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quarta-feira, 18 de julho de 2007

2 bêbedos e 4 pássaros de Braque

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(acrílico e colagem s/tela 81x100)
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O registo fotográfico que possuo desta pintura é de péssima qualidade. Fica contudo como um testemunho de um sério divertimento, de certo modo em homenagem a Georges Braque. Ele foi o príncipe do cubismo, a mais radical de todas as vanguardas do século vinte. A que mais irremediavelmente influiu a nossa forma de olhar.

Braque foi toda a vida fiel à maneira cubista de fragmentar o espaço.
Foi o único dos cubistas que nunca cedeu ao apelo de Derain de "regresso à ordem", após os extremos do cubismo.
Nas suas composições ele conseguiu, seduzido pelas inovações de Picasso (a integração da forma no fundo) e fascinado pela materialização de um espaço novo, através da inversão da perspectiva, “empurrar” os objectos de encontro aos espectadores.
Para lutar contra a profundidade, misturou à tinta outros materiais (serradura, areia, etc.) que têm a faculdade de criar relevo.

Inventou em 1912, o papel colado, com o que opôs ao espaço côncavo da perspectiva um espaço deliberadamente liso, em que o objecto parece sair da superfície plana. Operada esta síntese de espaços e objectos, concretizou a destruição do espaço que contém a perspectiva.
Ao destruir a pintura de cavalete, a colagem faz parte do modo como os cubistas concebem as suas obras, isto é, como objectos autónomos, e legitima a existência da pintura, menosprezada desde o aparecimento da fotografia. De facto, a pintura abandona o seu estatuto de espaço estético capaz de nos devolver uma complacente imagem de nós próprios, para adoptar o de espaço reflexivo, passando a ser capaz de nos levar a reflectir sobre o mundo.
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Foi o eu pretendi ao acrescentar uma fita (dessas que circundam os estaleiros de obras) a este despretensioso estudo de dois bêbedos e quatro pássaros. Este dado tridimensional como que isola e devolve esta composição em perspectiva, de novo à condição de superfície plana, isto é, de objecto, incluindo os pássaros de Braque, empurrando-os de encontro ao espectador.
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1 comentário:

António Sabão disse...

Caro Fernando, obrigado por este post, estamos sempre a aprender:-)
abraço