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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

um postal de natal


O natal deprime-me.
Deprime-me o convívio convencionado, o frio, a humidade e as filhozes. Mas também o ambiente geral de hospital em festa, os muitos votos e os preços altos da fruta seca. Ou os peditórios, a condescendência, os jantares de caridade e o clima venéreo propício ao alambazar calórico e ao consumismo frígido.

O ar das nossas cidades, com a sua iluminação colorida de electricidade chinesa - como las vegas patéticas no deserto cinzento de dezembro - também é triste. Assim como os presépios da cavaca, em exposição itinerante.
Tudo nesta quadra me deixa naquele estado a que se chama melancolia
Não me apetece desenhar nem escrever a ponta de um corno.
Por isso, deixo-vos com um “retrato” que fiz do poeta António Gedeão e com um dos seus poemas. É o último do ano.
Até ao próximo.
Ah, e Boas Festas.

Poema do alegre desespero
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Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?
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3 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

fiz link

e criei um postal

cid simoes disse...

Divulguei e tentei encaminhar para o Frederico de Carvalho.

Judite Castro disse...

:(
Subscrevo.

Cá estaremos em 2015.
Cumprimentos :)