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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Leonardo Padura

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   (...)“Antes de molhar o pincel deves ter uma ideia de aonde queres chegar, mesmo que não saibas como fazê-lo... Eu hoje gostaria de chegar à tristeza que existe na alma de um homem de quarenta anos. Gostaria de a revelar, porque é uma tristeza nova... A dor e a tristeza não são a mesma coisa, sabias? Tenho muita experiência da dor, tal como da ira, do desengano, da frustração... e também do prazer do sucesso, mesmo quando os outros não o entendem e me deixam na beira do caminho... O que não é estranho... Mas a tristeza é um sentimento profundo, demasiado pessoal. A alegria e a dor, a surpresa e a ira são exultantes, alteram o rosto, o olhar... mas a tristeza marca-o por dentro. Onde achas que posso encontrar a tristeza?” Elias Ambrosius respondeu de imediato, satisfeito com a sua sagacidade: Nos olhos. Está tudo nos olhos.” O Mestre negou, abanando a cabeça. Ainda achas que sabes alguma coisa...? Não, a tristeza está para lá dos olhos... É preciso chegar ao pensamento, à alma do homem, para a ver; e falar com essas profundezas, para tentar reflecti-la...” O Mestre molhou o pincel no pigmento amarelo e começou a marcar as linhas do que rapidamente se transformou numa cabeça. “Por isso muito poucos homens conseguiram retratar a tristeza... Um homem triste nunca olharia para o espectador. Procuraria alguma coisa que está para lá de quem o observa, um vestígio remoto, perdido na distância e, ao mesmo tempo, dentro de si próprio. Nunca olharia para cima, à procura de uma esperança; também não o faria para baixo, como alguém envergonhado ou receoso. Deve ter o olhar fixo no insondável... O rosto ligeiramente voltado para dentro, a luz não muito brilhante na face virada para o espectador, as pálpebras bem visíveis... Para fazer com que o rosto sobressaia e se possa concentrar aí a força, o melhor sempre foi um fundo castanho-escuro, mas nunca preto: a profundidade do ambiente corresponderia à profundidade dos sentimentos, reiterá-los-ia e acabaria com o seu mistério... Diz-me, rapaz, sentes-te capaz de pintar a minha tristeza?” “Vou tentar, com a sua licença...”(...)
Leonardo Padura, Herejes (O Livro de Elias, pag.297)

Um amigo deu-me a conhecer um grande livro; de um grande, e verdadeiro escritor. Trata-se de Herejes, de Leonardo Padura.
A leitura desse livro denso e complexo - susceptível de muitas leituras - sobretudo da sua segunda parte, O Livro de Elias, da qual destaquei o trecho em epígrafe, não deixou de me fazer recordar uma das minhas primeiras tentativas de fixação da tristeza - uma ingénua e canhestra porém atrevida aventura nas profundezas desse misterioso e movediço território que é o do retrato: a representação, para além da verosimilhança e das evidências, dos vestígios que a dor, a ira, a decepção e a frustração deixam, indeléveis, nos rostos humanos.
É disso que tratam os retratos. De História. De salvados das ocorrências. De vida. Da vida que sobra.
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No entanto na vida, e na História, acontecem por vezes estranhas confluências de factos, aparentemente desligados no tempo e no espaço, carregados de significados misteriosos, surpreendentes ou inexplicáveis. Como o detective Mário Conde, também eu me interrogo “sobre as formas como se criam, avançam, torcem e até confluem os caminhos da vida de pessoas tão diferentes e distantes” como, por exemplo, um aclamado escritor cubano da actualidade e um obscuro pintor sem-eira-nem-beira nem futuro como eu.
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Por isso não é sem algum assombro que verifico que o meu pobre quadro de 1988 parece ilustrar exactamente o que Padura descreve em 2013. Só que o jovem judeu Elias Ambrosius, aprendiz de pintor, ouvindo uma lição de anatomia, ou de pintura, do mesmo Mestre, sou eu.
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6 comentários:

cid simoes disse...

Trecho tão apelativo que me leva a tentar encontrar o livro.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Salto do traço para o texto e do texto para o traço
e há várias ligações possíveis dentro da coerência de quem escreve e do citado

mas
num despropósito te peço

aumenta-me esse corpo de letra
(é que estou a ficar jarreta
e não suporto perder um bom parágrafo)

Fazes isso a um amigo?

Fernando Campos disse...

Caro Rogério, eu bem queria, mas não posso. A letra torna-se-ia demasiado grande e o post gigantesco. Vou pô-lo a negro, espero que pelo menos assim se torne mais legível. Um abraço a ambos.

Judite Castro disse...

Grata pela partilha.

cid simoes disse...

Eu apoio no ctrl e na tecla + (mais) e aumento o corpo de letra.

cid simoes disse...

E já agora, para conseguir o inverso CTRL e - (menos)