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terça-feira, 23 de agosto de 2016

O esplendor de Portugal

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Se a fealdade, a estupidez e a velhacaria existem em Portugal, o Correio da Manhã é a impressão indelével desse espírito, a sua materialização em letra de forma, o seu porta-voz e expressão visual em formato tablóide. Uma verdadeira instituição, portanto.
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Esta merda vende-se como pãozinhos quentes. É o jornal mais vendido e presumo que seja também o mais lido. Ou seja, é isto que lê a maior parte dos portugueses alfabetizados. Mas não pensem que os analfabetos são poupados: a COFINA já providenciou para eles um canal de notícias na televisão. Nem eles se poupam: também é o mais visto.
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As suas manchetes alarves são diárias, mas esta, particularmente aleivosa e boçal, inspirou a alguém uma alternativa que eu, modestamente, me limitei a ilustrar neste postal. Mais um da série “jornalismo de merda”.

Bem sei que o riso não lhes modera os costumes. E avacalhar isto é tarefa quase impossível. Mas desopila o fígado.
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sexta-feira, 19 de agosto de 2016

o triunfo da bizarria

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Uma das conquistas do capitalismo é o pobre de direita. Mas o colonialismo também tem os seus triunfos, ainda que póstumos. E também em figura de gente, como é o caso, notório e pungente, do deputado Hélder AmaralA vingança serve-se fria. E humor involuntário é quando as piadas se fazem sozinhas.
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Pois bem, o deputado português foi a Angola representar garbosamente o CDS no congresso do MPLA. Este partido, de um anti-colonialismo e anti-capitalismo hoje póstumos, prepara-se para - com o inefável deputado do CDS por Viseu como testemunha - consagrar em congresso (decerto por maioria e aclamação) que, além do pobre-de-direita, Angola também é uma conquista do capitalismo (ou da capitalização do colonialismo, nem sei bem) naquela parte do continente africano.
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O PCP, que dizem que também lá vai - enfim assistir àquilo tudo - é que parece que não pertence a esta estória (deve ser o elemento surrealista). O que prova que o surrealismo também está bem - e recomenda-se: acaba de, também ele, meter uma lança em África
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quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Gonçalo Ribeiro Telles no país onde o absurdo faz sentido

 As árvores não embelezam apenas a cidade. 
Constituem o seu órgão vital. 
Uma cidade sem árvores nem jardins não passa de uma necrópole
Gonçalo Ribeiro Telles
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Portugal é o país europeu com mais “área ardida”. Somos os campeões europeus da terra queimada. Isto não é, receio, mais uma táctica defensiva que nos há-de levar à vitória. Trata-se, pelo contrário, do efeito visívelmente desastroso de uma opção idiota (este género de opções nunca dão resultados brilhantes) - a política do eucalipto:"desde uma campanha de 1930, que visava arborizar o país com pinheiros e eucaliptos para aumentar o Produto Interno Bruto, que a mata tradicional portuguesa começou a ser prejudicada", diz Gonçalo Ribeiro Telles.
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Este senhor também acha que não pode haver “exploração do solo sem desenvolvimento rural”. Eu também. Só que para isso seria necessário uma verdadeira, que digo eu, revolução. Ou pelos menos sei lá, uma autêntica reforma agrária. Isto sou eu a dizer, claro.
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A verdade porém é que a Portugal nunca faltaram homens bons e sábios, como Gonçalo Ribeiro Telles. O problema é que num país povoado por uma maioria esmagadora de idiotas eles são vistos, e tratados, como pobres lunáticos.
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"Tanto território ardido não faz sentido num país que tem um Estado", diz ele. Eu também acho. A não ser que esse estado também seja governado por cretinos ou por criminosos; ou por criminosos cretinos. Aí sim, bate tudo certo, a bota com a perdigota.
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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A bela e os cafagestes

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Miguel Albuquerque, o “governador” da região autónoma da Madeira parece a antítese do seu antecessor. Ao contrário do estilo de taberneiro colérico de Alberto João Jardim, o de Albuquerque parece quase o de um gentil-homem. Há ali contudo  - na pose estudada, na voz pausada e no olho claro e obscuro - um certo ar blasé de galã decadente, de telenovela, que nunca me convenceu.
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A situação está complicada, mas não é catrastrófica” dizia ele, trocando as mãos pelos pés, enquanto afagava a melena e a Madeira ardia. Hoje, a sua bela capital já não cheira ao funcho que encantou os descobridores. Agora cheira a esturro.
Ora a situação é, de facto, catastrófica. Mas não é nada complicada.
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A verdade é que as coisas só atingem as dimensões que conhecemos porque as pessoas escolhem para governantes sujeitos com os predicados do senhor Albuquerque. No fim, têm o que merecem - acontece-lhes o mesmo que à loura nas telenovelas: acabam sempre nas mãos do canastrão, o cafageste.
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domingo, 7 de agosto de 2016

Magalhães e os bons costumes

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Nuno Magalhães é deputado. Do CDS.
Magalhães acha que o convite da Galp ao secretário de estado das Finanças foi legítimo. E que ilegítimo foi aquele aceitar.
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Se bem entendi, para Magalhães a corrupção activa é bem, é cool; só a passiva é condenável. Ou seja, aliciar (corromper, subornar) é fino, quiçá até recomendável; ser aliciado é mau, vil, criticável.

Tenho a certeza de que para este magalhão (e para o inflexível código moral que ele defende) o problema da pedofilia é a existência dos fedelhos. E que, para ele, se não existissem mulheres não haveria violência conjugal; nem racismo, se não houvesse pretos, e ciganos e assim. E o nazismo e a solução final foi tudo culpa dos judeus, e dos comunas, claro. Para Magalhães e os seus, as raposas são vegetarianas. O problema é a existência de galinhas. 

Para ele, e os que partilham os mesmos pruridos de probidade, a prostituição é imoral e por isso condenável (tem que ver com sexo). Já o proxenetismo (a chulice) é empreendedorismo (tem que ver com dinheiro e comércio livre) e por isso recomendável .  Não sei se estão a ver.
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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O inefável ataíde das neves

Na Figueira da Foz é como se a selecção natural fosse regulada pela Lei de Murphy. É assim em tudo. E até na política. O presidente da câmara municipal, por exemplo, é sempre pior do que o anterior. Tem sido sempre assim. Pelo menos desde que eles são eleitos. De mauzinhos a piores. Fatal como o destino.

O actual é o campeão absoluto. Atingiu o topo na selecção natural dos da sua espécie. É tão bom mas tãobomtãobom (ou tão mau) que se prepara para suceder a si mesmo.

A propósito de mais esta cegada, o meu amigo Agostinho mantém que o homem confunde interesse público com interesse do público. A verdade porém é que se o patrocínio público da música pimba insulta a inteligência, o bom gosto e o bom senso do cidadão mais cordato - mais não é, no fundo, do que fazem autarcas de todo o país. Nem sequer é algo de novo na prática política dos executivos liderados por João Ataíde das Neves.

O que se torna, quanto a mim, verdadeiramente repugnante (que revolta o estômago) é o argumento que o homem achou para justificar a isenção de taxas camarárias e o pagamento de custos a uma empresa privada: diz que o “interesse público” do espectáculo de Anselmo Ralph é possível segundo a leitura que fez do regulamento municipal.
Ou seja, para um cidadão comum as leis são para aplicar (se são justas) ou para revogar (se são iníquas) mas para o ex-juiz João Ataíde das Neves são para interpretar, como as partituras. Suponho que isto também deve ser um indício bastante eloquente do estado dodecafónico da justiça em Portugal.

Foda-se, não há pachorra. Eu já aqui uma vez o mandei para o caralho (pedi-lhe educadamente para se ir foder).

Esculhambar alguém como o sr. presidente é, como cantava o grande Bob Marley em I shot the Sheriff, legítima defesa. Além, claro, de um imperativo de inteligência.

sábado, 30 de julho de 2016

Cunha Rocha e o fim de uma época

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Artistas – Todos uns estouvados. 
Ganham rios de dinheiro, mas atiram-no pela janela fora. 
São, muitas vezes, convidados para jantar fora. 
O que eles fazem não pode dizer-se que seja  trabalhar.
 Gustave Flaubert, in Dicionário das ideias feitas
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O desaparecimento do pintor António da Cunha Rocha, aos oitenta e quatro anos, é um sinal do tempo. Um toque a finados de uma época que se desvanece. E que não volta mais. Um fenómeno (ao qual já me referi aqui) que permitiu a um pequeno núcleo de talentosos artistas, locais ou radicados, viver honesta, decente e exclusivamente do seu trabalho numa cidade de província.
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O António foi um dos que descobriu mais cedo as preferências de uma clientela muito exclusiva. E servia-lhes sempre o prato cheio, em doses generosas. 
Nas suas aguarelas o céu é sempre azul, as casas sempre brancas e as árvores sempre verdes; o céu está sempre por cima das casas, as árvores sempre por detrás destas e as águas sempre transparentes por baixo dos barcos. Não há sobressaltos nem fantasias na arte de Cunha Rocha. 
A sua arte parece, à primeira vista, muito menos ousada (do que os arroubos geometrizantes do sintetismo hierático de Zé Penicheiro ou do que a figuração tumultuosa e expressionista de Mário Silva, por exemplo) e muito mais complacente com o gosto do pitoresco dessa burguesia que preza tudo, reconhecível, no seu lugar.
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Cunha Rocha não o fazia contudo por oportunismo ou cinismo calculista, não. Ele não pintava o mundo como ele é, ou como o via, mas como gostava que fosse. Nas suas paisagens não há céus cinzentos nem águas turvas ou revoltas, nem barcos de recreio, nem automóveis, nem plásticos, nem casas roxas, nem cabos eléctricos, nem eucaliptos ou cepos, nem sequer pessoas. António detestava o feio (não era uma simples implicância, era ódio mesmo, frio e obstinado). A Beleza era o seu ideal. Passou toda a vida a pintar a Arcádia; e a mostrá-la às pessoas. A ordem era o seu método. “a aguarela é fácil” - dizia ele, na sua voz funda de barítono tonitruante, entre gargalhadas - “é muita água e pouca rela”. E sempre sem tons dissonantes, nem cores sujas, nem gestos imprecisos ou pinceladas fortuitas. Não há, aliás, acasos, acidentes, em toda a sua obra. É tudo premeditado, como um crime perfeito. Como dizia Degas que toda a arte devia ser.
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Confesso, no entanto, que a sua capacidade de agradar à clientela endinheirada que lhe admirava a perícia na reprodução de imagens que podia facilmente identificar me enfurecia (o meu conceito de arte é outro). Mas tenho hoje que reconhecer que talvez esses burgueses não fossem afinal tão beócios e obtusos como eu pensava e que adquirir-lhe uma aguarela talvez fosse uma forma de levarem para casa um registo - ainda que diáfano porque pintado com simples água lisa, mas por isso mesmo precioso e indelével - da sua própria consciência de uma certa harmonia perdida, a nostalgia da Arcádia.
E é isso que não existe mais. Os burgueses endinheirados de hoje já não compram arte - agora compram gadgets e aplicações, automóveis de prestigio e telemóveis de aparato; os pobres vandalizam a arte pública ou roubam os bronzes dos bustos para refundir:  Renderam-se todos à técnica, dando razão a Flaubert que, no seu Dicionário das ideias feitas do nosso tempo registou: “Arte – leva ao hospital. Para que serve se pode ser substituída pela mecânica, que faz melhor e mais depressa?
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Cunha Rocha viveu muito e intensamente. Sobreviveu a moléstias que costumam ser funestas e a tragédias demolidoras (como se resiste à morte-matada de um filho?) e nunca permitiu, entre litros e litros de café e quilos e quilos de tabaco, que nada contaminasse a sua arte, o seu ideal.
Além disso  era de uma generosidade genuína e desconcertante. Admirador do meu talento (só os verdadeiramente grandes podem ver alguma grandeza num simples pentelho), várias vezes mo reiterou pessoalmente; contudo, porque era conhecedor do meu parco êxito, digamos assim, comercial achava-o mal-empregado. Uma vez, numa inauguração, chamou minha mulher Isabel à parte e tentou convencê-la a persuadir-me a mudar de assunto, de temas, de motivos; ainda o ouvi (o António não sabia falar baixo) dizer-lhe “com o talento que tem, ele pode fazer qualquer merda que estes gajos gostem e queiram levar para casa” (”estes gajos” eram os seus próprios clientes).

Está bem, António. Ela nunca tentou, porque sabe o que a casa gasta. Mas eu nunca me esqueci. 
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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Cunha Rocha

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Ontem fui ao funeral de Cunha Rocha.
O António não era um gajo qualquer. A sua morte veio na primeira página do Diário de Coimbra. A Figueira, onde residiu mais de quarenta anos, também não deixou escapar a oportunidade – “honrou muitas vezes as terras e gentes figueirenses com o seu olhar artístico vertido nas telas", salientou a autarquia local, em comunicado.
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É verdade, o António foi um pintor. Dos bons, dos grandes. Mas de aguarelas. E não eram aguarelas quaisquer. Um artista. E um homem bom, dos melhores.

Tal como a propósito de José Penicheiro, amanhã (ou depois, conforme mo ditar a consciência e a inspiração) editarei aqui a minha opinião, modesta ça va de soi, sobre a sua figura e a sua obra. Espero no entanto que, como é óbvio e de costume, vá um pouco para lá da ditirâmbica palermice circunstancial, habitual noutros meios.”
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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Meu Brasil

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O Brasil não tem povo, tem público
 Lima Barreto
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Visto da minha infância, em Angola, o Brasil parecia-me uma espécie de irmão mais velho. Emancipado. Insolente. Tomava liberdades e abria as vogais  quando nós, cheios de pruridos de boas-maneiras, ainda as fechámos. “Quando li Jubiabá, me cri António Balduíno...”, cantava então Mário António, um dos nossos poetas mais dotados. Era o Brasil de Jorge Amado, de Graciliano, de Lins do Rego, de Érico Veríssimo.
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Depois, descobri Guimarães Rosa e os poetas e os modernistas e João Cabral; e Canudos e Glauber Rocha e Zumbi dos Palmares e Hermeto Pascoal e Garrincha e Castro Alves e Tom Jobim e o Boca do Inferno e Pixinguinha e Portinari e Machado de Assis e Chico Buarque e as xilogravuras do nordeste e o Aleijadinho e Mário de Andrade e Villa-Lobos e Niemayer e Arnaldo Antunes e Lima Barreto e Millôr Fernandes e Hilda Hilst e Laerte e Burle-Marx e Ruben Fonseca e Tom Zé e o Bispo do Rosário.
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Mas o Brasil que venho descobrindo recentemente não tem nada que ver com este (é menos notório visto de fora), e no entanto, existe e é tão real e verdadeiro.Trata-se de um outro lado do Brasil. Receio mesmo que não seja o seu lado B.
É o Brasil de Jair Bolsonaro - o do preconceito, da prepotência brutal e da violência instituída (social, racial, sexual) do previlégio branquela. Está lá desde a descoberta. E persiste. Até mesmo, por reflexo, em Jorge Amado (conheço poucos livros tão violentos como Teresa Batista, por exemplo). É omnipresente. Está em tudo, venéreo e insidioso, até nos mais belos milagres do outro lado do Brasil: do sonho do Quilombo dos Palmares ao calvário do Aleijadinho e do delírio de Canudos ao pesadelo do Bispo do Rosário. 
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Quanto ao retrato propriamente dito do imbecil que no Senado declamou ódio eterno à presidente do seu país e igual afeição pelo seu torcionário, resolvi emprestar-lhe a pose e as botas de cano alto do Capitão Justiniano Duarte da Rosa, o Capitão Justo do romance de Jorge Amado. Creio que lhe servem na perfeição. Parece-me o mesmo personagem-tipo, ou tipo de personagem, se é que me faço entender.
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