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terça-feira, 14 de junho de 2016

Fernando Santos

“Temos selecção para ter ambição”. Diz Fernando Santos na campanha de publicidade de apoio à selecção do novo patrocinador da federação nacional do chuto na bola.
É ou não é lindo? Mas há mais: “Na campanha explora-se também o paralelismo entre o percurso da Seleção Nacional e o do NOVO BANCO. A ideia de superação, de ultrapassar obstáculos e de acreditar que é possível, está sempre presente”- dizem eles.

Só visto. Aqui.
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sexta-feira, 10 de junho de 2016

domingo, 5 de junho de 2016

O jornalismo de merda “de luxo”

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Já tenho aqui abordado a questão e ilustrado alguns vultos do jornalismo de merda. Tantas vezes que até as assinalei com uma etiqueta com o mesmo nome (ver prateleira, na barra lateral).
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O jornalismo de merda é aquele que se torna motivo de notícia. O jornalismo de merda de luxo é aquele que é noticiado na rubrica “social”.
Vítor Gonçalves é sub-director de informação da RTP. Trata-se daquele carinha laroca circunspecto e educadinho que escreveu um opúsculo sobre a agenda do cavaco, foi correspondente em Washington e agora trata de entrevistar  sumidades em horário nobre (sempre com a agenda do cavaco no sovaco). É um vulto. Ombreia com outros colossos do género, como José Rodrigues dos Santos, Fátima Campos Ferreira, Carlos Daniel ou Paulo Dentinho. Todos eles melhor remunerados do que um lateral direito de um clube de futebol do meio da tabela.
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A parte que me parece, vá lá, menos bem é aquela de o serem a expensas públicas. Ah, e de o género até ter provedor e tudo (suponho que também subvencionado por todos nós). 
Não sei, parece-me sei lá, um tanto excessivo. 
Quanto a mim o canal público não se devia dar ao luxo de pagar laterais direitos do jornalismo de merda com salários de Mexia. Eu enviá-los-ia a todos para a privada.
Imaginem o que seria. Para o erário público; e para a higiene, também pública, claro.
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domingo, 8 de maio de 2016

O autarca modelo e a maioria social

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um dos maiores inimigos de um homem de espírito é o tédio 
Charles Baudelaire

De regresso à pintura. Ando há mais de um mês às voltas com um auto-retrato. Nada de muito grandioso, um metro e dez por oitenta. Eu, no atelier, uma tela branca e a minha cadela. Uma cena doméstica. Coisa íntima, de género. Fundo escuro. Perspectiva cavaleira (de cima para baixo, como se examina os insectos). Tons glaucos. Cinzas. Verdes. Pérolas. Manchas nítidas. Contrastes surdos, linhas sinuosas. Ênfase nas diagonais.
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Todavia, mesmo quando não se tem hábitos mundanos, qualquer veleidade de auto-análise é perturbada pelo rumor do mundo. Esse ruído entra-me em casa pela rádio, pela televisão, pela net e até pelas janelas. Desde que se abriu a cratera na Ácatorze adeus sossêgo, o trânsito passa-me agora todo à porta - um filhodaputa de um inferno, de manhã à noite (e aos fins de semana ainda é pior: comitivas intermináveis de pacóvios a passeio, em família, para ver a ponte militar). Perturba-me a introspecção. Desinquieta-me a cadela, que não sossega para a pose. A minha rua – um troço da ex-nacional 111- também está em obras (trezentos mil dele, em alegre e publicóprivada parceria com a Brisa).
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O buraco da Ácatorze pôs de novo a Figueira no mapa. A abrir os noticiários. Como os figueirinhas gostam. Contudo a cratera pôs também a nu a xelência da inginheiria portuguesa. A competência dos construtores. A vista-grossa da fiscalização de obras. Enfim, todo o esplendor do empreendorismo cavaquista na província - mas também a conivência dos poderes autárquicos em toda esta cegada triste.
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O poder local democrático, cada vez mais sem receitas próprias, inerme perante os interesses dos grupos económicos privados, das opções cegas do poder central e dos caprichos dos fundos europeus, põe-se cada vez mais a jeito na busca daquilo a que chama, com circunspecta jactância, “o consenso” – que não passa daquilo a que, em português vernáculo e antigo se chama, muito mais prosaicamente, “conchavo”.
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Um dos campeões absolutos nesta modalidade polítiqueira local é José Elísio. ZéElísio, o “pernas” - o afoito presidente da Junta de Lavos. Depois do cambalacho da reformulação das freguesias, o “pernas” acaba de participar noutra cegada patrocinada pelo governo anterior (que o meu amigo Agostinho tem vindo a comentar e a documentar com profusão de pormenores sórdidos, no seu blogue “Outra Margem”) e que decerto o coloca nos píncaros da popularidade na sua freguesia.
Elísio conseguiu, com o inepto altopatrocínio do presidente da Câmara, um Ataíde socialista, chamar a si (a Lavos), a edificação de uma espécie de super-centro-de-saúde que agrupará os “utentes” de quase todas as freguesias de sul do concelho (levando ao encerramento dos centros de saúde destas e transformando Lavos numa espécie de Meca do turismo de saúde local), digam lá que não é de génio. Os fregueses e o comércio de Lavos estão exultantes. Pimenta no cu dos outros para eles é refresco.
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A verdade porém é que os utentes das freguesias despojadas dos seus centros de saúde estão invejosos. Apesar de enxofrados, nofundonofundo também queriam para eles um autarca como o “pernas” (mesmo que fosse alguém só com duas).
Afinal estamos em Portugal. Somos todos portugueses. Este é o país de “Os Lusíadas”. Onde todos os fregueses partilham dos mesmos valores - aqueles que se consubstanciam naquela palavra com que Camões culminou a sua obra. E que define uma gente que só sente que prospera com o mal dos outros. Metade nem sequer vota. A outra metade divide-se entre espíritos florentinos como ZéElísio, o presidente da junta, e simples de espírito  como Ataíde, o presidente da Câmara.
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E, ao contrário do meu amigo Agostinho, não vejo alternativa a isto. Porque, ai de mim, também não vejo onde caralho enxerga Agostinho uma maioria social de esquerda.

As cegadas entorpecem-me a concentração. Distraem-me. E nem sequer me divertem. Pelo contrário, aborrecem-me de morte. 
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sexta-feira, 6 de maio de 2016

Siné (1928-2016)

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Siné morreu. 
Contra a vontade e enragé, como sempre. Tinha 87 anos.

Passou quase todo o tempo da sua vida a “massacrar todos os que a vida já maltratou: torcionários em uniforme, padres em sotaina, políticos em carne e osso, pedófilos em acção e sionistas desvairados”. 

Também não poupava “viúvas de generais e órfãos eclesiásticos que lhe caiam sob o lápis”.
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Siné gostava do humor, negro; de jazz (da música, também preta) de vinho, tinto; e de gatos, de todas as cores. 

E desenhava e escrevia “comme on se gratte, parce que la vie fait mal”. 

É dele a melhor ilustração do que foi (ou que podia ter sido) o "nosso" vintecincodAbril
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Um gajo do caralho.

Salut, Siné!
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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Dez anos na “outra margem”


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O blogue “Outra Margem” cumpriu dez anos. Há dez anos que o meu amigo António Agostinho o anima com copiosas e certeiras postas diárias.
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Nele cultiva, como poucos, a ironia – que, como muitos de nós sabemos, é um artifício da inteligência inacessível a uma imensa casta de imbecis - o que já lhe trouxe algumas chatices; que são, presumo, os custos da popularidade (o seu blogue é, talvez, o mais visitado da Figueira) mas que também lhe dá, quotidianamente, o gosto e a satisfação de, por sua vez, amesquinhar lautamente a mediocridade de alguns bonzos e revelar publicamente o ridículo dos pequenos mandaretes locais e das suas paroquiais freguesias ou clientelas..
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O “Outra Margem” não é um blogue qualquer. Para o Agostinho, trata-se de um testemunho de cidadania. Um veículo de intervenção cívica consciente, activa e assertiva, persistente, teimosa e irredutível na defesa das suas causas: a sua aldeia, tão desprezada; a sua praia, tão flagelada; o seu Cabedelo, tão abandonado; o hospital; a cidadania para todos.
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E contudo, Agostinho não o faz por abnegação ou com aquele espírito de sacrifício tão apreciado pelos idiotas – não, Agostinho não corre o risco de ser condecorado plo presidente com a medalha-de-prata-de-qualquer-coisa - fá-lo por simples prazer e deleite - apenas pelo supremo, e afinal prosaico,  gozo de exercer a liberdade e de o exprimir em português.
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Um exercício tão continuado é de se saudar. E desfrutar.
Se bem o conheço, é gajo para continuar.
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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Miguel de Cervantes

é claro que também estou celebrando este, a cuja obra-prima nunca me canso de acudir e que começa assim:
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Capítulo I 
QUE TRATA DE LA CONDICION Y EXERCICIO DEL FAMOSO HIDALGO
 DON QUIJOTE DE LA MANCHA 
 
En un lugar de la Mancha,de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antígua, rocín flaco y galgo corredor. Una olla de algo más vaca que carnero, salpicón las malas noches, duelos y quebrantos los sábados, lantejas los viernes, algún palomino de añadidura los domingos, consumían las tres partes de su hacienda. El resto concluían sayo de velarte, calzas de veludo para las fiestas, con sus pantuflos de lo mesmo, y los dias de entresemana se honraba con su vellori de lo más fino. Tenía en su casa una ama que pasaba de los quarenta, y una sobrina que no llegaba a los veinte, y un mozo de campo y plaza, que así ensillaba el rocín como tomaba la podadera. Frisaba la edad de nuestro hidalgo con los cincuenta años; era de compléxion recia, seco de carnes, enjuto de rostro, gran madrugador y amigo de la caza. Quieren decir que tenia el sobrenome de Quijada, o Quesada, que en esto hay alguna diferencia en los autores que deste caso escriben; aunque por conjeturas verosímiles se deja entender que se llamaba Quijana. Pero esto inporta poco a nuestro cuento: basta que en la narración dél no se salga punto de la verdad.

Es, pues, de saber este sobredicho hidalgo, los ratos que estaba ocioso (que eran los más del año), se daba a leer libros de caballerías con tanta aficción y gusto, que olvidó casi de todo punto el exercício de la caza, y aun la administración de su hacienda; y llegó a tanto su curiosidad y desatino en esto, que vendió muchas hanegas de tierra de sembradura para comprar libros de caballerías en que leer, y así, llevó a su casa todos cuantos pudo haber dellos; y de todos, ningunos le parecían tan bien como los que compuso el famoso Feliciano de Silva; porque la claridad de su prosa y aquellas entricadas razones suyas le parecían de perlas, y más cuando llegaba a leer aquellos requiebros y cartas de desafíos, donde en muchas partes allaba escrito: “la razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, que con razón me quejo de la vuestra fermosura.” Y también cuando leía: “... los altos cielos que de vuestra divinidad divinamente con las estrellas os fortifican, y os hacen merecedora del merecimento que merece la vuestra grandeza”.

Con estas razones perdía el pobre caballero el juicio, y desvelábase por entenderlas y desentrañarles el sentido, que no se lo sacara ni las enterdiera el mesmo Aristóteles, si resucitara para sólo ello.
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Miguel de Cervantes, El engenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha , 32ª edición, Espasa-Calpe (Colección Austral)- 1984
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sábado, 23 de abril de 2016

prova de vida


os homens deviam ser o que parecem 
ou, pelo menos, 
não parecerem aquilo que não são 
William Shakespeare

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Como já cá não vinha desde a última vez que cá estive (ao contrário do nosso actual, e freneticamente ubíquo, presidente da república - que está a toda hora em todo o lado), esta posta também serve para mostrar que, tal como o google, eu também estou “celebrando William Shakespeare”.
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