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quarta-feira, 20 de junho de 2012

O símbolo da coisa

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Nada há tão perigoso como ser excessivamente moderno. Existe a tendência para ficar fora de moda sem se dar por isso.
Oscar Wilde
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Esta posta não é sobre Cristiano Ronaldo.
É, um pouco, sobre o patriotismo, mas sobretudo sobre a sua iconografia - a propósito do patriotismo e de uma das suas variantes mais patuscas já me pronunciei, aliás, aqui.
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Cristiano Ronaldo é um ícone adorado (um símbolo patriótico) pelos portugueses de mais baixa extracção – ele representa para eles uma certa ideia de sucesso - o êxito na vida pela via, hedonista, do chuto na bola.

É todavia preciso que se diga que, para se ser um ícone patriótico para os portugueses é necessário – imprescindível - ter-se êxito no estrangeiro. Ou seja, os portugueses gostam de gostar de algo de que toda a gente gosta “lá fora”, como eles gostam de dizer.

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Todavia, se o lúmpenproletariat tuga tem um símbolo à medida dos seus ideais - com imenso êxito no estrangeiro - a fina flor dos portugueses (a classe por assim dizer, mais sofisticada) também tem a sua ideia acerca de vencer na vida através desse prazer de agradar. E também tem o seu herói, o seu símbolo de sucesso, o seu íconezinho.
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O íconezinho, ou herói, da classe sofisticada portuguesa é uma heroína. Chama-se Joana Vasconcelos e é “artista”. Tem êxito, muito; e no estrangeiro, como os tugas gostam. Ela “recicla conceitos” e o seu material de trabalho são os símbolos, os ícones do quotidiano pimba português. Já me referi ao seu trabalho aqui (de raspão) e aqui (em cheio). Ela transforma o pimba-lúnpen em pimba-chic, comercializa e exporta. É um êxito. 
Os estrangeiros gostam; os bifes então, a-do-ram. E agora também os franciús. Foda-se. Só visto.
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Acaba de inaugurar uma exposição de coisas patuscas no chatô de versalhes meudeus (sucede a artistas como Jeff Koons e Takashi Murakami, eles próprios ícones de um certo género, mas curiosamente não o patriótico, nos seus países respectivos). 
Atafulhado agora com as coisas da Joana, Versalhes, aquela espécie de bordel rococó flamejante até parece um templo clássico, puta que o pariu.
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Mostrando como a fina-flor dos nossos senhoritos se sente identificada com Joana, esse fenómeno, Paulo Portas, o ministreiro dos negócios estranhos já disse: ela é genial, internacional, tradicional e empresarial” e “mostra um Portugal “criativo, contemporâneo, na moda e actual”.
Nem mais. Palavras para quê.
- Eu hoje acordei com veia iconoclasta. Anti-patriótica.
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2 comentários:

Judite Castro disse...

Gostei.

Rogério Pereira disse...

Acordo tantas vezes assim... só que não sei me exprimir...