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quarta-feira, 21 de junho de 2017

o coro das velhas

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A Figueira não tem Arte Nova nem ovos moles, como Aveiro; nem Arte Urbana e o Grão Vasco como Viseu; Nem biblioteca joanina e Machado de Castro, como Coimbra; nem castelos, como Montemor e Leiria; nem Woolfest como a Covilhã; nem expofacic como Cantanhede; nem palheiros como a Costa Nova; nem jardins como o do Paço Episcopal de Castelo Branco, o Botânico de Coimbra ou o Budha Eden do Bombarral; nem bicicletas como Águeda; nem vinhos como a Beira Interior, a Bairrada e o Dão; nem cerejas como o Fundão; nem queijo como a Serra de Estrela, nem chanfana e leitão como a Bairrada.
A bem dizer, a Figueira não tem porra nenhuma – não possui património histórico ou artístico e não produz a ponta de um chavelho - a não ser o areal mais comprido da Europa. Segundo o circunspecto site do Turismo Centro de Portugal, não há nada que realmente interesse na Figueira da Foz. Ou seja, a Figueira da Foz é, e isto é mais ou menos pacífico, um verdadeiro oásis na zona centro.

Igualmente desprovida de cultura gastronómica (não tem sequer um prato típico ou um doce característico) a Figueira tem, no entanto, Rosa Amélia. Sim. A Figueira tem Rosa Amélia que, por sua vez, tem um restaurante. O mundo inteiro e a própria Figueira sabem-no através da televisão. Sim, porque Rosa Amélia é um fenómeno televisivo. Não há porra de programa de TV que seja transmitido em directo desta choldra que não se socorra (certamente aconselhado pela entidade ligada ao turismo) da iniludível, incontornável e inefável presença desta figura. Os clientes do mercado municipal sabem que sempre que Rosa Amélia ocupa o seu posto na banca de peixeira é porque as câmaras da televisão estão a chegar. Os tele-espectadores de todo o país já todos conhecem da trás para a frente a sua estória de vida, a estória da sua vida, o seu pregão, o seu turbante, os seus aventais, o seu peixe, o seu marisco, o seu sacrificado empreendedorismo, as suas chinelas, o seu restaurante. E agora até o seu hobby, o surf. Nem mais, que Rosa é uma peixeira surfistinha. Um verdadeiro ícone local.

Mas a Figueira tem outras figuras que ganham vida diante de uma câmara de tv. Igualmente icónicas, digo eu. O país inteiro e eu, que no passado Sábado à tarde não mudei de canal logo depois do sonolento Rússia-Nova Zelândia, assistimos inermes, em directo da Figueira e entre dois números musicais pimba, à habitual performance de Rosa Amélia anunciando o seu restaurante - mas também, estarrecidos, à revelação de outra dessas figurinhas; isto é, ao nascimento de mais uma estrela no firmamento figueirinhas.

Outra velha. Mais feérica, exuberante e insinuante ainda do que Rosa Amélia, e igualmente assertiva a vender o peixe. De cabelo vermelho e atitude encarniçada a condizer, Conceição Ruivo (é esta a sua graça, registem) perseguia insistentemente a pobre apresentadeira do canal 1 da RTP pela esplanada, ora mostrando-lhe as maravilhas da sua arte (a senhora é artista): um incrível bricabraque de coisas coladas numa tela e uma outra com azulejos bordados e rendas pintadas (ou vice-versa, não percebi bem), ora anunciando-lhe coisas de si própria - que preside à “maior associação de artistas do país”, que vai fazer “uma bruta” exposição pró ano no CAE e tal, e que patati e patatá vai escrever um livro erótico e tudo.


A Figueira não tem nada que realmente atraia o turismo ou a simples curiosidade. Ninguém se desloca de propósito à Figueira para ver a torre do Relógio ou o penico do Jordão, ou a rotunda do farolito, ou qualquer uma das suas rutilantes urbazinações ou das gandes supefíces licenciadas recentemente pla autarquia. Mas tem figuras realmente bizarras. Podia montar um circo. 
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2 comentários:

cid simoes disse...

A continuar assim o Fernando Campos ainda nos aparece estrafegado por um peixe-espada ou atacado por um cardume de alforrecas.

Fernando Campos disse...

Espero bem que não, caro Cid. Eu tomo as minhas cautelas...