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sábado, 30 de Agosto de 2014

A imprensa figueirinhas – a temática e a problemática


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Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parisse.

Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa.
Lisboa: Estampa, 1993. 

O meu amigo Agostinho editou ontem no seu blogue uma muito assertiva e pertinente reflexão sobre a imprensa figueirense.
Conhecedor do meio como poucos, Agostinho chega mesmo a enumerar os seus problemas e a dar nomes aos principais pecadilhos do jornalismo local. O seu certeiro diagnóstico (com o qual não posso deixar de concordar) é francamente desanimador.
Com o que não concordo, infelizmente, é com o optimismo com que Agostinho, apesar disso, culmina a sua reflexão.  Segundo ele “Algo está a mudar. Lenta, mas progressivamente, a influência dos media na sociedade está a impor leitores, ouvintes e telespectadores cada vez mais críticos e atentos à comunicação social e à sua mensagem. No País em geral. E também na Figueira.
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Eu não acredito.
Não acredito que numa cidade com trinta mil habitantes e sede de um concelho com cerca de setenta mil onde não há “viabilidade económica” para uma única livraria – uma, uma simples livraria digna desse nome – haja “leitores, ouvintes e telespectadores cada vez mais críticos e atentos à comunicação social e à sua mensagem”.
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Não há, Agostinho. Porque já ninguém lê. Ou porque, como escrevi aqui, nofundonofundo ninguém quer saber.
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Chamem-me cínico, ou derrotista, ou botabaixista, mas a verdade é que, como também já referi aqui, se a imprensa figueirense “é mole, reverente, beija-mãos, arrasta os pés e lambe-cus é porque afinal está à imagem da maioria dos seus leitores, o seu “público alvo.

Essa é que é essa, Agostinho. Lamentavelmente.
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quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Julio Cortázar

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Há três anos, a vinte seis de Agosto, meu aniversário, editei uma caricatura de Julio Cortázar, que também nasceu nesse dia.
Hoje volto a editá-la, com algumas alterações (como ele com as suas obras também penso que os meus desenhos nunca estão acabados - tal como a vida, em perpétuo processo de aperfeiçoamentoestão sempre em obras).
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Porque se comemora por todo o mundo o centenário do seu nascimento.
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segunda-feira, 25 de Agosto de 2014

O arquitecto saraiva

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O jornalismo de merda é uma variante de jornalismo muito popular. Ocupa cada vez mais espaço nos jornais, nalguns jornais o espaço todo. O género não é, no entanto e ao contrário do que se poderia pensar, cultivado apenas por tarefeiros semi-analfabetos e precários. Pelo contrário, os seus maiores cultores são verdadeiros profissionais, alguns muito bem remunerados.
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É o caso de José António Saraiva, a quem já me referi aqui, ainda que de modo lateral. Saraiva não é, no entanto um jornalista-de-merda qualquer. Arquitecto de formação, foi director do mesmo jornal "de referência" (o Expresso do doutorbalsemão) por vinte e dois anos consecutivos; hoje dirije o Sol.
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Saraiva é um estilista. O seu estilo, de uma sordidez difícil de igualar, alia uma rebuscada velhacaria a uma inefável e transparente candura – característica que, malgré lui, faz da sua prosa confessional um manancial precioso (para quem lograr lê-la sem vomitar) sobre o milieu da alta política e da notícia publicada; está lá tudo (por vezes com requintes de pormenor) sobre como se tomam decisões, trocam favores e sobretudo como se arranja posição, ou seja, sobre como se sobe e como se desce em Portugal.
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quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

Federico Garcia Lorca

“Ningún hombre verdadero cree ya en esta zarandaja del arte puro, arte por el arte mismo. En este momento dramático del mundo, el artista debe llorar y reír con su pueblo. Hay que dejar el ramo de azucenas y meterse en el fango hasta la cintura para ayudar a los que buscan las azucenas. Particularmente, yo tengo una ansia verdadera por comunicarme con los demás. Por eso llamé a las puertas del teatro y al teatro consagro toda mi sensibilidad.”
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Federico Garcia Lorca, última entrevista, em Julho de 1936 - ao grande Luís Bagaría - para o jornal El Sol.
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terça-feira, 12 de Agosto de 2014

Os valores básicos da vida

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Rui Veloso diz que vai abandonar os palcos por uns tempos. 
Desiludido com o país, o cantor e compositor popular deu uma entrevista ao “Diário de Notícias” na qual, com uma admirável lucidez, observa dolorosamente que: "É natural que os portugueses estejam baralhados e que adotem comportamentos próprios de quem foi cobaia."
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Rui Veloso é o músico que, entre outros, tem o mérito de ter provado que é possível usar uma guitarra eléctrica e cantar em português (em português bom de lei) sem atingir o ridículo.
Veloso, que foi condecorado por dois presidentes da república (Soares e Sampaio) e apoiou publicamente a candidatura de outro (Cavaco), diz que há muito que deixou de votar porque acha a classe política é de “uma cultura duvidosa”. E chegou à excruciante conclusão de que “nos últimos 30 anos há muita gente a fazer um grande esforço para o país desaparecer culturalmente.”
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De maneiras que "é muito difícil para mim aceitar a realidade do país. Fico à espera que isto um dia tenha compostura e volte aos valores básicos da vida" - diz ele.

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- Bem podes escolher já um banco (um bom, já agora). Para poderes esperar sentado, murcón – digo eu.

sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Ruy Belo

Povoamento
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No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da Primavera
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Ruy Belo, in “Aquele Grande Rio Eufrates” 
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quarta-feira, 6 de Agosto de 2014

A procuradora Marques Vidal

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O senhorsalgado foi detido porque, segundo as notícias,  havia a hipótese de, em liberdade, destruir provas. Após algumas horas de ameno interrogatório, na presença do seu advogado (sobre quem já me debrucei aqui), foi-lhe prescrita uma caução de três milhões de euros. Assim uma coisa “à americana”. O senhorsalgado foi em paz e segundo as notícias, tinha um mês para pagar ou recorrer. O senhor salgado, certamente aconselhado plo seu advogado, deve ter prometido que se portava bem e não destruia provas ou assim. Soube-se agora que o pulha já pagou – por transferência bancária e sem a prestação de garantias. Três-3-três milhões de aéreos.
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A justiça em Portugal é assim. Não é como na América. Num país de direito (e de liberdades e de garantias) como Portugal, a um arguido são–lhe sempre dadas imensas garantias - só vai dentro se, por exemplo, não tiver um advogado como o do senhorsalgado. Na América não. Na América, um escroque como o senhorsalgado, o senhor Madoff, foi julgado, condenado, expropriado (e toda a família) e posto a ferros – depois deitaram fora a chave. 
Em Portugal diga-se, também ja se tratou assim os escroques, mesmo os de famílias influentes. Eram postos a ferros, as famílias expropriadas e banidas – até o chão que lhes pertencia era salgado – devia ser por causa das moscas. Mas isso foi no tempo terrível do malvado Sebastião José de Carvalho e Melo, quando este país não era um país de direito ou assim, sei lá, abençoado plo espíritosanto.
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Hoje já não há intendente. Hoje em dia em Portugal os escroques têm todas as garantias. Até porque quem lidera a investigação criminal, a senhora procuradora Joana Marques Vidal, não teme que eles destruam provas, que continuem na má-vida (sei lá, a praticar crimes ou assim) ou que fujam para o estrangeiro.
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sábado, 2 de Agosto de 2014

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)

Gosto da língua portuguesa. Acho que ela está perdendo recursos devido à nossa ignorância, mas ainda é uma língua bonita, flexível, expressiva, rica em nuances. E junto a isso eu sou, digamos que por origem, um autor barroco. Alguns dos meus prosadores preferidos, como Padre Vieira, são barrocos. Essa minha linguagem, sei lá, convoluta, eu acho que é meio abarrocada.
João Ubaldo Ribeiro
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segunda-feira, 21 de Julho de 2014

da banalidade

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Leonel Moura, sucialista militante e colunista do “negócios” é também o artista que acredita que a arte morreu e em breve será substituída por uma “maquinização da produção”. Talvez tenha sido por isso que Leonel se tenha dedicado a criar máquinas “com vontade estética” (inventou, entre outras pessegadas a que já me referi aqui, o robot que pinta quadros e decide sozinho quando a obra está acabada). Mas Leonel também faz esculturas. Ou melhor, manda fazer, porque como ele pensa que a arte morreu, o seu acto criativo limita-se a uma ordem de impressão. Em todo o caso vende-as. Vendeu ainda agora uma impressão em 3D de resina ao parlamento (foi uma encomenda) por 18 mil aéreos.– o que leva a crer que com a morte da arte prossegue o comércio, mas de cadáveres; ou seja, ainda há mercado para aquilo (quanto mais não seja o oficial); presumo que seja a isso que se pode chamar, com alguma autoridade, um negócio necrófilo.
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Entretanto, alguma intelectualidade de direita (deduzo que deve ser da nova) vai-se entretendo, na comunicação social, a reflectir sobre o que é a Arte.  Há quem ache um refrigério. O que não deixa de me lembrar o que uma vez li sobre a resposta de Louis Armstrong à pergunta de um jornalista sobre o que seria o swing – diz-se que a Satchmo a resposta lhe saíu espontânea, como um solo: “Se tem necessidade de perguntar é porque nunca vai entender, my friend”.
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A verdade é que vivemos, como refere aqui o Daniel Abrunheiro, a era do vazio. O eco que lhe oferece a comunicação social apenas lhe amplifica o sinal.
E na vida real este sinal invade o quotidiano como uma evidência ensurdecedora e brutal. Torna tudo profundamente hediondo. Medonho. Mas de uma banalidade atroz e indescritível.

- A imagem acima é de há três dias, em Maiorca, Figueira da Foz. Portugal.
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quarta-feira, 16 de Julho de 2014

A bava do zeinaldo e a granaderia dos gestores de ponta

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Os últimos dias da alta-finança nacional têm sido bastante eloquentes da competência e da probidade (?!) da fina-flor dos gestores de ponta das empresas de maior “prestígio” deste pobre país arruinado.
O que se vai sabendo do cada vez mais sórdido caso da família Espírito Santo é, aliás, a mais cabal explicação, ilustrada “aux coleurs criardes”, para a ruína de um país. De qualquer país. Como o episódio mais recente.
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A estória é curta e resume-se assim: Zeinal Bava, o crestianoreinaldo dos negócios, é o gestor de ponta mais bem remunerado do país, o ai jesus das redacções dos jornalinhos “de negócios”. Bava (sobre quem já me debrucei aqui) foi presidente da PT SGPS entre abril de 2008 e junho de 2013 e ainda é presidente da PT Portugal. Ora, a PT Portugal, agora dirigida por Henrique Granadeiro (outra sumidade da gestão-de-ponta) aplicou 897 milhões em ativos da Rioforte, empresa do GES que estava em risco de não cumprir (e não cumpriu) o pagamento aos investidores no papel comercial.  
Pois bem, o zeinaldo, que é maometano, bava-se por quantas lascas de presunto há no mundo que não sabia de nada.
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A moral da estória é velha como o mundo: sempre foi assim e nem podia ser de outra maneira – dizem uns - e os outros corroboram. Ou seja, enquanto uns se peidam, os outros riem-se e vice-versa; e assim sucessivamente, por aí fora.
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sábado, 12 de Julho de 2014

O futebol e a vida

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Na minha infância o futebol era uma metáfora do fantástico e do imponderável. Hoje em dia, tal como na vida, para mim no futebol também já não há mistério. Empresarialisou-se. Tornou-se um negócio à escala mundial, programado, sem surpresas, demasiado previsível: já não há lugar nele para Manés Garrincha, Georges Bests, Diegos Maradonas ou Victor-Baptistas.
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Se, como já ouvi alguém, uma equipa de futebol deve ser como a big band de Duke Ellington - uma orquestra de músicos inspirados e solistas geniais dirigida por um génio inspirado - eu já vi jogar equipas assim: a Holanda de 1974 e o Brasil de 1982. Perderam, é claro, e talvez tenha sido essa tragédia que precipitou o futebol neste pesadelo resultadista obcecado com a “eficácia”, previsível e aborrecido. 
O que é facto é nunca mais vi equipas “tocarem” assim. No futebol actual não há lugar para a alegria do jogo (para quem não sabe, o futebol é um jogo colectivo, tal como a música), nem para “músicos” inspirados como Sócrates (o doutor, não o inginheiro) ou Cruijff, nem para “directores d’orquestra” como Rinus Michels ou Tele Santana. Apenas para paulosbentos e felipões; e Joachim Löw.
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Sim porque a Alemanha é uma orquestra afinada. Mas está para a alegria do jogo mais ou menos como a orquestra de Paul Mauriat para a música: não tem imaginação nem fantasia, nem Paul Gonsalves nem Johnny Hodges nem Ben Webster, nem os outros todos; nem o Duke, claro. A Alemanha, no entanto, com o seu futebol frio e burocrático tem sido sempre uma orquestra demolidora da bela música do futebol maravilha. Foi assim em 1954 com a Hungria de Puskas e kocsis (esta nunca cheguei a ver), em 1974 com a Holanda e em 1990 com a Argentina.
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Neste mundial deu para ver aliás que todas as equipas que tentaram jogar com a Alemanha pelo resultado (para perder por poucos, para empatar ou vencer por poucos) levaram muitos, à cabazada. À excepção do Gana (uma equipa que lamentavelmente só a espaços parece conhecer e querer partilhar o prazer do jogo) e da Argélia.
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A equipa de Islam Slimani foi a única que esteve perto de poder vencer os alemões. Mas apesar do bom futebol não é ainda uma big band das antigas: falta-lhe a ousadia, a generosidade, o desprezo pela derrota e um je ne sais quoi que não consigo definir mas que talvez fosse o ingrediente capaz de transformar o boato - de que a equipa de Slimani doaria o seu prémio de nove milhões de dólares aos habitantes da Faixa de Gaza - numa notícia verdadeira. O futebol resgataria a vida. E talvez também o meu antigo fascínio pelo imponderável, esse mistério que é a esperança.
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A Faixa de Gaza, para quem não sabe, é a parcela do globo com maior concentração de habitantes por metro quadrado. Estão aí confinados por um embargo que até lhes nega o acesso a ajuda humanitária porque dizque deusnossosenhor em pessoa prometeu a sua terra em exclusivo a uns senhores que não apreciam carne de porco à alentejana.
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