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quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Fernão de Magalhães (1480-1521)

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"A Igreja diz que a Terra é achatada, 
mas sei que ela é redonda, porque vi a sombra dela na Lua,
 e acredito mais numa sombra do que na igreja."
Fernão de Magalhães
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domingo, 15 de setembro de 2019

Pérolas a porcos.


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A edição de 2019 do renascido festival internacional de cinema da Figueira da Foz decorreu durante dez dias sem perturbar a estação de banhos. Durante dez longos dias (uma ousada ingenuidade da organização, que também me concedeu a liberdade de criar o cartaz deste ano), enquanto o Festival projectava as suas metragens longas e curtas em salas às moscas, todo o glamour desfilava no Picadeiro, que regurgitava de banhistas passeando o bronzeado e o balão de Gin, ou a bjeca, plas esplanadas.
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Assim, e como sou muito próximo de alguém da organização, tive o equívoco privilégio de assistir de camarote a mais uma expressiva demonstração da indiferença dos figueirenses pelas coisas do mundo em geral e pelas do espírito em particular. Trata-se de um fenómeno transversal a toda a sociedade figueirinhas: do lumpen à classe média, passando plos senhoritos e incluindo aquele núcleo de pessoas do milieu, digamos assim, da cultura, e da comunicação social. Todos, mais a população flutuante (a taxa de ocupação hoteleira está acima da média em Setembro) fizeram questão de manifestar o seu total desprezo por uma rara oportunidade de conhecer e discutir 168 filmes, e os modos de os fazer, oriundos de 57 países e culturas habitualmente afastados do sistema de distribuição comercial e dos meios de comunicação de massas.
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Lima Barreto dizia do seu país: “O Brasil não tem povo, tem público”, querendo com isto dizer, creio, que o brasileiro não agia, só assistia. A verdade é que, mesmo para se assumir o papel passivo de espectador é necessário, ainda assim, um mínimo de curiosidade, essa centelha que permite que alguma luz ilumine o cérebro e lubrifique a argamassa cinzenta que edifica a consciência e consolida o entendimento.
Ora a Figueira da Foz de hoje, e de sempre, não só não tem povo como também não tem público. Não age e nem sequer assiste. Este não querer ver-não querer saber é afirmativo, ostensivo, militante, orgulhoso - totalmente destituído de qualquer centelha de curiosidade - o que, curiosamente, não obsta que nas redes sociais figueirinhas pulule a opinião ufana, categórica, definitiva; sobre tudo e sobre nada.
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A Figueira é, por isso, um lugar estranho. Bizarro. Excêntrico e concêntrico. Habitado por uma gente tão amorfa que, embora vote cada vez menos, continua, impune e alegremente, a eleger deputados e vereadores e presidentes. E, extravagante, continua com uma invicta e notável capacidade de atracção, na estação de banhos, de uma gente igualmente vazia, igualmente destituída de curiosidade ou de qualquer interesse que não seja pelo óbvio, ou pelo imediato.
A Figueira é a prova viva(!?), física, definitiva, que o vácuo ocupa lugar – um lugar oco, mas denso; vazio, mas incontornável – opaco, impenetrável a qualquer centelha de luz.
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Mas se as sessões estiveram às moscas, a gala de entrega de prémios esteve compostinha, no Salão de Festas do Casino (essa catedral). O Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz acabou, como de costume, em modo litúrgico e em apoteose com copiosas juras de amor ao cinema, ao som da marcha do vapor.
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quarta-feira, 4 de setembro de 2019

José Vieira Marques


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Na véspera do dia em que começa a edição 2019 do renascido Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, é sempre bom lembrar José Vieira Marques, que foi um dos seus fundadores e seu secretário-geral durante três décadas (até ser suprimido, atribuladamente, em 2002, por Santana Lopes).
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O festival foi muito importante – transformando durante anos, na primeira quinzena de Setembro, uma pasmacenta cidadezinha de província como a Figueira da Foz numa meca do cinema - divulgando cinematografias desconhecidas ou experimentais e modos de produção independentes - atraindo cineastas, críticos, actores, jornalistas e um público cinéfilo anónimo e entusiasta que transformava os seus debates no final das sessões em acaloradas e divergentes madrugadas inesquecíveis. Segundo Lauro António, “Quem gosta de cinema e tem mais de 40 anos, não esqueceu certamente este festival, e quem é mais novo, e não for totalmente tolo, tem obrigação de fazer pela vida e saber de História”. Para Luís Vilaça, “o Festival da Figueira foi um marco importante neste país de brandos costumes e o seu director foi um agitador de consciências. Promoveu como poucos o cinema português".
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Mas Vieira Marques também nunca foi de unanimidades. “tinha o seu feitio,” dizem - que nunca impediu, contudo, o seu amor inquestionável pelo cinema e por todas as maneiras de o tornar possível. Ex-padre de formação humanista e visão plural da vida e da sociedade, encarava o cinema como uma forma de promoção da cultura e do conhecimento. Morreu em 2006 - deixando lamentavelmente por concluir uma, decerto valiosíssima, “História do Cinema”.
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Quanto ao novo festival, herdeiro do de Vieira Marques, já não é o mesmo – os tempos também são outros – já não existe público cinéfilo curioso e noctívago, aberto a outros olhares, à discussão aberta e às ousadias da experimentação. Mas o entusiasmo e o amor incondicional pelo cinema é bem o mesmo - está intacto – certamente nos que trabalharam o ano todo para que esta quinzena fosse, de novo, possível.
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