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domingo, 31 de janeiro de 2016

Bill & Zika Gates

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O dinheiro só é poder quando existe em quantidades desproporcionadas
Honoré de Balzac

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Existem coisas que detesto tão visceralmente que me pergunto se é saudável. Algumas desde a infância, quando me tentavam instruir com a treta da cigarra e da formiga: nunca gostei da estória e detestei a moral; ainda hoje odeio formigas. Não o animal, claro, mas os valores edificantes que ele representa e que me tentavam fazer respeitar: a fussanguice, a ganância, a acumulação obsessiva.
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Também detesto tudo o que é de plástico. Tudo nele me horroriza. O brilho falso, o cheiro repugnante, a indestrutibilidade, o som desagradável. Falta-lhe a sinceridade do frágil vidro, a honestidade da efémera madeira, a singeleza do perecível papel, a alta-fidelidade do corrosível metal. Trata-se da substância mais vil fabricada pelo homem. A pior coisa que a humanidade fez a si própria (mais ou menos como a escravatura, o capitalismo ou a prostituição infantil).
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Também detesto alguns países. Como a Suíça, por exemplo. A Suíça cobra à entrada qualquer pedido de asilo e mais dez por cento do salário do desgraçado depois deste arranjar trabalho. Ah, como eu odeio a Suíça.
Um dos meus sonhos molhados mais frequentes é com a implosão da Suíça; que depressa contudo se transforma no meu pior pesadelo: a ruptura dos seus inúmeros cofres fortes - que guardam o pecúlio acumulado de todos os ricos da terra, essas formigas – provoca em seguida uma tal avalanche de merda que arrasa para sempre a Itália atolando-a num imenso mar de lama e de lixo tóxico (a Itália é, para quem não saiba, e apesar de todos os seus quês e porquês, a mais bela obra-prima da humanidade, ou pelo menos uma das mais conseguidas). Acordo sempre sufocando, submergido numa estranha e desagradável sensação de culpa (também detesto a culpa, esse resquício da minha formação católica), como se tivesse a boca cheia de terra e de formigas.
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Ah, e odeio os ricos. Tudo neles me parece repulsivo: a moral, os costumes, o estilo, até o gosto. Detesto seres humanos que acumulam riqueza para obter poder sobre os outros.
Mas também abomino sistemas políticos ou económicos, como o capitalismo por exemplo, que permitem que seja possível a um só homem acumular para si tanta riqueza como a que partilham milhões dos seus semelhantes. Sujeitinhos como o boçal Donald Trump; ou o infame Alexandre Soares dos Santos. Ou Bill Gates.
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Bill Gates fez fortuna com uma ideia de sonho: conseguiu convencer as pessoas de que necessitavam de algo que nunca tinham tido antes: um computador pessoal - os computadores pessoais servem, como toda a gente sabe, para resolver problemas pessoais que não existiam se não houvesse computadores. Que são de plástico, claro.
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Bill tornou-se muito rico, o mais rico dos ricos, e criou uma Fundação - de benemerência, claro (tudo o que Bill faz é sempre para benefício dos outros e nunca jamais para seu prejuízo pessoal). 
Bill teve então outro sonho, como o dos computadores. Só que com mosquitos. Bill sonhou que transformar mosquitos em vacinas era uma solução benemérita para acabar com algumas doenças que afligem a humanidade em países pobres e, em simultâneo, lograr destes uma renda fixa que lhe garantiria o aumento exponencial do pecúlio para a eternidade.
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Com a ajuda de cientistas pouco escrupulosos (a Fundação Bill e Melinda Gates pagou a pesquisa) e de elites corruptas e desmioladas de países como o Brasil, as ilhas Caimão e a Malásia por exemplo, conseguiu tornar o sonho possível.
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Só que o sonho molhado de Bill, o super-negócio-humanitário do mosquito-vacina, está a transformar-se no pior pesadelo de todos os países sub-tropicais: o vírus Zika e a microcefalia.
Há, no entanto, quem diga que não foi apenas uma boa ideia que correu mal (como a do Dr. Frankenstein ou a da invenção do plástico) e que se trata isso sim de uma estratégia cínica e deliberada de exterminação; genocídio premeditado - de eugenia, selecção artificial. Iliminação daqueles que os ricos, como Bill, acham inferiores. Controle da população para controlar os bens alimentares. Dinheiro. Poder. Como este vídeo explica:
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Mas Bill não sente culpa. Nem tem pesadelos. Bill nunca acorda com a boca cheia de formigas. Pelo contrário, levanta-se todos os dias mais rico e pavoneia-se com os bolsos cheios de mosquitos. Transgénicos e virais. Repulsivos, venéreos e filhosdaputa. Como ele, insaciáveis pelo sangue dos outros. 
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Carlos de Oliveira

Soneto
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.
Carlos de Oliveira
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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Reflexão contida (com Carlos de Oliveira e alguns factos tristes)

O espantalho Reboredo; na bruma, ao fundo, sob o cedro, no meu jardim.
Maiorca, baixo-Mondego. Hoje de manhã, 
pla fresca.
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No dia das eleições integrei uma assembleia de voto. A mesa nº1 de Maiorca fica no edifício decadente do Palácio do Conselheiro Lopes Branco, mais exactamente na sala que a Junta destinou à sua biblioteca. Foi aí que, para entretecer o tédio dos longos minutos esperando eleitores erráticos e recalcitrantes, me fui deixando absorver na leitura de um livro escolhido ao acaso. “Casa na Duna”, de Carlos de Oliveira.
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Li-lhe todas as quase duzentas páginas.Trata-se de um romance político sobre um tempo que já não existe. Mas também uma crónica social melancólica e expressionista. Uma estória de miséria humana e de decadência. 
Tudo se passa aqui bem perto de onde habito, nas terras desoladas entre a bairrada e o mar, a Gândara. Mas é bem o mesmo ambiente funesto e a mesma decadência sem moral, quase animal, de aqui e de agora, e de sempre; uma coisa sem redenção, opressiva como a consciência do ciclo das estações e da inclemência inexorável dos fenómenos atmosféricos extremos.
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Editado em 1943, é a primeira obra de um escritor então com apenas vinte e dois anos. Reescrita pelo autor para a sua re-edição em 1980, é uma obra-prima de frases curtas e descrição enxuta - mas exaustiva na observação atenta ao pormenor - do tempo, da paisagem, das personagens e do seu clima mental e motivações obscuras. 
Escrito num português saboroso e sem ambiguidades, não há neste romance nem um advérbio a mais; ou a menos. Tão bom como o melhor Simenon. Carlos de Oliveira haveria de escrever apenas mais cinco antes de morrer, em 1981, sem completar sessenta anos. Dois deles, "Uma abelha na chuva" e "Finisterra", obras-primas absolutas da nossa literatura do século vinte. É uma lástima que, ainda assim, um escritor como ele seja hoje tão pouco lido e referido.
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Em dia de eleição presidencial não pude deixar de pensar no país de hoje e na sua quasi unânime predisposição anímica para aceitar a ordem natural das coisas; e na acéfala aclamação geral de Marcelo Rebelo de Sousa; mas também na triste e canhestra imaturidade de alguns dos seus mais festejados escritores da actualidade; e em como tudo isto pode ser afinal indício da mesma atávica e venérea tendência para o opróbrio que o injustamente esquecido Carlos de Oliveira descreveu com mestria na sua “Casa na Duna”.
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sábado, 23 de janeiro de 2016

Da Nóvoa

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Acabou ontem a campanha eleitoral. 
Eu acabo a minha hoje, dia de reflexão, com o cromo que faltava e uns desobrigados e despretensiosos considerandos sobre a figura do presidente. 
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Confesso que o facto do candidato Sampaio da Nóvoa ser apoiado publicamente por Ramalho Eanes (que considera Cavaco um sujeito honesto) e por Mário Soares (que não considera o generalíssimo lá grande coisa) deixou-me primeiro perplexo, depois apreensivo.
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Ao esmiuçar este facto tornou-se-me no entanto bastante evidente que: 
  1. é perfeitamente possível ser-se um pouco estúpido e ainda assim ser-se um bom presidente da República – desde que se seja muito honesto – como o general Eanes.
  2. Mas também que um bom presidente até pode ser intrinsecamente desonesto, desde que seja um pouco inteligente – como o dr. Soares.
  3. Já para se ser um mau presidente, é necessário apenas alguém capaz de conjugar, em simultâneo, uma reluzente estupidez com a mais sonsa desonestidade – como o prof. Cavaco)..
Mas voltando à vaca fria - ou seja, o candidato da Nóvoa – e a propósito dos atentados de carácter de que foi vítima durante a última semana:  é pouco provável, senão mesmo impossível, que alguém capaz de despertar tanto rancor em gente tão miseravelmente mesquinha e medíocre não seja eminentemente um homem decente..

No fundo, é apenas disso que o país precisa. De uma segunda volta. E que viva a república.
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Edgar Silva

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Edgar Silva é Mestre em Teologia  Sistemática e militante do Partido Comunista Português. 
Edgar não é um candidato bonito. Nem sequer muito sagaz. Como orador também não é grande espingarda.

Mas eu vou votar em Edgar Silva.

Tem uma história de vida admirável.

Tudo me diz que, se fosse eleito, jamais aprovaria o bombardeamento de um país como método de democratização.

Além disto, tenho a certeza de que quando tivesse dúvidas na interpretação da Constituição, decidiria sempre sempre pelos mais fracos. Nunca a favor do infractor.

A mim, isto basta-me.
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O sr. Silva não vai para Belém

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Embora Vitorino Silva pareça uma figura de ficção, Tino de Rans, o seu alter-ego, não tem nada que ver com o personagem interpretado por James Stewart no filme Mr. Smith goes to Washington; nem sequer com o de Peter Sellers em Bem-vindo, Mr. Chance.
Tino não padece do idealismo ingénuo e quixotesco do personagem de Kapra, nem da desconcertante inocência perante a complexidade da vida do Mr. Chance de Hal Ashby.
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Não. Tino é um personagem português. Genuinamente português. Dos autênticos; isto é, muito terra-a-terra. Não tem a densidade nem a ossatura complexa para uma parábola política, apenas a substância elementar para uma paródia social.
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Como o zé-povinho, Tino é um simplório; mas não ingénuo, nem inocente. É manhoso, espertalhão. Teve lições de comunicação -para aprender a falar com boçês” - disse ele aos jornalistas.
Ele não tem sonhos, como Mr. Smith; nem perplexos estados de alma, como Mr. Chance. Apenas reacções. Espírito ágil e repentista, como se viu no derradeiro debate, Vitorino Silva está na política pela mesma razão que os ícones da música pimba estão no negócio - muito menos pela música do que pelo negócio: é isso aliás que lhes permite viver bastante acima das expectativas do seu público. 
No mesmo sentido estão os ganhos de visibilidade que a participação na política proporciona a Tino: permitem-lhe levar a vida com ela direita, não vergada ao mester de calceteiro.
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É disso que trata a sua candidatura, “Portugal com Tino”. 
Este sr. Silva, ao contrário de Mr. Smith, não vai para Belém. Ele sabe que não vai. Toda a gente sabe, mesmo os que votam nele (todos sabem que participam em algo burlesco). 
Mas embora todos se riam imenso – é um autêntico desatino - não estou certo que tenham captado nem um terço da piada.
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Marisa

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Marisa Matias é, de todos os os candidatos, o mais bonito. Sem comparação. E inteligente. E então quando ela fala. Ah, quando ela fala. Até o timbre da sua voz é de esquerda.
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Marisa tinha à partida, tudo para ter o meu voto. Para mim, como para Vinicius, beleza é fundamental. Mas não vai ter.
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A sua vontade de agradar (ou, como diz agora “de capitalizar simpatias”) levou-a a ceder uma entrevista à revista Caras. Ou vice-versa, não percebi muito bem. Cinco páginas. Papel couché. Belas fotos. Glamour e tal. Coisa fina. Não gostei. A revista Caras é aquela publicação do empório Balsemão que se dedica a divulgar o laifessetaile e a intimidade dos senhoritos.
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Também já não tinha gostado que ela tivesse, no parlamento europeu, abençoado com o seu voto o bombardeamento da Líbia.
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Por isso não vou votar em Marisa.
Porque nada me diz que, caso fosse eleita presidente da República de Portugal, ela não tivesse a tentação de continuar a agradar ao universo dondoca que visivelmente pretendeu seduzir.
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E porque também nada me diz que (embora tenha, e muito bem, ao contrário de outro candidato de esquerda, defendido as liberdades cívicas dos cidadãos de Angola) não tivesse também a tentação de aprovar uma provável democratização desse país através do bombardeamento massivo. Como fez com a  pobre Líbia.
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Por isto não vou votar em Marisa.

Votar nela seria, como dizia também Vinicius, “como amar uma mulher só linda. E daí?
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terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O professor espectáculo

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Os nossos egrégios avós que implantaram a República portuguesa nunca concederam à mulher o direito de voto. Não o fizeram apenas por serem um bando de façanhudos machistas prepotentes e botas-de-elástico (está bem, também o eram um pouco, mas era esse o ar do tempo). Eles tinham a consciência bem aguda de que a população feminina estava, à época, muito mais vulnerável à influência retrógada da Igreja católica e que, se tivessem cedido aos arroubos das sufragettes, tal significaria o regresso imediato e em força (e por via democrática) do país ao tempo de D. Miguel  e da santíssima inquisição.
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Os nossos velhos republicanos, positivistas, depositaram então todas as esperanças naquilo a que chamaram instrução pública. Tinham uma fé inabalável na literacia e no conhecimento informado para remover de vez a idade média (o preconceito, a ignorância, a superstição e a estupidez em geral) do espírito dos portugueses de ambos os sexos.
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Pois bem, cem anos de instrução pública depois, os tugas de todos os sexos já quase todos sabem ler, ainda que não pratiquem demasiado. Continuam, por exemplo, a não fazer a mínima ideia do que seja a razão pura, ou sua crítica; ou o espírito e a sua fenomenologia, ou sequer a Evolução das Espécies; ou o Capital e a luta de classes; muito menos o que disse Zaratustra ou o que escreveu Simone de Beauvoir. Eles lêem é José Rodrigues dos Santos e a revista Caras.
É essa leitura informada de aventuras e curiosidades da vida airada de príncipes encantados e donzelas em apuros que, juntamente com a devoção à televisão, lhes tem formatado o espírito para sufragar alegremente a carreira política de carinhas larocas como José Sócrates e Santana Lopes. Ou Pedro Passos Coelho. E que, a acreditar nas sondagens de opinião, vai propiciar a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa.
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O prof. Marcelo Rebelo de Sousa é, de todos os candidatos, aquele cuja falha de carácter é mais notória a olho nu. Marcelo é, parece-me, aquilo a que se chama vulgarmente um poltrão, um balelas, um fala-barato, um tretas; um espírito equívoco e dissimulado, retorcido como o cepo de uma olaia; um chiquinho-esperto intriguista e manipulador, ungido pela predestinação. E a sua candidatura uma falácia, tão anedótica como a de Tino de Rans.
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Filho de um fascista, ele próprio fascista quando jovem, não foi à guerra defender o império porque o papá era ministro. Afilhado do ditador, de quem herdou o nome próprio, descobriu a social-democracia já adulto, com o vintecincodabril (foi um coup de foudre). Foi director do Expresso de Balsemão e líder do pêpêdê, mas tornou-se conhecido, famoso, por ser especialista em tudo, e comentador, na televisão. Foi aí, com o cinismo leviano dos velhacos que, durante anos, Marcelo fez os malabarismos de prestidigitação cujas bolinhas de sabão deixam hipnotizado todo um vasto eleitorado que se deleita, reverencial e alarve, com a prosápia vazia dos doutores e com o laifessetaile dos famosos.
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Marcelo é, no entanto, volúvel como uma borboleta: tem ideias sobre tudo e para todos os gostos; e incontinente como um roedor: de cada vez que mija tem uma ideia, não pára nunca de se reproduzir em contradições.
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Doutor em Ciências jurídicas, catedrático de direito e conselheiro de Estado, Marcelo também acredita, aparentemente, no Direito Divino. Só isso (ou uma qualquer excêntrica espécie de megalomania mórbida) faria um candidato presidencial presidir também a uma coisa que dá pelo nome de Casa de Bragança (uma instituição que pugna pela legitimidade das pretensões deste artolas e dos seus descendentes à soberania de Portugal).
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Nunca confrontado, por jornalistas ou concorrentes, com este aparentemente real paradoxo, ou imbróglio ético-legal, de Marcelo espera-se que, caso seja eleito presidente da República de Portugal, leve a assertividade filosófica e a coerência política ao limite das suas óbvias consequências cómicas: que abdique de imediato do cargo em favor de S.A.R., a quem reconhece o direito divino, por hereditariedade, à chefia do estado. Ou que, no mínimo, convoque um referendum ao regime.
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É esta a falácia da sua candidatura - que, se sair triunfante, resume num desfecho anedótico todas as partes gagas de uma república patética e da sua cidadania triste.
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sábado, 16 de janeiro de 2016

O fenómeno anti-corrupção


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Paulo Morais é oriundo do universo do pêpêdê, do qual se desarriscou há apenas dois anos. Todavia há pelo menos quinze que Paulo Morais trava uma luta inflexível contra a corrupção em Portugal.
Paulo diz tudo o que lhe apetece e o que não lembra ao diabo. Acusa tudo e todos, de tudo e de mais alguma coisa. A sua estratégia é a da merda no ventilador.
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É assim: primeiro faz, diga-se, um rigoroso, certeiro e muito perspicaz diagnóstico do que está errado: critica as leis, quem as faz (sempre sem nomear os sujeitos), o processo como são feitas (é algo parecido com o das salsichas ou o da mortadela, reconheça-se), quem as aplica e até o seu não cumprimento. Depois, liga o ventilador. Acusa todo-o-mundo e ninguém.
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Quase tudo o que ele diz (“os políticos são todos iguais” e tal) é mozart para um taxista de lineu  - é baile na barbearia, música mesmo muito popular, - e no entanto, inexplicavelmente, Paulo não despenca nas sondagens. E entre outras muitas coisas diz que, se for eleito, vai - segurem-se – “obrigar o parlamento a legislar contra a corrupção”. Assim mesmo.
- E mesmo assim, apesar de ter coluna fixa no Correio da Manhã e tudo, o seu nome continua um dos menos citados nas preferências do seu público alvo, o povão mais justiceiro, o leitorado do Correio da Manhã..
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Há, contudo, ainda mais dois factos no fenómeno Paulo Morais que me enchem de perplexidade:
- nunca as suas denúncias deram origem a qualquer abertura de inquérito pelo Ministério Público;
- também nunca foi condenado em nenhum dos inúmeros processos por difamação de que foi alvo.

Vá-se lá entender isto.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Maria quer ir para Belém

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Maria de Belém Roseira é um dos vários candidatos provenientes da área do partido socialista. Como tal, representa uma das sensibilidades mais substanciosas deste partido arco-íris: a mais beata e reaccionária: a que se dá, em simultâneo, à caridadezinha e aos negócios.
Segundo a circunspecta Renascença, Maria terá mesmo integrado o famoso “grupo de Macau” (quando aí exerceu o cargo de administradora da teledifusão local) no qual pontificavam Jorge Coelho, António Vitorino e o inesquecível Melancia, a governador.
Oriunda (como Marcelo Rebelo de Sousa) daquele meio social muito selecto, católico e conservador - o dos senhoritos - que vê o reconhecimento do mérito dos seus como o privilégio natural de uma muito controlada denominação de origem, Maria de Belém exerceu desde muito cedo altos cargos por nomeação. Licenciou-se em direito em 1972 e começou a carreira logo no ano seguinte, por cima, como técnica jurista no então Ministério das Corporações e Previdência Social na então Direcção-Geral da Providência, nos tempos de Marcello Caetano.
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A partir daí foi sempre a subir e quase sempre em instituições ligadas à saúde ou à previdência. Foi secretária d’estado de Pintasilgo, chefe de gabinete do ministro Gonelha, Ministra de Guterres. Mas também foi nomeada para outros cargos, sempre altos, por potentados cavaquistas: Leonor Beleza (a dos hemofílicos) nomeou-a vice-provedora da Misericórdia de Lisboa e Arlindo de Carvalho (um dos do BPN) administradora-delegada do Centro Regional de Lisboa do Instituto Português de Oncologia. Mais tarde haveria de presidir à comissão parlamentar de inquérito "sobre a situação que levou à nacionalização do Banco Português de Negócios e sobre a supervisão bancária inerente”.
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Maria de Belém é uma das duas únicas senhoras que se candidata a presidente. Ao contrário dos homens, reconhecidamente incapazes de se concentrarem em mais do que uma actividade ao mesmo tempo, as senhoras tem nessa capacidade multitasquingue um dos seus trunfos. Assim, embora Maria partilhe com as outras senhoras essa conhecida capacidade de fazer, em simultâneo e na boa, várias coisas que se complementam, possui também, além disso, a de fazer em simultâneo várias coisas perfeitamente contraditórias. Foi assim que logrou presidir à comissão parlamentar da saúde pública ao mesmo tempo que prestava consultadoria remunerada, presumo que para defender interesses privados, ao grupo Espírito Santo.
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Para quem vê nesta capacidade uma mais valia para o desempenho do cargo de Presidente da República, ela é a candidata ideal.

É pelo menos essa “força do carácter”, um dos primeiros slogans escolhidos pela sua candidatura, que desvanece alguns dos seus apoiantes conhecidos - vivos ou mortos; efectivos ou alegados - como o patético poeta Alegre ou a recentemente falecida Maria Barroso. 
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O empresário reformado

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É o mais velho dos candidatos, mas nem por isso o menos voluntarioso. Foi o primeiro a anunciar a sua candidatura.
Henrique Neto nasceu há 79 anos no Beco do Carrasco, à Rua do Poço dos Negros em Lisboa, filho de um polícia da Marinha Grande. Já foi operário e comunista e empresário e socialista. Agora, que está aposentado, quer ser presidente. Parece-me razoável. Seria, no culminar de uma vida sempre a subir, a cerveja no topingue - uma espécie de “do cabaré para o convento”, ou lá o que é.
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Mas Neto propõe “uma nova república”. Nem menos. Seria uma república empresarial, certamente. Sim, porque Neto tem soluções para tudo - empresariais, claro. Enquanto outros visitam asilos, Neto visita empresas. Para ele um país sem estratégia é um país sem rumo.
Parece-me que ele leu o Sun Tzu para tótós que a madrassa da católica dá a ler aos futuros capitães-do-mato da alta-finança e pensa que percebeu o sentido da vida. 
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Mas não estou certo que ele não se tenha enganado na eleição. Receio que ele pense que o presidente da República lidera o governo. O que não é de admirar - a sua candidatura é apoiada, entre outros notáveis, por Medina Carreira e Nuno Crato. Dois vultos, como dizia o grande Zé Viana, “de alta cravadeira intelectual”.
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A verdade é que, na capital portuguesa do vidro (uma das mais magníficas substâncias inventadas pelo homem) Neto enriqueceu a vender plástico.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O doutor zangado

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O doutor Cândido Ferreira, de Febres, Cantanhede é, talvez, o mais desconhecido dos candidatos. E, no entanto, não é um novato na plítica. Longe disso. 
Já cá anda desde antes do vintecincodabril. Sempre no rebiralho. Sempre no contra.
Primeiro no MDP/CDE contra o antigo regime; depois contra os vários regimes, dentro do partido socialista. O Doutor Ferreira, nefrologista emérito é, imaginem, um dissidente do PS. Mas não é um dissidente qualquer; é um dissidente compulsivo: filiou-se em 74 e desfiliou-se e filiou-se várias vezes até que em 2011 contestou a liderança de Sócrates e se desfiliou definitivamente. Enfim, até ver.
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Para além de defender a paz no mundo, o fim da fome, da peste e da corrupção, o sol na eira, o mau tempo no nabal e mais meia dúzia de banalidades de agrado geral, não se sabe muito bem o que defende o dr. Cândido. Mas ele diz que a sua fonte de inspiração é Manuel de Arriaga.
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Em todo o caso receio que, embora também defenda os sistemas públicos de saúde e de segurança social, o ex-socialista que ocupou a sua vida entre consultas de nefrologia e a criação e gestão de clínicas privadas, vá ficar conhecido do grande público apenas como uma espécie de anão zangado. Devido ao episódio do abandono em directo do primeiro debate televisivo, na estação TVI24, por discordar do modelo imposto, considerando-o discriminatório no tratamento e tempo de antena dado a todos os candidatos.
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domingo, 10 de janeiro de 2016

O prof. Sequeira

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Jorge Sequeira diz que é psicólogo, investigador, docente universitário, orador motivacional, comentador político e de bola. 
Este candidato tem como lema de campanha uma frase muito original: "Portugal Somos Nós". Dono de um optimismo e de uma auto-confiança inenarráveis, o prof. Sequeira quer partilhar essas qualidades com os melancólicos e fatalistas eleitores portugueses. Ele quer que as pessoas “quando olharem para o boletim de voto, vejam na minha cara um espelho”.
Estamos portanto na presença de uma espécie, rara, de umbigismo que se projecta nos outros – ou vice-versa, sei lá - um narcisismo paradoxal, descentrado - generoso.
Em todo o caso, a sua será certamente uma campanha afectuosa. Tal como aliás a de outro conhecido adepto do Sporting de Braga, o também professor Marcelo Rebelo de Sousa. Mas não é apenas isto que estes dois candidatos têm em comum. Também partilham a mesma loquacidade frenética e incontinente. Falam pelos cotovelos. 
E quem os ouve falar não os leva presos (a facúndia é totalmente livre em Portugal; isto é, nunca foi criminalizada). 
Só mesmo por isso, porque vivemos numa república, é que não só ninguém os leva presos como são ambos candidatos a presidente.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Campanha eleitoral

Jorge Sampaio
Mário Soares

Aníbal Cavaco Silva
António Ramalho Eanes



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A campanha eleitoral para a presidência da República começa amanhã. 
-Ao contrário do que tenho lido, e que tomo por opinião dominante (muito disseminada pelos media), não acho que os candidatos sejam demasiados e que por isso a cacofonia dos debates dificulta o entendimento das suas “propostas” e uma escolha informada.
-Ao contrário da voz corrente também não acho que os candidatos têm propostas, ou “programa”. Os cidadãos tem a oportunidade de escolher um dos seus semelhantes para os representar defendendo (cumprindo e fazendo cumprir) um cardápio de leis aceites por todos – a Constituição. Mais nada. 
Aos candidatos compete apenas tentarem garantir aos seus concidadãos estarem na posse das qualidades necessárias ao desempenho dessa única responsabilidade. Penso pois que do que trata esta eleição é de uma escolha de carácter. Nem mais, nem menos.
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É por isso que gosto muito da República. Em mais nenhum outro regime – nem em ditadura (por razões óbvias) nem em qualquer dos modelos de monarquia (o nórdico ou o do golfo) - os cidadãos podem escolher entre si o seu “chefe de estado”.
Numa república os cidadãos não estão condenados a verem-se representados por um imbecil imposto pela força ou por um degenerado designado pela consanguinidade. Pelo contrário, podem mesmo, imaginem, escolher o melhor de entre eles – o mais perspicaz, o mais sábio, o mais sensato - isto é, alguém verdadeiramente excepcional. Embora geralmente não seja isso que fazem. Regra geral, escolhem o que reúne as qualidades com que mais se identificam. Ou seja, alguém parecido com eles. Foi isso aliás que aconteceu da última vez; e na outra antes dessa. Com os resultados que se conhecem.

Agora porém os cidadãos desta república têm outra vez a oportunidade de escolher o seu presidente. Podem de novo escolher um merdas, como se vai fazendo costume, ou alguém decente, para variar. Trata-se pois, como referi acima, de uma questão de carácter.

Ora para se fazer uma boa escolha nada melhor do que haver inúmeras opções. Desta vez há dez. E para todos os gostos. Há abertamente feiosos, minimamente apresentáveis e até francamente bonitos. Há chicos-espertos cínicos e tortuosos, simples ingénuos armados aos cágados, rematados idiotas, pobres-diabos em busca de alguma notoriedade e até mesmo pessoas realmente decentes.

Nos próximos dias e até ao dia 24, dia da eleição, tratarei de editar aqui a caricatura de cada um destes dez bravos cidadãos que se prestam, e aprestam, a ser avaliados pelos seus iguais. Uma espécie de galeria de candidatos.

A caricatura, como eu a entendo, é uma visão parcial, ou seja, uma opinião.
Como eu tenho a minha, e não me importo de a usar, cada um destes desenhos é a minha visão pessoal das personalidades em apreço. Muito mais, no entanto, do que a pura diversão com os acidentes naturais das suas fisionomias, o que procuro nestes sucintos desenhos é tornar claros os sinais mais obscuros, ou menos evidentes, das suas personalidades; e fixar, tanto quanto possível em traços breves, o que perscrutei nos abismos das suas almas humanas. Estes desenhos despretenciosos não passam, no fundo, de uma espécie de estudos psicológicos; úteis para uma avaliação de carácter - serviço público, portanto. Tal como o grande George Grosz, sempre os encarei com muito mais interesse científico do que propriamente artístico.
Tentarei mesmo ilustrá-los com um pequeno texto, se entretanto me ocorrer algo suficientemente colorido.

Viva a República
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(ao alto, a minha galeria de retratos dos presidentes eleitos)
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