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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O senhor da paciência


A vila de Maiorca, onde vivo há já um bom par de anos, é das mais antigas do concelho da Figueira da Foz. As suas remotas origens remontam à mais longínqua idade média. O então “Couto” recebeu foral em 1194 e compreendia as actuais freguesias de Alhadas, Brenha, Ferreira-a-Nova e Quiaios. Todo este vasto território era propriedade de três famílias, cujas casas senhoriais ainda existem, no casco velho da vila. Eram os gloriosos tempos do feudalismo.
De então para cá muitas coisas mudaram.
Os herdeiros dos grandes senhores dissiparam fortuna, poder e prestígio em guerras, revoluções, ou na mesa de jogo, na bolsa e na consanguinidade. Já os herdeiros dos antigos servos, fizeram-se à vida. Foram trabalhar para a cidade ou emigraram (em 1849, Maiorca tinha 12 846 habitantes; hoje tem 3006). Consta até que alguns em lugar de oferecer a força o seu trabalho como fizeram os seus egrégios avós, venderam-na e fizeram fortuna. Na Austrália e noutras paragens.

Contudo, os actuais maiorquenses, descendentes dos antigos servos da gleba, conservam ainda na alma e na memória os ferretes indeléveis desses tempos medievos: a nostalgia da grande propriedade e uma particular devoção que se consubstancia numa romaria anual: o Senhor da Paciência. Afirma o jornal “As Beiras”: “Em muitos sítios, a palavra festa é sinónimo de alegria, barulho, foguetes. Em Maiorca não. Pelo menos quando se trata de cumprir a centenária tradição em honra do Senhor da Paciência. São três dias de fé e devoção numa celebração exclusivamente religiosa. Não há sequer lugar para foguetes, quanto mais para qualquer componente profana. Antes pelo contrário. O sentido é de sacrifício. De joelhos, rastejando ou a pé. É na retaguarda da procissão que se cumprem as promessas mais pesadas. E porque há promessas para tudo, há ainda quem as consume com a oferenda de velas do seu tamanho ou a colocação de ouro ou dinheiro no manto do santo”. Três dias de intensa devoção que culminam no dia 29 de Novembro e são muito mais que uma manifestação de fé; são uma verdadeira filosofia de vida, uma espécie de teologia do sofrimento, um estoicismo vivo e paciente. Não há cá foguetório e desgarradas etílicas nem bailinhos lúbricos com atracções pimbas, nem torresmos com cervejolas, nem bisca lambida ou outras profanidades - a vida é um sagrado mar de lágrimas. E o orago da vila até nem é o Senhor da Paciência. É o Santíssimo Salvador. Mas o bom povo de Maiorca não acredita verdadeiramente em puerilidades como a salvação ou a redenção. Aqui, o único sentido da vida é definitivamente o penitenciário. “Não é fanatismo. É fé e devoção- dizem.
Entretanto, na mesma edição, o jornal “As Beiras” refere ainda que a comissão da capela do Senhor da Paciência está envidando esforços e peditórios para o restauro da sua capela que, construída em 1707, está em ruínas. O chão está podre e as paredes débeis. “Nesta altura já devia estar coberta a ouro com o dinheiro que as pessoas deram”, afirma o responsável, acrescentando que não sabe o que foi feito do dinheiro angariado pela antiga comissão fabriqueira da Igreja de Maiorca”. Suponho que nem do ouro e do dinheiro “depositados no manto do santo” em sucessivas romarias. Haja paciência.
Mas, ainda na mesma edição e noutra peça, o mesmo jornal adianta que em Maiorca “já é possível receber os mortos com dignidade”. A (actual) comissão da fábrica da Igreja não quis esperar pelas obras prometidas pelo município figueirense para a Casa Mortuária e, congregando esforços e concomitantes peditórios logrou encetar as obras de remodelação do edifício anexo à Paróquia. Espera-se que estejam concluídas no final do ano. Quando o projecto da autarquia avançar, a comissão fabriqueira pretende transformar aquele espaço numa sala multiusos que poderá mesmo ser utilizada para a catequese.
Suponho que os pacientes catequistas fiquem assim com um espaço condigno para perpetuar nas novas gerações de maiorquenses a santa fé na paciência.
É assim a vida em Maiorca.
Se os actuais latifundiários (da monocultura do arroz) vivem melancólica e pacientemente não já do trabalho servil, como antanho, mas da imponderabilidade dos subsídios comunitários (para produzir ou para não produzir, depende da directiva), os outros maiorquenses vão fazendo o que podem, munidos de igual paciência. Até mesmo os pobres (sim porque também existe pobreza em Maiorca, voiyons!) lá vão como sempre, “na retaguarda da procissão”, cumprindo “as promessas mais pesadas”, que depositam pacientemente sobre o sagrado manto do santo.
Porque o que custa é que deus agradece, caralho.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ao alto, Crucificação, 1999

6 comentários:

CS disse...

«não sabe o que foi feito do dinheiro angariado pela antiga comissão fabriqueira da Igreja de Maiorca». Isto já é mas é andaço. Se o caso for entregue ao Pinto Monteiro manda arquivar e acaba a peçonha.

Anónimo disse...

Bom post.
Mas o Bach é genial.

Fernando Campos disse...

É, não é?
Puta que pariu.
Até dá vontade de acreditar em deus.

José Augusto Nozes Pires disse...

O sítiodosdesenhos está colcoado na minha lista de blogs. Tenho por ele e pelo seu autor grande admiração. Pelos seus desenhos estupendos, pela sua ironia forte,dou-lhe os meus sinceros parabéns por criar um dos melhores blogs que conheço.

Rei da Lã disse...

"... recebeu foral em 1194 e compreendia as actuais freguesias de Alhadas, Brenha, Ferreira-a-Nova e Quiaios."


Está incorrecto, Sr. Fernando Campos.
Isso só aconteceu entre 1836-42 e 1853...

Rei da Lã disse...

:)