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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Ideias com potencial - o fungagá da bicharada

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“Há características mais humanas num chimpanzé ou num cão do que numa pessoa em coma”
André Silva, PAN 

"O amor dos animais contém muito da desaprovação pelos seres humanos e é próprio dum melindroso estado de revolta que não encontrou a sua linguagem", dizia Agustina num dos seus sibilinos, prescientes, certeiros e lapidares aforismos.
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Aquilo a que todos os media, e até o Marcelo (!), embevecidos, deram graças por não ter chegado a Portugal, afinal chegou. Ou melhor, sempre cá esteve – apenas não tinha encontrado ainda a sua linguagem.
Esse larvar e melindroso estado de revolta, que alastra por toda a Europa e pelo mundo, achou em Portugal, no sentimentalismo do amor à bicharada, a linguagem de uma nova moral destituída de empatia pelos seus semelhantes. Uma moral sem culpa, mas de frémitos totalitários e ânsias censórias e proibicionistas.
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O homem-comum-que-não-lê, o desinformado convicto, o apolítico de nascença (ou por vocação), o pobre-de-direita, as misses a concurso, o público do correiodamanha e a plateia da crestina já têm um novo deus; e André Silva é o seu profeta.
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Eis por fim a res pública sem ideologia - só com (bons) sentimentos. De fácil adesão porque sem compromisso. O sonho húmido dos idiotas de todos os tempos; o delíquio da estupidificação; o ideal cumprido da maioria silenciosa - Abaixo a esquerda! Abaixo a direita! - Viva toda a bicharada!  
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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Agustina Bessa-Luís (1922-2019)

Acabarei como aquele que disse que pouco louvou na vida 
e se arrepende de não ter louvado ainda menos
Agustina
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sexta-feira, 26 de abril de 2019

O engraxócagadismo implacável


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entre os animais ferozes,
o de mais poderosa mordedura é o delator;
entre os animais domésticos, o adulador.
Diógenes
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José Cunha Carvão é o nome do presidente da Assembleia de Freguesia de Maiorca. Mas parece acabado de sair, fresco como uma alface, repolhuda e reluzente, das brumas da memória ainda frondosa de um Portugal da idade-média ou do estado-novo. Carvão é o “doutor” da terra (é professor de geografia no instituto D. João V) e, como tal, é muito considerado e reverenciado por, enfim (quase) todos os seus paisanos. Todas as aldeias deste Portugal imemorial têm um assim e não só nas novelas de Aquilino.
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Embora tenha sido eleito nas listas do PS (Partido Socialista) ou talvez por isso, José Carvão representa aquilo que de mais reaccionário persiste ainda e sempre no Portugal profundo. Cunha Carvão encarna, com airosa propriedade, aquele atávico temor de Deus, aquela devoção beata plas santas tradições populares e aquele respeitinho servil por tudo o que vem de cima que caracterizam toda uma casta de doutores-de-coimbra-meudeus que ainda presidem, em vilas e aldeias por todo o país, a assembleias de fregueses que ainda praticam, com o mesmo airoso e pertinaz sem preconceito, o analfabetismo mais irredutível.
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Por isto, na mais recente sessão da assembleia, em lugar de, como lhe compete, fazer cumprir uma proposta do eleito da CDU aprovada por maioria absoluta há três ou quatro assembleias atrás (adquirir um zingarelho para gravar as intervenções dos eleitos do povo) assim cuidando que as actas das sessões sejam transcritas com alguma fidelidade, de preferência sem erros de ortografia, José Carvão, em modo melífluo e embaraçado, de solícito e feliz engraxa-o-cágado decidiu propor, decerto a pedido de várias famílias, uma espécie de moção de desagravo, voto de louvor ou menção honrosa ou lá o que era, ao xelentíssimo senhor doutor João Ataíde das Neves que tanto fez pla freguesia e agora nos deixou para secretário d’estado.
Perante a ausência massiva de quase toda a bancada do PSD (o seu único representante presente, fleumático ou distraído, algo blasé, receio que levemente ensonado, não me pareceu particularmente entusiasmado) o eleito da CDU chutou para canto - sugerindo-lhe a moção por escrito, em assembleia a realizar.
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De modos que na próxima assembleia, os eleitos do povo de Maiorca terão certamente o privilégio de votar (e os paisanos de assistir) à leitura em alta-voz da prosa encomiástica (se for em verso será uma ode, só espero que não seja cantada) de José Cunha Carvão em louvor do xelentíssimo e diligente autarca que ofereceu a Maiorca a inauguração do restauro do senhor da Paciência (aprovado pelo seu antecessor); a concretização de um projecto “fechado” (sem discussão pública) de arranjo urbanístico do Largo da Feira Velha; nenhuma solução para o restauro e posterior utilização do palácio do conselheiro Lopes Branco e idem idem aspas aspas para o Paço - além do abate despropositado das carvalheiras do campo da bola e das excelsas podas nas árvores ornamentais, claro.
Decerto irá para os anais. Isto, como é óbvio, se entretanto já houver gravador para a sessão - e consequentemente, actas fidedignas do acontecimento.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

O genoma do gambuzino ou a fé na treta


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Ensinar não é transferir conhecimento mas criar as possibilidades de o produzir 

Paulo Freire
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Em Portugal, a prática das medicinas alternativas está legalizada desde 2003. Em 2013, a sua prática foi regulamentada. Há pessoas, como David Marçal, por exemplo, que acham que isto “é como legalizar o comércio de torradeiras avariadas”.
Ah, a lei que regulamenta a sua prática, também autoriza as universidades a criarem licenciaturas, doutoramentos e mestrados nessas áreas do, digamos assim, conhecimento. Ou seja, as universidades, esses templos da ciência (do conhecimento testado), também sancionam algo que “parte de uma base não científica“. David Marçal, ainda ele, não se conforma: “Não faz sentido criar licenciaturas em coisas que não têm fundamentação científica. Dizer que estas práticas funcionam até porque são dadas num curso superior é dar-lhes uma credibilidade artificial. Também devemos dar cursos superiores de astrologia?
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Dito de outro modo, se a assembleia (o povo, através dos seus representantes) reconheceu o gambuzino, a universidade portuguesa identificou-lhe o genoma. A seguir dividiu-o em cátedras. E, assim, o ensino superior passou a sancionar a treta e até a formar os seus especialistas. Em graus: licenciados, doutorados e mestres. Os especialistas da treta.
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Mas não é só David Marçal que se insurge contra este verdadeiro culto da treta – ou seja, do logro e da estupidez armada aos cágados - também há este senhor
Mas não é só através da denúncia e do escárnio que se combate a fé na treta. A arma mais demolidora desta forma insidiosa de estupidez, de ignorância armada, é a educação; o problema é quando e aonde, como agora em Portugal, a estupidez é ensinada a gente grande, em escola superior. Eu refiro-me à verdadeira Educação (deve ser pronunciada à maneira de Mário Viegas: ”es-co-la”).
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É por isso que Paulo Freire é o nome mais odiado pela clique que manda agora no Brasil (talvez mais até que o do próprio Lula). Porque Freire, o mentor de uma educação para a consciência, defendia, como objetivo da escola, ensinar o aluno a "ler o mundo" para poder transformá-lo.
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O Bozo e os nazionários chamam-lhe doutrinário e odeiam-no porque uma gente educada nesta pedagogia é muito céptica em relação ao calcitrim, ao céu, ao inferno, ao cogumelo do tempo, aos benefícios da acumulação, aos meninos de azul e às meninas de rosa, à frigideira que frita sem gordura (especial porque tem tampa mas se comprar já recebe a tampa grátis), aos gestores não-executivos, aos zingarelhos para ouvir melhor, às curas milagrosas do bispo Edir Macedo, às maravilhas de empreendorismo, aos milagres de Fátima, às leis do mercado – isto é, perde completamente a fé na treta - na, esta sim doutrinação, da ignorância. E isso eles não perdoam.
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domingo, 31 de março de 2019

Algumas ideias para a iconografia do nada ou da coisa em forma de assim.

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Então é assim: a Figueira da Foz, a bem dzer, tem tudo. A única coisa que lhe falta mesmo é um “ícone” turístico. Assim uma coisa em forma de assim mas que atraia o turismo; e as massas, claro.
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Quem o diz é o ex-vereador Vaz, engenheiro e tal. Ainda e sempre no “jornal” As Beiras - a prova provada, para que se veja, de que à Figueira não falta nada; nem idiotas nem sobretudo plataformas onde eles se manifestem, explanem as suas ”ideias” – é assim: o “jornal” dá-lhes espaço e eles, eureca!, espalham-se, explanam-se ou seja, dão ideias. Como por exemplo um “passadiço à volta da Serra” ou um “edifício subaquático”.
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E porque não, engenheiro Vaz, um edifício à volta da Serra e um passadiço sub-aquático? Hmmm?
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Mas porque não, engenheiro, recorrer à arte? Nada como a arte para criar “ícones”, “dar carácter”, “empolgar as pessoas”. Porque não encomendar uma escultura a Botero, por exemplo? – Um figo. Um figo equestre. Seria um figo gordo, claro (a gordura ainda é formosura, em arte). Atrairia muitos papalvos. Garboso, doirado e monumental. À porta do mercado, por exemplo. Parece que já estou a ver.
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Ou então porque não encomendar uma intervenção ao artista Whils (aka Alexandre Farto) na cidade? A arte do moto-pico atrai muitos pacóvios, também. Podia ser, por exemplo, nas paredes de vidro do Casino. Um espectáculo. Pensem nisso.
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Ou então, porque não pedir a Joana  Vasconcelos uma instalação? No Largo da Má Língua, por exemplo. Parece que já estou a ver: uma língua monumental, retorcida e reluzente de lédes de várias cores, toda feita de plástico reciclado, claro; ou, melhor ainda, de pensos higiénicos ou tampões.
Viriam charters apinhados de palermas para ver.
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Sim, porque uma cidade que já tem tudo para que precisa de uma maternidade, de creches públicas, de ligações ferroviárias, de livrarias, de lojas de ferragens, de estaleiros navais, de um teatro, de jardins, de uma rede de transportes públicos? Ou de amor-próprio, de conhecimento da sua história, de consciência da sua própria identidade e, enfim, de alguma cultura geral?
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Ah e tal “Os ícones vendem bem, em termos turísticos. Há que saber criar um bom chamariz, que dê carácter e possa empolgar as pessoas, locais e forasteiros. Na Figueira não temos tido quem o saiba fazer” - diz o engenheiro eureca Vaz, naquele peculiar linguajar de marqueteiro, ou de merceeiro empreendedor.
E o Vaz sabe. Ele é engenheiro. E xcreve nas Beiras.
O que o Vaz não sabe, nem imagina, é que depois as pessoas hão-de cá vir ver o “ícone” e, como de costume, vão embora depressa. Circulam, engenheiro Vaz.
Porque, mesmo os mais néscios dos papalvos, também hão-de dar-se conta de que, a toda a volta do ícone, não há rigorosamente mais nada para ver; nem para fazer.
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sábado, 23 de março de 2019

Serviço público.

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Os meus caminhos nunca vão dar ao casino (a qualquer casino). 
Hoje, por exemplo, os meus passos dirigir-me-ão ao Salão Brasil, em Coimbra. Para ouvir falar de humor, a sério. 
Cada um faz a sua estrada.
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