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sábado, 15 de fevereiro de 2014

O charme discreto da burguesia

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Maria João Avillez (assim mesmo, com dois lês) é oriunda daquele meio mui selecto onde abundam os apelidos de consoantes dobradas e proliferam as cucas, as pimpinhas, as tétés, as lilis e as cócós que habitualmente partilham a sua intimidade com a revista “Caras”.
Esta gente integra uma classe social favorecida pela sorte nos negócios e nos acasalamentos (perpetua-se por endogamia) e pela proximidade do poder. Também presume grande prurido pelos pergaminhos de uma suposta e antepassada fidalguia.
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Maria joão Avillez, por exemplo, é filha do ”914º Sócio do Clube Tauromáquico” (que por sua vez era bisneto do 8.º conde de Galveias e trineto do 1.º Visconde do Reguengo e 1º Conde de Avilez) e – as merdas que se aprendem na wikipédia - acasalou com Francisco van Zeller (reparem nos lês dobrados), 923º sócio do Clube Tauromáquico”, capitão da indústria e dos negócios que já foi presidente da CIP e ganhou a grã-cruz da ordem do mérito empresarial e tudo e, por sua vez é “descendente de sexta geração de um comerciante neerlandês que casou em Portugal no Século XVIII com Anna Franzisca Herkel, de nacionalidade alemã”. Foi este vão-zeler que, depois de se bater como um leão contra o aumento do salário mínimo, acabou por confessar que não se imaginava a viver com 450 euros por mês.
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Maria João Avillez é, dizem no seu meio, uma referência do jornalismo político português. Ela escreve as suas referenciais análises políticas e as suas entrevistas fracturantes no semanário Expresso que, tal como a revista “Caras”, pertence ao império editorial do dr. Balsemão, um elemento destacado da sua classe (sobre quem também já me debrucei aqui).
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Maria João acaba agora de verter uma série de entrevistas a Vítor Gaspar para um calhamaço de quatrocentas páginas. A coisa tem um posfácio de Oliveira Martins, foi anunciada com grande pompa e apresentada na circunstância por António Vitorino.
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No lançamento (um verdadeiro happening) estavam lá todos, os amigos, em família, como no jantar do filme de Luís Buñuel. E tal como no filme do imortal aragonês, também houve uma espécie de inconseguimento enfim, um happening frustracional – ou seja, não houve facto político - não aconteceu nada. 
A não ser a exibição pública da consuetudinária velhacaria fratricida e do habitual cinismo amigavelmente assassino. O que, nesta classe, e entre esta gente, é demonstração da mais absoluta e banal normalidade.

Não é bonito de se ver. Nem edificante. Mas é sempre divertido.
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4 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

Hoje o teu texto assume a mestria do teu traço
igualam-se

cid simoes disse...

Oh Rogério... esse 'hoje' está a mais. Se me convidares para um duelo não apareço.

João Graça disse...

Muito bom ! Parabéns

Guilherme Fonseca-Statter disse...

Na «mouche»! Análise muito bem amanhada!...