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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Madre Teresa

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Este é derradeiro boneco do ano. Madre Teresa, de Calcutá. 
Vai ser canonizada. No ano novo que aí vem. Pelo Papa Francisco. O mesmo que, quando a conheceu, ainda bispo de Buenos Aires, disse ter ficado impressionado com a religiosa e, de bom humor, confessou: “Eu teria medo que ela fosse a minha madre superiora”.
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Madre Teresa, que passou a maior parte da sua vida na Índia a cuidar, sem paliativos, de intocáveis moribundos, vai ser canonizada porque curou um engenheiro, no Brasil.

Eu cá não acredito em nada. Não fui abençoado com o dom da Fé. Em mim, toda a reflexão leva à perplexidade. E como o meu cepticismo é pertinaz, e impenitente, também não nutro, ai de mim, grandes esperanças na Ciência e nos seus milagres.
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O único modo sensato que achei de expressar essa consciência do absurdo da existência é através da prática,  mais ou menos imoderada, desse último recurso do desespero que é o humor.
A verdade porém é que o riso não cura; mas alivia. Que o diga Francisco - o Papa - que deve estar tão aterrorizado como eu.
É esse bálsamo que tento partilhar com quem visita este pobre sítio angustiado. E a quem desejo um bom ano novo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O princípio de nixon

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E o homem do ano é... Carlos Costa. 
Por todas as razões e mais a seguinte: o governador do Banco de Portugal, sobre quem já me debrucei aqui, parece a demonstração viva da perene actualidade do princípio da incompetência, ou de Peter, do professor Laurence Johnston Peter.
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Este príncípio pode ser enunciado deste modo: num sistema hierárquico, todo o funcionário tende a ser promovido até ao seu nível de incompetência. E isto é assim, segundo o professor Peter, porque entre outras coisas, “a nata sobe até azedar” e porque “para qualquer trabalho no mundo existe alguém, em algum lugar, que não o pode fazer. Pela força da promoção, essa pessoa conseguirá esse posto”.
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Foi o que aconteceu com Carlos Costa no topo da hierarquia do Banco de Portugal. Para a hierarquiologia, ciência criada plo prof. Peter, a competência é a "capacidade do empregado, julgada pelos superiores, para preencher o seu lugar na hierarquia". Chegado ao topo, Carlos Costa é, pla lei em vigor, inamovível, indemitível, insubstituível; porque não tem superiores que lhe julguem a capacidade. Atingiu a bem-aventurança da incompetência, a indispensabilidade inimputável.
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Contudo o prof. Peter não ficou por aqui para nos ajudar a entender toda a dimensão e densidade do fenómeno da estupidez na hierarquia das organizações de topo. Chegados a este patamar, elaborou outro príncipio que se adapta, como outra luva, a Carlos Costa: o princípio de Nixon, para o qual “se dois erros não fazem um acerto, experimente com três”.
Penso que, depois do BES e do BANIF, é exactamente isso que o imparável governador do Banco de Portugal se prepara para fazer, no ano que aí vem, com o Montepio ou com outro banco qualquer.
Está tudo previsto pelo professor Peter.
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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Estória sem exemplo


HISTÓRIA EXEMPLAR
 
Entrei.
- Tire o chapéu – disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
- Sente-se – determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
- O que deseja? – investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.
Saí.
 Mário Henrique Leiria, Contos do gin-tonic
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O Banif foi vendado aos espanhóis do Santander. Como de costume, com enooormes “perdas para o contribuinte”.
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Até agora ainda ninguém foi preso. Nem o governador do Banco de Portugal, nem a ex-ministra Albuquerque, nem o ex-ministro Gaspar. Nem sequer o seu presidente do conselho de administração, Luís Amado.
A verdade é que esta gente não vai dentro. As suas reputações são inatacáveis, os seus percursos inquestionáveis, as suas posições inexpugnáveis.
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Amado é um vistoso economista e consultor de empresas que já foi auditor do Tribunal de Contas(!) e ministro dos Negócios Estrangeiros, e de Estado, e da Defesa e tudo. Já me debrucei sobre a sua figura aqui, a propósito da performance diplomática que fez nas Necessidades.
Amado é muito considerado. Amado é um servidor compulsivo e satisfeito (veja-se a lista, impressionante - que ele exibe com garbo, na sua ficha da wikipédia - de países a quem prestou e que lhe reconheceram serviços). Por isso o desenhei de libré.
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Além disto, Amado é adorado pela imprensa de referência. E tem tão boa imprensa que é chamado amiúde pelas televisões, rádios e jornais de negócios. Questionam-no muito respeitosamente e ouvem-no, muito sérios e circunspectos, discorrer melancólico sobre a temática da problemática, a crise económica, a dívida pública, o sistema bancário, as consolidações, as fusões, as estratégias, as oportunidades, a globalização enfim, até sobre o desígnio nacional e de como afinal, nisto como naquilo, é prudente ser prudente.
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E ninguém se ri. Tudo se passa como se Amado fosse mesmo alguém capaz, realmente decente, um sábio, um senador, um estadista.  

Não há ninguém que lhe dê duas latadas. 
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domingo, 13 de dezembro de 2015

A justeza das palavras

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Existem palavras mágicas na língua portuguesa. Algumas, no entanto, caem num desuso tanto mais lamentável quanto a infeliz actualidade do que descrevem com basta proficiência e derrisória subversão.
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É o caso, por exemplo, da palavra “fraudulência”.
Não me ocorre tê-la encontrado antes na imprensa ou na literatura. Encontrei-a em Camilo, em Coração, Cabeça e Estômago. De início pensei ser mais uma das invenções miraculosas desse demiurgo das palavras; fui ver, e a palavra existe mesmo no dicionário, esse paiol da língua - o mestre de Ceide não desperdiçava munição.
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Penso que é uma daquelas palavras que revela mais do que traduz. Isto é, o que descreve com precisão não deixa de sugerir com a mesma objectividade outros sentidos menos óbvios mas igualmente evocativos das suas subsequentes exalações pestilenciais. É daquelas palavras que me atinge, ao acabar de a ler ou ouvir, com o súbito “estrondo da verdade”. 
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Não há melhor palavra para descrever, com propriedade, o clima venéreo dos dias que correm, o seu ar do tempo e o inconfundível fedor do que propagam os jornais: da luta contra o terrorismo islâmico ao combate ao aquecimento global; do défice público à luta contra a desigualdade social; do ranquingue das escolas às sondagens da católica e ao tratado orçamental. E à cruzada do super-juiz Carlos Alexandre, o paladino da justiça do Correio da Manhã, imarcescível perseguidor de malvados e super-herói de papel cujo parecer acaba de dar a liberdade ao ex(?)donodistotudo.
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Duvidam? Então é assim:
-O banqueiro Salgado, que diz que não tem cheta (mais precisamente que está descapitalizado, o pobrezinho) recusa-se pagar a caução que lhe era exigida e que já tinha sido reduzida para metade a pedido de várias famílias conhecidas de advogados.
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-O bom do juiz acredita no espírito santo (enfim, mais ou menos como os sondadores da católica nas confidências dos comunas), além disso, “nenhum cidadão pode ser constrangido, em vez de ir preso, a pagar uma caução monetária acima das suas possibilidades”.
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-E, ao lavar dos cestos, o senhorsalgado não só não não paga a fiança como não é, lógica e competentemente, mandado descer aos calabouços, como ao implacável super-herói dos leitores do CorreiodaManhã ainda lhe parece bem mandá-lo em paz, em santa liberdade.
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Digam lá agora que para isto não vos ocorre uma palavra justa, (de justeza, claro).
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O esteves da caçarola

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Bem sei, a estupidez generaliza-se. Trata-se suponho de um dos efeitos conexos (não necessariamente perversos) da globalização. Ele há o estado islâmico no levante, o Trump n’américa, a China em África, a Merckel no mundo livre e na capa da revista Time, o chauvinismo Le Pen na segunda volta das locais em França, etc., etc.. Assim vai o mundo.
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Mas, no capítulo da anedota, a nível local também há vultos que se agigantam.
É o caso de Mário Esteves, sobre quem já me debrucei aqui.
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Segundo o “jornal” As Beiras, o emérito provedor das caldeiradas local vai abandonar a presidência da “Figueira com sabor a mar” (uma espécie de associação de empresários da restauração figueirinhas) que ele próprio fundou há apenas três anos.
Diz que sai por “razões empresariais”. Mas garante que está sempre disponível para continuar a colaborar, na direcção. Ou seja, aposenta-se, mas não muito. Deduzo que, quanto mais não seja, por razões “sentimentais”.
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Sobre se a baixa do iva da restauração se reflectirá numa descida de preços, o empresário  laranja diz que népia, com impáfia:"Não, porque também não subiram quando o imposto aumentou. Se o IVA baixar, o que vamos fazer é criar mais postos de trabalho. Esse é nosso objectivo."
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Claro que sim.
Tal como a Merckel na capa da Time como personalidade do ano e líder do mundo livre, Mário Esteves também estaria, com todo o mérito, na capa do meu Album Figueirense. Isto, claro, se no nosso meio também houvesse mercado para anedotas – enfim, para caricaturas.
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ai ai as livrarias

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Não consigo pensar em cegos sem me lembrar duma frase de Benjamin Péret (cito-a de memória, como acontece com tudo o resto): “Não é verdade que a mortadela é fabricada por cegos?” Para mim, esta afirmação, sob a forma de pergunta, é tão certa como uma verdade do evangelho. Claro que algumas pessoas podem achar absurda a relação entre os cegos e a mortadela, mas para mim é o exemplo mágico duma frase totalmente irracional que é brusca e misteriosamente fulminada pelo estrondo da verdade.
Luis Buñuel, O meu último suspiro
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De todos os cegos do mundo havia um de quem Luis Buñuel não gostava nem um bocadinho. Era Jorge Luis Borges. “É evidente que é um bom escritor, mas o mundo está cheio deles. Além disso, não respeito ninguém só pelo facto de ser um bom escritor. São precisas mais qualidades”. A Buñuel o autor de Aleph parecia-lhe “bastante presunçoso e adorador de si mesmo. Em todas as suas declarações, sinto qualquer coisa de pedante (sienta catedra, como se diz em espanhol) e de exibicionista”. Isto, claro, além “do tom reaccionário de algumas das suas conversas e do seu desprezo pela Espanha”.
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Ao ler certas merdas nos jornais, tal como a Buñuel apodera-se de mim “uma cólera divina. Como se pode ter tão pouca vergonha?”. A verdade é que há pessoas que  exibem publicamente uma presunção tão cega e tão cínica e uma hipocrisia tão pedante e tão sonsa que é revoltante. E fazem-no,sem pecado, até com jactância, com um riso de puta na cara-de-pau.
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clicar para ver melhor
Vem isto a propósito de uma crónica publicada pelo premiado escritor António Tavares no “jornal” As Beiras. Trata-se de uma lamentação pela morte das livrarias.
O cronista, que sabe exactamente o número de livrarias que existem em Portugal (e quantas fecharam em Espanha, quantos livros se editaram e se importaram etc., etc., ) - lamenta muito o seu triste fim – refere mesmo que “há hoje cidades que já não têm livrarias na verdadeira acepção da palavra”; mas depois sugere que não deixa de se viver por isso. A seguir interroga-se sobre como se repõe a “identidade que se vai perdendo e que se sabia ter qualidades” e remata com uma graçola sonsa: diz que lhe perguntam onde se vende o “seu” livro e que, “desfasado” que é do mundo, responde perplexo: “nas livrarias!”.
Reparem como o político florentino que subiu a pulso, estrategicamente, com o discurso sempre semeado de números exactos, em ponto de rebuçado, naquela ênfase de rigor tão do agrado do seu público alvo, os pacóvios, é afinal tão “desfasado” do mundo. Nunca vi um escrito que ilustrasse tão bem um espírito.
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Três dias antes porém, de esta crónica me aparecer à frente para que a bebesse com os olhos, estava eu a aparar umas guias que as minhas roseiras lançam para a rua quando se acercou de mim o carteiro e me perguntou, um tanto constrangido, se eu quereria por obséquio adquirir um livro uns tantos euros abaixo do valor cobrado nas livrarias; e, tirado de dentro de um envelope, mostrou-me um exemplar do prémio Leya deste ano, O coro dos defuntos, de António Tavares. Explicou-me depois, embaraçado, que agora aquilo fazia parte das suas obrigações. Declinei educadamente e o pobre homem lá se foi embora, com o dever cumprido.
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Não sei, devo dizer, se António Tavares é um bom escritor. Adaptei, faz já quase trinta anos, dois contos seus (um deles muito bom) para banda-desenhada e fiz a cenografia da sua primeira peça levada à cena (bastante mázinha por sinal, um monólogo em verso branco vagamente existencialista do qual não percebi peva) porque há coisas que, com vinte anos, se fazem por amizade. Com o fim da nossa amizade perdi, confesso, o interesse por tudo o que lhe concerne, incluída a sua obra, digamos assim, literária
O que me obriga, de vez em quando, a manifestar-me a seu respeito é o facto de ele se ter tornado um político relevante (é vereador da cultura e vice-presidente da minha autarquia) e de o seu pensamento, ou pelo menos a sua opinião pública, digamos assim, me aparecer à frente dos olhos de cada vez que me pretendo informar sobre os factos da terra que habito.
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Não sei, por isso, se o que Tavares escreve hoje é literatura. Mas se for o que publica no “jornal” As Beiras, parece-me mais mortadela.

E lamento profundamente o que a crise e a cegueira das privatizações fizeram a uma das mais nobres profissões deste país, a dos carteiros. Ao que eles chegaram agora, constrangidos pelos Correios de Portugal, a impingir charcutaria pelos portais.