplifica o sinal.
E na vida real este sinal invade o quotidiano como uma evidência ensurdecedora e brutal. Torna tudo profundamente hediondo. Medonho. Mas de uma banalidade atroz e indescritível.

- A imagem acima é de há três dias, em Maiorca, Figueira da Foz. Portugal.
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quarta-feira, 16 de Julho de 2014

A bava do zeinaldo e a granaderia dos gestores de ponta

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Os últimos dias da alta-finança nacional têm sido bastante eloquentes da competência e da probidade (?!) da fina-flor dos gestores de ponta das empresas de maior “prestígio” deste pobre país arruinado.
O que se vai sabendo do cada vez mais sórdido caso da família Espírito Santo é, aliás, a mais cabal explicação, ilustrada “aux coleurs criardes”, para a ruína de um país. De qualquer país. Como o episódio mais recente.
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A estória é curta e resume-se assim: Zeinal Bava, o crestianoreinaldo dos negócios, é o gestor de ponta mais bem remunerado do país, o ai jesus das redacções dos jornalinhos “de negócios”. Bava (sobre quem já me debrucei aqui) foi presidente da PT SGPS entre abril de 2008 e junho de 2013 e ainda é presidente da PT Portugal. Ora, a PT Portugal, agora dirigida por Henrique Granadeiro (outra sumidade da gestão-de-ponta) aplicou 897 milhões em ativos da Rioforte, empresa do GES que estava em risco de não cumprir (e não cumpriu) o pagamento aos investidores no papel comercial.  
Pois bem, o zeinaldo, que é maometano, bava-se por quantas lascas de presunto há no mundo que não sabia de nada.
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A moral da estória é velha como o mundo: sempre foi assim e nem podia ser de outra maneira – dizem uns - e os outros corroboram. Ou seja, enquanto uns se peidam, os outros riem-se e vice-versa; e assim sucessivamente, por aí fora.
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sábado, 12 de Julho de 2014

O futebol e a vida

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Na minha infância o futebol era uma metáfora do fantástico e do imponderável. Hoje em dia, tal como na vida, para mim no futebol também já não há mistério. Empresarialisou-se. Tornou-se um negócio à escala mundial, programado, sem surpresas, demasiado previsível: já não há lugar nele para Manés Garrincha, Georges Bests, Diegos Maradonas ou Victor-Baptistas.
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Se, como já ouvi alguém, uma equipa de futebol deve ser como a big band de Duke Ellington - uma orquestra de músicos inspirados e solistas geniais dirigida por um génio inspirado - eu já vi jogar equipas assim: a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982. Perderam, é claro, e talvez tenha sido essa tragédia que precipitou o futebol neste pesadelo resultadista obcecado com a “eficácia”, previsível e aborrecido. 
O que é facto é nunca mais vi equipas “tocarem” assim. No futebol actual não há lugar para a alegria do jogo (para quem não sabe, o futebol é um jogo colectivo, tal como a música), nem para “músicos” inspirados como Sócrates (o doutor, não o inginheiro) ou Cruijff, nem para “directores d’orquestra” como Rinus Michels ou Tele Santana. Apenas para paulosbentos e felipões; e Joachim Löw.
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Sim porque a Alemanha é uma orquestra afinada. Mas está para a alegria do jogo mais ou menos como a orquestra de Paul Mauriat para a música: não tem imaginação nem fantasia, nem Paul Gonsalves nem Johnny Hodges nem Ben Webster, nem os outros todos; nem o Duke, claro. A Alemanha, no entanto, com o seu futebol frio e burocrático tem sido sempre uma orquestra demolidora da bela música do futebol maravilha. Foi assim em 1954 com a Hungria de Puskas e kocsis (esta nunca cheguei a ver), em 1974 com a Holanda e em 1990 com a Argentina.
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Neste mundial deu para ver aliás que todas as equipas que tentaram jogar com a Alemanha pelo resultado (para perder por poucos, para empatar ou vencer por poucos) levaram muitos, à cabazada. À excepção do Gana (uma equipa que lamentavelmente só a espaços parece conhecer e querer partilhar o prazer do jogo) e da Argélia.
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A equipa de Islam Slimani foi a única que esteve perto de poder vencer os alemões. Mas apesar do bom futebol não é ainda uma big band das antigas: falta-lhe a ousadia, a generosidade, o desprezo pela derrota e um je ne sais quoi que não consigo definir mas que talvez fosse o ingrediente capaz de transformar o boato - de que a equipa de Slimani doaria o seu prémio de nove milhões de dólares aos habitantes da Faixa de Gaza - numa notícia verdadeira. O futebol resgataria a vida. E talvez também o meu antigo fascínio pelo imponderável, esse mistério que é a esperança.
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A Faixa de Gaza, para quem não sabe, é a parcela do globo com maior concentração de habitantes por metro quadrado. Estão aí confinados por um embargo que até lhes nega o acesso a ajuda humanitária porque dizque deusnossosenhor em pessoa prometeu a sua terra em exclusivo a uns senhores que não apreciam carne de porco à alentejana.
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quinta-feira, 10 de Julho de 2014

O sidónio de massarelos e a vaga de fundo

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Enquanto a Alemanha, diante de todo o mundo, massacrava o Brasil no Mineirão, Israel procedia, discreta mas sistematicamente, como sempre (e com o alto-patrocínio dos americanos, como de costume) a mais um consuetudinário massacre de palestinianos, na faixa de Gaza.
No Iraque, na Síria e no Afeganistão, os naturais também continuam a massacrar-se alegremente, com a benção da santa religião deles e o alto-patrocínio dos americanos (desta vez em consórcio com Israel e as monarquias muçulmanas do golfo).
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Enquanto isso, em Portugal (que também já se tinha feito metodicamente massacrar no futebol pelos alemões) continua – com o alto-patrocínio da Alemanha e da alta-finança - o massacre dos direitos das pessoas, da sua esperança, do seu futuro e até da sua inteligência. O Crato vai fechando escolas; a teixeiradacruz os tribunais e o Macedo oblitera, imperturbável, a esperança de vida e a dignidade dos utentes do serviço Nacional de saúde; o Espírito Santo inimputável aposenta-se e é honoris-causa plo ISEG; a justiça anda a banhos plo allgarve e a judiciária aos gambuzinos pla Praia da Luz, para inglês ver. Enquanto Cavaco lambuza alarvemente os aneis e os dedos de Letízia (la reina de España, coño), o seu genro, o empresário falido do entretenimento que adquiriu o Pavilhão Atlântico por três ou quatro vezes menos do que ele custou, apoia António Costa, o Hollande monhé, essa espécie de nova esperança dos cínicos e dos atoleimados; Joana Vasconcelos e os deserdados do ministério da cultura idem idem aspas aspas, em solene apoteose.
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Enfim, “O regime está desacreditado”.
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Ou seja, o ex-autarca da imbicta acha-se um homem providêncial. Há uma desconfiança da sociedade relativamente à política”, diz ele. “Para se conquistar o poder dentro dos partidos é necessário fazer-se determinadas coisas para as quais as pessoas de maior valor não estão disponíveis”.
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Sim, porque “pessoas de maior valor“, como este ex-aluno do colégio alemão, nunca estiveram disponíveis para fazer “determinadas coisas” para “conquistar o poder”.  
Este Sidónio de Massarelos chegou a deputado, ao poder na segunda câmara do país, a consultor sénior da Boyden e a parceiro da Neves de Almeida/HR Consulting, sem nunca ter mijado num lavatório. 
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quinta-feira, 3 de Julho de 2014

O regedor da cultura

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O senhor vereador da cultura da câmara municipal da Figueira da Foz não é um homem sem qualidades. Pelo contrário. Uma delas é que é um homem de ideias fixas.
O vereador António Tavares, ele próprio também escritor (embora não seja nenhum Musil), acha que a literatura é assim uma espécie de concurso de abóboras. Para ele alguns escritores são mais dignos que outros – mais bem comportados; mais belos; mais, sei lá, redondinhos ou simétricos; mais fotogénicos; enfim, mais recomendáveis.
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A Biblioteca Municipal acaba, pelos vistos, de perder o espólio de Joaquim Namorado porque os familiares do poeta se fartaram de ver o nome e o legado deste continuamente enxovalhados pela câmara municipal de uma cidade que ele escolheu para viver e morrer e a quem deu tudo.
O vereador acha, peremptório, que “a opção da autarquia, no que a prémios literários respeita, se esgota no figueirense João Gaspar Simões”.
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Eu acho que o escritor e cidadão Tavares está no seu direito de preferir o segundo modernismo ou presencismo ao neo-realismo. Mas também acho que o vereador da cultura não tem o direito de impôr os seus gostos ou desgostos. 
Acrescento que nada tenho contra o prémio literário João Gaspar Simões. Penso todavia que faria sentido a recuperação do prémio Joaquim Namorado (uma coisa não impediria a outra, como referi aqui). Seria um sinal de civilidade, de justiça, de maturidade. de pluralismo, que sei eu, de capacidade de conviver com os seus eus contraditórios.
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Que diabo, esta pequena cidade de província sempre é a cidade natal (e adoptada) de dois dos mais representativos escritores das correntes literárias que, embora antagónicas, foram as dominantes na literatura portuguesa no século vinte. Mas também é a cidade que deu à cultura portuguesa vultos como o filósofo Joaquim de Carvalho, o pintor surrealista Cândido Costa Pinto, o escultor e professor Gustavo Bastos, o escritor e cineasta abjeccionista João César Monteiro, o genial (e hoje um tanto esquecido) maestro e compositor David de Sousa.
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Não, a Figueira da Foz não é uma cidadezinha qualquer, no que à cultura diz respeito. É uma cidade plural, rica em diversidade, contraditória. Devia celebrá-lo. Com orgulho e sem preconceitos; sem pruridos nem psicoses, nem complexos paroquiais.
A cultura na Figueira merecia mais; muito mais. Não devia esgotar-se nas opções ideológicas de um regedor.

Ao alto, capricho nº39, de Francisco de Goya (gravura inspirada neste desenho original: el asno literato)
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quarta-feira, 2 de Julho de 2014

A zona nobre e a zona pobre ou a cidadania A e a cidadania b

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A nação é de todos,
 a nação tem de ser igual para todos.
Se não é igual para todos,
é que os dirigentes que se chamam estado,
se tornaram quadrilha
 Aquilino Ribeiro
(Quando os lobos uivam)

Para além da estupidez confesso que também convivo mal com a injustiça. Reconheço que, num meio cultural permissivo a toda a sorte de iniquidades, isso talvez faça de mim uma espécie de excêntrico; o que, de certo modo, reduz a minha vida a uma melancólica misantropia, que eu  tento comedir (ou sublimar) através do humor: em doses homeopáticas de sarcasmo e derisão.
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Cultivo um conceito de cidadania, e de cidade, que não se harmoniza de todo com o padrão da maior parte dos meus concidadãos. Estes, se aceitam pacífica e bovinamente a desigualdade entre si, também aceitam, lamentavelmente com a mesma naturalidade ruminante, os conceitos de cidade nobre e de cidade pobre na gestão do espaço público. 
Penso que, se os cidadãos são, em princípio, todos iguais, a cidade também o deveria ser. Não tolero leis que consagrem o contrário - com arrepiante e medieval banalidade – com a complacência resignada da maior parte dos cidadãos. Tenho dificuldade em tolerar posturas municipais que tratam distintamente espaços de cidadania (ruas, praças, parques, bairros, etc), que deveriam ser tratados de forma igual.
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Na Figueira da Foz, curiosamente, os últimos exemplos de urbanização projectados pelo anterior regime (no final dos anos sessenta) são muito mais “iguais” do que os perpetrados pelo poder local democrático: apesar de trabalharem para o eng Jordão (um autarca nomeado por um governo não eleito), os urbanistas do gabinete de Alberto Pessoa, imbuídos do espírito de um certo modernismo e decerto influenciados pelo exemplo, então recente, de Brasília, conseguiram impôr uma certa ideia de cidade “igual para todos” – a mesma rua larga, o mesmo passeio amplo, o mesmo lancil de calcário, a mesma calçada portuguesa, o mesmo candeeiro de iluminação (em aglomerado de pedra), a mesma placa toponímica, etc. - no bairro do cruzeiro e na avenida oceânica, no Museu e na Rua Heróis do Ultramar.
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A ideia de “zona nobre-zona pobre” é um conceito que, paradoxalmente, cristalizou e foi consagrado pelo poder local democrático. Depois do vintecincodAbril o poder foi por fim entregue ao povo, que depressa porém o delegou em sucessivas gerações de políticos venais que, por sua vez, delegaram alegremente a arquitectura no desenhador-de-construção-civil e o urbanismo no empreiteiro. E assim foi sendo imposto um conceito de cidade à la carte, à vontade do freguês e do mestre d’obras. Uma cidade cada vez mais desigual, desenhada por ignorantes, ao gosto boçal de patos bravos, com a conivência venal de imbecis (ainda que eleitos). As ruas e os passeios estreitaram-se, as habitações acumularam-se na vertical, em busca de cada vez mais espaço útil, transformando a paisagem urbana num emaranhado informe, caótico e intransitável de guetos sem identidade onde, em novelos infames, cabos eléctricos amarinham pelas paredes e automóveis e contentores de lixo pelos passeios – dificultando o fluir do trânsito e dos peões, a recolha do lixo, a entrega do correio, a acção dos bombeiros e até a da polícia.
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Agora, no entanto, o poder municipal parece querer chamar a si, de novo, a gestão do espaço público. O paradoxo é que parece que, para os seus novos “arranjos urbanísticos”, está a recorrer aos mesmos gabinetes ignorantes de desenho-de-construção-civil geridos pelos mesmíssimos patosbravos cujo gosto e sensibilidade exclusivista estão bem vincados nos critérios dos “arranjos urbanísticos” da envolvente do Forte de Stª Catarina, na Figueira e do largo da Feira Velha, em Maiorca.
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Do primeiro caso, e da sua inacreditável ostentação de materiais nobres (o granito natural, o aço inox e o patinável, os candeeiros de design xpto, etc., etc.), já me pronunciei aqui
A propósito do arranjo do Largo da feira velha, também cheguei a manifestar as minhas reservas quando soube da sua aprovação em Assembleia Municipal. Na altura, em Janeiro último “(...)não gostei de saber foi que o projecto aprovado (será executado com meios de QREN) está “fechado” – ou seja, os fregueses de Maiorca poderão, muito “democraticamente”, opinar sobre uma intervenção definitiva num dos seus espaços cívicos mais emblemáticos mas nada podem fazer para influir nos critérios que presidem à sua concepção. Fiquei assim esclarecido sobre o conceito de poder local que informa a sensibilidade da maioria absoluta que governa o concelho – uma sensibilidade que revela uma mentalidade que se acha legitimada para impor de cima soluções concebidas num gabinete por quem não conhece o local, o uso que lhe dão as gentes, as necessidades destas ou os seus costumes(...)” .
-Bem dito, bem feito. Os meus receios confirmaram-se. O projecto aprovado não contempla afinal todo o Largo, mas apenas o que se situa a norte da antiga EN111. Quanto às obras, uma visita breve chegou-me para ver que de granito natural e aço inox ou patinável nem sinal; nem de candeeiros de design. Do que lá pude observar foi que os lancis e os ladrilhos são de betão celular e os candeeiros de lata zincada. 
Como também previ de um projecto executado “por quem não conhece o local, o uso que lhe dão as gentes, as necessidades destas ou os seus costumes”, também não lobriguei nenhum espaço destinado à música e à cultura (Maiorca tem uma Filarmónica e organiza anualmente, há uma porção de tempo, um festival de folclore), nem para o tronco de Natal; tampouco para o pau de sebo ou outros jogos populares. Enfim, chegou-me para perceber que o que se pretende do largo da mais antiga povoação do concelho é uma espécie de logradouro para estacionamento.
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Estes dois casos são paradigmáticos daquilo que julgo ser uma opção consciente e deliberadamente assumida pelo poder local: segregar os seus cidadãos, tratando-os de modo diferenciado; uns como gente-fina; outros, com explícito desprezo, como simples labregos.
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Bem sei que muitos destes não se importam (porventura a maior parte deles); é isso aliás que torna tudo tão revoltantemente repugnante.
A verdade é que não existe emancipação possível para uma cidadania que aceita acriticamente tudo o que vem de cima, nem que seja um escarro, porque ou “não sabe-não responde” ou porque pensa que “qualquer coisa é melhor que nada”, porque “caladinho é que se vai longe”.
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O Largo da Feira Velha já é um largo mártir; ou seja, é um palco habitual de atrocidades. Uma delas também a comentei aqui. Na imagem (de ontem) continua a ser “o retrato alarve, bisonho, grotesco e boçal, mas fiel, da choldra triste e nefanda que é este país profundo”.
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domingo, 29 de Junho de 2014

O país profundo

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Os portugueses não páram de me espantar. O empreendorismo está-lhes nos genes. São capazes de desarrincar ideias do cu com um gancho desde que seja, claro, para alavancar, ou implementar ou até, sei lá potenciar; o que quer que seja. E não o fazem, como têm  fama, de improviso; não. Pelo contrário, perpetram-no de forma metódica, sistemática, premeditada. É uma coisa incrível.

A bem dizer, os tugas são, como os hebreus, uma espécie de povo eleito. Só que ao contrário destes, que tentam pateticamente tirar sangue das pedras cultivando laranjeiras no deserto, os tugas preferem retirar toda a humidade e nutrientes à terra até que todo o seu país se transforme num deserto - enfim, numa espécie de terra prometida, ou lá o que é.

Senhoras e senhores,
leidis énde gentleménes,
mésdames i mossiús,
eis
agora
algo completamente diferente:
a cóltura do ócalipto em socalcos.
O ócalipto. Em socalcos.
Digam lá que não é de génio.

A imagem, para que se veja, recolhida no sopé da serra das Alhadas, na Figueira da Foz (entre Caceira e o Cabecinho, na antiga EN 111)) mostra bem a capacidade tenaz e metódica dos naturais, em todo o seu esplendor.

Este é mais um retrato alarve do país profundo. Ou, se preferirem, um retrato profundo de um país alarve.
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segunda-feira, 23 de Junho de 2014

O símbolo da treta

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un hombre tiene que tener siempre 
el nivel de la dignidad 
por encima del nivel del miedo”
Eduardo Chillida
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Hoje, dia 23 de Junho do ano da graça de 2014, um artista português vai sentar o cu no mocho do tribunal. Por ultraje à bandeira nacional. Isto num país onde tantos ultrajam a bandeira sem usarem sequer a sua imagem e em que outros tantos a usam para fins estritamente comerciais, muitas vezes com péssimo gosto (coisa que não deve ser proibida, entenda-se, já que, segundo consta, vivemos numa democracia). Pois bem: como de costume, é a arte que acaba por ir a tribunal – à falta de melhores réus para condenar.
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Num país em que o governo, o presidente e a sua (deles) maioria avacalham todos os dias a Constituição e no qual os outros símbolos nacionais são usados impunemente para vender bejecas e outras merdas, é um artista que vai a tribunal. Por usar a bandeira para exprimir a sua indignação.
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Ao contrário porém do que diz o jornal “Público”, não penso que seja a arte que vai a tribunal. É a opinião.  Ou seja, a liberdade de expressão.
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Por isso decidi reeditar este boneco (que já tinha editado aqui). No rescaldo de mais uma pífia gesta patriótica. Não estou porém indignado, como o artista algarvio que hoje vai ser julgado. Estou aliviado. Confesso até que torci plos alemões e, (ao que cheguei) plos estadosunidosdamérica. Tenho-me divertido bastante com o crestianismoronaldismo e com o seu patético esplendor na relva. E ainda falta o Gana. Se os rapazes da estrela negra se portarem como contra a Alemanha terei, assegurados, mais noventa minutos de puro divertimento.


- Espero que não me processem por ultraje aos símbolos nacionais (se o fizerem, paciência. o único limite da liberdade de expressão que reconheço é o código penal; além disso, um artista também precisa de alguma publicidade). 
Sou todavia de opinião (e ajo em conformidade) que se pode fazer tudo com os símbolos nacionais; excepto, talvez, sentarmo-nos neles - que é a única coisa aliás que toda a gente faz, a começar pelos representantes dos principais cargos públicos - e nunca vi nenhum deles sentar o cu no mocho. Lá chegaremos. É essa esperança, (ténue, confesso) que me mantém atento.
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sexta-feira, 20 de Junho de 2014

João, o lobo Antunes e o hipotálamo intelectual da nova direita

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João Lobo Antunes é um mui reputado sábio português oriundo daquele meio social (a classe dirigente portuguesa, sobre a qual já me pronunciei aqui) que presume grande prurido pelo brio da hereditariedade e igual vaidade por antepassadas fidalguias.
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Cientista famoso e considerado, o seu verbete da wikipédia em inglês é mais loquaz do que o em português - embora profusamente eloquente a respeito dos seus brios hereditários e relações familiares é, ainda assim, curiosa e misteriosamente omisso e enigmático quanto aos seus supostos méritos científicos ou académicos - a este respeito diz apenas que “escreveu centenas de artigos científicos”, quatro livros (nenhum sobre ciência) e que implantou um olho electrónico num gajo cego (não diz se o pobre homem sobrevive e que caralho ele vê) e que o seu foco de interesse científico é o hipotálamo e a hipófise. Que foi mandatário das candidaturas de Jorge Sampaio e de Aníbal Cavaco Silva (curiosamente, não diz nada sobre o que o douto neurologista Antunes acha do hipotálamo e da hipófise deste). Ah, e que é, desde 2006, membro do Conselho d’Estado.
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Assim, o lobo João Antunes é o segundo dos seis filhos do cirurgião e professor João Alfredo de Figueiredo Lobo Antunes (que foi colaborador de Egas Moniz) e de Margarida da Beira Cardoso de Melo Machado (filha de Joaquim José Machado, 70º, 82º e 91º governador de Moçambique  e 11º governador da Índia) – eis aqui o pedigri científicócolonial. O de fidalguia vem já a seguir: o nosso lobo João é o bisneto orgulhoso de um filho ilegítimo de  Bernardo António de Brito Antunes, primeiro visconde da Nazaré (personagem de que não faço ideia quem tenha sido e de quem até a wikipédia desconhece os feitos) o que explica que, em certos meios, a bastardia acentua o tom cerúleo do sangue e a jactância nos pergaminhos. Contudo, também tem pedigri intelectual: é irmão do genial cronista (e romancista assim-assim) António Lobo Antunes, que também já retratei aqui.
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A cronologia dos acasalamentos deste lobo Antunes também é elucidativa dos meios em que se move e da sua consaguinidade com a ciência, a fidalguia e a alta-finança.
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João Lobo Antunes tornou-se conhecido dos portugueses porque, além de ser famoso e proeminente e conselheiro d’estado, cada vez que abre a boca só diz merda (o que talvez explique o estado a que chegou o Estado que ele aconselha).
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- Desta vez a anta cavaquista defendeu que não havia perseguição intelectual antes do vintecincodAbril. O que, de certo modo, é capaz de ser natural: os meios académicos que então frequentava (a juventude universitária católica) e em cujas publicações colaborava até estavam isentos de passar pla censura. Talvez tenha sido por isso que nunca ouviu falar de Abel Salazar. Ou de Mário Silva. Ou de Bento de Jesus Caraça. Ou de Ruy Luís Gomes.
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Que filho da puta de conselheiro d’estado. Que filho da puta de estado que tal conselheiro tem.
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quinta-feira, 19 de Junho de 2014

devaneio

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Que Deus abençoe as ilhas de sonho
Pela autoridade nunca visitadas;
Que Deus abençoe as Repúblicas justas
Que qualquer homem acolhem.
Kipling

Há homens que não precisam nunca de se evadir. Vivem (em ilhas de sonho ou em repúblicas justas) em perpétua liberdade.
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Não é o meu caso. Quem, como eu, vive constrangido entre absurdos e iniquidades tem necessidade orgânica de sonhar em voz alta com ilhas de sonho e repúblicas justas; ou sejade devaneio, de evasão.

Por isso, embora este não seja um blogue de causas, nem de campanhas, tomei a liberdade deste pequeno capricho, ou divertimento, que podeis - se quiserdes, usar nos vossos blogues - à guisa de banner (não sei se é assim que se escreve isto). 
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terça-feira, 17 de Junho de 2014

Herbert Read


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 A palavra “glória” perdeu a honra, sendo agora difícil restituir-lha. A sua ligação demasiado íntima com a grandeza militar estragou-a; tem sido confundida com fama e ambição. Contudo, a verdadeira glória é uma virtude interior e discreta, que só se consegue realmente descobrir na solidão
Herbert Read
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Quando a realidade, com tudo o que importa de estupidez e vacuidade ou aparente ausência de sentido, me acabrunha demasiado, faço como Graham Greene. Tento evadir-me. Uma das maneiras de o fazer é através dos seus livros. A leitura é uma das melhores e mais baratas formas de evasão. 
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Evadir-me com esse inglês invulgar é sempre uma bela (exaltante e desconcertante) aventura. É a ele que tenho recorrido inúmeras vezes ao longo da minha vida - “Vejo agora que tanto as minhas viagens como o próprio acto de escrever têm sido maneiras de me evadir... Escrever é uma forma de terapia. Por vezes pergunto a mim próprio como é que aqueles que não escrevem, compõem ou pintam, conseguem fugir à loucura, à melancolia e ao medo inerentes ao género humano”.
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Na releitura do seu belo livro de memórias, “Caminhos de evasão”, deparei-me com uma referência ao seu amigo Herbert Read  - “uma amizade pode ser um dos acontecimentos mais importantes da vida de uma pessoa e, tal como escrever ou viajar, pode também servir de evasão à rotina diária, à sensação de fracasso e ao receio do futuro”.
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Herbert Read, foi um intelectual de esquerda, poeta anarquista, crítico literário e de arte e pensador revolucionário que apregoava a educação pela arte, e pela paz. “Ganhou uma Cruz de Guerra e uma Medalha de Serviços Distintos devido à sua luta na Frente Ocidental –  mas quando partiu para aquele palco de morte e desolação, levou consigo a antologia de Robert Bridge, The Spirit of man, a República, de Platão e Don Quixote.” O seu único romance, “The Green Child”, era, para Greene, “um dos maiores poemas deste século”; o seu “English Prose Style”, “obra de leitura obrigatória para quem quisesse ser escritor” ; o seu “Wordsworth” - “jamais alguém escrevera acerca de Wordsworth de uma maneira tão reveladora, ou melhor, tão auto-reveladora” – e o seu “The innocent Eye”, “uma das melhores autobiografias de língua inglesa”.
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Quando o jovem Greene, romancista fracassado, recebe de Read um convite para jantar: “Só cá estára o Eliot  (T. S. Eliot), mais ninguém, e vai ser muito informal -  para ele, “essa situação poder-se-ia comparar a receber uma carta de Coleridge, na qual ele dissesse : “Só cá estará o Wordsworth, mais ninguém.
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É uma lástima que intelectuais como Herbert Read estejam hoje, helas, demasiado esquecidos. Sobretudo quando o conceito de “glória” está cada vez mais associado à prática analfabeta do chuto na bola, o de “prestígio” ao triunfo torpe do dinheiro e se alimentam, em jornais de referência, grandes expectactivas quanto à saída dos intelectuais” “de direita” do armário.

Mas a verdade é que há palavras que, além de perderem a”honra”, também perderam o sentido. Como a palavra “intelectual”. Ou a palavra "honra", por exemplo.
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