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Segunda-feira, 19 de Março de 2012

O deputadinho por Coimbra


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João Portugal, o deputado sucialista por Coimbra que também é figueirinhas, descobriu que a vala de Buarcos é uma questão de saúde pública. Diz que “quer uma solução imediata” e preconiza mesmo o seu “emanilhamento”.
O deputado Portugal acha que encanar eflúvios de porcaria para o mar resolve os problemas da ecologia. Julga ele, pauvre petit con, que na praia da Claridade a merda, escondida ou dissoluta em água salgada, não fede.
-Eu cá acho que uma fiscalização eficaz e uma punição exemplar a quem conspurca linhas de água seria bem mais barato e realmente definitivo - mas isto sou eu a dizer; que nunca consegui sequer eleger um deputado.
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Contudo, para além destas, Joãozinho diz outras, mais, muitas merdas.
Aqui há tempos, disse que veria com bons olhos uma grande superfície comercial na baixa figueirinhas. Devia estar a referir-se, claro, ao edifício do actual Mercado Municipal e envolventes. Os promotores das obras de beneficiação da zona envolvente do Forte de Santa Catarina também devem ter os olhos nele - para além de um espelho de água artificial a poucos metros da foz natural do maior rio português e do grande oceano Atlântico, o projecto também já prevê umas escadas rolantes para o chópingue, perdão, mercado municipal remodelado
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Os pacóvios do país homónimo do deputadinho Portugal adoram espelhos de água. E escadas rolantes. E centros comerciais e o caralho. Enfim, obras realmente estruturantes.

- Por isso é que João Portugal já foi eleito uma porção de vezes e eu nunca consegui eleger um único deputado.

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Sexta-feira, 16 de Março de 2012

A papoila saltitante


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João Vale e Azevedo é um vigarista português muito peculiar. É um caso raro. Penso que exige estudo (um estudo honesto, já agora): o homem só rouba os ricos, o que só por si, desperta em mim uma desvanecida simpatia.
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Vale e Azevedo refugiou-se há anos na Inglaterra. Mas a Justiça da ditosa pátria não esquece (sobretudo quem rouba aos ricos) e não dorme; exige, nos tribunais da pérfida Albion, a sua extradicção.
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Contudo, o ex-presidente do Benfica conseguiu um feito que devia encher os portugueses de brio patriótico.
Ao contrário do Sporting que ontem, num feito muito justamente celebrado, se limitou a eliminar unicamente os milionários do Manchester City, Vale e Azevedo conseguiu que a sua defesa seja feita a expensas de todos os contribuintes ingleses; os de Manchester, os de Liverpool, os de Londres e até os das Malvinas. Ou seja, o homem fodeu os bifes todos.
Ora digam lá se isto não é “à Benfica”.
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Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Drummond


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Cidadezinha qualquer
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Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
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Carlos Drummond de Andrade, In Alguma Poesia
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Domingo, 4 de Março de 2012

Maomé na confraria do toucinho


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Paul Krugman é um economista norte-americano que ganhou uma vez um prémio nobél por causa de uma teoria qualquer sobre, salvo seja, as transacções comerciais globais e escreve todas as semanas (ou sempre que lhe dá na veneta) umas merdas no Niúiórquetaimes.
Krugman é o aijesus da esquerda moderna em Portugal. E não só. Também da direita. Vai daí, as merdas que escreve no niúiórquetaimes provocam sempre imeenso frisson neste país.
Sim, porque as nossas elites intelectuais (de esquerda e de direita) lêem imeenso o Niúiórquetaimes. Todas as semanas, nos pasquins de Lisboa, e nos blogues, há imeensa polémica por via das interpretações ou traduções criativas que ambas fazem das merdas que o Krugman diz no Níuiórquetaimes.
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-Krugman é um adversário intelectual da austeridade económica (mas não por cá, só na Alemanha).
-Krugman acha que os portugueses estão a ganhar bem demais e que deviam ganhar 30% menos do que os alemães (percebem agora porque se interessam os nossos intelectuais da direita radical pelo que diz o Krugman?) mas não tanto como os chineses (aqui exulta a esquerda moderna, partidária da austeridade moderada ou, soi-disant “inteligente”).
-Krugman discorda da receita merkozy para a Europa. 
-Krugman não acha que o euro seja lá grande espingarda. 
-Krugman acha que a entrada de Portugal no euro não foi lá grande espingarda.
-Krugman gosta imenso do sistema de segurança social europeu; o que faz dele, na América e para a nossa direita radical (e para a moderada) um perigoso esquerdista.
-Krugman acha que não dá para analisar Portugal porque este é “um país de economia muito difusa”, o que quer dizer, mais coisa menos coisa, que ele nunca tinha sequer pensado nisso pois não se preocupa com pentelhos, coisas insignificantes - só com a macroeconomia - o euro, o dólar, as transacções comerciais globais e o caralho, you know
Ou seja, como quase todos os norte-americanos, duvido que soubesse onde fica Portugal, ou sequer que esta choldra era país.
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Mas agora já sabe. 
Foi homenageado com, não um nem dois mas três; sim, 3 - três - doutoramentos honoris causa. Por outras tantas universidades de Lisboa meudeus.
É preciso que se diga que estes templos do saber português são dirigidos por alimárias professorais que se estão positivamente a cagar para o que diz o Krugman; ensinam e preconizam todos os dias precisamente o contrário.
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Mas não faz mal. A nata dos economistas portugas pode não aprender nada com Krugman, mas ensina-lhe geografia. Essa é que é essa. É preciso mostrar às putas quem é que são os coirões.
Todavia, e apesar de tudo, consta que se divertiram todos imeenso.
A aula magna estava toda iluminada (apinhada de luminárias) e todos queriam ver o Krugman. Parecia o salão de festas da confraria do toucinho em dia de entregar o diploma a um Maomé cínico mas desvanecido que se deixou levar para a pândega.
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Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

A bomba de carnaval



A notícia caiu como uma bomba, no Carnaval.
Ou como uma bomba de carnaval: ninguém levou a mal. Na avenida, e na blogosfera local, ninguém comenta (à excepção do meu amigo Agostinho, que a noticiou). A Figueira da Foz, imperturbável, festeja o seu meio-carnaval, com o seu meio-rei e a sua meia-tolerância-de-ponto.
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Depois de seis anos de julgamento, o tribunal de Portimão deliberou condenar Aprígio Santos, o magnata figueirense do futebol e da especulação imobiliária, a dois anos de prisão (com pena suspensa) e 150 mil euros de multa por um crime de dano contra a natureza e sete crimes de desobediência. 
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Ou seja, Aprígio Santos, o mais destacado entrepreneur do conselho (a quem já dediquei duas postas, aqui e aqui) é, julgo poder-se agora dizê-lo com propriedade, um pulha.
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Mas é claro que a estória ainda não acabou. O que talvez explique a indiferença da avenida e o silêncio da blogosfera.
Agora, naturalmente, seguir-se-ão os recursos e o caralho. Até à absolvição. Ou prescrição. Que é como quem diz “até que se faça justiça”. É que Aprígio é, entre outras notáveis cousas, o único empresário figueirense que respondeu ao desafio do presidente da República e aderiu à campanha contra a exclusão social, integrando a associação Empresários pela Inclusão Social (EIS). Talvez os trâmites do processo se concluam a tempo de Cavaco o condecorar, a Dez de Junho, com, quem sabe, a Ordem do Mérito Industrial ou o caralho.
Ou, como dizia Luiz Pacheco, “puta que os pariu”.
Seja como for, será carnaval. Ninguém há-de levar a mal.
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

O procurador da Beira



Um tigre não proclama a sua “tigritude”, ele salta  
Wole Soyinca

Bem sei que para abordar qualquer assunto de modo digamos, politicamente correcto, não se deve fulanizar. Mas se a justiça em Portugal é, consabidamente, uma merda - um mundo de conchavos tácitos, obediências cegas, conveniências surdas, conivências mudas e iniquidades que gritam, como fazê-lo sem olhar para os seus rostos mais proeminentes? – Ainda mais quando se põem a jeito.
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No estado em que jaz a justiça em Portugal é, no mínimo, original que um dos seus agentes principais profira abobrinhas como estas:
- O inefável procurador da república disse numa entrevista que nunca – nunca - foi pressionado por um político (que devem temer o meu mau-feitio, disse ele), ah valente. E disse mais. Disse que gostaria de ser lembrado como um beirão com coragem.
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Mas o procurador Pinto Monteiro não é um tigre. Ou se for, é um tigre português. Beirão. Os tigres beirões não são valentes, são astutos. Nunca dão murros em facas bicudas. Não dão saltos, aninham-se.

No que me diz respeito, e como assim de repente não me consigo lembrar de algum salto que tenha dado, passarei a lembrar-me dele como alguém que gostaria de ser lembrado como um beirãozinho valente. Um tigre de papel.

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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

A graça moira



Este abantesma - sobre o qual já me debrucei aqui - deu de novo um ar da sua graça. Esta contradição viva (ele é um intelectual-cavaquista, vejam bem) a quem o governo ofereceu agora um feudosinho à medida, acaba de privatizar a língua portuguesa; o ex-comissário de quase-tudo travestiu-se numa espécie de Maria da Fonte das consoantes mudas comovendo assim, com este sobressaltozinho cívico de opereta, uma vasta colecção de idiotas que escrevem nos jornais e transformou o debate entre os prós e os contras acordo ortográfico numa inaudita e imbecil guerra entre esquerda e direita.
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A verdade é que o acordo ortográfico nem sequer é uma questão política - é um aborto sem pés nem cabeça. Mas para que se veja a que ponto chegou a idiotia nesta choldra, uma das suas maiores faculdades de Letras, a de Lisboa, ainda não tem opinião oficial sobre o assunto.
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Contudo, no que me diz respeito, continuarei a escrever como até aqui. Quanto a ler, cheguei a uma idade em que quase só releio (para tal basta-me, ai de mim, metade do que foi editado até hoje) e deixei de comprar jornais (o que neles me dificulta a leitura não é a ortografia, é a estupidez e a desonestidade). Além disso, confesso que, apesar da “umidade” e da “anistia”, leio sem maiores dificuldades qualquer texto brasileiro.

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Enfim, reconheço que me preocupam bem mais outros acordos. Mas também reconheço que a claudicação neste, como no laboral e no da troyka, por exemplo, indicia que a tendência dos portugueses para se inclinarem, resignados ou abúlicos, perante os diktats do dinheiro, chama-se declínio - como referiu esta semana um tal de Shultz, para grande escândalo das alminhas patrióticas.
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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

Fernando Lanhas, “a exigência na procura do essencial”


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Fernando Lanhas foi hoje a enterrar.
Tinha oitenta e oito anos.
As luminárias que escrevem os obituários dos jornais arrumaram a coisa com: “morreu o “precursor da pintura abstracta”. Os ignorantes mais “especializados” chamam-lhe mesmo “o pioneiro da introdução do chamado abstraccionismo geométrico em Portugal”(?!).
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Mas ninguém é só isso. As pessoas que o conheceram, ou a um cagagésimo da sua obra, sabem que ele foi muito mais do que isso. Para Júlio Pomar, por exemplo, um rapaz do seu tempo, Fernando Lanhas "ocupa um lugar fundamental (no cenário artístico português do século XX). É dos poucos artistas verdadeiramente originais", acentua. "Extremamente discreto no seu trabalho" e sem "nunca se ter batido pelo reconhecimento público", Fernando Lanhas destacava-se "pelo muito que sempre investiu na mínima coisa que fazia", pela "intransigência" e "pela exigência". Esse é, para Júlio Pomar, um ponto fulcral na sua obra: "A exigência na procura do essencial"
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Já para mim, que conheço muito mal o resto da sua obra material multifacetada (de arquitecto, poeta, astrónomo, arqueólogo, paleontólogo), Fernando Lanhas era sobretudo um extraordinário desenhador. O seu traço fino e incisivo transformava o mais despretensioso desenho num exercício luminoso de lucidez e emoção inteligente e verdadeira.
Quando eu for grande, quero desenhar como Fernando Lanhas.
Quero lá saber do que os ignorantes escrevem nos jornais.
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Ulrich (da série “o rosto da classe dirigente”)


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Neste país de prodígios não são apenas os fidalgos e os senhoritos que têm berço. Os burgueses também; têm linhagem,  pedigree.
Fernando Ulrich, por exemplo, não precisou de concluir a licenciatura em economia para ser o que é hoje - a coisa está-lhe nos genes – ele provém de uma família ligada à banca e às finanças, com raízes em Hamburgo, na Alemanha do século XVIII (é um espanto o que se aprende na wikipédia).  
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Contudo, ao contrário dos seus compatriotas do Deutche Bank, que empocharam uma fortuna pornográfica com a pobreza dos gregos (isto é, “apesar de estarem expostos às dívidas soberanas dos países periféricos”), o nosso Fernandinho confessa que apostou na dívida grega e perdeu: o seu banquinho, o BPI, apresentou um prejuízo de duzentos e três milhões de euros. Nem mais.
Mas o nosso ulrichzinho não se atrapalha por aí além; já sossegou os accionistas e até os clientes. Espera, diz ele, não fechar nenhum balcão, mas vai reduzir em vinte por cento os rendimentos dos seus “colaboradores”.
Este sim, é um “gestor de topo”. Um banqueiro com agá grande. 
Não é pois de admirar que tal guru da alta-finança seja ouvido com reverência (ou prostração?) pelos jornais de referência e de negócios, sobre tudo e sobre nada.
Agora digam lá se este país não é um alfobre de sumidades.

É um mistério estar como está.
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012