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quinta-feira, 24 de março de 2016

O terror

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A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à Justiça em qualquer lugar
 Martin Luther King
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Martin Luther King disse que “não há nada mais perigoso do que a ignorância sincera e a estupidez consciente”. Eu acho que que mais perigoso ainda é quando uma delas manipula a outra.
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O que está a acontecer no Brasil não é sobressalto cívico nenhum. É apenas a histeria - de uma gente ignorante, preconceituosa e desinformada - colectivizada por media privados cuja agenda tem pouco que ver com qualquer interesse público terrorismo, em suma.
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O que aconteceu em Bruxelas não é terrorismo. É apenas banditismo, estupidez consciente e crapulosa; enfim, crime organizado. Terrorismo foi o que aconteceu depois, nas horas e dias seguintes, nos meios de comunicação - a midiota, em feliz expressão cunhada no Brasil.
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O verdadeiro Terror, o terror mesmo, é isto.

Ou então, isto
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quinta-feira, 10 de março de 2016

Naná Vasconcelos (1944-2016)

Pra mim, tudo é música. O primeiro instrumento é a voz, o melhor é o corpo e o resto é consequência disso. Então, a música para mim está em tudo. Silêncio é a música mais difícil de fazer por que o silêncio é um estado de espírito.
Naná Vasconcelos
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domingo, 6 de março de 2016

a bandeja do Possollo

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Cavaco já tem o seu arretrato oficial. Tal como os presidentes precedentes também ele escolheu pessoalmente o artista a quem coube a honra de o retratar para a eternidade – a mão que materializou a visão que pretende dar de si próprio à posteridade.
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Há tempos, algures neste blogue, permiti-me mesmo sugerir o nome de Noronha da Costa como o artista português mais capaz de “de captar convincentemente a intensidade atmosférica da fátua densidade psicológica da figura”. Pensava eu que “a técnica do sfumatto "à pistola" seria a “mais adequada à fixação precisa das impressões mais fugidias”. Qual quê. Como era fácil de prever, Cavaco optou pela técnica do lambidinho.
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A História (e a história da pintura) na galeria dos presidentes não deixa de ser eloquente. Se o grande Columbano foi o pintor oficial da primeira república, retratando Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e Teixeira Gomes, a verdade é que foi Henrique Medina quem retratou todos os outros até que, depois, se tornou o retratista oficial do estado-novo, (retratando Óscar Carmona, Américo Tomás e, postumamente, Sidónio Pais. deixando apenas Craveiro Lopes para Eduardo Malta). Com essa série de retratos de aparato, Medina consolidou o cânone institucional de uma pintura que, como referiu Aquilino Ribeiro, “agrada para quem não está iniciado na arte” e que só foi interrompido com os retratos dos presidentes eleitos. Foi a sua “paleta hábil, posto que fácil e bota de elástico” que deu o tom, de uma solenidade pomposa e vazia, a toda aquela vasta galeria; um estilo que nem sequer foi questionado por Eduardo Malta, um pintor muito mais talentoso e sofisticado. O género sobreviveu, marcial, grandiloquente e vácuo, com as suas figuras de papelão, até aos retratos de dois presidentes pós 25dAbril, António de Spínola e Costa Gomes.
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Já em democracia, Ramalho Eanes escolheu Luis Pinto-Coelho, Mário Soares optou por Júlio Pomar e Jorge Sampaio por Paula Rego. Embora o cânone só tenha sido verdadeiramente rompido com os dois últimos. O irreverente Pomar e a corrosiva Paula Rego.
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A verdade porém é que o poder aprecia visões amáveis de si próprio e, de certo modo, todos eles escolheram artistas de olhar complacente, senão mesmo cúmplice (Mário Soares escolheu Júlio Pomar, seu amigo de juventude). A única excepção foi Jorge Sampaio, que se deixou estoicamente massacrar, ainda que de modo ternamente afectuoso, por Paula Rego.
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Cavaco, por exemplo, jamais se deixaria retratar por uma mão certeira e um olhar impiedoso como os de Columbano, Júlio Pomar ou Paula Rego. Falta-lhe tudo, mas sobretudo carácter, tomates. O homem é, decididamente, pequeno, inseguro, timorato. As escolhas de alguém assim são sempre pelo prevísivel; é mais tranquilizador.
Por isso escolheu um tal de Carlos Barahona Possollo, outra paleta hábil, posto que fácil e bota de elástico, um novo Medina de pincel servil e fotoxópe amável, que deve ser um fenómeno de popularidade no eixo Lapa-Cascais, entre os leitores da revista Caras e os moradores da Quinta da Marinha e das torres do Estoril. Uma breve visitação ao trabalho do artista (já habituado a encomendas oficiais e especialista em retratos de santos católicos e tudo) bastou-me para aquilatar da sofisticação, da imaginação, da originalidade, do requintado sentido da composição, do bom-gosto e do bom-senso delirantes do escolhido de Cavaco. A bota dá com a perdigota.
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Mas como todo o homem pequeno tem grandes pretensões, é isso mesmo que o quadro retrata: firme e hirto, como uma figura de papelão, Cavaco, de pé, empunha uma caneta - decerto para mostrar que sabe escrever. Ao lado, jazem um tinteiro de prata e vários volumes encadernados que, suponho, demonstram que também sabe ler. Por detrás esvoaça, na penumbra, lambidinha, a bandeira da PàF, ou da selecção, nem sei bem.
Eis um retrato que agradará a quem não está iniciado na arte. Ou seja, toda a pátria de cavaco, a Caváquia, se revê nele. É todo um país na travessa perdão, na bandeja do Possollo.
A mediocridade está de volta à Galeria dos presidentes.

Estavam à espera de quê? 
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sábado, 5 de março de 2016

o cavácuo da posteridade

Cavaco já tem o seu retrato oficial na galaria dos presidentes.
É lindo. É parecido com este, embora menos realista, mais idealista.
Amanhã ou depois escreverei o que me apetecer a respeito. Trata-se de coisas sérias. A Arte, a Plítica, a Posteridade. Aguardem.
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