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sábado, 18 de abril de 2015

Eduardo Galeano


Los espejos están llenos de gente. 
Los invisibles nos ven. Los olvidados nos recuerdan. 
Cuando nos vemos, los vemos. Cuando nos vamos, ¿se van?
Eduardo Galeano

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O admirável Sampaio da Nóvoa

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Ao contrário do que muitos pensam, receio que o senhor Sampaio da Nóvoa tem tudo para chegar a presidente. Para começar, tem sorte. Os seus detractores mais coreáceos são estúpidos como pneus. Quando disparam contra ele acertam nos seus adversários.
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Um tal de qualquer-coisa-da-gama, até há pouco consultor de cavaco e filho de Jaime Gama (o tubarão do sucialismodemocrático que já retratei aqui e que é uma espécie vitalícia de presidenciável), arresolveu investir contra o bom do Nóvoa para lhe atingir o carácter. Resultado: acertou em cheio em Marcelo Rebelo de Sousa.
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Digam lá que o homem não tem sorte. Parece o Mr. Magoo. Não precisa de fazer nada para que tudo lhe corra de feição.

Diga-se, de passagem, que merece. 
É impossível que quem é capaz de despertar rancor em gente tão alarve não tenha uma ponta de decência.
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terça-feira, 7 de abril de 2015

O aval de Vital

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Confesso que não sei muito sobre Sampaio da Nóvoa.
O facto de “se rever” no generalíssimo Eanes e de ser apoiado por Mário Soares deixou-me, reconheço, primeiro perplexo - depois apreensivo.
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Mas a verdade é que não pode ser mau de todo um homem que um vira-casacas merdoso como Vital Moreira descreve como muito próximo das esquerdas radicais. Este pentelho caolho, grande luminária do pensamento jurídico português, acha mesmo (segurem-se) que Nóvoa pode vir a ser, se for eleito presidente, um perigoso “trouble maker” institicional, vejam bem.
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Depois de tal carta de recomendação receio que os dados já estejam lançados.  Agora é impossível a qualquer homem sensato não olhar para o senhor da Nóvoa com alguma benevolência, senão mesmo com bastante simpatia.
Da minha parte já conquistou, pelo menos, o benefício da dúvida.
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- Este é o segundo retrato que faço deste trambolho infeliz. O primeiro foi aqui
Se no entanto  me perguntassem porquê a insistência em fixar os traços de um estafermo, responderia, como o grande George Grosz, que se trata "de um interesse digamos mais científico do que própriamente artístico".


É que, como referi nesta posta (a respeito de outro rematado idiota), “tal como Leonardo (os grotescos), Velásquez (os bobos e os anões) ou Gericault (os alienados) perscrutaram complexas psicopatologias no desenho de idiotas, também eu sinto uma irreprimível, embora modesta, vertigem pelos abismos da alma humana”.
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sexta-feira, 3 de abril de 2015

o conselheiro acácio

                                            


o pedante é um imbecil adulterado pela educação
Miguel de Unamuno
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Segundo o inefável Aguiar-Branco, Silva Lopes (sobre quem também já me pronunciei aqui) teve a “felicidade de partilhar o momento” com Manoel deOliveira.
Ele há economistas felizes. 
Eu atrevo-me a alvitrar que há, na proporção inversa, artistas infelizes como danados. Como Manoel de Oliveira (só de pensar, a caminho da eternidade em tal companhia).
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Segundo um amigo meu, “há gajos pá que não haviam de morrer nunca, caralho”. 
Penso que um deles é este Aguiar-Branco. Gajos como Branco nunca morrem. 
Ou então reencarnam sempre na forma do conselheiro Acácio.

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sábado, 28 de março de 2015

Na mira dos generais

O jornalista e activista dos direitos humanos Rafael Marques (sobre quem já me pronunciei aqui) está a ser julgado em Angola. Acusado, pelos generais, de “denúncia caluniosa”. Exigem-lhe novecentos mil euros de indemnização.
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No decorrer do processo, foi chamado a prestar declarações sem um mandato judicial, não teve direito à presença de um advogado durante o interrogatório e não teve acesso atempado ao teor da acusação, o que viola os mais elementares princípios internacionais que caracterizam um processo legal justo e a própria letra de lei angolana.
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O Bloco de Esquerda apresentou no parlamento um voto de protesto contra o julgamento manifestando solidariedade ao jornalista angolano Rafael Marques. 
O documento teve os votos favoráveis do Bloco, de 5 deputados do PS e a abstenção de um deputado do PS, mas foi chumbado pelos votos de PSD, CDS, PS, PCP e Verdes.
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Eu até compreendo o sentido de voto do pêpêdê, do cêdêésse e da maior parte dos deputadinhos do pêésse.
Não compreendo é o do pêcêpê e dos verdes.
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Bem sei que tudo tem explicação, até o absurdo e a estupidez. Agradeço por isso que alguém mo explique como se eu fosse muito estúpido.
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Gostaria que me explicassem com que parte deste voto de protesto e de solidariedade com Rafael Marques não concordam, e porquê.

Podem, se quiserem tornar a coisa pública e o esclarecimento mais universal, usar a caixa de comentários deste blogue. Se não, podem sempre usar o meu endereço de e-mail, que está na barra lateral. Estou em pulgas. 
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quarta-feira, 25 de março de 2015

O secretário ininputável

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Se o secretário d’estado das Finanças Paulo Núncio não sabia o que passava na Direcção-Geral-do-Tesouro é mau. Se sabia, é capaz de não ser melhor. Em todo o caso, o homem é, segundo o comentador-martelo da têvêí, um “zero à esquerda”. 
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Todavia ninguém o demite. Nem a ministreza que o tutela, a salazarinha dos cofres cheios. Nem o primeiro-ministro, que viaja com o cagueiro em cima de um livro sobre Salazar, demite os dois. Nem o presidente, que assegura “o normal funcionamento das instituições”, demite os três e se suicida.
Estamos nisto. 
Aqui há tempos um outro secretário, o da cultura, mandou-o literalmente “tomar” no cu. Contudo, dito assim, em “brasileiro” (que é, como toda a gente sabe, a maneira adocicada de falar português), até parece que o Viegas lhe aconselhou um refresco. Enfim, foi lá uma coisa entre eles.
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O melhor mesmo é fazê-lo à antiga portuguesa, de antes do “acordês”. É menos açucarado mas mais apropriado para o que se lhe deseja. É assim:
-”Ó Núncio, vai levar no cu”.
Sim filho, no sítio onde o teu chefe tem o salazar.
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terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto

Em Novembro de 2012 editei este “retrato” do poeta Herberto Helder
Soube hoje que morreu ontem, quando se cumpriram cinco anos da morte de meu pai.
Há cinco anos que para mim a Primavera é uma coisa triste. 
Este filho da puta do mês de Março está cada vez mais fúnebre.  
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terça-feira, 17 de março de 2015

Emir Kusturica

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Emir Kusturica é um músico e cineasta que é uma espécie de enxerto balcânico de Federico Fellini com Frank Zappa. Não é tão-tão como um nem bem-bem como o outro mas, ainda assim, possui de cada um deles algumas qualidades bem notórias, tais como uma imaginação delirante e rebarbativa e um humor escarninho e destemperado. Além disso é, hoje em dia, um dos poucos artistas reconhecidos que não teme tomar posição pública sobre o que acha pertinente, mesmo que "politicamente incorrecto".  
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Emir não gosta, por exemplo, daquilo que se convencionou chamar “ordem internacional” e di-lo alto e grosso, para grande escândalo das almas resignadas. Emir acha, por exemplo que o que foi feito na ex-Jugoslávia com o acordo do “concerto das nações” (incluindo o nosso lindo Portugal e o Vaticano) foi uma filhadaputice inqualificável.  Eu também. 
Emir também acha que o que o “concerto das nações” fez com a Iraque, o Afeganistão e a Líbia e está a fazer com a Síria e a Ucrânia é uma aleivosia do mesmo jaez. Eu também.
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Emir, tal como eu, também não tem os políticos eleitos em grande consideração. À excepção de um, “PepeMújica (sobre quem já me debrucei aqui).
Emir está em vias de culminar um filme sobre Pepe, de quem disse à imprensa uruguaia que é “o último herói que aceito como um herói no mundo da política. Dele ouvi uma explicação fresca daquilo em que acredito. Trata-se de um homem que acredita nas ideias e que necessitamos de um novo mundo”.
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Eu também acho notável alguém que mostrou que é possível um homem desempenhar-se de um alto cargo público sem jamais se ter sujado em “pragmatismos” acanalhados e oportunistas e nunca ter permitido que “banhos de realidade” lhe lavassem do cérebro as ideias em que acreditou toda a vida.

E também acho que alguém assim invulgar deve (só pode) ser celebrado por um semelhante.
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domingo, 15 de março de 2015

O aval do miguel

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Miguel Sousa Tavares é um daqueles cidadãos a quem a hereditariedade e a boa-imprensa fazem acreditar que é um escritor. A verdade é que a condescendência de uma vasta quantidade de pessoas (o publicozinho que lhe compra as obras e lhe permite levar a vidinha confortavelmente) também o faz acreditar que há mercado para o que ele, digamos assim, acha.
Assim, para além da cátedra semanal num telejornal da televisão do senhor Balsemão (onde ele explica as notícias ao povo ignaro) Miguel também dá entrevistas. Foi numa dessas entrevistas que Sousa Tavares partilhou com o vasto universo dos leitores do “Diário de Notícias” que acha que Ricardo Salgado (que ao que julgo saber, é seu compadre) é, segurem-se, “o melhor banqueiro português”.
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Como não sou compadre de nenhum outro banqueiro nem percebo nada de finanças, não tenho como o refutar. Mas se Miguel tem razão e o seu compadre é mesmo “o melhor banqueiro”, imagino os outros.
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terça-feira, 3 de março de 2015

O hilariante marcantónio


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A democracia representativa tem pelo menos um mérito; é que um membro do parlamento nunca pode ser menos incompetente do que aqueles que votaram nele.
Elbert Hubbard

A política em Portugal é - depois da publicidade, claro - o último refúgio do humor. 
O discurso político dominante, amplificado pelos media, tornou-se um intenso desfiar repetitivo de piadolas e de gagues – tudo pífio, previsível e penoso, como num circo triste. Generalizou-se uma espécie de humor burlesco que de tão equívoco – simultaneamente óbvio e obscuro - faz o riso amarelo.
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Contudo neste afã de fazer rir, o sinistro Marco António Costa fez recentemente os seus compinchas partirem realmente o côco, num meeting do pêpêdê, quando disse que o seu partido apoia António Costa (ultimamente tão criticado pela esquerda por causa da sua prelecção aos chineses).
Depois, ainda a rir-se mas não satisfeito e numa espécie de à parte, o incansável entertainer ainda acrescentou outra pérola de “espírito” alaranjado. Pôs-se muito sério - em pose-de- estado ou lá que é aquilo - e disse, muito circunspecto, que acha Pedro Passos Coelho “um homem honesto”.
Desta, incompreensivelmente, os compinchas não se riram. Nem os jornalistas. Não devem ter percebido o potencial hilariante da coisa. Só pode.
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Mas disse mais. Segurem-se. Ele disse: “Portugal é um país onde as notícias positivas se tornaram banalidades”.
 Este gajo é ou não é impagável?  
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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Pedro cruz e a paisagem sem figuras


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A estória é curta e resume-se assim: o jovem Pedro Cruz (que já retratei aqui e sobre quem já me debrucei aqui), foi convidado pelo presidente da Junta de freguesia De S. Pedro para fazer uma exposição de fotografia.
O jovem foto-jornalista, certamente desvanecido, aceitou o convite que encarou como um repto. Em lugar de postais bucólicos e turísticos o jovem Pedro, cidadão atento e interventivo, decidiu partilhar com os seus conterrâneos o que o preocupa, mostrando algumas das suas imagens que documentam a erosão do litoral costeiro, e da sua praia, e dando à mostra o nome de ALERTA COSTEIRO 14/15.
Leal, como só os grandes o sabem ser, o jovem fotógrafo deu uns dias antes uma entrevista a um jornal regional na qual anunciava que para além da paisagem devastada iria também expôr figuras, de responsáveis.
Em vésperas de dia de inauguração, Pedro dirigiu-se ao local marcado e começou a montar a selecção de imagens que, segundo o seu critério, melhor davam a ver a devastação da sua praia: paisagens, mas também figuras. Foi uma das fotos que mostrava figuras que o presidente da junta exigiu que fosse retirada. O jovem Pedro recusou fazê-lo e a exposição foi cancelada. Segundo o artista, no seu Face-Book, “O Alerta está dado”. 
(podeis acompanhar mais prolongamentos desta notícia  no blogue "outra margem").
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Esta estória exemplar demonstra, quarenta anos depois do vintecincodAbril, como este país continua afinal igual a si próprio e ao que sempre foi: um pobre e bisonho paraíso paroquial para pequenos chefes labregos que - no seu boçal entendimento, certamente inebriado plo esplendor do mando - pensam que podem apagar figuras de uma paisagem.
Mas também demonstra que há algo - para além do talento, claro - que um artista consciente, ainda que pobre, nunca admite que lhe seja escamoteado: o orgulho (o amor-próprio, meus lindos).
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Por isso, caro Pedro, nunca agradeças a quem te enaltece o talento e a independência (ninguém deve o que já é seu por mérito). Seria falsa modéstia.
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