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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Abu Ghraib, Fernando Botero e a arte aplicada

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Quando uma grosseira e patética banalidade do futebol e um faits divers sórdido com ingleses finos se transformam em entretenimento nas primeiras páginas dos jornais, em matéria de reflexão na blogosfera e em preocupação na nossa classe política(!), é bom saber que ainda existem homens e artistas que, se preocupam com coisas tão despiciendas nos dias que correm, como a condição e a dignidade humanas.
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E por vezes, de fraca moita sai um bom coelho. Foi o que aconteceu com Fernando Botero.
Botero é um dos últimos grandes artistas do século vinte. O prestígio da sua obra adquiriu uma dimensão que já não necessita de provar. A sua idade, o seu estatuto milionário e a sua posição no mainstream e no circuito da arte internacional permitiam-lhe a discrição e até o descanso.
Mas Botero, conhecido por um imaginário aprazível de personagens bisonhas e “nonchalantes” (embora nada seja bem como parece aos idiotas) e por um ideário artístico aspirante à “harmonia” e à beatitude, redescobriu (veja-se o retrato oficial da Junta militar, da sua juventude), e já em idade avançada, a arte engajada.
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O velho maestro, além de se preocupar com a sua Colômbia natal, e de se meter em trabalhos por essa causa, resolveu pela mesma causa meter-se noutros trabalhos.
Executou uma série de pinturas e desenhos sobre as torturas que o exército norte-americano infligiu a cidadãos iraquianos, em Abu Ghraib. Pinturas que nenhum museu público norte- americano ousou ou quis expor, despoletando uma polémica sem precedentes na arte contemporânea dos últimos tempos, a respeito dos conceitos e propósitos da arte. (não por cá, que entre nós, a arte e a cultura só chegam às primeiras páginas dos jornais por absurdas obsessões de Guiness book e cretinos recordes de bilheteira e às preocupações da inteligenzia e dos poderes instituídos porque estes as entendem como sucedâneos ou mais-valias do turismo!).
Botero, aos 75 anos, entretém-se, reflecte e preocupa-se com os direitos humanos!
É verdade que Don Fernando não é um tonto e não se ilude quanto à influência que a arte possa exercer sobre a política, mas lembrando Picasso e Guernica, pode ser que no futuro, graças a Botero, o nome de G. W. Bush e dos Estados Unidos da América se vejam associados à tortura e a Abu Ghraib como o de Franco e dos nazis ao bombardeamento do infeliz povoado basco. “—El arte no tiene ningún efecto inmediato sobre la vida política. Pero con el tiempo tiene el valor de transformase en un testimonio o en un recuerdo permanente de algo que sucedió y de esa manera el hecho se perpetúa y no se olvida.
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Vejam aqui, o destino que Botero acaba de dar à colecção de 25 pinturas e 22 desenhos (que se recusou a vender), avaliada entre 10 a 15 milhões de dólares, e porquê.
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2 comentários:

Bel disse...

Olá:
Comecei a ver o seu blog e estou a gostar muito, eu gosto imenso dos gordinhos do Botero são geniais
Simplesmente Bel

Anónimo disse...

Ola!
Vi os ultimos quadros do Botero e gostei,pois ele tem coragem de denunciar essas injustiças de maneira bem concreta.