.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

eureka!

.
A estupidez é, por certo, um produto da vontade
Aldous Huxley

Tudo acaba inexoravelmente por chegar à Figueira. Contudo, como sempre, é o mais inefável, rebuscado e taralhoco que triunfa. Certamente favorecido pla predisposição natural da estupidez local.
.
A febre das aplicações e o mundanal frenesim com as start-up das tecnologias da informação chegou à cidade..
.
A Câmara Municipal da Figueira da Foz reclama o desenvolvimento de uma aplicação informática para gerir a limpeza florestal que, segundo sabe o vereador Miguel Pereira, é pioneira neste tipo de iniciativa. Nem mais, leram bem. Além disso, tem duas versões, umas das quais disponível ao público – a outra, deduzo que seja para os técnicos.
Para Miguel Pereira que, segundo a notícia da RTP, é vereador com o pelouro do Gabinete Técnico Florestal da Figueira da Foz, a coisa funciona assim: "Permite chegar a um local, tirar uma fotografia e o sistema diz se o terreno está limpo, com a cor verde. Se a cor for amarela, está em processamento e se for vermelha é porque nada ainda foi feito”.
.
Perceberam? Agora já não é preciso ter olhos na cara. Tira-se uma foto e o sistema diz-nos tudo o que temos à frente das trombas, para ver. E isto in situ e finalmente acessível aos técnicos e ao público em geral.
eureka!, foda-se. Digam lá que não é de génio.
.
Não sei como é que descobrem estes gajos. Mas a Figueira é um manancial. Creio que já se justifica, sei lá, um Fig summit. Ou um grande evento similar, enfim, à escala da paróquia. Talvez no pavilhão dos caras-direitas. Ou no barracão dos dinossáurios.
.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

domingo, 11 de fevereiro de 2018

O desembargador Rangel

.
Uma gripe das antigas, um frio de rachar e as podas anuais não me têm disposto à actualização do blogue. Não, porém, por falta de assunto. Embora o absurdo em que se tem convertido toda a actualidade me tenha prostrado num estado de perplexidade que também tem contribuído para que não me ocorra nada de jeito a propósito: da baba de banalidade dos abraços e dos beijinhos do Marcelo; da Cristas muito evita, perón-preocupada com o abandono dos velhinhos descamisados; de uma opinião pública formatada por um meio de comunicação que pertence ao mesmo grupo económico das transformadoras do eucalipto que transformaram o rio Tejo num esgoto infecto; da farsa abstrusa e indecorosa do sempre renovado plantio massivo de eucalipto; da comédia bufa da justiça com o seu espião condenado por espionagem, os seus advogados vedetas de televisão, os seus procuradores julgados por corrupção e os seus juízes investigados por vender sentenças, etc., etc.
.

Por hoje fiz-vos o retrato do desembargador Rangel e o seu saquinho azul. Apesar de tudo são tempos óptimos para o humor. A verdade, porém, é que não sou o que chamam um humorista, não ganho a vida divertindo os outros. Só me sirvo do sarcasmo porque o homicídio é ilegal (sou um cidadão cumpridor das normas, enfim, estabelecidas).
.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Também não está mal.

.
Era um ala direito que era um cepo, benza-o deus, e Pedroto industriava-o sempre bastamente antes dos jogos: “vais à linha e centras, tás a ouvir?, não tem nada que saber.”
 – “sim senhor”, dizia ele.
Qual quê. Ou não lograva chegar à linha ou não conseguia centrar, fintando-se a si próprio. Uma vez, porém, com Pedroto aos berros “centra, centra”, o pobre lá chegou à linha e centrou. A bola subiu, subiu e foi entrar, directa, dentro da baliza.
Também não está mal.” sentenciou então Pedroto, resignado e filosófico, do banco.
.
Esta estória ocorreu-me a propósito das eleições no PSD. Tal como os humoristas eu também estava, confesso, a torcer plo Santana. O homem é um manancial. Com ele, as piadas fazem-se sozinhas.
Mas Rio também não está mal, como diria o grande Pedroto - que também era pêpêdê, benza-o deus. Creio que muitas vão entrar directas.
.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O saquilho do frasquilho

.
Este é mais um rosto da classe dirigente. Miguel Frasquilho. Ex-deputado do PSD. Ex-secretário destado do Tesouro (!). Ex-presidente da AICEP. Actual chairman da TAP. Um gestor de topo, génio da alta-finança, mestre em teoria económica e professor na madrassa da católica.
A estória conta-se assim: o pai, a mãe e o irmão desta carinha laroca receberam seis transferências da ES Enterprises, entre 2009 e 2011, num total de 54 mil aéreos.
"A circunstância de esses pagamentos terem sido efectuados em contas de familiares meus deve-se apenas ao facto de eu ter pedido isso mesmo à minha entidade patronal, uma vez que tinha dívidas para saldar com os meus familiares directos referidos", disse ele ao Expresso, jurando a pés juntos desconhecer a proveniência das bagatelas.

Frasquilho disse ainda estar convencido de que os valores constam na declaração de rendimentos entregue então pelo BES. 

O problema é que a sua entidade patronal era o BES e as transferências que os seus familiares empocharam eram oriundas de uma conta na Suíça titulada pela Espírito Santo Enterprises, uma offshore do GES que tem estado sob suspeita do Ministério Público por pagamentos não registados -  empresa da qual o artolas diz ter tido conhecimento apenas no decurso da comissão de inquérito aos actos de gestão do BES/GES no Parlamento. 

Não sei, nem imagino, que espécie de serviços este mestre da teoria económica terá prestado a uma entidade da qual ele nunca tinha ouvido falar que justifiquem que esta lhe salde as dívidas a familiares - daí a justeza (não a justiça) da caricatura - mas deduzo que não terão sido nada edificantes. O cómico da situação é que tudo acaba por se saber precisamente quando, não sei se estão a ver, a teoria económica esbarra com a prática. Digam lá que não é de mestre.

Esta é a última posta do ano. Para o ano decerto haverá mais, receio. 
Um abraço a todos os que visitam este pobre sítio por vezes mal-humorado. 
E Boas Festas, claro.
.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O ícone da mediocridade

.
Tenho vindo a tentar fazer, entre outras - e tanto quanto mo permitem o tempo, a oportunidade e o talento – uma alegre iconografia da classe dirigente, uma espécie de bestiário. No que diz respeito à Figueira da Foz reservei-lhe mesmo um álbum à parte, o Álbum Figueirense.

O cromo de hoje é Carlos Monteiro, o mais discreto e low profile dos servidores do presidente Ataíde. Ex-emeérrepêpê, converteu-se cedo ao socialismo democrático e quiçá também à cosa nostra local, a inefável loja dos aventais onde terá também aprendido a discrição com que desempenha as tarefas de que Ataíde o encarrega. Monteiro é um ex-professor de Liceu licenciado em plítica plas freguesias – é ele que baralha e dá , sempre discreto, o jogo de pequenos e grandes poderes e clientelas no concelho profundo. Conhece como poucos o que a casa gasta, nesse campo minado que é esse pequeno mundo de obediências, de conchavos e de conveniências. Ele é também o único vereador totalista dos três mandatos de Ataíde (este foi-se desfazendo de todos os outros, mas guardou sempre Monteiro): começou a vice-presidente, foi despromovido no segundo mandato, mas perseverou (sempre discreto) e foi recompensado no terceiro. Hoje é, de novo, vice-presidente do município, vereador de uma porção de coisas e até do ambiente.
.
A mais ilustrativa das suas performances, a que identifica melhor o espírito da personagem é este episódio recente: no âmbito das actividades de entretenimento e animação com que a câmara tem por hábito derreter o orçamento anual para deslumbrar o seu público alvo, os labregos, arresolveu-se (ou deliberou-se) proceder à instalação, à beira-rio, de uma composição constituída por cubos de plástico com capacidade de mil litros de água dotados de iluminação nocturna. A composição de cubos perfaz o santo nome da cidade e o encanto e deslumbramento de todos os papalvos que “ah!”, adoram o fogo fátuo do foguetório e os seus reflexos coloridos na água. O busílis da coisa é que os inginhêros da câmbra arresolveram atestar os depósitos com água da companhia. Digam que lá que não é brilhante, num ano de seca extrema, a performance artístico-turística do nosso vereador do ambiente. Mas a boa, inacreditável, notícia é que é para apontar no gelo. A inefável Águas da Figueira, que cobra aos munícipes as tarifas mais altas do país, não leva nada ao município plo transvase. Só visto (aqui).

Carlos Monteiro é bem um ícone da classe dirigente local. A classe dirigente autóctone está, diga-se, também ela, à imagem da classe, por assim dizer, dirigida. Ambas partilham valores como o interesse imediato, a falta de cultura geral (e de ideias em geral), a estupidez natural e, em simultâneo, um certo gosto pelo desvario, pela obra avulsa, despropositada ou faraónica. 
Referendados pelo eleitorado com maiorias absolutas sucessivamente reforçadas, Monteiro e Ataíde, ou Ataíde e Monteiro, sentem-se cada vez mais à vontade para, como eles dizem, implementarem de vez a sua visão do mundo – uma mais que provinciana, paroquial e deslumbrada mediocridade.

Se Ataíde tomou o freio nos dentes, Monteiro é o boleeiro da carroça. É como se estivessem, à solta, dentro de um hospital. 
.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O chantre do avental

.
Todos os ciclos políticos têm os seus defensores rebarbativos, o seu “intelectual orgânico”, o seu porta-voz oficioso - alguém que, de entre a “maioria”, na esgrima dos argumentos, se destaca pela qualidade do “desempenho”, pela prolixa ferocidade na defesa da ordem estabelecida e pela contundência na investida sobre adversários.
Na Figueira da Foz não podia ser de outra maneira.
O aguiarismo teve o seu chantre, um jornalista da LUSA que Aguiar contratou como assessor de comunicação e cujo nome agora não me ocorre.
O ataídismo também tem o seu. O chefe do coro dos convencidos e dos convertidos da lojinha de aventais do Presidente Ataíde é José Fernando Correia.
Ataíde também o contratou para assessor, mas financeiro; depois saiu para gestor de topo na Fundação Bissaya Barreto; agora é deputado municipal plo Partido Socialista. Além de se presumir que Correia seja a eminência parda do ataídismo, também se presume que seja o cérebrosinho mais destacado do, digamos assim, pensamento maçónico figueirinhas.

Correia escreve uma crónica semanal no “jornal” as beiras. É lá que, entre pérolas de erudição google exibe uma tendência notória e pedante para a prosápia sentenciosa de cariz marcadamente ideológico e que, entre a ostentação de uma verve tonta e alucinada, de verdadeiro prosélito, canta loas à miraculosa gestão financeira do seu patrono enquanto vai destilando, em simultâneo e sem disfarçar demasiado, um paternalismo bastamente serôdio por este e pelos seus correligionários. Um prato cheio. Para quem aprecia fenómenos patológicos bizarros.

A Correia talvez não lhe ocorra que tudo tem fim, até os ciclos políticos.
O aguiarismo teve o seu, bem triste, e um legado embaraçoso que Ataíde, talvez não estranhamente, logo assumiu (a iniciativa do monumento a Aguiar de Carvalho, à porta da câmara municipal, logo do início do seu primeiro mandato, foi a assunção disso mesmo, uma verdadeira declaração de princípios e um indício do que se seguiria).
O Ataidismo também terá o seu fim, até com data marcada, pelo limite de mandatos fixado por lei. O legado de Ataíde parece-me tão triste e embaraçoso como o de Aguiar; e contudo algo mais ainda os une, o imobiliário - se um entregou a cidade à volúpia cúpida dos pratos-bravos da construção civil, o outro está fazendo o mesmo, ainda mais alegremente e a mata-cavalos, aos patos-bravos da distribuição.


Todavia, conhecendo o eleitorado figueirense e a sua tendência mórbida para o esquecimento, penso que se já ninguém gosta de se recordar do legado de Aguiar, daqui a uns tempos também já ninguém se vai querer lembrar do de Ataíde; muito menos do nome do seu chantre. Por isso lhe fiz o retrato - mais um cromo para o meu Álbum Figueirense. Talvez isso lhe dê a posteridade.
.