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sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Almeida Garrett

O país é pequeno 
mas a gente que nele vive 
também não é grande
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett
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domingo, 23 de Novembro de 2014

Umberto Eco

A arte só oferece alternativas 
a quem não está prisioneiro 
dos meios de comunicação de massas
Umberto Eco
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segunda-feira, 10 de Novembro de 2014

Manoel de Barros

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios. 
Não gosto das palavras 
fatigadas de informar. 
Dou mais respeito 
às que vivem de barriga no chão 
tipo água pedra sapo. 
Entendo bem o sotaque das águas 
Dou respeito às coisas desimportantes 
e aos seres desimportantes. 
Prezo insetos mais que aviões. 
Prezo a velocidade 
das tartarugas mais que a dos mísseis. 
Tenho em mim um atraso de nascença. 
Eu fui aparelhado 
para gostar de passarinhos. 
Tenho abundância de ser feliz por isso. 
Meu quintal é maior do que o mundo. 
Sou um apanhador de desperdícios: 
Amo os restos 
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato 
de canto. 
Porque eu não sou da informática: 
eu sou da invencionática. 
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
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sábado, 8 de Novembro de 2014

João César Monteiro. Obra escrita 1;

João César Monteiro foi um conhecido cineasta  que nasceu na Figueira da Foz em 1939 e morreu em 2003, em Lisboa.


Hoje, no CAE da Figueira da Foz, plas 16 horas, vai ser apresentado o primeiro dos cinco volumes da sua "obra escrita" que, quanto a mim e como já referi aqui, se trata da melhor parte do seu trabalho - pla simples razão de que num país tão dado a inconseguimentos e num cinema tão idem idem aspas aspas e outras condicionantes, a escrita foi o único domínio onde um artista dotado como João César se pôde expressar livre de constrangimentos. Aí só dependia de si próprio e do seu imenso talento.
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O livro será apresentado por Vítor Silva Tavares (coordenador da colecção), Margarida Gil e Eduardo de Sousa, em representação da editora Letra Livre.


“Obra Escrita 1” reúne desde guiões de filmes a críticas de cinema, passando pela correspondência do cineasta.

Neste primeiro volume, recolhe-se o que foi escrito por César Monteiro para os filmes «Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço», «Fragmentos de Um Filme-Esmola», «Veredas» e «Silvestre». 

A apresentação do livro será seguida da exibição do filme “Recordações da Casa Amarela”. A entrada é gratuita.

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quarta-feira, 5 de Novembro de 2014

Luis de Sttau Monteiro

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(Ao abrir o pano, a cena está ás escuras, 
encontrando-se uma única personagem intensamente iluminada,
 ao centro e à frente do palco. 
Esta personagem está andrajosamente vestida)
Manuel - Que posso fazer? Sim: que posso eu fazer?
(Dá dois passos em direcção ao fundo do palco, detém-se, e continua)
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Felizmente há luar! Acto I - (Lisboa, 1961)

domingo, 26 de Outubro de 2014

A união ouropeia

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É cada vez mais evidente que a “união europeia” foi um sonho lindo que acabou. Isto parece bastante óbvio, excepto talvez para alguma classe política e empresarial portuguesa (as do arco-do-poder); curiosamente as mesmas que em 1961 também “não se aperceberam” do fim inexorável da era colonial. Na realidade, para a classe dirigente nacional, a união europeia nunca passou de uma nova “árvore das patacas” que substituiria a colonial.
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Convenhamos no entanto que a ideia de uma vasta cooperação entre estados europeus que evitasse a matança a que ciclicamente se entregam os seus povos era uma ideia do caralho. Mas, como muitas boas ideias, revelou-se afinal uma triste quimera. E a sua “prosperidade distribuída” uma fantasia de ouropel.
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A verdade é que não há utopia da igualdade que não esbarre nesse estrupício que é o dinheiro como valor supremo. Por isso sempre me pareceu um tanto esdrúxulo querer edificar uma espécie de utopia igualitária com base no capitalismo e nas leis do mercado –- é um pouco como se Vasco da Gama tivesse escolhido ir à Índia pela linha da Pampilhosa.
E querer fazê-lo com a colaboração de estafermos como o “nosso” zémanelBorroso também não terá ajudado. O seu legado é uma Europa mais desigual, desequilibrada e cada vez mais potencial palco de conflitos. O fundamentalismo monetário da sua comissão despertou por todo o continente velhos fantasmas (racismos, regionalismos, patriotismos e outros velhos preconceitos de opereta que se presumiam ultrapassados pela educação cívica e pelo bom-senso de uma certa cultura geral) que podem precipitar de novo a velha Europa naquilo que se pretendeu evitar com a criação da União Europeia.
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A obtusa comissão burrosa conseguiu até o feito de fazer o velho fascismo inglês (sempre larvar mas residual) ganhar representatividade eleitoral. Por isso agora é David Cameron que, em arroubos populistas, diz que a sua pérfida albion não paga; há-de pagar, claro - mas não sem antes sacar, como é evidente e habitual, mais umas quantas contrapartidas, em privilégios ou em géneros.

É também esta prática de benefícios exclusivos pra uns que consagra a marginalização dos outros e prova a inexorável falência moral de uma tão alegada como pífia união “de iguais”. 
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O sonho lindo do oásis de paz, cooperação e livre circulação revelou-se um pesadelo: um novo triunfo dos porcos cuja narrativa da inevitabilidade repete ad nauseam (para consolo das almas cínicas ou resignadas) que haverá sempre uns mais iguais que outros e mainada.
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