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quarta-feira, 6 de julho de 2016

O fenómeno da identificação ou a assunção da mediocridade

Tous les drapeaux ont été tellement souillés de sang et de merde 
qu’il est temps de n’en plus avoir, du tout
Gustave Flaubert
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O patriotismo é, de todas as faces da estupidez, a mais enigmática e inquietante. A mais em forma de assim. Trata-se de uma forma de estupidez particularmente virulenta porque achaca em simultâneo quantidades apreciáveis de pessoas. Um fenómeno de massas, portanto.
Como já referi algures neste blogue, trata-se de um fenómeno que, através da propaganda, transforma pessoas sem qualquer brio individual ou qualidades cívicas notórias numa turba cheia de auto estima, convictamente consciente dos supostos valores da sua hereditariedade. E quanto mais grunhos, impreparados e civicamente amorfos forem os indivíduos, mais ululante se torna o fervor colectivo. Em geral isto é perpetrado por motivos esconsos mais ou menos óbvios, mas sempre inconfessados.
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Isto é facilmente observável, por demais evidente, na Europa das nações e no seu campeonato de futebol. Todos os povos projectam na sua selecção nacional aquilo que presumem ser a súmula dos seus valores nacionais e exigem que ela reflicta com orgulho o que os identifica. Assim, os russos são obstinados, os alemães metódicos, os franceses ousados, os italianos são pragmáticos, os croatas fantasistas, os romenos temperamentais, os suíços são neutros, os ingleses fleumáticos, os espanhóis tiquitaca, os irlandeses são doidos, os suecos nórdicos, os turcos explosivos e os islandeses um caso à parte (os galeses não são tão fleumáticos como os ingleses nem tão doidos como os irlandeses).
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Ou seja, as equipas acabam sempre por corresponder à ideia que os povos fazem de si mesmos. Salvo os portugueses, que não sei bem o que são; ou o que julgam que são. A julgar pelo desempenho da sua selecção (a equipa não joga puto, não vence um jogo em cinco) deduzo que não sejam grande coisa. Mas eles não se importam com isso, pelo contrário - estão plenamente identificados com ela. O orgulho nacional português, a cagança, está ao rubro (e ao verde, claro). E redobra de intensidade a cada um dos seus vitoriosos empates.
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Ora o futebol é um jogo e, como tal, um divertimento. A vitória é consequência natural do melhor desempenho - isto é, sorri sempre ao que melhor joga que é, em simultâneo, quem mais se diverte; e quanto mais categórica e indiscutível for a vitória, além da glória obtém também, invariavelmente, o respeito dos vencidos. Isto é elementar de tão simples. Mas não para os portugueses.
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Para os portugueses o futebol não é um jogo simples, nem um divertimento. É uma ciência oculta. Um esquema mental obscuro, entre a lógica e a irracionalidade, que se socorre de uma estranha matemática (com mais incógnitas que soluções) na fase de grupos e da mais bizarra religiosidade nos jogos do matamata - o qu’eles rezam, putaquepariu, bichanando como as velhas, na lotaria dos pénaltes.
Em Portugal ninguém vai à bola para se divertir, nem espera isso dos jogadores. O estádio é, para eles, um campo santo, o dos “mártires da Pátria”. Espera-se (exige-se) dos jogadores “espírito de sacrifício” , “saber sofrer”, “marchar contra os canhões” e outras merdas do mesmo jaez.
- O futebol é, para os portugueses, na praia ou no sofá, uma filosófica dilaceração, uma espécie de teologia do sofrimento.
- O técnico da selecção é um demiurgo veterano, um sábio, um cérebro que parece que está sempre com dor de barriga cuja táctica é passa-a-bola-ó-ronaldo e a estratégia é levar isto próspenaltes, caralho.
- A equipa, crestiano & as dez ronaldetes, é a risota de toda a Europa. Entra em campo a benzer-se ao pé coxinho com tanta vontade de não perder que se esquece do mais elementar: jogar à bola. Por isso, vão tentando freneticamente passar-a-bolóronaldo, enquanto esperam pla hora das penalidades.
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Apesar disso, nos media, nas redes sociais, nas ruas, o espectáculo é delirante: quanto mais pífio o jogo da equipa e mais nulo o resultado mais cresce o fervor patriótico dos portugueses. O patriotismo estremece as avenidas, rechina plas vielas, escorre, viscoso, dos televisores. Estarrece. Quase tanto como o entusiasmo da juventude alemã pel’aviação sem motor. Mas igualmente revelador: este incrível e patusco processo de identificação dos portugueses com a sua selecção é também, receio, a assunção sem complexos da qualidade que melhor os define, a sua verdadeira identidade.
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Assim, o jogo de hoje com o país de Gales pode ser um alívio para mim; ou o meu pior pesadelo: a muita séria possibilidade do triunfo - para todo o mundo ver, na final - da mais mesquinha mediocridade.
Os corações dos portugueses já estão ao alto. O meu é que não sei se aguenta.
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7 comentários:

João Matias disse...

É uma espécie de "A Pátria em Chuteiras", de Nélson Rodrigues, mas vista ao espelho, ou melhor, vista entre dois espelhos, a projetar-se indefinidamente num sentido e no seu inverso. Que belo texto.

Joc Sil disse...

Kkk muito engraçado. Aqui do Brasil todo português parece um humorista ou poeta. Espelhos com imagens ao certo e ao avesso? Kkk E assim me pego deixando mais um reducionismo nacionalista meio sem querer, meio querendo.

Edgar disse...

Não concordo com o texto nem vejo os muitos e muitos milhares que festejam alegremente, cá e além fronteiras, e se orgulham do sucesso da selecção como "grunhos, impreparados e civicamente amorfos".
Infelizmente, à medida que foram destruindo o 25 de Abril, o povo tem poucos motivos para festejar e, com a integração nesta Europa e no euro, poucos factos de que se pode orgulhar.
Edgar Carneiro

Olímpio disse...

Ao meu amigo e camarada(também cliente) Fernando Campos, o qual estimo como pessoa e intelectual, entendo a critica á paixão do futebol, mas é demasiado rigorosa e ofensiva.Em St Étienne(incluindo-me)no jogo com a Islândia, os emigrantes choraram ao cantar o HINO NACIONAL, doridos de sofrimento e saudade.Não; meu camarada e estimado amigo Fernando Campos, entendo-o mas foi longe de mais? Porque não escreve sobre os "grunhos"do basebol, em Cuba? Sim, meu estimado Fernando Campos, olhe que a paixão é igual, enquanto as crianças pelas ruas o jogam nas suas brincadeiras.A proposito. Pelas 2h30, á cerca de meia hora, no Foz Mondego Rádio 99.1, pode ainda ouvir ás 6h30m, depois 10h30, 18h30, em Mar Revolto de Vez em Quando, uma livre opinião sobre Cuba, não indo tão longe como foi o meu amigo Fernando Campos, excelente cronista, sem duvida, mas demasiado parcial sobre as envolventes matérias.Há meses que não o visitava neste seu espaço, mas olhe que os amigos são para as ocasiões e eu sou daqueles que não sou aldrabão nem vira casacas com as amizades Aceite um bom
abraço do seu barbeiro, com renovada lealdade e estima

Olímpio disse...

Volto para dizer-lhe que não visito o seu Sitio, já lá vão muitos meses, não é pelo facto de menos respeito pela sua liberdade em manifestar-se num país livre e sem prisões politicas, no resto são só ladrões, mas sim por uma razão; o que escreve e bem, é areia de mais para um barbeiro de aldeia,só isso...

Olímpio disse...

São só ladrões, os politicos, se bem me entendemm, quando reparo que o povo tem as suas culpas ao não se libertarem dos que são seus inimigos.

Olímpio disse...

Deve ler-se entendem.