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domingo, 23 de setembro de 2018

da joana - os submarinos e as avionetas


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Ainda ninguém foi dentro. Muito menos restituiu a massa. Contudo, o nosso imarcescível presidente da república acha que a luta contra a corrupção é para continuar. Acha que está bem assim.  Enfim, maisómenos nos mesmos moldes.
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Eu creio todavia que a justiça portuguesa não é cega - tem é vista grossa, coitadinha. Um pouco, aliás, à imagem dos portugueses em geral. E da procuradora Joana Marques Vidal.
Só têm olhos para as gordas do correio da manha, para o empório da Crestina Ferreira na Sic, para o peso certo do Fernando Mendes na RTP, para as telenovelas da Liga nos (Benfica benfica, Lourosa lourosa, Marrazes marrazes) em todos os canais.
De maneiras que nem reparam que têm elefantes na sala; e avionetas da tecnoforma; e submarinos a voar.
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domingo, 19 de agosto de 2018

o poder e a cegada pimba

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Dominam-se mais facilmente os povos excitando as suas paixões do que cuidando dos seus interesses. 
Gustave Le Bon
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O poder, o grande poder, revela a dimensão ou a substância dos homens que o exercem. O poder local também. Dito de outro modo, se o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente, como dizem, suponho que o poder local também corromperá, ainda que relativamente. Mas isto sou eu a pensar alto, claro. 
A verdade é que, como referiu o grande Voltaire, “a única forma de lutar contra o poder é tentar sobreviver-lhe”. E é o que modestamente eu vou fazendo, com as minhas tamanquinhas, que são o desenho, que pratico a traço fino, e o sarcasmo, que sublinho com o grosso. O facto de nunca jamais fazer, nem aceitar, favores ou jeitinhos também tem contribuído, senão mais, para manter a espinha direita.
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Todavia, no exercício do poder, certamente inspirados por um certo florentino renascentista, os nossos autarcas têm sempre o cuidado de jamais “levar a nobreza ao desespero nem o povo ao descontentamento”; ó contrére, como dizem os americanos, quando querem parecer cultos e viajados.
Rui Ferreira, o presidente da Junta de Freguesia de Maiorca é o príncipe perfeito local. Não é ainda um autarca-modelo (está lá há pouco tempo) mas já é um autarca de marca. Eleito por poucos votos, ele jaz na sua cadeira de sonho e traz sempre o povo nas palminhas (da nobreza nem falar).
A sua marca, e missão confessada, é “contentar” a todos. Desde que não se prejudique muito, como é óbvio.
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Conhecedor do que a casa gasta, isto é, da predilecção popular por variadas profanidades como a libação etílica e pantagruélica (o comes-e-bebes), o bailinho lúbrico e o foguetório, mas também pla cegada saudosista (para um certo bom-povo, o passado é um lugar radioso), Ferreira não olha a custos para satisfazer a demanda do seu mercado. Ele é desfile de carroças, com burros e tudo; ele é o passeio das pasteleiras, o meio de transporte do antigamente (que pitoresco); ele é a recriação da colheita do arroz com trajes à antiga (que lindo) e, claro, a “vertente gastronómica, mas sobretudo “a vertente cultural”, com muita música pimba e até di-jeis e tudo, para também agradar aos jovens, esse nicho exigentíssimo.
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Altamente patrocinado pla Câmara Municipal (que paga o pato) e certamente aconselhado pelo seu mentor, o vereador e grande conhecedor da alma humana Carlos Monteiro, Ferreira também deve achar que “o reviver de hábitos e tradições correu muito bem e, quando tem retorno, aumenta a auto-estima”. Por isso mesmo a aposta na FINDAGRIM é para continuar.
 
É necessário ressalvar aqui que a Feira Industrial e Agrícola de Maiorca é um evento já com alguns anos e o único (!) no concelho consagrado à “industria” - o que, se diz muito das associações do sector e dos poderes públicos concelhios também aumenta exponencialmente a auto-estima dos maiorquenses e torna o facto duplamente pitoresco pois em Maiorca as únicas actividades vagamente aparentadas com “industria“ que eu conheço são uma padaria, uma oficina de automóveis e uma serralharia que tem dois ou três funcionários e fica a duzentos metros de minha casa; havia também uma oficina de motoretas com um funcionário mais idoso do que o dono; quando este morreu deixei de ver ambos e a loja fechou para sempre, já há uns anitos. 
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Maiorca é essencialmente rural, agrícola - isto é, tem a monocultura do arroz, mecanizada e em latifúndio, e a plantação intensiva do eucalipto, igualmente tenaz e em pequenas parcelas - mas os grandes empregadores da região são a Cruz Vermelha, o hospital distrital e a câmara municipal. Isto cria um fenómeno novo, uma espécie de gentrificação rural ou às avessas, muito bem diagnosticado por Rui Ferreira em entrevista à “Foz ao minuto” (a partir do mn 13.06) “nós aqui sempre fomos zona agrícola, o que faz com que não nos permitam a construção a bom-prazer, não é?, eu gostaria se calhar de ter uma casa em cada terreno que tenho (não é que tenha muitos) mas se calhar não me vale nada os terrenos que tenho porque não posso construir, o que faz com que a juventude se desmobilize e vá viver para outras zonas… e vamos descaracterizando a freguesia de gente jovem(…).
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Por tudo isto, hoje em dia em Maiorca não se cultiva, nem se constrói, nem se faz porra nenhuma.
Mas tudo se há-de arranjar – naturalmente, claro.
Porque o que realmente interessa mesmo é que para o próximo ano, Rui Ferreira quer que a FINDAGRIM “continue a ser uma festa do povo” mas que, ao mesmo tempo, tenha uma preocupação maior com o público mais jovem. “Em primeiro lugar vou ouvir todos os expositores, que nos têm vindo a apoiar, de forma a podermos melhorar. Mas posso adiantar que vamos continuar a ser uma festa do povo com associações envolvidas e com uma aposta no cartaz de cariz popular, com cantores «pimba». Vamos tentar também agradar à população mais jovem, como é óbvio”. 
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Salazar é que a sabia toda - foram muitos anos a assar frangos - nunca levou a nobreza ao desespero nem o povo ao descontentamento (descontentes, se os havia, eram poucos - em verdade, nunca chegaram aos dez por cento - e, a bem dizer, eram quase todos comunistas) – porque para ele, “os homens mudam muito pouco e então os portugueses quase nada".
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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Daniel Barenboim

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Aos que se preocupam, não morri. Ainda. Até tenho andado menos mal, dadas as circunstâncias. Mas o que me chega do rumor do mundo tem-me acabrunhado. E, como não tolero repetir-me, tenho adiado constantemente a actualização deste pobre e inútil blogue.
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Muitos falam da banalidade do mal como um sinal dos tempos. A verdade porém é que sempre foi assim. Muitos anos antes de Hanah Arendt já Eugene Delacroix o tinha constatado: “o horrível está por toda a parte”, decretava ele, desolado, no seu diário.

E, no entanto, há sempre quem (mesmo entre os que têm fácil acesso aos grandes meios de comunicação) não se ache confortável diante deste triunfo ufano da estupidez e faça questão de o dizer - por escrito - num jornal de grande circulação. Como outrora o escritor Emile Zola. E, como agora, o maestro Daniel Barenboim.
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domingo, 10 de junho de 2018

O chauvinismo “maior cá”.


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Segundo o Diccionário Houaiss, chauvinismo é um termo que designa «patriotismo fanático, cego, agressivo» e quer dizer, por extensão de sentido, o «entusiasmo excessivo pelo que é nacional, e menosprezo sistemático pelo que é estrangeiro» ou «entusiasmo intransigente por uma causa, atitude ou grupo».  
Etimologicamente, ainda segundo o Houaiss, chauvinismo deriva do «antropônimo Nicolas Chauvin + -ismo, provavelmente por influência do francês chauvinisme (1834) "id.", de Chauvin, nome de um soldado francês que exaltava ingenuamente as armas do primeiro Império, tipo popularizado e ridicularizado por seu extremado patriotismo, no vaudeville de Cogniard (1806-1872) La Cocarde Tricolore (1831)».
O dicionário Houaiss acrescenta ainda - ainda dizem que os dicionários não têm sentido de humor - que o «vocábulo é considerado galicismo pelos puristas, que sugeriram em seu lugar: nacionalismo exacerbado, xenofobia».

A propósito: nesta posta, de 24 de Outubro de 2017, a respeito de uma assembleia de freguesia da terra que escolhi para viver, eu referi que uma atenção continuada à plítica local seria um manancial de motivos para caricatura. Não me enganei.
Contudo, ainda assim, na mais recente Assembleia de Freguesia fui surpreendido. Não por um pressuposto mais extravagante por parte de um qualquer político  - da situação ou da oposição - mas por uma intervenção de alguém que se manifestou apenas quando foi concedida a palavra ao público.
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A minha surpresa foi tal que, confesso, fiquei estarrecido, sem palavras nem reacção, porque fui eu o visado. Ou melhor (ou pior), fui atingido sem nem sequer ter sido visado. Eu explico: Maria José Sousa, secretária da Junta de Freguesia, tomou a palavra como simples freguesa para, em nome de uma qualquer suposta maioria silenciosa indignada, admoestar violentamente a deputada municipal da CDU Silvina Queiroz por esta ter alegadamente ultrajado os santos valores maiorquenses (seja lá isso o que for). 
Silvina Queiroz foi duramente invectivada por ter lido numa rede social (com agrado, ao ponto de o ter comentado nesse sentido), o texto humorístico de minha autoria que referi acima ao qual, sem jamais me nomear, Maria José Sousa atribuiu aleivosos e devastadores considerandos sobre a honra, a virtude e, que sei eu, a dignidade e o prestígio do passado, do presente e do futuro da freguesia de Maiorca.
Ou seja, Maria José Sousa, secretária da Junta, foi a protagonista de um acto político assinalável - visou alto, afrontando uma deputada municipal, que estava ausente, declarando-a na prática (com mandato de sabe-deus-quem) persona non grata em Maiorca, atingindo-me a mim, que estava presente, mas desprevenido. Não foi bonito. Nem muito elegante. Se eu fosse um purista, qualificá-lo-ia mesmo de xenófobo; mas como não sou esquisito com estrangeirismos, chamo-lhe apenas chauvinista.

E também não guardo ressentimento (não sou homem de rancores). Por isso, ela acabou por ganhar uma caricatura (um retrato com humor). Foi inteiramente merecida. Retratei-a com alguma generosidade, como uma espécie de Maria da Fonte maiorquense, de bacamarte e forquilha, a liderar a fronda plos seus santos valores.

Bem sei que o chauvinismo, no seu “entusiasmo intransigente por uma causa, atitude ou grupo”, por extensão de sentido, também «rejeita tudo o que é de outros». O chauvinista não conhece a ponderação, o relativismo, a civilidade, a cortesia, a franqueza, o sentido de humor, porque não os compreende. Também não compreende a ironia nem aceita a crítica. Toma-as sempre como afronta.

Em todo o caso, o que terá levado a simpática e até aqui discreta secretária da junta de Maiorca ao protagonismo político? Com mandato de quem, de que plataforma política informal ou desconhecida aceitou o papel de representar uma rábula de um chauvinismo tão anedótico que julgava já ultrapassado entre nós?
  
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A despropósito: o site do Diccionário Houaiss encontra-se neste momento bloqueado na sequência do cumprimento de uma notificação de Entidade Reguladora (IGAC – Inspeção-Geral das Atividades Culturais), o que, espero, não configure uma atitude, sei lá, demasiado purista ou digamos assim, acentuadamente chauvinista.
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terça-feira, 5 de junho de 2018

Franck Carlucci




O PREC acaba de obter uma vitória, ainda que póstuma, e na secretaria. O Sr. Carlucci já está a fazer tijolo.
É verdade, o ex-embaixador norte-americano em Lisboa (um dos pais da nossa democracia – um dos outros foi, como todos sabem, Mário Soares) deslocou-se em definitivo, e de forma natural, para a terra dos seus antepassados, onde certamente continuará a dedicar-se aos negócios, a jogar tennis enquanto espera pelo seu parceiro Otelo (outro especialista de terra batida) e claro, a conspirar pla democracia
Já antes, em 1960 - e sempre, naturalmente, pla democracia - tinha conspirado com o sr. Mobutu Sese Seko, no Kongo, contra o governo de Patrice Lumumba. 
E, em 1964, também tinha supervisionado o estabelecimento da democracia no Brasil (municiando os esquadrões da morte e providenciando a eliminação física de dirigentes da oposição), depois do derrube do presidente João Goulart.
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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Miguel Mattos Chaves e o comboio dos bêbados



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Miguel Mattos Chaves foi o candidato do CDS nas últimas eleições municipais na Figueira da Foz. Chaves não foi eleito sequer vereador mas, mesmo à distância (reside e trabalha em Lisboa) parece que observa a incontinência verbal e as sucessivas trapalhadas do presidente eleito com muito mais atenção e muito menos condescendência do que a oposição residente representada na Câmara.
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Como figueirense a residir fora deve ter-se sentido, muito justamente, enxovalhado com mais uma sandice (são cada vez mais embaraçantes ou constrangedoras) do nosso ex-desembargador. Desta vez foi o alto patrocínio municipal a um comboio de bêbados oriundos de outro concelho. Escreveu-lhe uma carta, aberta, onde o confronta publicamente com o ridículo da sua cada vez mais notória e incontinente imbecilidade.
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Reconheço que, em termos políticos, estou muito distante de Miguel Mattos Chaves. Mas tal facto não me impede de reconhecer que o que fez chama-se saber fazer oposição.
E é talvez também a prova, mais uma reconheça-se, da admirável coerência dos eleitores figueirinhas: se não fazem questão de grande exigência na escolha do poder que os governa, a verdade é que mantêm o mesmo critério rigoroso na escolha da oposição que o fiscaliza.
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