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sábado, 12 de janeiro de 2019

O poder boçal

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Esta imagem devia ter bolinha e devia ser vedada a mentes sensíveis e impressionáveis. Mas se eu podia piedosamente poupar-vos a este espectáculo nefando, o que ela reproduz está, infelizmente, em exposição permanente num dos locais mais frequentados da Figueira da Foz, o Jardim-Parque  Dr. Fernando Traqueia, em Buarcos, como prova perene e irrefutável da estupidez, incompetência, falta de bom gosto, de bom senso, de escrúpulos e de consciência moral e ambiental dos actuais detentores dos poderes públicos na Figueira da Foz.
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Se eu alimentasse algum género de esperança no funcionamento do poder local democrático eu subscreveria uma petição à assembleia municipal exigindo a rápida destituição, e imediata expulsão a pontapé no cu, de todos os envolvidos nisto: desde o inacreditável grunho que é presidente da Câmara, ao inexplicável imbecil que é vereador do ambiente, ao inefável idiota que é presidente da Junta e a cada um dos inqualificáveis “trabalhadores” que tornaram isto possível (num país decente ninguém pode ser obrigado a executar um trabalho para o qual não está qualificado e desde Nuremberga que “cumprir ordens” não é defesa que se apresente).

Se nutrisse alguma réstia de ilusão sobre o funcionamento da justiça eu processá-los-ia a todos sem excepção para que fossem julgados e condenados por crime hediondo.
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Por isto, resta-me a minha humilde opinião, e torná-la pública, neste também humilde blogue. 
Pode haver pessoas que a achem excessiva pois “afinal, são apenas árvores”, mas eu penso que quem faz isto a uma árvore é capaz de tudo; trata-se de alguém completamente destituído de empatia. 
Também penso que os psicopatas deviam ser tratados como tal, metidos em camisas de forças nos casos mais agudos (como é manifestamente o caso) e vigiados na convivência com os seus semelhantes (nos casos mais benignos) mas sobretudo, sobretudo, rigorosamente impedidos de exercer qualquer cargo susceptível de constranger ou influenciar a vida dos outros.
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A foto acima é de Maria Teresa Rozendo Rito e foi "tirada" da net.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Evasão, descoberta e hamparte


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Quando os dias se tornam insuportáveis e tudo o que os envolve demasiado deprimente, resta-me sempre a evasão. Por estes dias (noites) tenho andado por outros tempos pela serra d’Arga, pla mão de Aquilino, acompanhando as grandezas e misérias da casa grande de Romarigães. A narrativa dos tormentos eróticos de D. Telmo no assalto à sua cunhada Dionísia é do melhor sexo em português, e do melhor português já agora (bom de lei), que alguma vez li. O tesão, o grande tesão, vivo, brutal e imemorial - descrito em palavras, todas portuguesas - a rebentar de testosterona e de humor, sem eufemismos nem vulgaridades.
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Mas não me evado nem despaíso, apenas pla literatura. Agora descobri o Youtube. É verdade. Não o youtube das palermices virais, claro. Descobri que para além disso, mais fundo, numa espécie de nicho, é uma plataforma óptima para imensa gente cheia de muito talento. Gente de todo o mundo. 
São os makers, gente que faz coisas, que mostra como o faz e até se mostra a fazê-las, partilhando com o mundo os seus conhecimentos. São artistas e artesãos das mais variadas especialidades: carpinteiros, gravadores, escultores, impressores, soldadores, cuteleiros, serralheiros, jardineiros, construtores de instrumentos, etc. Gente como o norte-americano Mike Siemsen. Aqui, o velho mestre carpinteiro explica como executa excelsamente todos os trabalhos de marcenaria numa bancada sem prensa. Ou como o também norte-americano Frank Howarth, um artista sofisticado, que construiu para si próprio, ao lado da sua casa, no lugar de uma velha piscina, um atelier de carpintaria modernamente equipado onde se deleita fazendo coisas magníficas, como hobbie. Ou o australiano Neil Paskin, fotógrafo-carpinteiro-serralheiro-desenhador faz-tudo. Ou o francês Olivier Verdier, que construiu o seu atelier de marcenaria num velho celeiro algures no sul de França e tem como ferramenta fetiche uma maceta redonda de cantoneiro português. Ou o divertido canadiano (dos que comem ervilhas) Alain Vaillancourt, l ’gosseux d’bois. Ou o maker/artist alemão Hassan abu-izmero, que faz todo o tipo de things engenhosas. Ou Uri Tuchman, também alemão, que grava metais, pinta óleos, talha madeira e inventa as próprias ferramentas com que cria complexos mecanismos para autómatos bizarros. Ou o engenhoso turco Cemal Açar, outro faz-tudo num espaço reduzidíssimo. Ou o talentoso uruguaio Elias Maximiliano que, num espaço despojado e num silêncio quase monacal, faz carpintaria usando as mãos como ferramenta principal.
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Mas também há outros. Que além de fazerem coisas, falam sobre elas e sobre o mundo. Têm opinião. É o caso do pintor e meticuloso e exaustivo crítico de arte mexicano Francisco Soriano. Ou do brasileiro Eduardo Bueno, histriónico contador de estórias e divulgador de História que, em cada filme de poucos minutos, conta um episodio da história do Brasil, sempre repleto de pormenores pícaros ou picantes. Neste, por exemplo, conta como foi projectada a capital do país; não a actual Brasília, mas a primeira, Salvador (plos tugas). Vejam, também é história de Portugal, como a coisa foi realmente edificante.

E do pintor espanhol (de Sevilha) Antonio Garcia Villarán, que retratei acima.. As suas opiniões devastadoras (sobre algumas das unanimidades nacionais aqui ao lado) têm causado um impacto que ultrapassa já o youtube. Em filmes curtos e bem humorados, Villarán mostra as suas pinturas, desenhos e projectos de livros e fala do que gosta e do que não gosta. Sem eufemismos. Miró é o pior pintor de todos os tempos. Tapiés idem aspas aspas. E Salvador Dali. António Lopez, o autor do “hiper-realista” e fotográfico retrato oficial  da família real que alegadamente lhe custou “vinte anos de trabalho”, merece-lhe o mais vivo sarcasmo. Pollock, um embuste. E Frida Khalo, também. E Keith Haring. E todos os bonzos reconhecidos da chamada actual arte contemporânea internacional. Como Yoko Ono; ou Damien Hirst; ou Banksy.
Villarán criou mesmo um termo algo burlesco e subversivo, hamparte, que designa todo este tipo de arte que é arte apenas porque é designada como tal e porque a sua exibição é autorizada pelo mercado em locais apropriados, as galerias comerciais. 
Em 2018 este termo tornou-se viral. É verdade, ultrapassou mesmo o âmbito do seu canal do Youtube (que ainda assim ultrapassa já os 150 mil seguidores, contra os trinta mil da página de um gigante como o Museu do Prado) ganhando outras plataformas e chegando mesmo à imprensa. 
Villarán, que já considera que o seu neologismo seja acolhido pela Real Academia Espanhola criou, para evitar equívocos quanto ao seu significado, um manifesto em sete pontos que estipulam quando e em que circunstâncias uma obra deve ser considerada hamparte.
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É evidente que nada disto fez desvalorizar uma merda como Damien Hirst, que no final do ano voltou a pulverizar records de facturação vendendo pontinhos coloridos e tubarões em formol. Diz que mais de 140 milhões de euros. Em verdade, quem lhe compra aquilo continua a lavar dinheiro, mas plo menos todo o mundo ficou a saber que não compra arte. Compra hamparte.
Também é verdade que o dadaísmo e as boutades anti-arte de Duchamp foram um sulfuroso sarcasmo dirigido aos valores que o mercado considerava arte… até serem apropriados pelo mercado.
Cabe aos espíritos livres e inconformistas criar sempre mais e mais sarcasmos; e cada vez mais sulfurosos. E assim sucessivamente, como dizia João César monteiro, outro grande subversivo.
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

CARTÃO DE NATAL



Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de voo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
que desta vez não perca este caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.


João Cabral de Melo Neto

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Feliz Natal, ou lá o que é, a todos os ápifiú que ainda frequentam este pobre sítio ultimamente tão abandonado (espero que não se aborreçam demasiado, até porque podem sempre servir-se da prateleira, ou consultar o arquivo, pois quase nada do que lá está para a eternidade não a desmerece – que é como quem diz, citando o Lobo Antunes citando o grande Bocage: “isto é meu, isto não morre”).
E Boas Festas também, claro. E um Ano novo melhor ainda. Cheio do mais profundo escárnio pela estupidez em todas as suas formas.
No que me diz respeito prometo que vou tentar fazer como sempre fiz: rir-me de tudo (sobretudo dos lobos antunes). Ou, pelo menos, arreganhar-lhe os dentes.
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sábado, 8 de dezembro de 2018

Jules Renard

homem verdadeiramente livre é aquele que sabe 
recusar um convite sem dar explicações 
Jules Renard
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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Para acabar de vez com a “cultura” figueirinhas


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“A Figueira é uma cidade com oferta cultural de grande qualidade. Há um pouco de tudo, desde a programação eclética do CAE (concertos, exposições, cinema, etc.) até à oferta de teatro amador e música pelas várias coletividades, entre centenas de eventos que se realizam um pouco por todo o concelho. Temos ainda uma boa biblioteca municipal, um museu que se vai renovando, e instituições privadas que dinamizam a vida cultural da cidade.

Desponta uma nova geração que mantém viva a chama cultural do concelho. Gente que quer discutir as questões do nosso tempo, sem entrar em partidarismos ou tentar retirar dividendos políticos desse seu esforço. Devemos acarinhar estes jovens, participando, reconhecendo a importância da cultura como forma de libertação individual e coletiva.”



O texto em epígrafe podia ser uma das redacções do menino Zequinha se por acaso este, depois de uma trip de cogumelos esquisitos, escrevesse nos jornais o relato as suas viagens a lugar nenhum. Mas não. Trata-se de um delirante e alucinado texto publicado no “jornal” As Beiras por João Vaz, um circunspecto engenheiro e ex-vereador que vive lá (na Utopia, porra) e, feliz e despreocupado, conta como foi que tudo aconteceu (segundo a sua versão dos factos tudo se deve aos postulados visionários do ex-vereador da cultura António Tavares).
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Ora, a realidade não existe tal como é relatada na redacção delirante do senhor ex-vereador. Ou seja, o relato do senhor Vaz é demasiado bom para ser verdade; talvez porque a verdade seja demasiado má para ser relatada. E isto podia o sr. Vaz aferi-lo nas palavras avisadas do seu príncipe encantado, o cavaleiro da alegre figura que, aquando do lançamento da sua obra “Arquétipos e Mitos da psicologia social figueirense,” decretou solenemente que na Figueira “falta massa crítica interna”.
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A verdade é que a Figueira não é a Utopia, um lugar-nenhum. Se a Figueira, aliás, é algum lugar - perdoem-me as almas sensíveis - é um lugar ruim; um pardieiro; uma choldra: uma distopia. E isto não podia deixar de se reflectir na sua, digamos assim, “cultura”. Se não, vejamos: um grande escritor brasileiro injustamente esquecido e agora felizmente em vias de ser “recuperado”, Lima Barreto, disse uma vez que o seu país “não tem povo, tem público”. Queria ele com isto dizer, creio, no início do século vinte, que os brasileiros não agiam, só assistiam. Com a Figueira acontece o mesmo (tiens, também é verdeamarela), só que em pior: a Figueira também não tem público. Não age nem assiste. Os mirones e os papalvos que assistem às inaugurações vêm todos das freguesias; é o chamado “turismo de proximidade”. Não existe, aliás, outro tipo de turismo. Não há cá nada para ver. Na Figueira não há agricultura (deve ser o único concelho deste país meridional que não produz vinho nem qualquer outra cultura diferenciada), nem indústria. Nem comércio local. Não existe um jornal. Nem sequer uma livraria digna desse nome, ou uma galeria de arte. Ninguém vai ao Museu. Ou à Biblioteca. O cinema está às moscas.
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Oferta cultural de grande qualidade?? - A noite dos esqueletos?, a charanga a cavalo?, o jantar dos não-sei-quantos talheres, senhor engenheiro?
“Programação eclética do CAE”, senhor Vaz?? – Sem produção própria, qual o critério de escolha dos espectáculos programados?
Oferta de Teatro amador”??? –  Para quem cuja cultura teatral estagnou em Ramada Curto, senhor engenheiro Vaz, talvez.
Uma boa biblioteca municipal”?? - Uma que perdeu o espólio doado por um dos vultos da cultura portuguesa do século vinte para um museu de Vila Franca de Xira e onde agora é impossível aceder a uma única obra desse autor?
Um museu que se vai renovando”?? - Qual o orçamento anual desse museu para aquisições, e o critério, já agora, senhor engenheiro?
Instituições privadas que dinamizam a vida cultural??” – Quais? quantas?? Aonde, aonde?
Uma nova geração que mantém viva a chama cultural”’? - Quem? Quando? Quantos são, quantos são??
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Mas não há como um facto - ou uma atitude, um spleen - para explicar um fenómeno.
A actriz e encenadora Ana Madureira conta aqui um episódio bastante eloquente, que pode ser resumido assim: Ana integra a Troupe Tira-teimas que levou à cena na Sociedade Filarmónica 10 de Agosto a peça em um acto “O pedido de casamento”, de Tchekov, que estreou com casa cheia em Agosto, no dia do aniversário da colectividade. Estando agendados mais dois espectáculos, a Troupe foi entretanto notificada do seu cancelamento em virtude de a alocação do palco, dos meios técnicos, humanos e logísticos da colectividade estarem comprometidos com outras produções. Posteriormente os meios voltaram a ser disponibilizados mas apenas na véspera das datas escolhidas unilateralmente pela colectividade. Em tais condições, a Troupe, constituída inteiramente por amadores, rejeitou, naturalmente, a proposta.
Resumindo: a centenária 10 de Agosto, que se auto-proclamava orgulhosamente de “a teimosa”, por nunca ter desistido do teatro amador, finalmente desistiu. Terceirizou o teatro. Agora dedica-se ao aluguer de instalações e à "prestação de serviços". As “outras produções” em que supostamente estariam alocados o palco e os meios técnicos, humanos e logísticos era afinal o inenarrável tólquechô de variedades do Jotalves, o “jornalista” responsável pela página que um jornal de Coimbra dedica ao noticiário da Figueira. A mesma página onde o senhor Vaz escreve imbecilidades.
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Concluíndo: se “bactérias num meio é cultura”, é este o meio cultural da Figueira.
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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

um pé de vento.


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O furacão Leslie na minha casa. Um golpe de vento, coisa de meia-hora, e "quase sem dar por ela" (como diria o nosso lamentável autarca das Neves) eis-nos de volta à idade média: desde Sábado à meia-noite à luz da vela; sem água até terça-feira: sem comunicações até hoje às duas da tarde. 
Enquanto isto, o edil da Figueira da Foz vai fazendo tropelias enquanto profere as habituais banalidades em forma de estupidez, a Altice, a EDP, a Águas da Figueira (as grandes companhias) prosperam e o meu pobre cedro continua escarranchado num cabo de média tensão. 
Mas nós por cá estamos todos bem.

sábado, 13 de outubro de 2018

partilhando Desabafo

Em Setembro de 2008 desenhei o "retrato" daquele que considero um dos grandes desenhadores da nossa língua, alguém que consegue maravilhosos achados poéticos através de poderosas metáforas visuais: Arnaldo Antunes
Arnaldo fez publicar agora, agorinha-mesmo, nas redes sociais, este magnífico Desabafo que podeis ver-ler na barra lateral.
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domingo, 23 de setembro de 2018

da joana - os submarinos e as avionetas


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Ainda ninguém foi dentro. Muito menos restituiu a massa. Contudo, o nosso imarcescível presidente da república acha que a luta contra a corrupção é para continuar. Acha que está bem assim.  Enfim, maisómenos nos mesmos moldes.
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Eu creio todavia que a justiça portuguesa não é cega - tem é vista grossa, coitadinha. Um pouco, aliás, à imagem dos portugueses em geral. E da procuradora Joana Marques Vidal.
Só têm olhos para as gordas do correio da manha, para o empório da Crestina Ferreira na Sic, para o peso certo do Fernando Mendes na RTP, para as telenovelas da Liga nos (Benfica benfica, Lourosa lourosa, Marrazes marrazes) em todos os canais.
De maneiras que nem reparam que têm elefantes na sala; e avionetas da tecnoforma; e submarinos a voar.
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