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sexta-feira, 22 de novembro de 2019

José Mário Branco (1942-2019)


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Não embarco na ideia do fim da História. Nos anos 80 e 90, o pós-modernismo foi a versão cultural do neoliberalismo. Nós aprendemos a criar em cima de um tripé: a estética (a busca da beleza), a técnica (a oficina da arte, o saber fazer) e a ética (não há criação fora de um contexto comunitário). Se faltar um dos pés, o tripé cai. O que realiza fisicamente uma obra é a sua partilha. O que o pós-modernismo nos vem dizer é que essa parte da ética não interessa para nada, não há compromisso. Que, na arte, pode haver neutralidade, pode não haver relação com uma comunidade. É mentira. Há sempre um compromisso. Mesmo que o compromisso seja afixar um não-compromisso.
José Mário Branco
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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Peter Handke


As minhas frases fazem-se cada vez mais longas. 
Não posso lutar contra elas. 
Só se pode captar a realidade se 
se faz como se lançasse um laço. 
Desconfio das frases curtas, 
desses livros em que cada duas frases 
abrem um novo parágrafo. 
Fico doido. Isso não é literatura.
Mas alegro-me quando, depois de dez frase longas, consigo escrever uma curta.
Peter Handke
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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Alejo Carpentier

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Cuidémonos de las palabras hermosas; 
de los Mundos Mejores creados por las palabras: 
nuestra época sucumbe por un exceso de palabras.

Alejo Carpentier, "El Siglo de las Luces" (1962)
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sábado, 5 de outubro de 2019

Votem no violinista


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Já decidi.
Vou votar no Manel Pires da Rocha.
Na CDU, claro.
Para dar mais força a quem puxa para a frente.
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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O azara(e)do Lopes



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É bom ter presente, e digo isto sem ironia, eu não fazia a mínima ideia do que era um paiol
Azeredo Lopes
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Há frases que valem por toda uma literatura. Não é o caso desta, em epígrafe. Em todo o caso, vale por toda uma cultura política.
Apesar de dita em modo de cândida estupidez - desarmante, quase  enternecedora - não é (nada) inocente. Diz muito da estranha moral de quem oferece cargos públicos. E de quem os aceita. Diz tudo sobre como se chega a ministro em Portugal. Ou a deputado. Ou a vereador.
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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Fernão de Magalhães (1480-1521)

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"A Igreja diz que a Terra é achatada, 
mas sei que ela é redonda, porque vi a sombra dela na Lua,
 e acredito mais numa sombra do que na igreja."
Fernão de Magalhães
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domingo, 15 de setembro de 2019

Pérolas a porcos.


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A edição de 2019 do renascido festival internacional de cinema da Figueira da Foz decorreu durante dez dias sem perturbar a estação de banhos. Durante dez longos dias (uma ousada ingenuidade da organização, que também me concedeu a liberdade de criar o cartaz deste ano), enquanto o Festival projectava as suas metragens longas e curtas em salas às moscas, todo o glamour desfilava no Picadeiro, que regurgitava de banhistas passeando o bronzeado e o balão de Gin, ou a bjeca, plas esplanadas.
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Assim, e como sou muito próximo de alguém da organização, tive o equívoco privilégio de assistir de camarote a mais uma expressiva demonstração da indiferença dos figueirenses pelas coisas do mundo em geral e pelas do espírito em particular. Trata-se de um fenómeno transversal a toda a sociedade figueirinhas: do lumpen à classe média, passando plos senhoritos e incluindo aquele núcleo de pessoas do milieu, digamos assim, da cultura, e da comunicação social. Todos, mais a população flutuante (a taxa de ocupação hoteleira está acima da média em Setembro) fizeram questão de manifestar o seu total desprezo por uma rara oportunidade de conhecer e discutir 168 filmes, e os modos de os fazer, oriundos de 57 países e culturas habitualmente afastados do sistema de distribuição comercial e dos meios de comunicação de massas.
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Lima Barreto dizia do seu país: “O Brasil não tem povo, tem público”, querendo com isto dizer, creio, que o brasileiro não agia, só assistia. A verdade é que, mesmo para se assumir o papel passivo de espectador é necessário, ainda assim, um mínimo de curiosidade, essa centelha que permite que alguma luz ilumine o cérebro e lubrifique a argamassa cinzenta que edifica a consciência e consolida o entendimento.
Ora a Figueira da Foz de hoje, e de sempre, não só não tem povo como também não tem público. Não age e nem sequer assiste. Este não querer ver-não querer saber é afirmativo, ostensivo, militante, orgulhoso - totalmente destituído de qualquer centelha de curiosidade - o que, curiosamente, não obsta que nas redes sociais figueirinhas pulule a opinião ufana, categórica, definitiva; sobre tudo e sobre nada.
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A Figueira é, por isso, um lugar estranho. Bizarro. Excêntrico e concêntrico. Habitado por uma gente tão amorfa que, embora vote cada vez menos, continua, impune e alegremente, a eleger deputados e vereadores e presidentes. E, extravagante, continua com uma invicta e notável capacidade de atracção, na estação de banhos, de uma gente igualmente vazia, igualmente destituída de curiosidade ou de qualquer interesse que não seja pelo óbvio, ou pelo imediato.
A Figueira é a prova viva(!?), física, definitiva, que o vácuo ocupa lugar – um lugar oco, mas denso; vazio, mas incontornável – opaco, impenetrável a qualquer centelha de luz.
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Mas se as sessões estiveram às moscas, a gala de entrega de prémios esteve compostinha, no Salão de Festas do Casino (essa catedral). O Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz acabou, como de costume, em modo litúrgico e em apoteose com copiosas juras de amor ao cinema, ao som da marcha do vapor.
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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

José Vieira Marques


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Na véspera do dia em que começa a edição 2019 do renascido Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, é sempre bom lembrar José Vieira Marques, que foi um dos seus fundadores e seu secretário-geral durante três décadas (até ser suprimido, atribuladamente, em 2002, por Santana Lopes).
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O festival foi muito importante – transformando durante anos, na primeira quinzena de Setembro, uma pasmacenta cidadezinha de província como a Figueira da Foz numa meca do cinema - divulgando cinematografias desconhecidas ou experimentais e modos de produção independentes - atraindo cineastas, críticos, actores, jornalistas e um público cinéfilo anónimo e entusiasta que transformava os seus debates no final das sessões em acaloradas e divergentes madrugadas inesquecíveis. Segundo Lauro António, “Quem gosta de cinema e tem mais de 40 anos, não esqueceu certamente este festival, e quem é mais novo, e não for totalmente tolo, tem obrigação de fazer pela vida e saber de História”. Para Luís Vilaça, “o Festival da Figueira foi um marco importante neste país de brandos costumes e o seu director foi um agitador de consciências. Promoveu como poucos o cinema português".
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Mas Vieira Marques também nunca foi de unanimidades. “tinha o seu feitio,” dizem - que nunca impediu, contudo, o seu amor inquestionável pelo cinema e por todas as maneiras de o tornar possível. Ex-padre de formação humanista e visão plural da vida e da sociedade, encarava o cinema como uma forma de promoção da cultura e do conhecimento. Morreu em 2006 - deixando lamentavelmente por concluir uma, decerto valiosíssima, “História do Cinema”.
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Quanto ao novo festival, herdeiro do de Vieira Marques, já não é o mesmo – os tempos também são outros – já não existe público cinéfilo curioso e noctívago, aberto a outros olhares, à discussão aberta e às ousadias da experimentação. Mas o entusiasmo e o amor incondicional pelo cinema é bem o mesmo - está intacto – certamente nos que trabalharam o ano todo para que esta quinzena fosse, de novo, possível.
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sábado, 31 de agosto de 2019

Contributo para a iconografia alegre de uma ideia de merda

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Quando o grotesco ganha foros de respeitabilidade, está criado o clima favorável à normalidade da infâmia e ao non-sense da desmemória.

A censura social fundamentada, a crítica elevada, ou pedagógica, ou a indignação colectiva são manifestamente inadequadas, e até mesmo contra-producentes, pois encorajam-nos.

O melhor (mais eficaz, penso) é mesmo a derisão. O escárnio. A ideia é avacalhar. Escarnecê-los - até á inanidade.
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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

LEVANTA-TE E RI


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No stand-up que é a plítica figueirinhas, o nóvel presidente da câmara Carlos Monteiro é o mestre de cerimónias, o apresentador, o compére - mas também o cómico. E parece ser também quem mais se diverte com esta comédia triste.
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A propósito do caso do freixo tricentenário do largo de Stº António (vítima do furacão Leslie e de variadas demonstrações de apreço da cidadania figueirinhas), o sujeito disse que a Câmara que preside consultou uma empresa especializada e que esta sugeriu que a solução seria o corte. Que também foi solicitado um “parecer” do ICNF e que este terá dado luz verde para o abate. Não satisfeita, a Câmara municipal terá mesmo consultado “um especialista” da universidade de Lisboa que terá indicado a mesma empresa que já tinha sido consultada.
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Monteiro não especificou em que especialidade era especializada a empresa consultada (nâo me espantaria que fosse em abate de árvores). Também não nomeou o especialista do ICNF que deu luz verde ao abate. Ah, e também não especificou de que faculdade da universidade de Lisboa era o especialista - o que indicou a mesma empresa especializada já consultada (não me espantaria que fosse da de Letras ou, sei lá da de Direito ou assim).
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É que o mundo é pequeno; e redondo; e cheio de coincidências. E é dessa redondância que, dizem, se riem as pessoas. Enfim, as que, quando lhes contam uma estória, não se importam demasiado com a omissão dos pormenores importantes.
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