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quarta-feira, 27 de junho de 2007

as máscaras e eu


Estas fotos são mais velhas do que eu. Estão comigo desde os meus 9, 10 anos. Têm-me acompanhado desde então. Foram resgatadas na cidade do Uíje, num estúdio abandonado de um fotógrafo, onde um tio meu instalaria uma alfaiataria. Quando meu tio adquiriu o espaço e nós (meus primos e eu) o vasculhámos, abandonado e num caos revolto, um mundo de mistérios e perplexidades se abriu para nós.
Foi aí que, entre montes de papéis, jornais e revistas com datas de antes de eu nascer, pela primeira vez me vi confrontado com o mistério do passado, pois no Uíje de então, edificado após os massacres de 1961, tudo era novo!
Foi por entre milhares de fotos e negativos, velhos projectores e outros apetrechos relacionados com a fotografia, mas também objectos estranhos (um dos meus primos afiançou-me mesmo que um deles seria uma cadeira eléctrica!) que pela primeira vez eu vi imagens pornográficas. Vi também, pela primeira vez, imagens terríveis de corpos, brancos e negros, esquartejados, decepados… em fotografias tiradas por certo aquando das revoltas de 1961 e das subsequentes represálias…

Estas fotos que agora vos mostro e que eu guardei para mim, devem ter sido tiradas muito antes disso em alguma das fazendas de café limítrofes, para onde vinham homens do sul como contratados.
Aos Domingos, era-lhes permitido fazer as suas celebrações. Estes homens eram iniciados, pertenciam a seitas que celebravam os ritos de passagem e os mistérios de uma complexa teia de crenças. As suas máscaras, algumas de delicada factura, todas de uma também complexa simbologia, não são meros disfarces como na tradição da máscara europeia, mais apropriada a folias e a desregramentos carnavalescos.

Mas ao contrário dos brancos adultos, que na sua tolerância sobranceira, encaravam estas celebrações rituais como uma espécie de curiosidade folclórica, eu (que ainda oiço a monótona toada dos tambores, propícia a todos os transes e à sugestão de todos os mistérios) ainda vejo as danças com os seus saltos, rodopios, apitos e estalar dos chicotes, as peles, as penas, e as ráfias. Respiro ainda o ar quente e o pó dessas tardes de Domingo. Sinto que estas máscaras ficaram sempre em mim como um sinal da minha inquieta fascinação por toda a espécie de mistérios. Dos atávicos aos telúricos.

Nota - Embora, ao longo da minha vida, me tenha vindo a interessar pela etnografia angolana, não sou, nem pouco mais ou menos, um especialista. Por isso, se por acaso, entre os visitantes deste blogue, se encontrar alguém com conhecimentos menos rudimentares, peço-lhe que me ajude a descobrir mais sobre a origem e funções destas máscaras.
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2 comentários:

Afectos disse...

Esse achado foi para si um prenúncio à sua actual arte?

Fernando Campos disse...

Não sei se um prenúncio, mas de certeza um "condicionante".
Nós somos aquilo que vimos...