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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

O esplendor do jornalismo de merda.


 

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A SIC representa hoje, sem margem para qualquer dúvida razoável, uma referência absoluta do mais genuíno jornalismo de merda em Portugal.

Este jornalismo de merda de referência utiliza alegremente, sem nenhum pudor nem especiais precauções, a céu aberto e a hora nobre, sites de extrema-direita como fontes credíveis.

Clara de Sousa é apenas um dos rostos, petulantes e copiosamente remunerados, entre muitos outros (incluindo estagiários precários) que diariamente dão a cara por este referencial repugnante.

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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O barão.

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Se não temos cuidado, os media fazem-nos odiar as vítimas e amar os algozes 

Malcolm X

Miguel Guimarães é o bastonário dos barões da medicina (quer dizer que é ele que leva o bastão). Para ele, a sua “ordem” tem legitimidade para fiscalizar tudo o que lhe apetecer. Miguel tem boa imprensa, ou seja, não é por ali que lhe sobrevem alguma fiscalização. Aliás, e a propósito, sobre ordem e fiscalizações leiam este texto límpido pela pena bem temperada de Manuel Jorge Marmelo).

Miguel Guimarães é o bastonário de toda uma “ordem” que nunca escondeu a sua oposição ao Serviço Nacional de Saúde. O sonho de uma assistência médica acessível a todos por direito, materializado num serviço público por António Arnault e aprovado pelas forças mais progressistas da sociedade portuguesa foi sempre, desde o dia da sua aprovação, o pior pesadelo daqueles que acham que a assistência médica deve ser apenas privilégio exclusivo de quem pode pagar. São os mesmos que também se outorgam a propriedade do igualmente muito exclusivo privilégio de a vender e até (e sobretudo) o de lhe estabelecer o tarifário: os barões da medicina.

A verdade é que, tal como a medicina, a imprensa também tem barões. E a imprensa de que estes barões são donos só é “boa” para quem serve os interesses do baronato.

António Costa, por exemplo, que parecia um político experiente (um político experiente não é o que diz a verdade, nem sequer o que realmente pensa, mas apenas o que lhe é conveniente) foi apanhado ingenuamente e será certamente estrafegado nos próximos dias ou semanas pela boa imprensa dos barões porque - num áparte, em off - se permitiu partilhar o que lhe ia na alma com jornalistas do espesso do Balsemão (um barão da imprensa). Depressa, numa curiosa mas reveladora transumância de informação, a indiscrição foi tornada pública através do site de extrema-direita do Chega.

A verdade é que se informação é poder, não admira que seja partilhada, em notória promiscuidade, entre diversos baronatos. Os que têm os mesmos interesses.
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domingo, 16 de agosto de 2020

Magina tu

 


É sabido que na arte islâmica é proibida a representação de Deus. É por isso que esta arte é abstracta. O que eu não sabia era que em Portugal, no ano vinte do século vinte e um, era proibido desenhar polícias. Ainda mais no seu habitat se não natural pelo menos num ambiente em que qualquer cidadão, jornalista ou simples mirone, pode observá-los: não a fazer o seu trabalho de segurança pública mas como participantes activos (e bem participativos) em alegres hápeningues de extrema-direita.

Como não acredito que seja verdade (que é proibido desenhar polícias) resolvi fazer o retrato do senhor Magina da Silva, o afoito director (ou presidente, ou cê-i-ou ou comandante supremo ou lá o que é) da dita instituição. Foi ele que assinou uma queixa-crime contra o cartunista Nuno Saraiva porque este desenhou um agente da polícia numa manifestação nocturna de fachos acesos e máscaras brancas. Ou seja, o pobre nem sequer usou a fantasia e o exagero (que nesta arte são perfeitamente aceitáveis) limitando-se a ser literal: representou um agente da PSP no seu ambiente natural quando está de folga (quando de serviço estará certamente a bater em pretos, a ameaçar ciganos ou a multar desgraçados atrasados para o trabalho).

Eu penso, contudo, que em vez de se sentir melindrado por agentes da PSP serem representados a participar de mitingues fascistas, o comandante Magina devia tomar providências para evitar que eles os frequentassem. É para isso, suponho, que ele tem o comando da força toda.

Também penso, já agora, que o comandante também devia tomar providências, ou mover influências sei lá, (junto da tutela) para que os seus agentes sejam melhor remunerados de modo a que, para arredondar o orçamento, não se vejam obrigados a fazer serviços de segurança privada. Se não lograr o intento devia, pelo menos, ser inflexível quanto à indumentária - aconselhar-lhes o informal: bata ou avental - nunca a farda de serviço e o equipamento. Mas é assim, infelizmente, que qualquer paisano, jornalista ou simples mirone, pode observá-los nas lojas do Pingo-Doce da Figueira da Foz: patrulhando impávidos os corredores, passeando vagarosa e ameaçadoramente as botas do regulamento, a farda, a pistola, o cassetete e as algemas, que exibem, ostensivas, para pavor dos ciganitos e eterna segurança do pecúlio de chocolates do senhor Soares dos santos (que não é deus nem eu muçulmano e por isso mesmo também já me permiti representar figurativamente aqui).  

É que, como cidadão e contribuinte, sinto-me melindrado. Tão melindrado que, se acreditasse na justiça, moveria uma queixa-crime contra o chefe da polícia.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Victor Hugo

 

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Como todos os pobres não tenho férias. Nunca tive. Não conheço locais longínquos e mais ou menos paradisíacos ou exóticos. ”Nunca lá estive”, como escreveu Joaquim Namorado a propósito dos mares do sul. Contudo, como também não sou inteligente, como Luis Buñuel, tenho muita imaginação.

Agora, por exemplo, estou em Noventa e três. 1793. O quinto ano da revolução francesa. O ano do terror e da guerra civil na Vendeia, orquestrada pelos monárquicos e financiada pela pérfida Albion e por todas as outras velhas monarquias da Europa.

“93 é a guerra da Europa contra a França e da França contra Paris. E o que é a Revolução? É a vitória da França sobre a Europa e de Paris sobre a França. Daí a imensidade desse minuto espantoso, maior que todo o resto do século.” E é o último romance (editado em 1874) desse génio de imaginação prodigiosa e verbo luminoso que é Victor Hugo.

Já estive na taberna da rua do Pavão e escutei Marat, Danton e Robespierre. E na Convenção que, logo em Janeiro, votou a morte do rei “Quem via a assembleia deixava de pensar na sala. Quem via o drama deixava de pensar no teatro. Nada de mais disforme e de mais sublime. Um monte de heróis, um rebanho de cobardes. Feras sobre uma montanha, répteis num pântano. Ali formigavam, acotovelavam-se, ameaçavam-se e viviam todos esses combatentes que hoje são fantasmas.” E já conheci o impiedoso marquês de Lantenac, o magnânimo Gauvin e o implacável Cimourdain e muitas outras personagens latejantes de vida saídas de uma pena incandescente de puro génio e fervilhante imaginação.

Por isto não estou cá. Tirei apenas uns minutos para rabiscar um retrato do velho mestre. Fui.

Se me procurarem digo como o abade Sieyés ao seu criado: ”Si M. de Robespierre vient, vous lui direz que je n’y suis pas. Estou em Noventa e três.

 

domingo, 26 de julho de 2020

O império camóne contra-ataca


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É assim a vida - das pessoas e dos impérios. O fim é sempre triste, mas por vezes é também patético. Há os que se acabam brevemente, com a dignidade possível, e outros que se afundam numa lenta e prolongada agonia eivada de delírios tão patuscos como ridículos. Neste caso (tanto nas pessoas como nos impérios) é quando a decadência se revela mais constrangedora. Em geral, quanto maior a consciência da sua própria relevância - ou seja, quanto maior a presunção - mais a ressaca é delirante e embaraçosa no estertor. A tragédia culmina em ópera-bufa, em intermináveis e penosos episódios de telenovela. Parece-me ser este o caso do império americano.

Depois de fazer a américa grande ótravez, os camónes preparam-se agora para fazer o mundo livre ótravez. Mike Pompeo é o paladino desta nova cruzada. Já abriu as hostilidades. 
Desta vez é contra os chinas. Sim, os gajos que inventaram a pólvora; e o papel. A coisa promete.
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segunda-feira, 29 de junho de 2020

A Figueira do É primo e o turismo da Joana


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Na minha aldeia
não há ódios, mas estimas
tem-se amor pela vida alheia
todos são primos e primas

Silva Tavares

Há quase um ano publiquei aqui um texto no qual, a propósito do infeliz estado de indecorosa bizarria em que se encontra o Forte de Stº Catarina, exprimi algumas perplexidades em relação ao peculiar apreço pelo património que nutrem as forças vivas figueirinhas. Como parece que só eu reparo em certas merdas (ou, pelo menos, só eu o escrevo, tornando públicas as minhas perplexidades) não estranhei que não fossem partilhadas por mais ninguém, nem na imprensa local nem nas redes sociais. Se mais ninguém se indigna, é porque estará tudo bem. Eu é que devo ser demasiado hiper-sensível à fealdade e à estupidez.
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Quase um ano depois, porém, tudo indica que essa perplexidade não é apenas minha - chegou finalmente à assembleia municipal, pela boca da deputada Maria Isabel Sousa, do PSD.
Pelos vistos a deputada também partilha a minha estranheza perante essa espécie de inimputabilidade vitalícia de que goza o indescritível Tennis Club da Figueira da Foz. Arrendatário do terreno anexo ao forte de Stº Catarina desde 1930, este imarcescível club particular comporta-se na realidade como o proprietário, um proprietário abusivo, que faz obras (sempre de utilidade discutível e invariavelmente de gosto duvidoso) na casa do vizinho, um monumento nacional. E faz isto diante de todos, a toda a hora, sem licença mas com autorização e impunidade, desde os mesmos anos trinta do século passado.
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Mas talvez tudo isto se explique porque este inenarrável club, de cunho muito mais recreativo do que propriamente competitivo, é um club selecto, mui selecto – exclusivo - de boas famílias, enfim as melhores, da classe dirigente local. E como entre primos e primas o privilégio do mando é hereditário e natural (como a diabetes, as pratas e o mau-feitio) a presidenta do club é Joana Aguiar de Carvalho, filha do antigo presidente da Câmara com o mesmo apelido.
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E como na Figueira não há ódios mas estimas, se o pai foi agraciado com um busto à porta do município - depois de ter entregue a cidade numa bandeja à cupidez dos patos bravos da construção civil - a filha também.
Também foi agraciada - com um lugar no Conselho Municipal de Turismo, em representação da Assembleia Municipal, da qual nem sequer faz parte. Presumo que os serviços prestados pelo club a que preside não hão de ter sido estranhos a tão notória distinção. Assim como o facto, não despiciendo, de ter sido administradora desse ícone da administração pública figueirinhas que foi a Figueira-Grande-Turismo.
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Na Figueira, a minha aldeia neste país paroquial e imemorial, quem realmente manda premeia sempre quem realmente se distingue, e mainada. No mais, tem-se amor pla vida alheia. E todos são primos e primas - ou tios e tias - ou padrinhos e afilhados. E fica sempre tudo bem.
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quarta-feira, 17 de junho de 2020

Charge continuada


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Como já referi num ou outro post algures neste blogue, os fascistas não gostam que lhes chamem fascistas.
O Brasil é um caso ilustrado disso mesmo.
O caricaturista Renato Aroeira está a ser alvo de uma acção judicial por ter assinado um desenho que terá irritado o presidente da junta local, o tal de Bolsonaro. O contexto está explicado aqui. Tudo indica que a coisa se baseia numa lei de Segurança Nacional aprovada pela ditadura militar e estranhamente nunca revogada num país que se rege por uma constituição democrática aprovada em 1988 que consagra o direito à liberdade de expressão.
Mas Aroeira não é caso único. Outros cartunistas brasileiros estão neste momento a ser alvos de semelhantes investidas por outros casos. A ideia, bastante óbvia, é silenciar toda a oposição e até o riso, que é o que sobra aos pobres quando não há mais nada.
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A verdade é que se queriam silenciar Aroeira, falharam em toda a linha. Acontece que outro cartunista, Duke, publicou no twítter uma releitura da charge de Aroeira e instou todos os seus colegas do Brasil a fazerem o mesmo no que ele chamou “charge continuada”, em alusão ao título do desenho de Aroeira, e que iniciou um belo movimento internacional de caricaturistas em apoio a Aroeira e contra os desvarios do fanatismo e da estupidez em geral. O desenho acima é o meu contributo #somostodosaroeira.