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sexta-feira, 29 de abril de 2016

Dez anos na “outra margem”


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O blogue “Outra Margem” cumpriu dez anos. Há dez anos que o meu amigo António Agostinho o anima com copiosas e certeiras postas diárias.
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Nele cultiva, como poucos, a ironia – que, como muitos de nós sabemos, é um artifício da inteligência inacessível a uma imensa casta de imbecis - o que já lhe trouxe algumas chatices; que são, presumo, os custos da popularidade (o seu blogue é, talvez, o mais visitado da Figueira) mas que também lhe dá, quotidianamente, o gosto e a satisfação de, por sua vez, amesquinhar lautamente a mediocridade de alguns bonzos e revelar publicamente o ridículo dos pequenos mandaretes locais e das suas paroquiais freguesias ou clientelas..
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O “Outra Margem” não é um blogue qualquer. Para o Agostinho, trata-se de um testemunho de cidadania. Um veículo de intervenção cívica consciente, activa e assertiva, persistente, teimosa e irredutível na defesa das suas causas: a sua aldeia, tão desprezada; a sua praia, tão flagelada; o seu Cabedelo, tão abandonado; o hospital; a cidadania para todos.
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E contudo, Agostinho não o faz por abnegação ou com aquele espírito de sacrifício tão apreciado pelos idiotas – não, Agostinho não corre o risco de ser condecorado plo presidente com a medalha-de-prata-de-qualquer-coisa - fá-lo por simples prazer e deleite - apenas pelo supremo, e afinal prosaico,  gozo de exercer a liberdade e de o exprimir em português.
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Um exercício tão continuado é de se saudar. E desfrutar.
Se bem o conheço, é gajo para continuar.
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segunda-feira, 25 de abril de 2016

Miguel de Cervantes

é claro que também estou celebrando este, a cuja obra-prima nunca me canso de acudir e que começa assim:
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Capítulo I 
QUE TRATA DE LA CONDICION Y EXERCICIO DEL FAMOSO HIDALGO
 DON QUIJOTE DE LA MANCHA 
 
En un lugar de la Mancha,de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo de los de lanza en astillero, adarga antígua, rocín flaco y galgo corredor. Una olla de algo más vaca que carnero, salpicón las malas noches, duelos y quebrantos los sábados, lantejas los viernes, algún palomino de añadidura los domingos, consumían las tres partes de su hacienda. El resto concluían sayo de velarte, calzas de veludo para las fiestas, con sus pantuflos de lo mesmo, y los dias de entresemana se honraba con su vellori de lo más fino. Tenía en su casa una ama que pasaba de los quarenta, y una sobrina que no llegaba a los veinte, y un mozo de campo y plaza, que así ensillaba el rocín como tomaba la podadera. Frisaba la edad de nuestro hidalgo con los cincuenta años; era de compléxion recia, seco de carnes, enjuto de rostro, gran madrugador y amigo de la caza. Quieren decir que tenia el sobrenome de Quijada, o Quesada, que en esto hay alguna diferencia en los autores que deste caso escriben; aunque por conjeturas verosímiles se deja entender que se llamaba Quijana. Pero esto inporta poco a nuestro cuento: basta que en la narración dél no se salga punto de la verdad.

Es, pues, de saber este sobredicho hidalgo, los ratos que estaba ocioso (que eran los más del año), se daba a leer libros de caballerías con tanta aficción y gusto, que olvidó casi de todo punto el exercício de la caza, y aun la administración de su hacienda; y llegó a tanto su curiosidad y desatino en esto, que vendió muchas hanegas de tierra de sembradura para comprar libros de caballerías en que leer, y así, llevó a su casa todos cuantos pudo haber dellos; y de todos, ningunos le parecían tan bien como los que compuso el famoso Feliciano de Silva; porque la claridad de su prosa y aquellas entricadas razones suyas le parecían de perlas, y más cuando llegaba a leer aquellos requiebros y cartas de desafíos, donde en muchas partes allaba escrito: “la razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, que con razón me quejo de la vuestra fermosura.” Y también cuando leía: “... los altos cielos que de vuestra divinidad divinamente con las estrellas os fortifican, y os hacen merecedora del merecimento que merece la vuestra grandeza”.

Con estas razones perdía el pobre caballero el juicio, y desvelábase por entenderlas y desentrañarles el sentido, que no se lo sacara ni las enterdiera el mesmo Aristóteles, si resucitara para sólo ello.
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Miguel de Cervantes, El engenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha , 32ª edición, Espasa-Calpe (Colección Austral)- 1984
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sábado, 23 de abril de 2016

prova de vida


os homens deviam ser o que parecem 
ou, pelo menos, 
não parecerem aquilo que não são 
William Shakespeare

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Como já cá não vinha desde a última vez que cá estive (ao contrário do nosso actual, e freneticamente ubíquo, presidente da república - que está a toda hora em todo o lado), esta posta também serve para mostrar que, tal como o google, eu também estou “celebrando William Shakespeare”.
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domingo, 3 de abril de 2016

O caso Ferreira da Silva

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Em 1968, num texto-panfleto generosamente editado por si próprio, Luiz Pacheco, reconhecendo o impasse artístico do escultor e ceramista Luis Ferreira da Silva no meio provinciano  das Caldas da Rainha de então, incitava publicamente o artista (a quem já na época reconhecia talento e potencialidades), a aceitar uma bolsa de especialização em Paris - “porque o que faz um Artista interessa a todos”.
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Ferreira da Silva foi. Mesmo não tendo tirado nenhum proveito artístico ou especialização pessoal dessa bolsa, o facto é que o que ele fez depois disso e até hoje interessa a todos. Ferreira da Silva tornou-se um dos mais notáveis artistas portugueses do século vinte, um artista que não gostava de museus, preferia a arte pública - ao ar livre. Foi o autor, entre outras maravilhas, dessa obra-prima (inacabada e em muito mau estado de conservação actual) de ousadia, humor livre, experimentalismo engenhoso e desmesura, pouco comuns entre nós, que é o jardim da água no centro hospitalar de Caldas da Rainha.
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Soube hoje que o Mestre morreu. No passado dia oito de Março, num hospital das Caldas. Soube-o por acaso. Os grandes meios de comunicação não julgaram que interessava a todos a mais leve referência.
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Eis o que me deu para reflectir no interesse público da arte. E no interesse do público pelo que faz um artista, hoje, no país de Luiz Pacheco. E de Luís Ferreira da Silva.
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Ao alto (a foto é da minha Carolina) estou eu, na minha janela virada a norte, a pensar.
É óbvio, puta que os pariu a todos, que não cheguei a nenhuma conclusão redentora.
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quinta-feira, 24 de março de 2016

O terror

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A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à Justiça em qualquer lugar
 Martin Luther King
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Martin Luther King disse que “não há nada mais perigoso do que a ignorância sincera e a estupidez consciente”. Eu acho que que mais perigoso ainda é quando uma delas manipula a outra.
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O que está a acontecer no Brasil não é sobressalto cívico nenhum. É apenas a histeria - de uma gente ignorante, preconceituosa e desinformada - colectivizada por media privados cuja agenda tem pouco que ver com qualquer interesse público terrorismo, em suma.
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O que aconteceu em Bruxelas não é terrorismo. É apenas banditismo, estupidez consciente e crapulosa; enfim, crime organizado. Terrorismo foi o que aconteceu depois, nas horas e dias seguintes, nos meios de comunicação - a midiota, em feliz expressão cunhada no Brasil.
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O verdadeiro Terror, o terror mesmo, é isto.

Ou então, isto
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quinta-feira, 10 de março de 2016

Naná Vasconcelos (1944-2016)

Pra mim, tudo é música. O primeiro instrumento é a voz, o melhor é o corpo e o resto é consequência disso. Então, a música para mim está em tudo. Silêncio é a música mais difícil de fazer por que o silêncio é um estado de espírito.
Naná Vasconcelos
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domingo, 6 de março de 2016

a bandeja do Possollo

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Cavaco já tem o seu arretrato oficial. Tal como os presidentes precedentes também ele escolheu pessoalmente o artista a quem coube a honra de o retratar para a eternidade – a mão que materializou a visão que pretende dar de si próprio à posteridade.
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Há tempos, algures neste blogue, permiti-me mesmo sugerir o nome de Noronha da Costa como o artista português mais capaz de “de captar convincentemente a intensidade atmosférica da fátua densidade psicológica da figura”. Pensava eu que “a técnica do sfumatto "à pistola" seria a “mais adequada à fixação precisa das impressões mais fugidias”. Qual quê. Como era fácil de prever, Cavaco optou pela técnica do lambidinho.
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A História (e a história da pintura) na galeria dos presidentes não deixa de ser eloquente. Se o grande Columbano foi o pintor oficial da primeira república, retratando Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Teixeira Gomes, a verdade é que foi Henrique Medina quem retratou todos os outros até que, depois, se tornou o retratista oficial do estado-novo, (retratando Óscar Carmona, Américo Tomás e, postumamente, Sidónio Pais. deixando apenas Craveiro Lopes para Eduardo Malta). Com essa série de retratos de aparato, Medina consolidou o cânone institucional de uma pintura que, como referiu Aquilino Ribeiro, “agrada para quem não está iniciado na arte” e que só foi interrompido com os retratos dos presidentes eleitos. Foi a sua “paleta hábil, posto que fácil e bota de elástico” que deu o tom, de uma solenidade pomposa e vazia, a toda aquela vasta galeria; um estilo que nem sequer foi questionado por Eduardo Malta, um pintor muito mais talentoso e sofisticado. O género sobreviveu, marcial, grandiloquente e vácuo, com as suas figuras de papelão, até aos retratos de dois presidentes pós 25dAbril, António de Spínola e Costa Gomes.
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Já em democracia, Ramalho Eanes escolheu Luis Pinto-Coelho, Mário Soares optou por Júlio Pomar e Jorge Sampaio por Paula Rego. Embora o cânone só tenha sido verdadeiramente rompido com os dois últimos. O irreverente Pomar e a corrosiva Paula Rego.
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A verdade porém é que o poder aprecia visões amáveis de si próprio e, de certo modo, todos eles escolheram artistas de olhar complacente, senão mesmo cúmplice (Mário Soares escolheu Júlio Pomar, seu amigo de juventude). A única excepção foi Jorge Sampaio, que se deixou estoicamente massacrar, ainda que de modo ternamente afectuoso, por Paula Rego.
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Cavaco, por exemplo, jamais se deixaria retratar por uma mão certeira e um olhar impiedoso como os de Columbano, Júlio Pomar ou Paula Rego. Falta-lhe tudo, mas sobretudo carácter, tomates. O homem é, decididamente, pequeno, inseguro, timorato. As escolhas de alguém assim são sempre pelo prevísivel; é mais tranquilizador.
Por isso escolheu um tal de Carlos Barahona Possollo, outra paleta hábil, posto que fácil e bota de elástico, um novo Medina de pincel servil e fotoxópe amável, que deve ser um fenómeno de popularidade no eixo Lapa-Cascais, entre os leitores da revista Caras e os moradores da Quinta da Marinha e das torres do Estoril. Uma breve visitação ao trabalho do artista (já habituado a encomendas oficiais e especialista em retratos de santos católicos e tudo) bastou-me para aquilatar da sofisticação, da imaginação, da originalidade, do requintado sentido da composição, do bom-gosto e do bom-senso delirantes do escolhido de Cavaco. A bota dá com a perdigota.
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Mas como todo o homem pequeno tem grandes pretensões, é isso mesmo que o quadro retrata: firme e hirto, como uma figura de papelão, Cavaco, de pé, empunha uma caneta - decerto para mostrar que sabe escrever. Ao lado, jazem um tinteiro de prata e vários volumes encadernados que, suponho, demonstram que também sabe ler. Por detrás esvoaça, na penumbra, lambidinha, a bandeira da PàF, ou da selecção, nem sei bem.
Eis um retrato que agradará a quem não está iniciado na arte. Ou seja, toda a pátria de cavaco, a Caváquia, se revê nele. É todo um país na travessa perdão, na bandeja do Possollo.
A mediocridade está de volta à Galeria dos presidentes.

Estavam à espera de quê? 
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