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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

é triste ser-se condecorado por cretinos.

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O fado tem “um potencial económico de elevada relevância” - disse o cavaco, enquanto condecorava meia dúzia de fadistas e um guitarrista.
Entre estes estava, para minha perplexidade, o jovem e talentoso Ricardo Ribeiro. Tinha boa impressão dele, desde que o vi no ano passado em Cem Soldos (Tomar), num concerto do festival “Outros Sons”.

Acaba de descer uns quantos (bastantes, vá) graus na minha consideração. 
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domingo, 25 de janeiro de 2015

Alexis Tsipras

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Tudo leva a crer que pelo menos os gregos querem mesmo outra coisa. Mudar de vida.
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O meu receio todavia é que o “banho de realidade” a que vai ser submetido, desperte no senhor Tsipras a brusca consciência de que apenas “é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”. E mais do mesmo será sempre pior. Oh, muito pior.
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A verdade porém é que um partido desquerda que, à medida que se aproxima do poder, se vai tornando mais “moderado” e “responsável” não augura nada de bom.
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Mas pode ser que me engane. Oxalá (por vezes, de fraca moita sai um bom coelho). Mas só acredito depois de ver. 
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domingo, 11 de janeiro de 2015

“mort aux vaches”, ou o país dos "carlitos" e o riso de Voltaire

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A actual ministra da cultura do país de André Malraux confessou recentemente que não lê um livro há dois anos. Também recentemente, uma secretária d’estado da saúde do mesmo país aconselhou os sem-abrigo “a não saírem de casa”, por causa da vaga de frio que assola a velha Europa.
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É desta matéria, e de outra de igual jaez, que se faz o assunto quotidiano do jornal satírico “Charlie Hebdo” (mas também do seu irmão-gémeo desavindo “Siné-Mensuel” e do semanário “Le Canard Enchainé”. Estas três publicações devem ser aliás um fenómeno único no mundo: todas vivem voluntariamente sem publicidade nem qualquer prolongamento na net, exclusivamente da sua venda nas bancas.
O seu humor político, de agressão e sem concessões à psicofoda do politicamente correcto, é o riso de Voltaire: a expressão escrita e desenhada do livre pensamento contra a estupidez, o conformismo, a ignorância, o preconceito e o fanatismo. As suas armas são o humor livre, o riso e a mofa, a caricatura, o grotesco, até a obscenidade e a blasfémia. O objectivo não é matá-los. É moê-los. Pelo escárnio, confrontando-os com a sua verdadeira dimensão - o ridículo.
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A conclusão a que isto permite chegar é que existe em França, embora residual e minoritário, um mercado para o riso – ou seja, existe um público que se ri do patrão, da padralhada, da alta-finança, da baixa-política, da justiça, da religião, de deus e dos profetas. E não o fazem à socapa, como os portuguesinhos valentes que agora também são charlie. Não, fazem-no em público. Comprando os jornais, esses papéis pintados com tinta, divertindo-se à grande e à francesa e assim fazendo viver, e morrer de riso, os que os assinam. Mesmo não sendo fácil, sob a ameaça constante de infindáveis processos judiciais e, agora, até de lunáticos assassinos.
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Em Portugal por exemplo, onde se descobriu de repente um generalizado amor pla liberdade de expressão, o único caso comparável ao destes bravos humoristas gráficos é o de José Vilhena, silenciado há muito - levado várias vezes à falência - pelos pruridos de respeitinho e  por convenientes processos de difamação.
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A verdade é que em Portugal ninguém se ri dos milagres de Fátima, nem dos aventalinhos da maçonaria, nem dos látegos da opus dei; nem dos consórsios de advogados; nem dos pareceres dos catedráticos de coimbrameudeus; nem sequer do empreendedorismo, da caridadezinha, das imagens de marca e da cultura gurmê; nem do “universo espíritosanto” do doutoricardosalgado e do seu sobrinho angolano ou dos outros escroques condecorados plo presidente; nem do presidente.
Os tugas, esses carlitos parvenus, acham graça é aos anúncios. O humor em Portugal está todo na publicidade.
É por isso que não existe nenhum jornal satírico. Par contre, existem três diários de futebol e, num país que não produz um prego, outros tantos “de negócios”.
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É também por isso que ninguém se ri de um estafermo imbecil como Vera Jardim.  No país dos charlies de geração espontânea uma abécula que já foi ministro da justiça (é autor da lei da liberdade religiosa) acha que o seu amigo Sócrates não tem que cumprir as leis penais que ele próprio e o partido de ambos aprovaram.
E nem sequer é escarnecido, como merece. Pelo contrário, no país do respeitinho, o desinfeliz é levado a sério. Passeia-se incólume, como um pavão ou um príncipe, plos jornais que dizem que são charlie
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Eu sou Charlie.

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Não sei se o vil atentado contra o jornal satírico Charlie-Hebdo” já foi revindicado. Em todo o caso, a inteligência, o livre pensamento, a liberdade de expressão, a civilização, já estão a perder. De cabazada. O jornalista Bernard Maris e os cartunistas Charb, Tignous, Wolinsky e Cabu, estão entre as doze vítimas desta inacreditável carnificina.
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Não faço ideia se foi iniciativa individual de três imbecis ou conspiração organizada por algum sector ligado a qualquer das palermices mais ou menos integristas habitualmente ridicularizadas pelos bravos que agora pereceram.
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Apesar disso - embora a imprensa portuguesa não tenha nada a temer (não consta um único jornal satírico entre as suas suaves publicações) - nas redes sociais em Portugal já se clama contra o islão.
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Em todo o caso penso que hoje não deve ser cómodo ser-se um pacato muçulmano nas ruas de França.
Madame Le Pen já tem o seu Reichstag. Já deve estar a distribuir os archotes.
Deduzo que agora devem ser favas contadas.
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Tim Maia

Fiz uma dieta rigorosa.
Cortei álcool, gorduras e açúcar.
Em duas semanas perdi 14 dias.
Tim Maia
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Apesar de completamente desconhecido em Portugal, Tim Maia era uma das melhores vozes negras do Brasil. Negras sim, caretinhas. Há mesmo música negra no Brasil; e da boa. Tal como racismo; e do feio; muito. A harmonia racial brasileira, o mesticismo cultural, só existe nos devaneios tropicalistas de Gilberto Freyre e aficcionados.
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Para ele, “génio complexo e contraditório”, “não tem esse negócio de mulato. Para lá de branco é preto mesmo”. Senhor de uma voz profunda e um carisma à mesma altura, Tim, “preto, gordo e cafageste” como se auto-definia, também era dono de um sentido de humor desconcertante, tão devastador como o seu temperamento. “Este país não pode dar certo. Aqui puta goza, cafetão tem ciúme e pobre é de direita”, dizia ele do Brasil. 
Com um histórico de conflitos com as gravadoras, foi o primeiro artista brasileiro a criar um selo próprio, nos anos setenta. Entretanto algo mudou no seu país (enfim, os pobres já não são todos de direita) mas o sistema nunca lhe perdoou.
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A rede Globo, que ele processou várias vezes por direitos autorais e que o boicotou durante anos, editou agora um telefilme biográfico “de homenagem” que, no entender da família e dos amigos, “é um caso de polícia”. A emissora, que apoiou a ditadura e continua o mais influente difusor da cultura do preconceito no Brasil, deleita-se aí - além de alterar datas e factos desfigurando tudo - a “branquear”(!) o seu arqui-inimigo de estimação - o canastrão Roberto Carlos. Morto, a emissora faz o que ele nunca permitiu: apropriou-se de Tim Maia. Roberto Carlos é apenas mais um detalhe feio nesse vale tudo”.
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A estupidez não esquece os que a afrontam; e nunca lhes perdoa. Nem depois de mortos.
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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O ano novo

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“a maior desilusão do ano foi para mim a descoberta ou melhor a consciência que a maioria das pessoas que há uns anos ainda protestavam nas ruas neste momento só esperam cinicamente que este governo acabe. Para mim, o conceito do ano foi o Não-Sebastianismo, o oposto da crença num salvador, apenas a esperança que os idiotas que nos governam um dia hão-de acabar por se ir embora.”
Mário Moura, aqui.
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Quando toda a gente se apraz em “balanços do ano” eu não posso, infelizmente, deixar de concordar com o autor do blogue “The Ressabiator”(com link na barra lateral).
A verdade é que a idiotia abúlica e o conformismo cínico generalizadamente instalados não prometem – na vida como nas artes - nada de bom, e de novo, para o ano que agora começa.
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No que me diz respeito porém, o facto de nunca ter permitido que qualquer marchand estipulasse preço ao meu trabalho fez de mim, receio, aquilo a que chamam um artista marginal - colocou-me fora do “mercado” – posição bastante desconfortável que, se limita em muito uma mais ampla difusão do meu trabalho, ainda assim me vai permitindo a liberdade de que careço para a expressão da minha sensibilidade.
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Por isso mesmo este blogue vai, humildemente como de costume, continuar usando sem parcimónia nem eufemismos do escárnio e da bela língua portuguesa contra todas as formas da estupidez (como o acordo ortográfico, por exemplo) e do desenho livre e sem concessões contra o conformismo das ideias feitas e todas as suas muitas outras máscaras ou facetas.
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

um postal de natal


O natal deprime-me.
Deprime-me o convívio convencionado, o frio, a humidade e as filhozes. Mas também o ambiente geral de hospital em festa, os muitos votos e os preços altos da fruta seca. Ou os peditórios, a condescendência, os jantares de caridade e o clima venéreo propício ao alambazar calórico e ao consumismo frígido.

O ar das nossas cidades, com a sua iluminação colorida de electricidade chinesa - como las vegas patéticas no deserto cinzento de dezembro - também é triste. Assim como os presépios da cavaca, em exposição itinerante.
Tudo nesta quadra me deixa naquele estado a que se chama melancolia
Não me apetece desenhar nem escrever a ponta de um corno.
Por isso, deixo-vos com um “retrato” que fiz do poeta António Gedeão e com um dos seus poemas. É o último do ano.
Até ao próximo.
Ah, e Boas Festas.

Poema do alegre desespero
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Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?
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sábado, 13 de dezembro de 2014

Da fraternidade.

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Um pintor é um homem demasiado absorvido
pelo que vêem os seus olhos
para poder ter o domínio do resto da sua vida
Vincent Van Gogh
(carta nº 620, ao seu irmão Theo)
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Conheço Joaquim Monteiro há mais de trinta anos. De um estreito convívio nas noites longas de uma certa boémia figueirense dos anos oitenta. 
Mais velho do que eu, isso não impediu todavia que fosse crescendo entre nós uma mútua consideração que, se que nunca chegou à intimidade (devido talvez ao seu temperamento, de uma discrição que lhe vem, suponho, de uma reserva cautelosa, muito conveniente nos anos da agitação clandestina) transformou-se numa amizade que resiste ao tempo.
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Velho comunista e resistente, o Monteiro, como é conhecido, é um guardião da memória, bibliófilo amador, coleccionador e arquivista compulsivo de velhos documentos, fotografias, jornais e livros antigos. Grande conversador e contador de estórias, da sua memória prodigiosa é sempre capaz de sacar um episódio exemplar ou pícaro para apimentar uma boa gargalhada.
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Com os anos e as vicissitudes da vida fomos, no entanto, deixando de nos ver com a frequência de antanho. Contudo, quando isso acontece, o Monteiro surpreende-me sempre com uma estória rocambolesca ou com uma inesperada delicadeza.
Há dias encontrámo-nos na Figueira por acaso e diz-me de pronto: “Ainda bem que te vejo que tenho ali no carro há mais de um ano uma coisa para ti”. Conhecedor do meu gosto por velhos segredos pouco revisitados presenteou-me com esta pequena preciosidade: uma edição fac- símile do primeiro tratado de pintura impresso em português por um hoje esquecido frade do século dezassete – 

 (do seu “Prólogo“ e do “Louvor da Pintura” nenhuma novidade: trata-se da versão autorizada pela santa inquisição do ideal programático da contra-Reforma para as artes, em voga no Portugal filipino de então. Nem da sua “simmetria” ou da “Perspectiva”. Verdadeiramente interessante, e muito instrutivo e útil para mim, são as suas preciosas receitas para o fabrico de tintas, de vernizes, de secantes, de betumes, de mordentes, e para a preparação de suportes; de “como se mezclam e assombrão as cores” “e os realços”, e o “modo de fazer cambiantes”, ou o “modo fácil para copiar hua cidade, ou qualquer cousa”. etc.)  Uma maravilha..

Irmão mais velho do meu amigo Filinto Viana, tal como Theo Van Gogh, Monteiro conhece bem o handycap de que ambos padecemos; e parece transferir também para mim o desvelo generoso e fraterno (quase paternal) que dedica ao seu irmão pintor.
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Decidi retribuir-lhe com um retrato. Um singelo desenho, que fiz no mesmo dia. Não está perfeito, nem sequer muito exacto, mas ele também sabe que, como referia o grande Matisse, “l’éxactitude n’est pas la verité”.
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