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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Discurso sobre a Figueira (3)

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Após muito repensar a minha intenção inicial (e de muito discutir com o outro eu que anda sempre comigo, com a família e com a minha ministreza das finanças) lá decidimos aumentar para o dobro a impressão da que continuará a ser uma edição única, ainda limitadíssima, mas agora de 50 exemplares, deste precioso panfleto.

A edição será dividida em duas séries de 25 múltiplos (uma, numerada de 1 a 25, em caracteres árabes, destinada à venda em loja ou quiosque e a outra, numerada de I a XXV, em caracteres romanos, para entrega postal).  Todos os múltiplos serão autenticados pela minha assinatura manuscrita. O preço de capa será o mesmo, como é óbvio, em ambas as séries, sendo o de distribuição postal acrescido do porte do correio.

Como o faço imprimir fora do concelho da Figueira da Foz, e por causa do aperto das restrições do confinamento (a limitação de circulação e a dúvida sobre o condicionamento de certas actividades) não estou, infelizmente, em condições de vos poder dizer a data exacta em que o terei finalmente disponível para todos os que o quiserem adquirir.

Peço, contudo, a quem deseje receber o seu exemplar pelo correio, que me contacte desde já para fernaocampos1@gmail.com facultando-me o nome e endereço completo. Posteriormente (quando estiver na posse da edição já impressa) contactar-vos-ei para vos dar conta do meu IBAN e dos custos do envio postal. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Discurso sobre a Figueira (2)

Caros Amigos,

confesso que o interesse que despertou esta pequena obra, manifestado por muitos de vós na vontade expressa de a adquirir, me surpreendeu tanto que tem excedido em muito as minhas modestas expectativas. 

De tal sorte que me vi obrigado a repensar a minha intenção inicial de fazer uma única edição tão limitada. Tenho por isso que rogar-lhes ainda alguma paciência, pois em breve estarei em condições de anunciar (aqui neste blogue e na minha página do face-book) o preço de capa e o local (ou locais) onde estará disponível.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Discurso sobre a Figueira


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Todos os homens discorrem sobre o que sabem, ou o que presumem. Giovanni Pico della Mirandola, por exemplo, discorreu sobre a Dignidade do Homem. Descartes sobre o Método. Étienne de la Boétie sobre a Servidão Voluntária. Jean-Jacques Rousseau, que presumia sobre uma data de assuntos, discorreu sobre A origem e Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, mas também sobre As Ciências e as Artes.

Eu próprio, não desfazendo, também presumo a respeito das mais diversas matérias. Tenho, contudo, vindo a debruçar-me especificamente sobre apenas uma, que tão logo se transformou no meu objecto preferencial de observação, curiosidade e contemplação. De maneiras que depois de mui atento estudo e concomitante conhecimento acumulado, também me permiti discorrer longamente a propósito, em obra escrita. Ou seja, como uma ostra no fim do seu confinamento, também acabei por soltar a pérola que hoje, finalmente, no último dia deste ano miserável, tenho a honra de vos apresentar, em forma de Discurso público.

Este Discurso sobre a Figueira e por extenso Execração dos Figueirinhas foi pacientemente composto nos últimos trinta dias, ainda que sustentado em inúmeros apontamentos, reflexões e considerações editadas neste mesmo blogue ao longo de vários anos. O confinamento a que a pandemia a todos tem obrigado proporcionou-me o tempo de os reunir, escolher, corrigir, acrescentar, burilar, ilustrar e colorir; mas também me permitiu a reflexão e o distanciamento necessários para escolher a forma e o tom que julguei apropriados para compor e dar um sentido mais do que vagamente estruturado à sumula de tudo o que reuni sobre assunto tão espinhoso, ainda que suculento.

Assim, este Discurso tomou a forma de um panfleto sarcástico e o tom despretensioso de um Divertimento, essa composição musical (para um número reduzido de instrumentos, de caráter ligeiro e tom casual e alegre, que possui uma quantidade livre de movimentos, semelhante às suítes sem, porém, seguir um padrão pré-determinado), tão em voga no século XVIII. 

Como tal, e como não morigera nem desmoraliza, todo o texto deste panfleto, os seus vários àpartes e os diversos movimentos, incluídas as suas sumptuosas ilustrações metafóricas, foram compostos e editados por mim no espírito libertino e licencioso desse magnífico século iluminado pela fantasia e pelo livre-pensamento. O texto, da primeira (que reproduzo acima) à última das suas trinta páginas, foi composto e paginado com caracteres da família Trajanus Roman, redesenhados em 1993 por Roger White.

Muito mais do que uma simples edição de autor, trata-se de um verdadeiro livro d’artista com a edição limitad(íssima) de apenas 25 múltiplos, exemplares únicos e irrepetíveis (não será feita outra edição) que serão todos numerados e autenticados pela minha assinatura manuscrita.

Cada um destes múltiplos será um raro objecto de desejo, de puro deleite, de selecta colecção, que sei eu, uma verdadeira música de câmara, acessível apenas a espíritos sofisticados e exigentes como os privilegiados happy few que visitam este blogue e que o desejem encomendar, pelo módico preço que eu vier a fixar, mais custos de envio, através do endereço de e-mail que está aqui na barra lateral.

Aqui chegados, os meus leitores mais dedicados já se devem ter apercebido que estou metido num lindo molho de brócolos: acabei de escrever um livro sobre uma terra que não interessa a ninguém, nem mesmo a si própria, posto que não lê.

Vendo-me por isto mesmo contrito a recorrer à generosidade, ou à curiosidade, dos meus leitores de todo o mundo (apesar do seu alcance residual, também tenho plena consciência de que este blogue é acedido desde os lugares mais remotos e difíceis de pronunciar) posso desde já afiançar-lhes, sob palavra de honra e para mal dos meus pecados, que este pequeno panfleto insignificante tem tudo o que basta para se tornar um Clássico. Isto, claro, se ser um Clássico for a capacidade de alcançar o Universal partindo do muito particular, ou mesmo do insignificante. Foi o que fez Euclides da Cunha com um arraial remoto nos sertões da Bahia, e Garcia Marquez com um lugar recôndito da sua imaginação. Gogol fez isso com um simples nariz. E eu, deus me perdoe, acabo de o fazer com a Figueira da Foz.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Eduardo Lourenço (1923-2020)


Eduardo Lourenço morreu hoje. Passou toda a vida a perscrutar Portugal, e os portugueses. De fora, e talvez também de cima, mas sempre de perto - como se observa os insectos. A tentar ver se percebia algum vago sentido nisto tudo, no todo ou em alguma parte. Não consta que tenha chegado a uma conclusão redentora. O desenho é de 2011.
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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

João Ferreira ou a sonegação de um homem público


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O Senhor Doutor João Ferreira andará escondido nalguma cave escura? É que nas televisões não se vê nem se ouve falar. Vá, confessai lá, eméritos colaboradores dessas casas: tendes instruções para omitir sempre o Doutor João Ferreira, não é? Confessai, só aqui entre nós, à puridade. Nós sabemos que não é má vontade, apenas obedeceis a ordens. Mas a sonegação desse homem público está a dar muito nas vistas, não está? E depois, vós é que pagais as favas, nanja os vossos mandantes,

Mário de Carvalho

A censura das actividades públicas de um candidato à presidência da República (a sonegação de um homem público) está a dar muito nas vistas, sim senhores - tanto que o escritor Mário de Carvalho reparou e até, no seu Facebook, se permitiu três solertes perguntas a respeito deste despropósito que também me causa alguma perplexidade.

Por isto também me permito mais uma: estes meios de comunicação obtiveram a concessão (o privilégio) de um serviço público com o “caderno de encargos” de informar o público do que acontece ou apenas do que lhes apetece?

A ERC (entidade reguladora da comunicação social) terá certamente algo a dizer sobre isto. Aguardamos, pois, os preclaros esclarecimentos desta inefável organização. Estou que nem posso.

É claro que sei que a “ERC atua sempre depois que o conteúdo é exibido num canal de TV ou ouvido numa rádio ou quando um artigo é publicado na imprensa, portanto, não é uma instância de censura” mas ainda assim, e por isso mesmo, seria útil saber o que pensa tão douta entidade quando um “conteúdo” é deliberadamente sonegado e sobretudo quando isto é feito repetidamente; ou seja, quando este procedimento se tornou um padrão.

Ficaríamos em definitivo todos esclarecidos sobre se o direito à informação é realmente efectivo, condicionado, ou se depende. E também, já agora, sobre se a liberdade de informar também depende – mas apenas da (boa) vontade (e da conveniência) dos donos dos meios de comunicação.
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terça-feira, 24 de novembro de 2020

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Graciliano Ramos


 

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Como já referi algures neste blogue, hoje quase só releio. Ultimamente tenho andado às voltas com São Bernardo e Vidas Secas. Duas pérolas da língua portuguesa. Graciliano Ramos. Um Clássico, “esse sertanejo de Palmeira dos Índios nasceu clássico, um clássico brasileiro”, como referiu o seu amigo Jorge Amado. Conciso (frases curtas, sucessivas - como traços e pontos que, implacáveis, de premeditados, compõem um desenho magistral). Quase esquálido. Sem ornatos nem violetas. No osso. E, no entanto, de uma tensão e uma intensidade exuberantes, quase expressionista.

Tentei desenhar-lhe um retrato assim sucinto. Receio, todavia, que não tenha chegado nem perto da eloquência que revela o que ele mesmo fez de si próprio aos cinquenta e seis anos de idade (haveria de morrer cinco anos depois).

Graciliano Ramos 

Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas.

Casado duas vezes, tem sete filhos.

Altura 1,75.

Sapato n.º 41.

Colarinho n.º 39.

Prefere não andar.

Não gosta de vizinhos.

Detesta rádio, telefone e campainhas.

Tem horror às pessoas que falam alto.

Usa óculos. Meio calvo.

Não tem preferência por nenhuma comida.

Não gosta de frutas nem de doces.

Indiferente à música.

Sua leitura predileta: a Bíblia.

Escreveu “Caetés” com 34 anos de idade.

Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados.

Gosta de beber aguardente.

É ateu. Indiferente à Academia.

Odeia a burguesia. Adora crianças.

Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz.

Gosta de palavrões escritos e falados.

Deseja a morte do capitalismo.

Escreveu seus livros pela manhã.

Fuma cigarros “Selma” (três maços por dia).

É inspetor de ensino, trabalha no “Correio do Manhã”.

Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo.

Só tem cinco ternos de roupa, estragados.

Refaz seus romances várias vezes.

Esteve preso duas vezes.

É-lhe indiferente estar preso ou solto.

Escreve à mão.

Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio.

Tem poucas dívidas.

Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas.

Espera morrer com 57 anos.

Por Graciliano Ramos

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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ludwig van Beethoven


 Fazer todo bem que se possa, amar sobretudo a liberdade e,

 mesmo que seja por um trono, jamais renegar a verdade.

 Ludwig van Beethoven
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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Gonçalo Ribeiro Telles


 

Gonçalo Ribeiro Telles morreu ontem. Noventa e oito anos. Em 2016 já lhe tinha desenhado este “retrato”, aqui, quando me referi a ele a propósito das tragédias ambientais de verão, de planeamento florestal e de desenvolvimento rural. Continuo a subscrever todas as considerações que me permiti então.

Tal como referi, a Portugal nunca faltaram homens bons e sábios, como Gonçalo Ribeiro Telles. O problema é que num país povoado por uma maioria esmagadora de idiotas eles são vistos, e tratados, como pobres lunáticos.

Por isso hoje foi decretado luto nacional e a bandeira está a meio-pau. Mas amanhã continua certamente o plantio anual do eucalipto. Estamos em plena estação.

Há que aumentar o produto interno bruto. Até á desertificação total. Depois da brutalização consumada, decreta-se outra vez luto nacional. Não hão de faltar paus para bandeiras nem para passadiços, de onde turistas alarves possam apreciar devidamente a, digamos assim, paisagem.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020