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quarta-feira, 23 de março de 2011

memorial


O meu pai morreu dois dias depois do início da Primavera. Faz hoje um ano.
Nós não concordávamos em quase nada. Mas não discutíamos (ele não discutia, trovejava). Falávamos de tudo e entendíamo-nos por sinais.
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Desde então tenho vivido uma estranha deriva. Como se ao meu corpo lhe faltasse a alma. Como um “bateau ïvre” em busca de algo indizível, tenho dado comigo, mais vezes do que gosto de confessar, falando sozinho.
-Descobri em mim o mesmo humor colérico e o mesmo desconforto com os desacertos do mundo; a mesma indignação impotente com a estupidez em geral e a mesma perplexidade muda pelo triunfo desta ignorância armada; o mesmo apreço pelo trabalho bem feito e o mesmo respeito pelo dinheiro honesto; o mesmo fascínio quase místico pelo mistério das árvores e pela resiliência da pedra à usura do tempo.
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Por isso construí-lhe um memorial. No meu jardim. Em pedra. Entre as árvores.
Trata-se de uma espécie de corpo piramidal constituído por pedras sobrepostas (que ambos recolhemos de uma demolição) encimado por uma cabeça que é uma velha pedra angular.
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O conjunto é bem capaz de parecer algo bruto. Ou primitivo.
Mas eu não tenho subtilezas para exprimir o indizível.
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5 comentários:

São disse...

Em silêncio , lhe deixo o meu abraço solidário.

António Agostinho disse...

Um abraço.

cid simoes disse...

Voltei pela segunda vez e continuo mudo.

Rogério Pereira disse...

Abraço amigo.

daniel.abrunheiro@gmail.com disse...

Abraço. Compreendo-te.