.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

o Salazar que amava a liberdade

(…)”Dante foi mais feliz na realização do seu ”inferno” do que na realização do seu “Paraíso”, o qual na confissão dos seus entusiastas, é sofrivelmente “bête”. (…) É que o Inferno realiza quase o ideal da destruição contínua, enquanto o Paraíso nem é destruição nem construção, mas uma coisa realizada, e realizada no limite: assim, é para o Homem, o símbolo mesmo da “bêtise”. Qualquer “alminha”, com o seu ingénuo Inferno onde se contorcem corpos ardentes, entusiasma o homem do povo; enquanto esse mesmo homem do povo, em face de um Paraíso com Anjos de algodão em rama murmura em seu íntimo, “que aquilo é lindo mas idiota.” O Inferno foi sempre, nas religiões, uma “réussite”, enquanto o Paraíso foi sempre um fiasco: e o paraíso cristão foi a “gaffe” suprema do Cristianismo. Esta “gaffe” reflecte-se na arte cristã, sempre feliz na representação do Inferno, sempre infeliz, sempre “bête”, na representação do Paraíso que se tornou mesmo um símbolo de “bêtise”: é a “bêtise” no limite.
Fala-se muito do “milagre grego”; mas o verdadeiro “milagre grego”, reside, a meu ver, no facto da arte helénica, no seu período áureo, ter conseguido a serenidade olímpica sem cair na “bêtise”. – Paradoxo incompreensível para todos os homens, que para sempre, se ficaram pasmados de tal milagre.”
in “ Que é a arte?”

Descobri recentemente por entre os livros da biblioteca da Magenta, uma terceira edição, de 1961, de um ensaio de Abel Salazar: Que é a arte? (de quando os livros traziam capas sem bonecadas nem palermices).
Eu já conhecia Abel Salazar, do museu Soares dos Reis, no Porto, onde, já faz uns anos me impressionaram uns enormes trabalhos a carvão sobre papel.

Devo dizer que sempre me deixou perplexo o véu de indiferença que a cultura portuguesa padronizada, com a sempre douta caução de críticozinhos medíocres, predestina aos seus maiores, aos de difícil definição… (José Augusto França arrumou Abel Salazar na prateleira dos amadores).

Recordo que esta obra, redigida em 1940, no tempo dos horrores, da arte dirigida e das exposições de arte degenerada e, por cá, no contexto da famosa polémica de 1939 entre Álvaro Cunhal e José Régio, ou seja, entre o neo-realismo e o presencismo,, a arte de intervenção e o subjectivismo formalista, e toma uma posição em relação a ela: "quer uma quer outra das teses antagonistas não têm o menor fundamento. Quanto à tese "arte humana", podemos considerá-la um pleonasmo inútil (...) não se faz por decreto nazi, fascista ou comunista, como não s
e conseguiu outrora fazer por decreto católico".(Rui Mário Gonçalves, 1986).
Nestes tempos acéfalos em que se incensa diariamente a estupidez e o vazio, faz bem revisitar espíritos inquietos, desalinhados, exigentes e plurais como Abel Salazar.
Os figueirenses têm tido (desde Janeiro) oportunidade de acesso a uma pequena mostra da sua obra, (Abel Salazar, um desenhador compulsivo – no CAE) para constatarem da especificidade e dimensão do génio deste Salazar que nunca ganharia concursos de grandeza na televisão. Porque a grandeza de certos espíritos não é comparável ou sequer apreciável pela mediania ou mediocridade de quem espera da cultura produtos padronizados em formato consumível.
.
.

2 comentários:

carlos freitas disse...

De Abel Salazar conhecia pouco mais do que havia olhado no "Soares dos Reis".
Vi a exposição figueirense, por mero acaso. Ainda hoje não consigo entender porque é que está tão pouco "exposta" aos olhares dos figueirenses e dos outros ...se fosse em Lisboa...outro galo cantaria...por aqui vamos vivendo com o que há. E o que há para quem pode e quer ver já não é mau. Ter Abel Salazar no CAE. Mas à exposição falta o explicativo sobre o artista e a sua obra, que pura e simplesmente não existe. Ora o contexto e o pensamento do indíviduo acaba por fazer parte desse mesmo acto expositivo na minha perspectiva. NO CAE, isso não acontece e é pena. Como dirá alguém: O pessoal para ver bonecos carrega no botão da televisão.

Fernando Canmpos disse...

Pois é Carlos. A mostra do CAE ainda não visitei, mas não me espanta que seja como dizes no que concerne "ao explicativo sobre o artista e a sua obra." Coincide com a atitude do "mainstream" em relação aos desalinhados... Ou então é a tradicional incompetência , falta de brio, de visão e sensibilidade de quem promove e exibe este tipo de mostras... O habitual!