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segunda-feira, 14 de Abril de 2014

O sr. Carlucci

A poucos dias do quadragésimo aniversário do vintedecincodabril e do estabelecimento da democracia, lembrei-me de Franck Carlucci, o ex-embaixador dos EUA em Lisboa nos idos de 1975. 
Nessa altura conspirou com Mário Soares pla democracia. Depois do estabelecimento desta – enfim, tal como a conhecemos em Portugal - o homem chegou a director da CIA e depois, por fim, dedicou-se aos negócios. Fez fortuna e hoje é o rosto do grupo Carlyle, com interesses em Portugal.
Mas já antes, em 1960 - e sempre, naturalmente, pla democracia - tinha conspirado com o sr. Mobutu Sese Seko, no Kongo, contra o governo de Patrice Lumumba. 
E, em 1964, também tinha supervisionado o estabelecimento da democracia no Brasil (municiando os esquadrões da morte e providenciando a eliminação física de dirigentes da oposição), depois do derrube do presidente João Goulart.

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Por estas e por outras resolvi fazer-lhe um retrato. Para que se não esqueça o rosto de um obreiros da nossa democracia.
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quinta-feira, 10 de Abril de 2014

João Gaspar Simões

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Partindo do princípio de que todos os homens são susceptíveis de se determinar por uma certa ordem de valores, o problema da cultura e, em última instância, o problema da vida estão na atenção que se preste ao próprio homem na organização dos meios favoráveis à sua própria condição humana.
Quer dizer, em última análise, que o valor que a cultura precisa de preservar é o próprio homem, centro de toda a actividade pensante e de toda a orgânica política e social. Uma antropomorfização da vida intelectual, ética, política e social - eis a finalidade de toda a cultura. A convicção de que é este o caminho para solucionar a crise do nosso tempo seria partilhada por todos os homens de bom pensar se não fosse a conclusão de HegeI citada pelo próprio Delfim Santos e é que: «a história só nos ensina que o género humano nada aprende da história».
Isto significa ser mais fácil ao homem vincular-se a fórmulas e identificar-se com sistemas que se lhe afiguram garantir a continuidade dos seus bens adquiridos, por mais mesquinhos que eles sejam, do que procurar resolver o seu problema fundamental, qual seja encontrar novas formas de cultura quando aquelas em que vive já não servem para satisfazer aquilo que é ou deve ser a sua finalidade última: tornar-se verdadeiramente homem.”

João Gaspar Simões, Liberdade do Espírito, Ensaios. Porto: Portugália, 1948
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segunda-feira, 7 de Abril de 2014

A cavaca

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Maria Cavaco Silva, a quem o Diário de Notícias - na sua secção “Pessoas” - chama, sem aspas, “a primeira dama”, foi inaugurar a Feira de Arte e Antiguidades, na Cordoaria Nacional.
A legítima do Cavaco visitou prolongadamente a exposição e, no fim, confessou-se uma apaixonada da arte desde criança.
E mais, reconheceu que "o país está a valorizá-la cada vez mais" e que "a geração jovem está a ter um papel essencial nisso". Este tipo de iniciativas, frisou ainda, "é muito importante para chamar as pessoas para a cultura".
O diário de notícias titulou assim a notícia: Primeira dama quer “chamar as pessoas para a cultura”.
Digam lá que não é lindo.
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Eu também acho que o país valoriza imenso a arte, e a cultura, e isso. E é tal a demanda que, nem sei como, ninguém se lembrou ainda (uma pecha no nacional-empreendorismo) de criar sei lá uma rede de lojas tipo pingo-doce, assim a modos que também a preços baixos, mas só de arte & antiguidades. Aqui fica a ideia. É grátis.
Em todo caso, quem assim tem uma primeira-dama e um diário de notícias para que precisa de um ministério da cultura? Sim, para quê?
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A verdade é que tudo isto me parece o enredo de um daqueles filmes da época de ouro do desenho animado americano. Só que em perverso e pavoroso. Este filme nunca mais acaba; o non-sense é cada vez mais óbvio; tem cada vez menos piada; o ridículo adoptou o tom venéreo da normalidade - o que faz com que o absurdo da coisa tenha cada vez mais um único sentido, sem regresso: o do pesadelo. Acordem o Tex Avery. Ou o Chuck Jones. Ou o Fritz Freleng. Ou as forças armadas. O Salgueiro Maia. Alguém. Mas tirem-me deste filme.
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domingo, 6 de Abril de 2014

Agostinho da Silva

A vida, para a vida, é sempre longa; mas para a arte é sempre breve; 
só quando se não faz nada há sempre tempo
Agostinho da Silva
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segunda-feira, 31 de Março de 2014

O poeta incómodo


Poeta 
a poesia é uma máquina
de produzir entusiasmo
e é preciso que os versos sejam verdadeiros
na vida dos poetas
como a tua mão erguida
sobre os anos futuros
quando o próprio bronze das estátuas se cobrir
do verdete do esquecimento
e das urtigas
entre as ruínas de um passado morto
e as pequena plaquetes dos sentimentos pobres
dos líricos delírios
das doidas metáforas sem sentido
louvadas pela crítica só tiverem
o arqueólogo encanto de um cabelo de Ofélia...

Então
os teus versos estarão na primeira fila dos pioneiros
cobertos de cicatrizes
porque fizeram todo o caminho do tempo
multiplicados por milhões de vozes
pela alta potência dos alto-falantes
como uma bandeira erguida
sobre os anos futuros.
Joaquim Namorado


Este ano comemoram-se oitocentos anos da língua Portuguesa. Ah pois.
E quatrocentos da primeira edição de “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto. 
E quarenta do vintecincodAbril, claro. 
Os Correios de Portugal não se esqueceram de nada disto e estão a tratar de o evocar, convenientemente e como de costume, como aliás lhe compete, em belas edições filatélicas.
Os CTT também não se esqueceram dos cem anos do poeta (e matemático) Joaquim Namorado e também lhe dedicaram um selo, integrado numa nova série dedicada a “vultos da história e da cultura” nacionais.
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Joaquim Namorado - que cheguei a conhecer fugazmente (nas mesas do café Nau) e a quem já evoquei aqui a propósito de outra coisa – é um poeta cuja relevância  intelectual e estética (dirigiu durante anos a revista Vértice e foi ele que cunhou uma das correntes literárias dominantes no século vinte português) é tão iniludível como o seu testemunho de cidadania. No entanto, além de poeta da incomodidade e de “Aviso à navegação”, empenhado políticamente (até à militância), também foi capaz da contenção, da ironia profunda, da invenção e do arrojo formal de “Viagem ao país dos nefelibatas”.

A Figueira chegou a ter um prémio literário com o seu nome, que o inenarrável Santana Lopes aniquilou e o actual poder autárquico sucialista substituiu pelo nome de João Gaspar Simões (nada contra, uma coisa não impede a outra). Mas há mesmo uma petição ao presidente da Câmara com o objectivo de “recuperar o prémio literário Joaquim Namorado”. Assine aqui,

- porque a cidade da Figueira da Foz, onde o poeta se fixou, fundou um jornal, foi eleito à assembleia municipal e residiu até á morte, nada. Isto de “vultos da história e da cultura” é, convenhamos, algo que lhe passa ao lado (veja-se os casos de Cândido Costa Pinto e de João César Monteiro).
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A verdade é que ou a cidade tem memória de peixe - as coisas passam-se-lhe – só uma cidade com a memória de uma chaputa (ou de uma tremelga) se esquece dos seus maiores - ou então o poeta da incomodidade ainda incomoda. Mesmo depois de morto.
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quinta-feira, 27 de Março de 2014

O gaspar em avózinha

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Ser economista em Portugal é, sei lá, ter sede de infinito, ou assim. Uma espécie de religião.
Segundo a jornalista Anabela Mota Ribeiro, Teodora Cardoso foi a primeira mulher a usar calças no Banco de Portugal.
Não sei se compreendo bem o que isto quer dizer mas suponho que signifique que, embora a economista Teodora Cardoso - presidente de uma coisa em forma de assim que se chama “Conselho das Finanças Públicas”- seja do sexo feminil, procede como os seus colegas economistas do sexo varonil.
Deve ser este economicismo transsexual que lhe permite processar as mesmas ideias de merda, que tira do mesmo sítio de que invariavelmente os seus colegas varões tiram as suas.

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Em todo o caso, ela diz que o que é preciso é ter ideias
De qualquer modo, como é de provecta idade (são muitos anos a assar frangos) e como são as dominantes, elas saem sozinhas, sem esforço. Ela fá-lo em público. E tira-as com um gancho. De forma sonora, a Teodora.

segunda-feira, 24 de Março de 2014

louvor e simplificação de José Penicheiro




todos os quadros têm teias de aranha no cu
Marcel Duchamp
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Nos anos oitenta do século passado, o chuveirinho de fundos perdidos proveniente da então CEE achou em Portugal solo fértil para o milagre económico e sociológico do novo-riquismo, que ficou popularmente conhecido por “cavaquismo”. Mas também acabou por proporcionar um outro fenómeno sociológico, e económico, inaudito na história de Portugal: a eclosão de um mercado de arte na província.
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É verdade. De repente, num país atrasado e atavicamente pouco dado a coisas do espírito - acabadinho de sair de uma ditadura de quatro décadas, de um pequeno sobressalto “revolucionário” e de duas intervenções assistenciais do FMI - pessoas acabadas de ascender a uma próspera e inesperada classe média-alta descobriram em si um ideal abstracto e, num inusitado interesse plo espírito das coisas, o amor acrisolado pela arte. Foi assim que médicos, engenheiros, advogados, magistrados, altos funcionários e pequenos empresários com poder aquisitivo e alma de connoisseurs, de coleccioneurs ou de investideurs criaram as condições para que um pequeno núcleo de artistas, alguns já activos desde os anos 40 e 50, se pudesse dedicar à arte a tempo inteiro. Foi o caso de José Penicheiro.
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O poder autárquico, pla aquisição de obras e encomendas de arte pública, também deu um valioso contributo para a consagração destes petits maitres regionais; assim como o Serviço Nacional de Saúde que, com o seu generoso patrocínio das multinacionais do medicamento, permitiu a impressão mecenática de sucessivas e copiosas edições limitadas de serigrafias e litografias cujos exemplares, assinados e numerados pelos artistas, reproduziam originais e eram distribuídas, como oferendas, em alegres congressos médicos pla província - num contributo precioso, e definitivo, para a divulgação das suas obras e para a sua imensa popularidade.
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Na Figueira, por exemplo, não há casa nem casebre que não possua as paredes engalanadas com uma destas (já desbotadas, no caso das litografias) reproduções. O povo tinha mesmo os seus artistas preferidos. Contudo, nunca houve unanimidade. A admiração popular, tal como no futebol, ainda hoje se divide plos três grandes: Cunha Rocha, Mário Silva e José Penicheiro.
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E contudo, dos “três grandes”, Penicheiro era o artista menos óbvio para agradar ao novo gosto dos novos burgueses emergentes - o seu trabalho era prejudicado pela má qualidade dos suportes (cartão ou platex) e dos materiais (o guache e a tinta plástica) e o seu imaginário, enraizado ainda em modelos neo-realistas, era povoado de gente humilde e anónima numa paisagem ribeirinha sempre ligada ao universo do trabalho árduo e penoso: no salgado, na pesca, na lota, em andaimes e estaleiros - os novos-ricos, mesmo de origem humilde, não gostam que lho recordem. Também desprezam o trabalho duro, que acham desqualificado, e desconfiam da arte que o representa: invariavelmente acham-na subversiva ou, no mínimo, inconveniente. 
Mas foi isso mesmo que Penicheiro fez: encheu-lhes as paredes das vivendas e dos palacetes de trolhas e marnotos, costureiras, pescadores, moliceiros, lavadeiras e cavadores.
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A grande arte de Zé Penicheiro
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Filho de um carpinteiro, Zé Penicheiro começou pela caricatura em madeira. Bonecos em volume, como ele dizia. Auto-didacta orgulhoso (quase até à arrogância) aprendeu o desenho e aprimorou o traço na tarimba do humor gráfico e da caricatura de imprensa, nos anos de chumbo da censura. Desenhador compulsivo, o seu traço vigoroso, sintético e eloquente era alicerçado num sentido da composição rigoroso, numa sensibilidade de colorista requintado – adquiridos ao longo de muitos anos de trabalho na publicidade e na decoração – e num instinto ornamental que se foi tornando cada vez mais sofisticado e exuberante.
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Quando o conheci, em 1981, trabalhei com ele em publicidade. Aprendi imenso (a relevância do seu contributo para a linguagem desta arte de comunicação dava para escrever um tratado, um capítulo à parte na sua vasta obra criativa (só semelhante ao de outro figueirense, Cândido Costa Pinto. Este até com obra teórica publicada sobre o assunto, embora nunca tenha exercido actividade na região). Mas em 84 (ou 85), quando trabalhei para ele - na impressão serigráfica dos seus trabalhos – já ele se dedicava finalmente, em exclusivo, à sua paixão de toda a vida, a pintura. Tinha mais de sessenta anos.
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Numa idade em que a maior parte dos homens calça as pantufas e se senta ao borralho a olhar para ontem, Penicheiro preparava-se para começar outra vida. Criativa. E para consumar a sua obra – uma obra que teria, contudo, um carácter sempre reminiscente, também a olhar para ontem, numa espécie de interminável “Amarcord”. 
Todavia, ao contrário de Fellini, não existe em Penicheiro o conflito, o pormenor, o improviso, a blasfémia, o humor (ou o sarcasmo), a revolta, a gargalhada, a obscenidade, a subversão, o grito. 
Não há rostos, nem olhares, nem expressões na sua obra. Nem se vêem das mãos as linhas da vida, ou as unhas negras e as calosidades. Apenas vultos. Os homens, de chapéu; as mulheres, de lenço na cabeça, sempre curvada. Tudo sob um manto intrincado de manchas opacas, numa densa bruma esquartejada de harmoniosas decomposições tonais atenuadas. E uma indelével impressão de nostálgica e solene mansidão resignada. 
Penicheiro não pinta o que vê, pinta o que viu. Ou melhor, a impressão com que ficou.
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Foi esta visão sentimental, silenciosa e velada pela distância do tempo que talvez tenha tranquilizado os novos (e até os velhos) burgueses. A-do-ra-ram. Penicheiro tornou-se mesmo o artista mais premiado e homenageado  pelos “clubes de serviço”.  Arrematavam tudo, em alegres e selectas jantaradas. À peça ou à molhada. 
A consagração popular veio depois, naturalmente. O povo, como é sabido, aplaude sempre os vencedores.
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Porém, a coroa de glória de Zé Penicheiro, a verdadeira consagração, surgiu já quase no fim da sua vida (e carreira, que os artistas trabalham sempre até ao fim), em 2004: a encomenda de um mural monumental pela Universidade de Aveiro, para comemoração dos seus trinta anos.
Nada mal. Para um homem que se tinha feito a si próprio, que se gabava de nunca ter ido à escola e de toda-a-vida ter nutrido um sincero desprezo pelo conhecimento académico.
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sexta-feira, 21 de Março de 2014

a poesia

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O primeiro poeta artificial do mundo chama-se "PoeTraiMi". 
Como se topa logo plo nome, é português
A sua criatividade não tem limites 
e a inspiração não lhe falha, 
gerando poemas em menos de um minuto.
E em língua portuguesa. Claro. Ai não.
Foda-se. 
Que nunca lhes falte a criatividade. Aos tugas. 
Nem os fundos para a filhadaputa da investigação. 
Putaquiospariu.
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Peónias e limões. Hoje. No meu jardim. Dia mundial da Poesia, ou lá o que é. 
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segunda-feira, 17 de Março de 2014

Zé Penicheiro

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O pintor José Penicheiro morreu ontém, com 94 anos.
Porque o conheci, julgo natural que me seja exigido um depoimento que vá um pouco para lá da ditirâmbica palermice circunstancial, habitual noutros meios. Tal seria indesculpável, dada a minha responsabilidade e a dimensão incontornável do artista.
Ficará para mais tarde. Por hoje, fiz-lhe um retrato. Com um abraço amigo.

Até um dia, Zé – e que seja daqui a muito tempo.
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domingo, 16 de Março de 2014

Hermeto Pascoal

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Eu ganho dinheiro mas dinheiro não me ganha. 
Porque com ele eu compro e não sou comprado
Hermeto Pascoal
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O espectáculo da nossa vida pública é deprimente. Mas não é de agora. A Alexandre Herculano, por exemplo, dava ”vontade de morrer”.
A mim também. O que me vale é que, como Herculano, também tenho um quintal, para onde me retiro. E agora, com a Primavera, ocupa-me o corpo (há imenso que fazer) e desanuvia-me o espírito. Nesta fase do ano, a observação paciente da constante renovação da natureza é um poderoso antídoto para o tédio e um razoável láudano para o nojo.
E depois há a música. E Hermeto Pascoal.

Hermeto é aquilo que eu conheço que se parece mais com um génio. Um mistério - alguém cuja fascinação perpétua com a beleza pura dos sons da natureza nos reconcilia com a vida e com algum sentido que esta possa ter.
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quinta-feira, 13 de Março de 2014

O secretário Maçães, dos assuntos alemães

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Passados quarenta anos exactos sobre a revolução de 1974, os membros mais proeminentes da actual classe dirigente são, mais coisa menos coisa, os filhos da classe dirigente do regime então deposto – ou, pelo menos, da sua classe mais privilegiada, alguma até de origem colonial e tudo. Isto é, são aqueles que viram o desabrochar da sua adolescência dourada bruscamente perturbado pelos dias convulsos do vintecincodabril.
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Os Passos, os Relvas, os Portas, as Cristas, os Pires de Lima, os Mota Soares, os Aguiar Branco, etc. nunca o esqueceram. O posterior acesso de cada vez mais “povo” à classe média também foi para eles um vexame - que estão, aliás, a tratar de vingar todos os dias.
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O que eu gostava de saber é aonde vão eles desencantar os subalternos que lhes fazem os recados, a sua classe sub-dirigente enfim, a classe dirigente do futuro: pentelhos como, por exemplo, este Bruno Maçães, um secretário d’estado dos assuntos europeus cujo genezinho da imbecilidade lhe permite entre outras alarvidades, e sem nunca recear o ridículo, ser mais germanófilo do que os alemães.

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