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quarta-feira, 8 de abril de 2020

A “Felgueiras”


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Pior do que o confinamento é a prescrição informativa a que nos sujeitam sem opção.
O jornalismo de merda ocupa agora todo o espaço informativo. E, na RTP tem mesmo as suas vedetas, pagas como jogadores de bola, como José Rodrigues dos Santos e Carlos Daniel, por exemplo - e Sandra Felgueiras.
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Com uma obsessiva fixação na justiça, Sandra é (como refere o seu verbete na wikipédia in inglish) uma apresentadeira de TV que ficou conhecida por entrevistar o casal McCaan. Embora tenha pai conhecido, Sandra usa, garbosa e exclusivamente, o apelido materno - como um brasão heráldico ou, talvez, como um programa de acção. O seu jornalismo justiceiro tem, às Sextas-Feiras à noite, um palco privilegiado, um pugrama só dela, de justiça na hora onde, em plena impunidade, faz os seus julgamentos sem apelo.
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A “Felgueiras” representa, com fulgor e sangue na guelra, aquela espécie de auto-proclamado jornalismo d’investigação dirigida àquele público que nunca lê e ainda assim vive descansadamente fascinado com a sua própria ignorância; um público que confunde o “erotismo com ginástica”, o sentimentalismo com a poesia e o olho do cu com a feira de Março; também não distingue, nem suaves nuances, entre a  mais alarve facúndia e o verdadeiro conhecimento – muito menos entre a impudência, o simples descaramento, e a autêntica coragem.
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Ao contrário dos advogados, que muito judiciosamente só fazem perguntas para as quais já sabem as respostas, este jornalismo inquisitorial só faz as perguntas para as quais “acha” que sabe as respostas. Para este jornalismo de inquisição uma entrevista é sempre um interrogatório e uma notícia é sempre uma sentença agravada.
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Se isto se passasse na CMTV eu não estranhava, é o que a casa gasta. O que me parece esdrúxulo é que se passa num canal público.
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quinta-feira, 2 de abril de 2020

quarta-feira, 11 de março de 2020

O banqueiro do polvo

O crime compensa. O responsável de uma das maiores burlas de sempre em Portugal foi condenado em 2017 por burla, abuso de confiança e fraude fiscal (entre outros crimes). 
O banqueiro do polvo (e do Cavaco e afins) acaba agora mesmo de  esticar o pernil, sossegada e tranquilamente invicto - isto é, sem cumprir qualquer pena. 
Parabéns à famíglia. E aos amigos, claro.
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quarta-feira, 4 de março de 2020

então é assim:


Pla primeira vez desde que sou usuário, o inefável feissebuque impediu-me a divulgação de um post deste blogue. Trata-se do “boneco” de Ernesto Cardenal e de um pequeno poema por, supostamente, ter “conteúdo que outras pessoas no Face Book denunciaram como abusivo”.
E esta, hem? A verdade é que não sei que pense das maravilhas do logaritmo.
A propósito, o Face-Book acaba agorinha-mesmo de me impedir também a expressão desta minha perplexidade.
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terça-feira, 3 de março de 2020

Ernesto Cardenal (1925-2020)




Jamás son cinco letras imposibles (y un acento)
un vestido indecente para cualquier hora del día
un sonido para siempre inacabado.

Jamás verá jamás cumplir su sueño
(de durar eternamente)
Porque todo, absolutamente todo, tiene freno.
Nada existe sin su término.

Jamás se morirá también como cualquiera.


Ernesto Cardenal
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Apeller un chat un chat

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Vasco Gargalo está a ser, ao que sei, ameaçado de morte. 
E quem é Vasco Gargalo’, perguntais vós. 
-Vasco Gargalo é um cartoonista. Alguém que faz desenhos.
E que desenhos faz Vasco?, perguntais vós. 
-Pois faz desenhos satíricos. Vasco faz caricatura, crítica social, sátira política, uma coisa que ele pensava (e tiens, eu também) que era razoavelmente tolerada e até legal neste país. 
E que é uma caricatura?, perguntais vós também. 
-Pois uma caricatura é um desenho exagerado. Funciona assim (enfim, maisoumenos): quando um artista quer realçar, ou tornar mais evidente, um facto, uma situação ou um pormenor, exagera-o quanto quiser, por vezes até ao limite do credível ou mesmo do absurdo. A quantidade de exagero permitida nesta arte é completamente livre, o que faz dela uma arte particularmente divertida (para quem faz e para quem aprecia) e por isso mesmo é habitualmente associada à categoria de humor – o humor gráfico. 
O humor, para quem não saiba, é um artifício da inteligência que permite a um espírito sensível identificar o mal – apontá-lo, (diz-se apeller un chat un chat) e assim lidar com o medo sem pânico, enfim, com alguma dignidade. Faz pensar. Por isso se diz habitualmente que o humor relativiza ou que rir é o melhor remédio. É evidente que para isto é necessário um certo desprendimento e um distanciamento de si próprio inacessíveis aos imbecis, aos muito crentes e aos prosélitos.
Em geral, no caso do humor gráfico, quanto mais exagerado for o desenho mais certeiro (melhor identifica o mal) e mais divertido se torna.
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Mas então que raio de desenho desmesuradamente exagerado fez o Gargalo que desencadeou tanto ódio? 
-Pois bem fez este que, quanto a mim, é um desenho que nem sequer é uma caricatura. Trata-se de uma simples ilustração. Mas uma ilustração talvez tão literal que não faz rir ninguém - nem os palestinianos, porque é trágico; nem os israelitas, porque é verdade; nem mais ninguém porque é trágico e é verdade - mas faz pensar. E é isso que desperta o ódio e a intransigência do senhor embaixador de Israel e da “comunidade judaica”, que pregam o anátema, o isolamento, o despedimento e até a morte do valente Gargalo que, como o menino do conto de Andersen, se limitou a dizer o que está à vista de todos mas ninguém quer encarar.
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Aqui há poucas semanas um clube de futebol espanhol, o Rayo Vallecano, também foi severamente punido pelas instituições que gerem esse desporto por alegada “intolerância” da sua massa associativa.
E que fez a massa associativa do popular clube de Vallecas?, perguntais vós.  
-Pois bem, chamou gato a um gato ou os bois pelos nomes - limitou-se a, em uníssono e alta-voz, chamar fascista a um fascista - a um fascista não presumido mas publicamente assumido.
Vivemos tempos terríveis. Os fascistas não gostam que lhes chamemos fascistas. O que faz pensar e não deixa de ser cómico. 
Por isso deixo aqui a minha solidariedade ao Vasco Gargalo e dedico este desenho, talvez também muito mais literal do que caricatural (que já tinha editado aqui), ao senhor embaixador do estado de Israel e à melindrosa “comunidade judaica”.
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E não, eu também não sou anti-semita. Anti-semita é o estado de Israel que - todos os dias e à vista de todos - tenta aniquilar fisicamente, até à extinção, um povo semita, o da Palestina.
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Glenn Greenwald


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Tenho por hábito, depois de esmiuçados e ilustrados, editar os retratos mais emblemáticos dos agentes daquilo a que, à falta de algo mais explícito, tomei a liberdade de chamar jornalismo de merda – enfim, os casos mais evidentes de estupidez, ignorância e torpeza na manipulação daquilo que se chama opinião pública. Para melhor facilidade de consulta (petitápeti, este blogue vai-se tornando uma verdadeira enciclopédia) optei por os juntar todos sob uma etiqueta com o mesmíssimo nome - jornalismo de merda -sempre acessível aqui na barra lateral.
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Para não dizerem que só digo mal, o caso de hoje é diferente. Doutra pipa. Por ser um caso raro, senão único, optei por não lhe por sequer uma etiqueta (se mais tarde quiserem consultar, pesquisem por nome). Um caso à parte. Trata-se de um verdadeiro caso de jornalismo a sério. Daquele que vai ao fundo e só fala de factos - com provas e documentos.
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Trata-se do melhor que a América deu ao mundo. Um gajo sério, generoso, meticuloso, de um idealismo à antiga, à kapra (eu diria quase ingénuo, se também não fosse inteligente) e, claro, corajoso - mas não só, também valente - que estas coisas não se fazem sem tomates.
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Cidadão norte-americano, foi “aconselhado a não se ausentar do Brasil onde vive, sob risco de ser alvo do governo de seu próprio país, os Estados Unidos. Enquanto o nosso jornalismo de merda não se refere a este como o “regime" dos Estados Unidos, Glenn Greenwald e o seu The Intercept têm vindo a divulgar factos e provas documentadas que ilustram com cores vívidas a essência daquilo a que o nosso jornalismo de merda também teima em não chamar ao que, por hoje, também governa o Brasil.
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