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terça-feira, 29 de junho de 2010

O estado da arte e a chave da cidade


No dia em que Saramago morreu eu não senti nada. Já estava de luto.
Quanto a mim, Saramago está onde sempre esteve; as lombadas dos seus livros perfilam-se nas minhas prateleiras ao lado dos de outros imortais, como Ernesto Sábato, Graham Greene, Alejo Carpentier ou André Malraux.
O que me acabrunhou foi o que veio a seguir. É claro que evitei quanto pude a crapulosa cobertura “jornalística” das exéquias fúnebres e o habitual desfile cerimonial de crocodilos mas não pude escapar ao fel despeitado e vingativo com que a mediocridade, quase sempre rebarbativamente anónima, premeia o génio. Outros houve, identificados, que em elogios fúnebres carregados de cínica suficiência, confessaram-se incapazes de lhe lerem uma linha. Sempre me entristeceu o patético desprezo que a gente vulgar vota às pessoas com algum talento.
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Entretanto na Figueira da Foz houve escaramuças durante os festejos do S. João. Quando soube ainda pensei, ingénuo, que o povo se teria revoltado enojado com a pompa da circunstância de a Câmara Municipal local ter encenado para esse dia uma apoteótica homenagem a Mário Soares (o gaveta funda, lembram-se?) - parece que lhe deram a chave de honra da cidade ou lá o que é - mas não, o nobre povo só queria ver as marchas e os músicos estavam a estorvar (decididamente o vulgo não se melindra que premeiem a pulhice ou mesmo a irrelevância) e tudo indica que alguns bravos efectivos da polícia figueirinhas ainda tiveram que dar umas arrochadas (deus nosso senhor os abençoe, só se perderam as que caíram no chão).
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Ahh, e a nação valente entrou em delírio patriótico. Parece que a equipa nacional de futebol venceu copiosamente uns anjinhos coreanos que na primeira parte do jogo não cometeram nem uma falta – e nada mais apropriado para festejar tão retumbante vitória contra o malvado comunismo de olhos em bico do que a dança do big-mac-mac-loco-big-quê. Depois disso, os “navegadores “(é assim que se auto-denominam os heróicos mancebos do fast-food) empataram gloriosamente com o Brasil num jogo de compadres.
Hoje diz que é contra a Espanha.
Contra os canhões, marchar, marchar.
Se a coisa correr como desejo, amanhã ponho aqui um paso-doble.
Olé.
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