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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

retrato da presunção, sem água benta

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Joseph Conrad escreveu, não sei bem em que contexto, que a caricatura é “pôr o rosto de uma piada no corpo de uma verdade”. 
Como Conrad não foi propriamente um espírito conhecido pela nonchalance, deduzo que a sua referência tenha sido crítica. Na sua austera severidade (ele não usava de rodriguinhos nem paninhos quentes, escarafunchava a chaga sempre até à carne viva), a caricatura sugeria-lhe um expediente artificioso - uma espécie de máscara - com que se tentaria disfarçar a face sempre inquietante desse corpo hediondo que é a verdade; ou seja, um divertimento mundano, irresponsável e escapista, apenas destinado a amenizar a dura realidade dos factos da vida.
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Penso que não é esse o caso das minhas caricaturas. Detesto o engraçadismo tanto como Conrad. O que busco nos meus desenhos (que não são “bonecos” apalhaçados pra fazer rir) não é a fácil adesão ou o entretenimento pelo riso alarve. O que neles é exagero ou parece deformação é apenas o que me parece conveniente realçar pelo desenho em vista de uma melhor apreensão da pura e dura realidade dos factos da vida.
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Ontem fiz 53 anos. Cinquenta e três. Já não tenho grande futuro. O país em que habito também não. Isto é um facto da vida. A dura realidade. A verdade.
Tenho vindo a dedicar-me à árdua e bastante desconsiderada arte da caricatura, desenhando, entre outros, os rostos de uma classe dirigente que reduziu velhacamente a esperança de um povo imbecil a este grau zero e lhe transformou a vida nesta comédia negra triste e bufa pontuada alegremente - de Maio a Outubro em Fátima e de Agosto a Junho no canal Benfica – por estranhos fervores colectivos e álacres festividades populares.  E, entre a época dos fogos, a balnear e a da sardinha, por outras delirantes e pícaras bizarrias, como a caça aos indecisos, os inumeráveis e repetitivos festivais de música ao ar livre e as privatizações a mata-cavalos.
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O rosto que escolhi retratar e editar hoje aqui é o de Sérgio Monteiro, o secretário de estado das infraestruturas, transportes e comunicações. Na prática trata-se do comissário plenipotenciário dos donos-disto-tudo para as privatizações. O senhor suápe. É dele o rosto da privataria - essa curiosa transacção de bens públicos para bolsos privados a preços módicos convencionados pelo mediador em troca de equívocas percentagens ou futuras participações.
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Os traços, a pose e a retórica são as de quem encara essa sale besogne como uma missão. Algo realmente importante. Patriótico. O mediador acha-se um decisor.
É disso que trata o desenho. De presunção. O retrato - tanto quanto possível fiel, ainda que resumido ou sintético - de um alarve entupido de auto-convencimento.


A caricatura, como a entendo, não ambiciona fazer rir. Embora, por vias travessas, talvez até o faça.
A verdade é que, como Camilo a respeito do romance, também “estou mais que muito desconfiado de que não morigera nem desmoraliza”.
Apenas procura, modestamente, aquela inquietação que só proporciona o verdadeiro entendimento dos factos da vida. 
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6 comentários:

cid simoes disse...

Não, este rosto não faz rir, olha-nos com uma avidez que amedronta. Quanto aos 53 eu sabia que era três dias antes ou depois. Pelas minhas contas, e eu sei contar, vai ter no mínimo mais 40 para continuar esta luta que é de todos nós.

Antonio Agostinho disse...

Parabéns, meu caro... um abraço.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Parabéns, pá!

Fernando Campos disse...

Muito obrigado, caros amigos.
Era muito bom, caro Cid. Ó se era, mas não me parece que tenha a sua têmpera. Um abraço.

Sérgio Ribeiro disse...

Excelente! Confesso ter um "pó" especial a esta "prenda" (será por uma questão onomástica ou homotopaica?), pelo que, abusando da autorização já concedida e muito agradecida, vou transcrever no meu anónimodo séc. xxi.
Saudações ao JOVEM amigo.

Sérgio Ribeiro disse...

... queria escrever homotópica e naãp homotopaica

Um abraço