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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Um homem vem ardendo





Um homem vai perdendo,
uma a uma,
as suas referências.
Este tem sido um ano horrível.
Desta vez, foi Ruy Duarte de Carvalho.
Ninguém como ele escreveu,
em língua portuguesa, sobre o deserto (à excepção de João Cabral de Melo Neto, mas de uma outra maneira).
Morreu ontem, no seu querido Namibe.





Um homem vem ardendo na sua segurança e depois semeia estrelas por aí.
Traz mãos pendentes onde o sangue aflui e punhos brancos de ostensiva fé. Mal suporta a claridade de um primeiro olhar. Ocorre-lhe de súbito o peso dos testículos, a densidade líquida das mãos, uma urgência antiga de projectar-se erecto. Um homem traz consigo um rosto opaco que a surpresa urdiu, o véu esculpido da certeza oculta, preserva no sorriso a segurança nata e oferece, no olhar, uma estação de cereal maduro.

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Um homem chega e assume a personagem. Ilustra-se de faces, decompõe a fé, possui-se de um vigor insuspeitado, desvenda as claridades do seu peito, produz formosas coisas com seus dedos, põe-se a reordenar os horizontes, atinge mortalmente as formas com o olhar, progride nas tarefas da conquista e chama a si as referências do lugar. Da plataforma adopta a dimensão bastante ao seu critério de sentir-se livre, roda em si mesmo, elege as coordenadas e cumpre a sistemática invenção dos rumos.

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Um homem vem fundir geografias, polarizar as formas da manhã deserta, vem fecundar as latitudes nuas e violar segredos de falésias. Um homem vem, destrói a derradeira protecção da lenda, transita triunfante a bruma do silêncio, afaga, da idade, o corpo descuidado, revolve-se na febre, despoja-se de si e oferece o peito.

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Um homem está a possuir-se de silêncio. Assume a quietude e embebe-se da forma. O céu, o sol, as pedras. Acumula-se em luz, em vento, areias, água e sombra. Um homem não é maisque a sua idade rematada aqui na dimensão da estepe, na explosão das águas, na secura dos troncos, na poeira dos ventos, na dolorosa persistência das ramas, na rasgada frigidez da noite, no escoante sobressalto dos sons, na líquida maré das estações exíguas. Um homem não é mais do que a sua austeridade de minério, a sua resistência euforbiácea, a sua ambiguidade de animal.

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Um homem não é mais do que este volume em que progride, esta fatal grandeza em que se inscreve, esta ausência de idade em que transita, esta força de deus a que se entrega. A chuva é o seu gesto, a sua voz a voz da tempestade, e é já sua também a sombra da montanha, a forma do granito, o peso deste sol, a força deste vento. E o crime desta ausência, a maldição gratuita deste pó, a crueza incisiva desta luz, este temor passivo da extinção.

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E se de novo aponta a face às faces e se projecta inteiro contra os seus, é escasso o vulto que transporta firme para conter o clima que lhe vive oculto. Semeará os gestos de um poder secreto, projectará as sombras que anunciam vento, afirmará cadências que reservam pasmo, deduzirá carícias que provocam medo, aspergirá sorrisos de indizível dor. Um homem ferve lumes de estações e espalha o medo à volta quando invade o espaço das fogueiras mansas.

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Um homem vertical em seu desgosto, perdido no seu eco, um homem que alterou conjugações de estrelas, é uma noção de espaço conquistado e em espaço se transmuda renovado.

Afunda-se porém na projecção do tempo e o seu viver assume a maldição do crime. Quando se expande, no eco dos seus actos, é para exceder barreiras de memória; quando em marés o seu amor se verte é para romper as margens da entrega; quando o seu canto atinge o tom da glória é para vergar o viço das searas; quando o seu vulto ansioso se anuncia é para ofuscar o brilho da alegria.
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Um homem pára então para descobrir
que até o pranto lhe confere o crime
e a culpa que o investe sobrenada o tempo.

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Decide então morrer
que a sua força aqui não se contém.

Ruy Duarte de Carvalho, in A decisão da idade, 1976
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2 comentários:

cid simoes disse...

Um texto que dá a dimensão de um Grande escritor.

António Agostinho disse...

Como gosto desse blogue, tive nomeá-lo para o Blog de Ouro 2010.
Um abraço