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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A arte de peidar


Embora não tenha por costume aconselhar livros (isto das leituras é como os caldos e as cautelas: cada um toma as que quer), da última vez que o fiz, no natal do ano passado, penso ter contribuído para um best-seller; o que, a mim, como crónico subscritor de causas perdidas e eterno amador de preferências minoritárias me deixou confundido e, confesso, algo contrafeito; facto que, aliás, me faz desconfiar de que há blogues cuja influência não se mede pelo seu residual contador de visitas.
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Todavia, ou talvez por isso, ó suprema vaidade, neste Natal, atrevo-me a sugerir outro.
Porém, se o de ano passado era de um cómico involuntário este é premeditado, e é já um clássico. Do século das luzes. Vocês sabem, o dezoito: Voltaire, La Fontaine, Marivaux, Sade, Restif de la Bretonne, Laclos, a revolução, a guilhotina… Enfim, essas coisas.
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Este pequeno tratado (108 páginas) teórico-físico-metódico foi escrito na vetusta tradição libertina (ou, pelo menos, licenciosa) da literatura desse século prodigioso, por um professor de latim, filho de um negociante de cavalos, que se chamava Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut, “falso médico mas verdadeiro filósofo”, que pontificava na Societé du bout du banc, um dos mais célebres salões literários da época, chez Mlle. Quinault, que recebia a alta nobreza em pé de igualdade com poetas e artistas.
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Escrito em 1751 e reeditado inúmeras vezes, A Arte de Peidar depressa se transformou num clássico da literatura cómica, pseudo-científica e escatológica.
Inspirado pela elegante retórica das Luzes, Hurtaut compôs este ensaio erudito em quatro partes.
Na primeira trata de definir com precisão o sentido do peido, “le sens du pet”, distinguindo-o, entre outras coisas, do arroto. Em seguida, o autor desenvolve uma classificação do peido baseada na sua musicalidade; além de prodigalizar alguns judiciosos conselhos para modular os sons. A terceira parte, menos anatómica, conta várias estórias à volta do peido como aquela, a mais trágica, de uma senhora que “não se peidava à doze anos, por coqueteria” e que “morreu por se ter retido demasiado”. Na última parte, a mais pretensiosa, o autor desenvolve a teoria política do peido, segundo a qual este pode ser transformado numa terrível arma social (quando utilizado para por fim a qualquer discussão nauseabunda).
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Posto isto, é com satisfação que vejo esta obra-prima finalmente editada em português. Satisfação redobrada quando se trata de uma edição ilustrada para adultos -fenómeno muito raro no mundo editorial português mas talvez não de todo inexplicável: onde o analfabetismo é cultivado por (e para) gente grande, ninguém se espanta que os livros ilustrados sejam reservados aos fedelhos.
Contudo a edição, posta à venda no dia 25 de Novembro (!!?) embora seja “um sopro de ar fresco, um vento de loucura e derrisão”, traz consigo dois odores dissonantes: primeiro, a tradução do título: “dar peidos” não é o mesmo que “peidar”; não tem a mesma intensidade e efeito devastadoramente derrisório, o que talvez se explique pelo amor dos portugueses ao eufemismo. Segundo: as ilustrações são de um desenhador gráfico espanhol (deduzo que pertencem à edição espanhola da obra) – o que coloca uma série de questões pertinentes:
-saberão os editores portugueses que existem ilustradores cá na parvónia ?
-desconfiam da capacidade destes de ilustrar um peido?
-Se as casas de edição não têm ideias, se limitam a copiar as modas e compram por atacado, podemos confiar que a tradução foi feita a partir do original, ou do espanhol? Há uma longa tradição deste gosto pelo requentado na edição portuguesa (possuo uma edição, de 1943, de uma novela de Dostoievsky que diz, garbosamente, numa das páginas preambulares: ”traduzido do francês por João Gaspar Simões").
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Em todo o caso sempre podeis, como eu fiz e Hurtaut nos ensinou, utilizar o peido como arma política e encomendar pela net, aqui, a mais recente edição fidedigna.
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Não é ilustrada, mas sempre é a original.
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2 comentários:

cid simoes disse...

Os alvos estão bem definidos. Há que adestrar a pontaria.

José Augusto Nozes Pires disse...

Os espanhóis dizem: "me gago" nisto ou naquilo. Os portugueses não dizem, mas deviam dizer:"Peido-me" nisto naquilo. Com peidos se derruba um governo.Ou com vazelina.