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terça-feira, 3 de março de 2015

O hilariante marcantónio


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A democracia representativa tem pelo menos um mérito; é que um membro do parlamento nunca pode ser menos incompetente do que aqueles que votaram nele.
Elbert Hubbard

A política em Portugal é - depois da publicidade, claro - o último refúgio do humor. 
O discurso político dominante, amplificado pelos media, tornou-se um intenso desfiar repetitivo de piadolas e de gagues – tudo pífio, previsível e penoso, como num circo triste. Generalizou-se uma espécie de humor burlesco que de tão equívoco – simultaneamente óbvio e obscuro - faz o riso amarelo.
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Contudo neste afã de fazer rir, o sinistro Marco António Costa fez recentemente os seus compinchas partirem realmente o côco, num meeting do pêpêdê, quando disse que o seu partido apoia António Costa (ultimamente tão criticado pela esquerda por causa da sua prelecção aos chineses).
Depois, ainda a rir-se mas não satisfeito e numa espécie de à parte, o incansável entertainer ainda acrescentou outra pérola de “espírito” alaranjado. Pôs-se muito sério - em pose-de- estado ou lá que é aquilo - e disse, muito circunspecto, que acha Pedro Passos Coelho “um homem honesto”.
Desta, incompreensivelmente, os compinchas não se riram. Nem os jornalistas. Não devem ter percebido o potencial hilariante da coisa. Só pode.
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Mas disse mais. Segurem-se. Ele disse: “Portugal é um país onde as notícias positivas se tornaram banalidades”.
 Este gajo é ou não é impagável?  
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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Pedro cruz e a paisagem sem figuras


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A estória é curta e resume-se assim: o jovem Pedro Cruz (que já retratei aqui e sobre quem já me debrucei aqui), foi convidado pelo presidente da Junta de freguesia De S. Pedro para fazer uma exposição de fotografia.
O jovem foto-jornalista, certamente desvanecido, aceitou o convite que encarou como um repto. Em lugar de postais bucólicos e turísticos o jovem Pedro, cidadão atento e interventivo, decidiu partilhar com os seus conterrâneos o que o preocupa, mostrando algumas das suas imagens que documentam a erosão do litoral costeiro, e da sua praia, e dando à mostra o nome de ALERTA COSTEIRO 14/15.
Leal, como só os grandes o sabem ser, o jovem fotógrafo deu uns dias antes uma entrevista a um jornal regional na qual anunciava que para além da paisagem devastada iria também expôr figuras, de responsáveis.
Em vésperas de dia de inauguração, Pedro dirigiu-se ao local marcado e começou a montar a selecção de imagens que, segundo o seu critério, melhor davam a ver a devastação da sua praia: paisagens, mas também figuras. Foi uma das fotos que mostrava figuras que o presidente da junta exigiu que fosse retirada. O jovem Pedro recusou fazê-lo e a exposição foi cancelada. Segundo o artista, no seu Face-Book, “O Alerta está dado”. 
(podeis acompanhar mais prolongamentos desta notícia  no blogue "outra margem").
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Esta estória exemplar demonstra, quarenta anos depois do vintecincodAbril, como este país continua afinal igual a si próprio e ao que sempre foi: um pobre e bisonho paraíso paroquial para pequenos chefes labregos que - no seu boçal entendimento, certamente inebriado plo esplendor do mando - pensam que podem apagar figuras de uma paisagem.
Mas também demonstra que há algo - para além do talento, claro - que um artista consciente, ainda que pobre, nunca admite que lhe seja escamoteado: o orgulho (o amor-próprio, meus lindos).
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Por isso, caro Pedro, nunca agradeças a quem te enaltece o talento e a independência (ninguém deve o que já é seu por mérito). Seria falsa modéstia.
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A química dos “cromos”

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Segundo monsieur de Lavoisier, na sua lei da conservação da matéria, “numa reacção química que ocorre num sistema fechado, a matéria total antes da reacção é igual à matéria total após a reacção” : Ou, mais filosoficamente: “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”.
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Alfredo Barroso, um dos pais fundadores do partido do sucialismo democrático (é verdade, aquilo teve um ror de pais) já avisou que se vai embora. Zangou-se com António Costa por causa de umas papaias que este disse depois de uma jantarada com magnatas chinocas para comemorar o ano da cabra num casino.
Quero acabar a minha vida com alguma dignidade e coerência. O que não é manifestamente possível continuando a militar no PS* – disse ele, em trânsito para o Bloco de Esquerda enquanto, quase em simultâneo, se pôde assistir ao trânsito inverso de alguns transfugas deste (acompanhados dos centristas de esquerda do Livre e dos renovadores do comunismo) em direcção ao nosso pasóque. É impossível que não se tenham cruzado algures.
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A observação atenta destas reacções químicas, no sistema fechado de uma certa "esquerda" portuguesa, serve para provar a validade dos postulados do pai da Química - "Numa reacção química a matéria conserva-se porque não ocorre criação nem destruição de átomos. Os átomos são conservados, eles apenas se re-arranjam. Os agregados atómicos dos reagentes são desfeitos e novos agregados atómicos são formados".
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Mainada. Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
E, como referiu o grande Ernest Rutherford, “tudo o que não é Física é colecção de selos”.
Ou de cromos, que é o que eu faço - observo as reacções químicas, e vou coleccionando os cromos. De certo modo, também é Física. 
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*Embora nos últimos tempos se tivesse queixado das práticas estalinistas de Soares (ele acusa o velhote de o ter apagado das suas memórias) não tenho notícia de que Barroso, duplo sobrinho de Mário Soares e seu compagnon de route, se tenha alguma vez amofinado tanto com a aliança deste com a CIA e o sr. Carlucci e com as forças mais ultramontanas da igreja católica portuguesa; nem com os faxes de Macau; nem com o socialismo na gaveta e com as coligações com pêpêdês e cêdêésses; nem com o pantanal do Guterres; ou com o charco do Sócrates.
Mas vale mais tarde do que nunca. É sempre tempo de acabar com alguma dignidade.
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domingo, 22 de fevereiro de 2015

outra cãdidata desquerda

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Este blogue repete-se, é verdade (começam a ser sempre os mesmos cromos) mas, tal como na vida - primeiro em trágico, depois em farsola.
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Afinal a dama de ferro do pêpêdê não é chapa gasta. Tal como na vida, na política também tudo se transforma. 
É assim: a sua candidatura foi "lançada" por um ex-dirigente do partido sucialista e a ala desquerda do nosso pasóque já está em delírio.
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É verdade: o perfil anguloso e o olhar contrógoberno de Manuela Ferreira Leite, ex-ministra do cavaco, agrada mais à ala desquerda do sucialismodemocrático do que o do baixote redondinho que se ri de tudo e facilita os negócios desta república de cucos.
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Digam lá se isto não é de partir o côco de riso. Foda-se..

A realidade neste filhodaputa deste país ultrapassa sempre vertiginosamente (pla esquerda, pla direita, desguelha, na diagonal, por cima e por baixo, pla frente e plo outro lado) os mais delirantes devaneios de non-sense de qualquer humorista, mesmo bêbado.
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sábado, 21 de fevereiro de 2015

a cadeia alimentar

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A indiferença silenciosa, grave, quase benévola, 
é a manifestação legítima da morte de toda a crença
Alexandre Herculano
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A classe dirigente portuguesa, da qual tenho vindo modestamente a retratar os rostos mais proeminentes, não cessa nunca de me espantar. Se é consabida a estupidez, a cara-de-pau, a incompetência e a inépcia dos mais senis - aqueles que já viravam frangos no tempo da outra-senhora – assim como a sua consagrada impunidade, que dizer dos mais jovens; sim, da classe dirigente juvenil?
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Se todavia por enquanto ocupam ainda lugares subalternos, a verdade é que o futuro já lhes pertence – basta consultar as sondagens.
É o caso, por exemplo, do deputado João Portugal, sobre quem já me debrucei aqui. Este deputado por Coimbra acha que encanar a merda da vala de Buarcos para o mar resolvia os problemas da ecologia. Há povo qu’acardita. É por isso que o deputadinho Portugal, que tem um passado de jotinha num dos partidos do alterne e nunca perdeu uma eleição, tem um lugar quase cativo na classe dirigente do futuro.
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Outro dirigente também com futuro é o actual ministro do ambiente, Jorge Moreira da Silva. Também tem um passado radioso, na juventude do outro partido alternadeiro. E também se preocupa enormemente com os problemas da ecologia. 
Moreira da Silva acha, por exemplo, que se os portugueses pagarem dez cêntimos de euro por cada saco de plástico este deixará de ir parar - como Gepetto e o profeta Jonas - ao estômago das baleias nossas amigas. 
Há pessoas qu’acarditam (o povo em geral preocupa-se imenso com a digestão dos grandes cetáceos e com outros grandes e misteriosos problemas da ecologia). 
Também há pessoas que duvidam, claro. Mas à cautela, condensam esta atitude filosófica num judicioso “nunca se sabe...” que, segundo Graham Greene, representa “a sua mais profunda investigação no sentido da vida”.
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É por isso que estes gajos têm futuro. Se as baleias estão no topo da cadeia alimentar, a verdade é que, para eles, é o povo que está na base

sábado, 14 de fevereiro de 2015

o candidato dasquerda

Non, la sterilité n´est pas héréditaire.
Alphonse Allais

Este blogue está lamentavelmente a tornar-se um tanto repetitivo. Há cromos que se repetem. Receio no entanto que isso se possa explicar de modo sucinto pela comprovadamente débil capacidade de renovação das gerações neste país - e portanto, também da sua classe dirigente.

António Vitorino, de quem já falei algures neste blogue, apresta-se para ser candidato ao cargo de presidente da República. 
Vitorino é um caga-tacos redondinho e solícito  que, sempre reluzente de auto-satisfação, se tem notabilizado por administrar parcerias publicóprivadas ou presidir assembleias gerais de grupos económicos privados cuja abastança e prosperidade está directa, impune e alegremente relacionada com uma evidente proximidade promíscua com o estado.
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Assim, o recém-nomeado “administrador não-executivo” dos CTT (privatarizados recentemente plo actual governo para a Golden Sachs) vai ser, tudo leva a crer, o candidato do pasóque tuga à sucessão do triste verme taralhouco que lá está. Contudo, se este foi eleito pelo bom povo que crê em deusnossosenhor, nos benefícios da autoridade e na vidinha sem sobressaltos, a imprensa e as televisões vêem neste “facilitador de negócios” o candidato “da esquerda”.
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E há povo qu’acardita. Deve ser aliás o mesmo povo desquerda que - segundo confidência recente de Mário Soares, essoutro grande vulto desquerda - respondendo aos apelos da santa madre igreja e do patriarca de Lisboa de então, encheu de ululante pugressismo a Fonte Luminosa, em 1975.
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Decididamente, há demasiado povo neste país para quem um caralho continua a ser um assobio.

Ou seja, há coisas que não se herdam, merecem-se: e isto é assim de geração em geração.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

sábado, 31 de janeiro de 2015

A ganância ainda vai dar cabo disto tudo

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“O espectáculo grotesco e boçal que observamos à nossa volta – política incluída - e os reflexos dele na nossa existência são a circunstância da nossa vida.(...) Porém, quando as decisões políticas, além de ultrapassarem a nossa compreensão, nos esmagam em sacrifícios, é imperioso tentar fazer alguma coisa.
Denunciar os sacanas - se a causa estiver nas sacanices; denunciar os incompetentes - se a causa estiver na incompetência.
Denunciá-los todos - se as causas forem estas.
O homem é ele e a sua circunstância. Por isso, deve denunciar as más circunstâncias.
Por isso, não podemos calar, pois se assim fizermos "a ganância ainda vai dar cabo disto tudo"...! (daqui)

O meu amigo António Agostinho tem vindo - ao longo de vários posts, no seu blogue "Outra Margem” - a denunciar a  pulhice, a incompetência, a ganância e a má gestão que se consubstanciam, ano após ano, na erosão do litoral costeiro. Ele é particularmente sensível a este fenómeno porque é natural e habita na Cova-Gala, uma terra bastante vulnerável à avidez da ganância e aos avanços do mar.
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Eu, que habito em Maiorca, uma freguesia interior, também podia testemunhar esse mesmo triunfo da estupidez e da ganância com provas documentadas: do empreendedorismo públicóprivado que levou ao actual estado de abandono, decadência e eminente derrocada do Paço de Maiorca, por exemplo. É o que farei aliás, em breve.
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Fazemos ambos no entanto o papel do fedelho, da estória de Andersen, que diz que o rei vai nú. O problema é que, entre nós, toda a gente o sabe e ninguém se importa. A prova disto é o facto, não dispiciendo, de o senhor cavaco ainda ser presidente. Toda a gente sabe que o estupor é um escroque, vai nú (e é medonho) mas ninguém se ri nem sequer se importa.
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Ao contrário porém de Agostinho, que parece acreditar  numa putativa regeneração cívica  - e daí na utilidade da denúncia pública - eu só o faço mesmo para memória futura. E, confesso, por pura derisão, e escárnio.
Perante o cinismo colectivo desta cidadania de merda (a consciência alargada de que “caladinho é que se vai longe”) é apenas do que sou capaz.
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