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sábado, 8 de dezembro de 2007

as boas intenções e o marketing

2007, Londres, “a capital da arte no mundo”(!!!).

Mark Wallinger é o galardoado com as 35 mil Libras deste ano do Prémio Turner. Mas o pobre perdeu dinheiro. É assim: o infeliz pagou a 15 pessoas que com ele colaboraram durante seis meses na obra, que custou 90 mil Libras. A “obra” está exposta na Tate Britain.
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Mark Wallinger e a instalação
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O júri do prémio, presidido por Christoph Grunenberg, director da Tate Gallery de Liverpool, reconheceu "o imediatismo, a intensidade visceral e a importância histórica" da instalação.

Segundo o júri, "a obra combina uma valente declaração política com a habilidade da arte de articular verdades humanas fundamentais".
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Damien Hirst, o formol, a vaca
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Damien Hirst, famoso pelas suas criações com animais mortos, venceu o Prémio Turner em 1995 com uma vaca esquartejada e conservada em formol. Agora, em companhia de Bono (o que é preciso é boas companhias, bem intencionadas) resolveu organizar um leilão de Arte. Adivinhem para quê.
Beneficiência, pois não era bom de ver!
Mas é uma cooisa em grande, vejam.
Estes “netos de Duchamp” ainda não sabem que DaDa está morto e arrefece. DaDa era um spleen, um “mal de vivre” e o seu sarcasmo e virulência eram traduzidos em violentas diatribes e graçolas, algumas de gosto duvidoso mas sempre contundente, contra o cinismo da ”teologia da guerra” e dos cânones vazios do académico gosto artístico da sua época. Funcionava. O êxito media-se pelo escândalo.
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DaDa morreu quando começou o merchandising dos objectos da sua gesta inconformista contra a palermice, isto é, quando se conformou com a reciclagem das suas piadas e estas “arrefeceram” e se tornaram um novo academismo.
Os senhores Wallinger e Hirst desconhecem o passamento do seu émulo. Continuam impertubáveis a vender a piadola equívoca e, agora requentada. Cheira mal. Não funciona (já não provoca escândalo, apenas riso), mas compensa.
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Não sei o que vocês acham, mas eu desconfio quando me querem “vender” arte a coberto de “boas intenções”. Sobretudo se as coisas nunca passam de uns patéticos arremedos, rudimentares e equívocos, caucionados por discursos artificiosos e literatos. Do que se trata aqui é de repugnantes acções de promoção. Publicidade. Marketing. Dinheiro. Revoltante manipulação das emoções das pessoas e do seu sentido da moral ou da justiça.

Presumo que seja este o tipo de brilho ou prestígio “cultural” que emana de Londres e tanto encanta as nossas liberais elites. Uma espécie de “Malucos do riso”. Só que em inglês. É mais fino. É Bem.

Nota
A propósito do tão falado “prestígio” dos Turner Prize, temo que a coisa não passe também do mesmo fenómeno de marketing: se se derem ao trabalho de ler os noticiários sobre a atribuição do Prémio deste ano, verão que de jornal para jornal a redacção da notícia é exactamente igual. A mesma agência de promoção fabrica a notícia e assim generaliza a opinião. “uma mentira repetida muitas vezes passa a ser verdade”. Goebbels tinha razão.
Puta que pariu.
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2 comentários:

Anónimo disse...

Muito bem. Haja alguém lúcido.

carlos freitas disse...

Nada como a arte do lobbing.