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sexta-feira, 14 de abril de 2017

isto é muito bom.



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Como este é um blogue de desenhos, achei que ficava bem aqui.
Descobri-o há pouco. Morte e Vida Severina, do grande João Cabral de Melo Neto, que já retratei aqui. É muito bom. Texto integral. Fiel à aspereza do texto, o desenho do cartunista, também pernambucano, Miguel Falcão. Ora vejam.
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domingo, 26 de março de 2017

Cesário Verde, Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
    Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
    E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
    E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
    Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
    Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
    Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
    Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
    Que mundo! Coitadinha!
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terça-feira, 14 de março de 2017

O Rentes

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Os ideais dos gramáticos reaccionários não podiam deixar de aclamar o estilo de um homem cuja obra é uma escola de imbecilidade. Porque o que, em Vieira podemos levar à conta de uma loucura de génio, é em Bernardes a cretinice obsessiva de um filho natural de judeu e de mãe dissoluta, que quer todos os cristãos à escala da sua castração mental.
Jorge de Sena
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Rentes de Carvalho é a mais recente estrela literária do firmamento das letras luzitanas. O êxito contudo aconteceu-lhe já tarde na vida e de fora para dentro. Rentes tornou-se conhecido com um êxito editorial na Holanda, onde está radicado há mais de cinquenta anos. É verdade, no país das tulipas e das tamancas.
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Mas Portugal depressa o descobriu - diga-se que para ter sucesso no país do sol-posto (a ocidental praia lusitana) não há como ter sucesso lá fora. Os tugas adoram vencedores.
De origem humilde e sucesso tardio, o Rentes tornou-se porta-voz do que a nossa direita não confessa mas professa; uma espécie de intelectual orgânico invertido, ou às avessas; um saramago-de-direita. Um maitre a penser cujo determinismo tremendista encanta os leitores do Observador e os fãs de Francisco José Viegas, leva-os ao sétimo céu: apesar de ter obtido êxito e vencido na vida, o Rentes declama peremptório que isso não é para todos.
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Rentes é um prato cheio para quem aprecia um português “bom de lei”, como eles dizem. Na sua escrita (vê-se que leu com proveito o padre Manuel Bernardes) não há cá modernices, as histórias começam sempre no princípio e acabam invariavelmente no fim; e no meio, que é onde está a virtude - como certamente sabem os devotos do Padre Manuel Bernardes - é aí que ele parcimoniosamente dispõe as virgulas, os advérbios e até os complementos directos. Eu tenho contudo para mim que o que encanta esta turba na escrita do Padre Bernardes não é tanto a bela prosa como aquilo que vem embrulhado naquele português bom de lei que tanto exasperava Jorge de Sena: o fedor a bafio, a imbecilidade e ao mais reaccionário e xaroposo conformismo.
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O Rentes é careca. O Rentes é holandês. E fala como isso, como um skinhead  holandês. O Rentes diz cousas que eles nem pensam (eles não pensam) mas sentem; o Rentes fala-lhes ao coração.

O Rentes vota na extrema-direita. Não por convicção – diz ele – mas por protesto. Por reacção, portanto.
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sábado, 11 de março de 2017

Jaime Nogueira Pinto e a queixa das almas velhas censuradas

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O professor e politólogo salazarista assumido Jaime Nogueira Pinto foi convidado por uma novel organização fascista que dá plo mavioso nome de Nova-Portugalidade para dar uma palestra na Universidade Nova, em Lisboa.
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O velho lusito deve ter salivado com a possibilidade de instruir a nova mocidade portuguesa nas delícias do livre pensamento único. Mas a palestra foi cancelada.
Agora as velhas almas salazaristas queixam-se – Ah e tal a liberdade de expressão - coitadinhos, realmente não se faz.  A queixa teve enorme repercussão pública nos meios da notícia publicada. Muito mais do que se o velho estafermo tivesse de facto logrado arengar aos novos lusitos.
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Entretanto, os democratas do PNR manifestaram-se à porta da Universidade. Contra o totalitarismo. Só visto.
Assim, para que aos arautos do livre pensamento único nunca lhes falte palanque para palestra, nem aos imbecis liberdade de expressão  a Associação vintecincodAbril, dirigida pelo inefável ex-capitão dabril Vasco Lourenço, sempre na defesa de todas as santas liberdades, incluindo a de expressão, já franqueou as suas portas ao Nogueira Pinto. Para que possa livremente expressar as suas ideias. Digam lá que não é lindo.
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E estamos nisto.

Mas se foi para que Jaime Nogueira Pinto pudesse exprimir livremente as suas ideias que fizeram o 25dAbril, acho estúpido. Ele já tinha esse privilégio.
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sexta-feira, 3 de março de 2017

A bela e o herói do contribuinte centrista

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Assunção Cristas, a beta que leva a bandeira do partido dos contribuintes, disse que Paulo Núncio (sobre quem já me debrucei aqui) “mostrou grande elevação de caráctere que “o país lhe deve muito pelo trabalho de combate à fraude e evasão fiscal”.
Nem mais.
A fofa só não é loura mas de resto tem tudo para agradar ao país do CDS, encarecido e penhorado ao hercúleo esforço do bravo Núncio no combate sem tréguas “à fraude e à evasão fiscal”.
Oh captain!, my captain!, os seus dois neurónios dão gritinhos em uníssono, empenhadamente agradecidos.
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Fiz-lhe o retrato, em pin-up. Antes porém que me acusem de sexismo, machismo troglodita ou mais além, digo já que se trata apenas de uma suave referência àquele tipo leve de erotismo tão do agrado da cultura de massas - enfim, à cultura pop.
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sábado, 25 de fevereiro de 2017

sábado, 18 de fevereiro de 2017

O estranho caso do conselheiro-quadrilheiro

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Este é mais um retrato de um rosto da classe dirigente. 
Trata-se de António Lobo Xavier, um ex-dirigente do CDS-PP que é simultaneamente conselheiro de Estado (designado por Marcelo), vice-presidente do BPI (logo abaixo de Ulrich, de quem é parente) e administrador do jornal Público
Um senhorito. Advogado por coimbrameudeus (accionista de uma das maiores sociedades deles); gestor de ponta e administrador não executivo de uma porção de sociedades e confrarias.
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Depois de dar conhecimento das comunicações entre Domingues (de quem é amigo e foi parceiro) e Centeno ao Presidente da República, o seu conteúdo foi publicado pelo jornal de que é administrador. Digam lá que não é lindo. E edificante.
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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Retrato de homem sentado com África na cabeça

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Tal como Kurt Schwitters, eu também prego os meus quadros. 
Ao contrário porém do grande artista alemão que morreu no exílio (num campo de refugiados, em Londres), eu não tenho qualquer esperança. Nem na Arte, nem no futuro, nem sequer na validade ou préstimo do meu trabalho. Mas isso não me inibe de o fazer.
Os tempos também são outros, embora pareça que se repetem, assustadoramente semelhantes. E não é em farsa. É em comédia, triste e negra. Sem humor nem remissão.

Assim, ainda que embarcado à força numa nave de loucos, vou deixando marcos, testemunhos, sinais exteriores do meu próprio exílio nesta viagem sem volta. Como este homem sentado com África na cabeça, uma composição de 130x94 com tábuas inúteis e velhos sarrafos que me tem ocupado os dias deste inverno.
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