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terça-feira, 1 de maio de 2012

Domingos Silva


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O Casino da Figueira (ou a empresa que o detém) ocupa (como já enunciei aqui) um lugar ímpar no imaginário colectivo figueirense.
O Casino (ou a entidade que o detém) sempre pôde dizer de si próprio e da Figueira da Foz algo similar ao que se dizia da General Motors e da América: “o que é bom para Figueira-Praia, é bom para a praia da Figueira (ou vice-versa).
O Casino (ou a sociedade que o detém) está para a política e para a vida cívica na Figueira mais ou menos como a Alemanha para o futebol: os partidos e os candidatos digladiam-se até ao insulto, por vezes até à abjecção, mas no fim ganha sempre a Figueira-Praia
- A firma paira, assim, sempre acima de crises conjunturais e de querelas eleitorais. Nunca um seu responsável se envolveu, directa e pessoalmente, na política; jamais foi julgado necessário pois os seus interesses nunca foram postos em causa, ou sequer discutidos, por qualquer executivo municipal - eleito ou nomeado.
Até agora.
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Sim, porque uma longa cadeia de frios gestores-de-casino do mais discreto perfil acaba de ser quebrada por este homem: Domingos Silva; ou, como dizem os figueirinhas (parece que estou a ouvi-los) odótordomingoxilva-faxavôr.
Não que o actual e consabidamente inofensivo executivo municipal, de cariz vagamente sucialista liderado pelo juiz Ataíde, tenha de algum modo, mesmo fortuito, beliscado os superiores interesses da firma, não. Apenas porque sim. Ao que tudo indica, o dótordomingoxilva, o gestor do casino, ter-se-á fartado de gerir a privada e terá decidido (supõe-se que superiormente aconselhado) ir gerir a respública.
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Domingos Silva é um mestre do marketing e um empresário de variedades reputado. Foi ele que redescobriu velhos talentos com capacidades histriónicas e de comunicação invulgares (como Medina Carreira, por exemplo) e foi transformando o Casino em agenda e palco nacional de novas atrocidades para uma velha ideologia, agora triunfante (em breve, por exemplo, o casino será o palco das festividades da comemoração do aniversário do PSD).
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Aparentemente, segundo alguns dos seus detractores, Domingos Silva estará disposto a sacrificar tudo, até mesmo a sacrossanta prosperidade da firma (terá já despedido 80 trabalhadores enquanto contrata jornalistas de entretenimento, como Fátima Campos Ferreira, a dez mil euros a vezada).
Para cumprir o sonho de se sentar na cadeira de Santos Rocha, aposta na autopromoção e em simultâneo, no desprestígio da gestão do pobre juiz Ataíde e da sua equipa. Para tal, o senhor Silva terá mesmo constrangido o boletim oficial da firma a abandonar a sua estrita tradição de rigorosa neutralidade política. O semanário O Figueirense, habituado desde sempre ao rapapé, ao beija-mão, ao lambe-cú,  está profundamente descaracterizado; dirigido por um advogado avençado passou a louvaminhar apenas, e em exclusivo, o dótordomingoxilva, veiculando abertamente uma sistemática oposição ao actual executivo. O pessoal do casarão da avenida Saraiva de Carvalho vive agora em alvoroçada e dolorosa vigília, sempre na expectativa do próximo editorial de Joaquim Gil (são semanais e cada vez mais panfletários, incendiários e lambe-cus).
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Plenamente consciente do que representa “ir ao casino” para os figueirinhas, é isso mesmo que ele faz, leva-os ao casino. Não há cão nem gato nem grupo de bisca lambida, teatro amador ou filarmónica que já lá não tenha ido, à borla, mostrar as habilidades – só têm que levar família e amigos e resignarem-se a um constrangido consumo mínimo - no fim,  todos (de regentes de bandas a presidentes de agrupamentos escolares)  lambem o cu ao dótordomingoxilva e agradecem-lhe, encarecida e comovidamente, em alta-voz e alegre apoteose, a superlativa generosidade.
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Cônscio pois do profundo significado da empresa que dirige e encarna (o casino para os figueirinhas é uma catedral) tal facto faz dele - embora se pareça com um inofensivo pároco de aldeia - uma espécie de sumo pontífice, um cardeal, um príncipe.
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Contudo, este príncipe encantado deve ter (todos têm) o seu maquiavel. Tudo indica que seja Joaquim de Sousa, de quem já vos falei aqui. Joaquim e Domingos já partilharam aliás, outra aventura política (apoiaram ambos a candidatura de Cavaco, outro político de casino, a presidente da república - com o êxito que se conhece).
Enquanto Domingos Silva dirige o casino, uma empresa que gere as expectativas de fortuna dos pacóvios, Quim de sousa dirige a Misericórdia, uma entidade também etérea, que lhes gere as expectativas de miséria.

Trata-se, portanto, de um dueto da corda; uma dupla maravilha; um tandem de sucesso.

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