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entre os animais ferozes,
o de mais poderosa mordedura é o delator;
entre os animais domésticos, o adulador.
Diógenes
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José Cunha Carvão é o nome do presidente da Assembleia de
Freguesia de Maiorca. Mas parece acabado de
sair, fresco como uma alface, repolhuda e reluzente, das brumas da memória
ainda frondosa de um Portugal da idade-média ou do estado-novo. Carvão é o
“doutor” da terra (é professor de geografia no instituto D. João V) e, como
tal, é muito considerado e reverenciado por, enfim (quase) todos os seus paisanos. Todas as aldeias deste Portugal
imemorial têm um assim e não só nas novelas de Aquilino.
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Embora tenha sido eleito nas listas do PS (Partido
Socialista) ou talvez por isso, José Carvão representa aquilo que de mais
reaccionário persiste ainda e sempre no Portugal
profundo. Cunha Carvão encarna, com airosa propriedade, aquele atávico temor de
Deus, aquela devoção beata plas
santas tradições populares e aquele respeitinho
servil por tudo o que vem de cima que caracterizam toda uma casta
de doutores-de-coimbra-meudeus que
ainda presidem, em vilas e aldeias por todo o país, a assembleias de fregueses
que ainda praticam, com o mesmo airoso e pertinaz sem preconceito, o analfabetismo mais irredutível.
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Por isto, na mais recente sessão da assembleia, em lugar
de, como lhe compete, fazer cumprir uma proposta do eleito da CDU aprovada por maioria absoluta há três ou quatro
assembleias atrás (adquirir um zingarelho para gravar as intervenções dos
eleitos do povo) assim cuidando que as actas das sessões sejam transcritas com
alguma fidelidade, de preferência sem erros de ortografia, José Carvão, em modo
melífluo e embaraçado, de solícito e feliz engraxa-o-cágado
decidiu propor, decerto a pedido de várias famílias,
uma espécie de moção de desagravo, voto
de louvor ou menção honrosa ou lá o que era, ao xelentíssimo senhor doutor João Ataíde das Neves que tanto fez pla
freguesia e agora nos deixou para secretário d’estado.
Perante a ausência massiva de quase toda a bancada do PSD
(o seu único representante presente, fleumático ou distraído, algo blasé, receio que levemente ensonado,
não me pareceu particularmente entusiasmado) o eleito da CDU chutou para canto
- sugerindo-lhe a moção por escrito, em assembleia a realizar.
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De modos que na próxima assembleia, os eleitos do povo de
Maiorca terão certamente o privilégio de votar (e os paisanos de assistir) à leitura
em alta-voz da prosa encomiástica (se for em verso será uma ode, só espero que
não seja cantada) de José Cunha Carvão em louvor do xelentíssimo e diligente autarca que ofereceu a Maiorca a inauguração
do restauro do senhor da Paciência (aprovado pelo seu antecessor); a
concretização de um projecto “fechado” (sem discussão pública) de arranjo
urbanístico do Largo da Feira Velha; nenhuma solução para o restauro e
posterior utilização do palácio do conselheiro Lopes Branco e idem idem aspas
aspas para o Paço - além do abate despropositado das carvalheiras do campo da
bola e das excelsas podas nas árvores ornamentais, claro.
Decerto irá para os anais. Isto, como é óbvio, se
entretanto já houver gravador para a sessão - e consequentemente, actas
fidedignas do acontecimento.


