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sábado, 17 de outubro de 2009

A escalada da estupidez



Há uns anos atrás, o humorista José Vilhena foi processado por uma comissão carnavalesca porque escreveu que ”os parolos da Mealhada pagaram trinta contos a uma tal de Lili e nem sequer o cu lhe viram”. Isto veio-me à memória a propósito do estranho fenómeno de indignação e brio patriótico que tomou alguns portugueses na sequência das afirmações de uma apatetada actriz brasileira de telenovelas.
O espírito tacanho dos pacóvios sempre foi campo fértil para o enlevo patriótico. O discurso alarve da exclusão, da pretensa superioridade de “nós” sobre “eles” sempre me pôs de pé atrás. Talvez porque, embora isto não seja nenhuma Atenas, eu me sinta sempre um meteco.
Existe latente entre os portugueses, que “descobriram o mundo”, um profundo desconhecimento da dimensão desse mesmo mundo; tal como da dimensão da língua portuguesa no mundo e da sua própria dimensão na língua portuguesa.
Só isto explica que Vasco Graça Moura lidere, com esse tipo de argumentos, uma cruzada patrioteira contra o acordo ortográfico. Este intelectual cavaquista (parece um paradoxo, e é) é um poeta emproado de uma erudição enviesada cujo ego não tem a mínima noção da sua desmesura (traduziu Dante, Petrarca e Shakespeare e, nas edições portuguesas dessas obras o seu nome aparece grafado com caracteres de dimensões várias vezes superiores ao nome dos autores).
Escreveu agora um artigo no DN em que explana todo o esplendor da sua estupidez com argumentos que se julgavam enterrados há várias décadas. Este Gobineauzinho lusitano acha que a arte e a cultura são assim como que um concurso de abóboras, (a minha é maior e mai linda c’á tua!).
Tal como desconhece que o Português é uma língua viva ele recusa-se a aceitar a eterna mutação das coisas vivas. É um conservador. Há tempos, numa entrevista, soltou esta pérola: “A esquerda enerva-me”.
Eu acho natural. É mesmo essa a prerrogativa histórica da esquerda: enervar os cretinos.
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7 comentários:

CS disse...

Excelente como sempre. Quanto ao escriba o melhor é pô-lo em salMoura, conserva a cretinice que a muitos serve e não cria mais bicho.

daniel.abrunheiro@gmail.com disse...

Eu não gramo o Graça Moura. Mas estou de acordo com ele quanto à estupidez do brasilês. estou, estou.

CS disse...

Quer queiram quer não o futuro do "português" pertence a todos os que se entendem com este código; aos povos de Angola, Moçambique, Brasil, Cabo Verde e à criatividade de um Mia Couto e todos outros para quem a vida está num renovar constante. Caso contrário, atrasados que estamos, acabamos por desaparecer em tudo e também nos códigos de entendimento. Será possível encontrar um brasileiro seja mais estúpido que o salMoura?

daniel.abrunheiro@gmail.com disse...

Um brasileiro mais estúpido que o VGMoura, para aí, de repente, uns 180 milhões.
A riqueza de uma língua está na sua diversidade natural, não na sua unidade artificial.
Este "acordo" não faz sentido. O inglês é a primeira língua do mundo e não passa pela cabeça aos USA imporem ortografia à Inglaterra. Nem a Costa do Marfim à França. Nem a Argentina à Espanha. Para ponto final, meu, isto: o brasilês é uma merda.

CS disse...

PONTO FINAL!

o cu de judas disse...

sim, estou contra o acordo ortográfico. ao fazer uma pesquisa sobre direitos humanos, cidadania e globalização, lá me apareceu um texto brasileiro com a palavra anistia, tem exactamente a mesma pronuncia não tem , uma beleza.
Outros artigos académicos brasileiros ainda se conseguem entender mas outros deus me valha.

o cu de judas disse...

upa uma adenda, anistia é como passará a ser pronunciada a palavra amnistia, tem tudo a ver não tem