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segunda-feira, 8 de abril de 2019

O genoma do gambuzino ou a fé na treta


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Ensinar não é transferir conhecimento mas criar as possibilidades de o produzir 

Paulo Freire
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Em Portugal, a prática das medicinas alternativas está legalizada desde 2003. Em 2013, a sua prática foi regulamentada. Há pessoas, como David Marçal, por exemplo, que acham que isto “é como legalizar o comércio de torradeiras avariadas”.
Ah, a lei que regulamenta a sua prática, também autoriza as universidades a criarem licenciaturas, doutoramentos e mestrados nessas áreas do, digamos assim, conhecimento. Ou seja, as universidades, esses templos da ciência (do conhecimento testado), também sancionam algo que “parte de uma base não científica“. David Marçal, ainda ele, não se conforma: “Não faz sentido criar licenciaturas em coisas que não têm fundamentação científica. Dizer que estas práticas funcionam até porque são dadas num curso superior é dar-lhes uma credibilidade artificial. Também devemos dar cursos superiores de astrologia?
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Dito de outro modo, se a assembleia (o povo, através dos seus representantes) reconheceu o gambuzino, a universidade portuguesa identificou-lhe o genoma. A seguir dividiu-o em cátedras. E, assim, o ensino superior passou a sancionar a treta e até a formar os seus especialistas. Em graus: licenciados, doutorados e mestres. Os especialistas da treta.
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Mas não é só David Marçal que se insurge contra este verdadeiro culto da treta – ou seja, do logro e da estupidez armada aos cágados - também há este senhor
Mas não é só através da denúncia e do escárnio que se combate a fé na treta. A arma mais demolidora desta forma insidiosa de estupidez, de ignorância armada, é a educação; o problema é quando e aonde, como agora em Portugal, a estupidez é ensinada a gente grande, em escola superior. Eu refiro-me à verdadeira Educação (deve ser pronunciada à maneira de Mário Viegas: ”es-co-la”).
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É por isso que Paulo Freire é o nome mais odiado pela clique que manda agora no Brasil (talvez mais até que o do próprio Lula). Porque Freire, o mentor de uma educação para a consciência, defendia, como objetivo da escola, ensinar o aluno a "ler o mundo" para poder transformá-lo.
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O Bozo e os nazionários chamam-lhe doutrinário e odeiam-no porque uma gente educada nesta pedagogia é muito céptica em relação ao calcitrim, ao céu, ao inferno, ao cogumelo do tempo, aos benefícios da acumulação, aos meninos de azul e às meninas de rosa, à frigideira que frita sem gordura (especial porque tem tampa mas se comprar já recebe a tampa grátis), aos gestores não-executivos, aos zingarelhos para ouvir melhor, às curas milagrosas do bispo Edir Macedo, às maravilhas de empreendorismo, aos milagres de Fátima, às leis do mercado – isto é, perde completamente a fé na treta - na, esta sim doutrinação, da ignorância. E isso eles não perdoam.
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domingo, 31 de março de 2019

Algumas ideias para a iconografia do nada ou da coisa em forma de assim.

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Então é assim: a Figueira da Foz, a bem dzer, tem tudo. A única coisa que lhe falta mesmo é um “ícone” turístico. Assim uma coisa em forma de assim mas que atraia o turismo; e as massas, claro.
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Quem o diz é o ex-vereador Vaz, engenheiro e tal. Ainda e sempre no “jornal” As Beiras - a prova provada, para que se veja, de que à Figueira não falta nada; nem idiotas nem sobretudo plataformas onde eles se manifestem, explanem as suas ”ideias” – é assim: o “jornal” dá-lhes espaço e eles, eureca!, espalham-se, explanam-se ou seja, dão ideias. Como por exemplo um “passadiço à volta da Serra” ou um “edifício subaquático”.
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E porque não, engenheiro Vaz, um edifício à volta da Serra e um passadiço sub-aquático? Hmmm?
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Mas porque não, engenheiro, recorrer à arte? Nada como a arte para criar “ícones”, “dar carácter”, “empolgar as pessoas”. Porque não encomendar uma escultura a Botero, por exemplo? – Um figo. Um figo equestre. Seria um figo gordo, claro (a gordura ainda é formosura, em arte). Atrairia muitos papalvos. Garboso, doirado e monumental. À porta do mercado, por exemplo. Parece que já estou a ver.
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Ou então porque não encomendar uma intervenção ao artista Whils (aka Alexandre Farto) na cidade? A arte do moto-pico atrai muitos pacóvios, também. Podia ser, por exemplo, nas paredes de vidro do Casino. Um espectáculo. Pensem nisso.
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Ou então, porque não pedir a Joana  Vasconcelos uma instalação? No Largo da Má Língua, por exemplo. Parece que já estou a ver: uma língua monumental, retorcida e reluzente de lédes de várias cores, toda feita de plástico reciclado, claro; ou, melhor ainda, de pensos higiénicos ou tampões.
Viriam charters apinhados de palermas para ver.
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Sim, porque uma cidade que já tem tudo para que precisa de uma maternidade, de creches públicas, de ligações ferroviárias, de livrarias, de lojas de ferragens, de estaleiros navais, de um teatro, de jardins, de uma rede de transportes públicos? Ou de amor-próprio, de conhecimento da sua história, de consciência da sua própria identidade e, enfim, de alguma cultura geral?
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Ah e tal “Os ícones vendem bem, em termos turísticos. Há que saber criar um bom chamariz, que dê carácter e possa empolgar as pessoas, locais e forasteiros. Na Figueira não temos tido quem o saiba fazer” - diz o engenheiro eureca Vaz, naquele peculiar linguajar de marqueteiro, ou de merceeiro empreendedor.
E o Vaz sabe. Ele é engenheiro. E xcreve nas Beiras.
O que o Vaz não sabe, nem imagina, é que depois as pessoas hão-de cá vir ver o “ícone” e, como de costume, vão embora depressa. Circulam, engenheiro Vaz.
Porque, mesmo os mais néscios dos papalvos, também hão-de dar-se conta de que, a toda a volta do ícone, não há rigorosamente mais nada para ver; nem para fazer.
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sábado, 23 de março de 2019

Serviço público.

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Os meus caminhos nunca vão dar ao casino (a qualquer casino). 
Hoje, por exemplo, os meus passos dirigir-me-ão ao Salão Brasil, em Coimbra. Para ouvir falar de humor, a sério. 
Cada um faz a sua estrada.
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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

O carnaval avança a todo o vapor

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A Primavera, é sabido, chega cada vez mais cedo. Os dias amenos desinibem. Até a estupidez (sobretudo esta) desabrocha, rutila, resplandece. E com ela o carnaval.
Na Venezuela, por exemplo, o auto-proclamado rei-momo, defende alegremente uma invasão militar estrangeira. Guaidó (é esta a sua graça) foi designado presidente interino por uma comissão presidida à distância pelo vice dos Estados Unidos, o não-menos carnavalesco Mike Pence. Foi imediata e internacionalmente reconhecido pelos Estados Unidos e por um sem número de governos, entre os quais o nosso. é carnaval, ninguém leva a mal, aposto que devem ter pensado. Os Estados Unidos são presididos por Donald Trump, alguém também bastante carnavalesco, não desfazendo.
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Já no Brasil, o carnaval não é um chá dançante. O rei Momo é o presidente eleito. Trata-se de um ex-capitão, expulso do exército por insubordinação, que comanda um governo vice-presidido por um tal de Mourão, general no activo. O governo é constituído em partes equilibradas por militares obtusos, bancarroteiros fanáticos (ou vice-versa) e uma beata, igualmente fanática e obtusa; todos no activo.
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Em Portugal o presidente perde popularidade. É verdade. O povo viu finalmente o cu ao populismo. Estava escrito nos astros (vinha no Sol). Para a próxima, Marcelo perde para o Tino de Rans, logo à primeira volta. Digam lá que isto não tem potencial carnavalesco.
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Potencial carnavalesco tem a Câmara Municipal de Torres Vedras que patrocina o carnaval das matrafonas. Cem anos depois da implantação da República retirou obedientemente uma imagem farsola do cortejo (uma virgem com cara de bola) para não melindrar a santa sensibilidade da igreja católica local, essa inefável e carnavalesca congregação pederástica de matrafonas. O que todavia torna tudo ainda mais carnavalesco é a reverência geral, a bonomia do respeitinho; como se a aceitação pacífica de uma arbitrariedade imbecil fosse um facto da vida, uma coisa natural.
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Ainda em Portugal, na Figueira da Foz, onde como é sabido o carnaval nunca acaba (na sua peculiar tradição secular o ano figueirinhas não tem quarta-feira de cinzas). O rei e a rainha do carnaval foram recebidos nos paços do concelho com pompa e circunstância e Avelino Gaspar, o patrão da Lusiaves (empresa condecorada pelo município por altruísmo) foi acusado plo ministério público de insolvência dolosa e branqueamento de capitais, ou seja, bancarrotismo.
Ainda na Figueira, o pugrama do Jotalves vai para uma segunda temporada. As coisas boas e realmente relevantes nunca acabam.
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Entretanto, o grande educador da classe operária, o camarada Arnaldo Matos, bateu a caçuleta; esticou o pernil, foi fazer tijolo.
O revolucionário mais bem visto pelas elites moderadas do país – tinha, dizem, um particular gosto em conversar com o Dr. Mário Soares - entregou a alma ao criador, como referiu Pacheco Pereira. Dele disse também o presidente Marcelo que “ficará na memória de todos como um defensor ardente da liberdade”.
Segundo o circunspecto Observador, a principal actividade política do camarada Arnaldo no último ano e meio passou plo twitter. Tinha 3500 seguidores directos. Foi através desta plataforma que chamou “monhé” a Costa, ”putedo” á geringonça, apelou à luta armada, desejou as melhoras a Marcelo, defendeu os atentados terroristas de Londres e, preocupadíssimo com a saúde do papa, alertou que o palco dos encontros da juventude é um local “difusor de legionella”.
Ah, mas o “nosso rasputinezinho”, como lhe chamava Natália Correia, não foi para câmara de gás (foi cremado) sem o protagonismo (ainda que passivo) em mais um episódio, o derradeiro, carnavalesco: o seu partido (o émeérrepêpê, porra) foi ardentemente acusado pelo filho de lhe sequestrar o cadáver que arrefecia no velório.
Mainada. O carnaval avança a todo o vapor.
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

o conselheiro de segurança


Este é John R. Bolton. Trata-se do Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Trump. Não é bem a ele que o nosso SS (Santos Silva) reporta, mas sim a Mike Pompeo, que está logo abaixo na chamada cadeia de comando, mas adiante.
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Bolton é um diplomata, advogado e ex-militar muito influente nos meios conservadores lá do sítio. Enfim, é o que nos círculos mais informados da plítica externa dos gringos se chama vulgarmente um falcão; ou um águia, não sei bem; em todo o caso trata-se de uma ave de rapina. Apesar do seu aspecto patusco de velhote lunático e inofensivo, Bolton é um dos mais fanáticos e irredutíveis teóricos da agressividade expansionista da actual plítica externa do seu país e um dos mais esbaforidos apóstolos da utilização de meios cada vez mais assumidamente virulentos e violentos para a concretização no terreno desse velho imperialismo de conquista. Trata-se, portanto, de um duro
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Mas como se temperou o aço de toda aquela dureza?, perguntais vós.
Pois para o saber não é necessário ir muito longe nem muito fundo. Basta ir à Wikipédia, e está lá tudo escarrapachado: na juventude, de 1970 a 1976 (durante a guerra do Vietnam), John R. Bolton serviu na Guarda Nacional do exército dos Estados Unidos, no Maryland.
E vuálá, eis a verdadeira índole da ave rara. Ou seja, no fundo nofundo, toda a águia, ou falcão, tem dentro de si uma galinha.
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sábado, 2 de fevereiro de 2019

O cómico da Situação (2)


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Numa das habituais reflexões com que tenho por hábito ilustrar os pobres desenhos que edito neste blogue, enunciei uma vez que o humor consequente não é moral nem imoral, é amoral; isto é, move-se em terrenos do senso comum, não da moral, que é um dos domínios do preconceito. Não me ocorreu, no entanto, acrescentar que também penso que, mesmo que se mova no amplo mar do senso comum, nunca o humor aí deve navegar à bolina; ao invés, deve fazê-lo sempre ao contrário: sempre contra os ventos dominantes e sempre sempre contra a corrente. Sob o risco de se tornar previsível, redundante, consensual. recomendável. E não há nada mais pífio e frouxo do que o humor recomendável.

Luís Afonso é o humorista gráfico mais recomendado, disputado e requisitado pelos editores do humor publicado em Portugal.  Trabalha diariamente para uma porção de jornais e outras publicações (o que dá a sensação de que não existe no país mais nenhum outro humorista gráfico no activo), mas agora está literalmente em todo o lado, incluindo na rádio e na televisão.
E o que faz o trabalho de Luís Afonso tão recomendado e recomendável?, perguntais vós.
- Pois bem, não são certamente os seus méritos estritamente gráficos, suponho (o desenho e tal) - como o próprio, aliás lucidamente, reconhece. Esmiucemos então o seu humor padrão, digamos assim.
- O humor de Luís Afonso tem aquele jenesécoá que não ata nem desata, não torce nem amola, não incha nem desincha, não aquece nem arrefece, não adianta nem atrasa, não chove nem molha e não cheira nem fede que se consubstancia num apreço tão óbvio pelo “incontornável” que o torna previsível e redundante e por isso tão consensual, amável, e sobretudo tranquilizador, para os directores e chefes de redacção dos jornais em que publica (para eles é um descanso, porque sabem que dali nunca há-de vir melindre na caixa de comentários, nem indignação nas redes sociais, nem telefonema lá de cima, nem processo judicial).

A sua Mosca, à qual é impossível escapar (se não a apanhamos na rádio apanha-nos na televisão), é o exemplo acabado  e irritante de uma irreverênciazinha mole, uma sátirazinha inócua e uma ironiazinha pífia com moralzinha edificante e rematezinho sentencioso que não só não me faz rir como me enfurece; e nem sequer me faz pensar – a não ser que Luís Afonso é o caso ilustrado do cómico da situação.

Porque, confesso, o que realmente a mim me tira do sério (me faz rir) é quando o imprevisto, o incongruente, o abrupto, o grotesco, o irracional, o equívoco, o bizarro, o obsceno e exagerado absurdo do não sentido de coisa nenhuma atropela à força toda o senso comum das certezas absolutas.
Como um peido num funeral. Ou uma vuvuzela num concerto de violinos; ou vice-versa.
Ou como uma Kizomba no panteão nacional. Ou um assassinato num conselho de administração; ou vice-versa.
Ou como um hipopótamo no lago dos cisnes. Ou um terramoto em Fátima; ou vice-versa. Sei lá.
Enfim, aquele humor que é um remédio do qual Siné dizia qui fait mal et ça fait du bien. Não este cómico da situação, esta espécie de placebo xaroposo que prescreve Luís Afonso.
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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

da incontinência


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Mais um cromo para o meu álbum do rosto da classe dirigente. Este é um predestinado. Para o mando. Já foi uma vez secretário d’estado, sete vezes deputado, ministro cinco vezes. Já mandou em quase tudo: na Educação, na Cultura, na Defesa, nos Assuntos Parlamentares. Não se lhe conhece obra de jeito em nenhuma destas áreas.
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Augusto Santos Silva começou no Liceu pla extrema esquerda revolucionária; depois fez-se trotskista; apoiou Otelo e depois Ramalho Eanes; a seguir Pintasilgo e, na segunda volta, Mário Soares. Entretanto fez-se académico. E descobriu o Partido Socialista. É um sábio. Com obra publicada e tudo. Mas tornou-se conhecido pela incontinência com que larga bojardas a despropósito de porra nenhuma. Como esta, que lhe valeu o cognome de  “o malhador”: “Eu cá gosto é de malhar na direita e gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas que se situam de facto à direita do PS e são das forças mais conservadoras e reacionárias que eu conheço e que gostam de se dizer de esquerda plebeia ou chique, estou-me a referir ao PCP e ao Bloco de Esquerda”. Agora manda nos negócios estrangeiros.
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Negócios estrangeiros, salvo raras excepções na história de Portugal (como, por exemplo, no tempo de Pombal, em que foram realmente relações exteriores), sempre foi o eufemismo mais ou menos pomposo e elegante que qualifica a forma, quase sempre canhestra, como o país faz alinhar a sua diplomacia com a da potência que protectora a sua “independência” - é verdade, meus bravos heróis do mar, somos um protectorado. Antigamente (desde D. João I) era o império Britânico. Agora (desde o final da segunda guerra) são, como é sabido, os Estados Unidos da América.
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Neste sentido, Augusto Santos Silva limita-se a ser o porta-voz da Secretaria de Estado. O “malhador” está finalmente sentado na sua “cadeira de sonho”, o ex-esquerdista nas suas sete-quintas.
Deve ter sido aliás nessa qualidade que se largou, com mais uma das suas irreprimíveis bojardas. Manifestando o seu pleno respeito “à vontade inequívoca” (!!!!) mostrada pelo povo da Venezuela (!!!) disse esperar que Nicolas Maduro “compreenda que o seu tempo acabou”.
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O cómico da situação (1)


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Sendo o cómico a intuição do absurdo, ele afigura-se-me mais desesperante do que o trágico.
Eugène Ionesco

Um cidadão português que, acabando de assistir a uma infame arbitrariedade policial, teve um desabafo indignado (parece que exclamou qualquer coisa como “bosta de bófia”) logo foi estrafegado (nas redes sociais) por milhares de ululantes boas-almas cujos santos valores patrióticos foram vilmente ultrajados.
Logo-a-seguir, mais de uma dezena de milhar de pessoas assinou uma petição de uma cidadã que se declara «Portuguesa e civilizada» e que não pode permitir que o «tipo de pessoa» a que o Mamadou Ba pertence tenha uma palavra a dizer na gestão do país. Tudo isto acontece no país que não é racista, masele que vá lá prá terra dele. Ora, não querem lá ver o filho-da-puta do… do… do… preto”.
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A verdade é que eu também sou português, como Mamadou Ba. E não preciso de ser negro, como Mamadou, para me indignar com a prepotência e com a injustiça. Por isso compreendo o seu desabafo. Eu penso que violência arbitrária sobre gente já segregada é uma baixeza. Até porque na minha família sempre ouvi dizer que ”polícia é abaixo de cão cinco graus”.
Mas o facto de isto ser aprovado por uma mole humana que se diz “civilizada” e chocada por alguém insultar a santa corporação que o pratica não deixa de ter um certo potencial por assim dizer, cómico.
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É, portanto, no campo aberto do cómico, que estamos. E já que aqui chegámos, resolvi esmiuçar, não o humor dos portugueses, que sei que é melancólico e ressabiado, mas o dos humoristas de que eles se riem. Os profissionais. Aqueles a quem os portugueses pagam para que lhes suscitem o riso. E seleccionei dois que devem ser os mais unânimes e requisitados pois são autênticas vedetas, verdadeiras instituições no seu género, ou ramo: Ricardo Araújo Pereira, no humor televisivo e Luís Afonso, no humor gráfico (mas este fica para outra posta, que bem o merece).
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Esmiucemos então Ricardo Araújo Pereira. 
Embora seja um fenómeno televisivo, Ricardo está por todo o lado (tal como o Afonso, aliás): na televisão, na rádio, nos jornais, na publicidade. O rapaz é um deus, omnipresente. É bem-parecido diga-se, e tem uma cultura geral bem acima da média, reconheça-se também. Teve uma educação religiosa, em colégios exclusivos, onde viu a luz e se fez ateu. Hoje é perfeitamente de esquerda (vota no Livre, que é de um rapaz lá amigo dele); o que não o impede, contudo, de sujeitar as filhas a frequentar também muito exclusivos colégios. Confusos?
É a estas extravagâncias de dândi que os tugas acham um piadão (mais as tugas, de meia idade - eu já referi que ele era bem parecido?). Ah, também é um assumido benfiquista, o que o identifica à partida, com a imensa maioria da “moldura humana” que assiste às suas performances, desde logo muito mais predisposta à condescendência.
Ricardo também alimenta uma espécie de ódio d’estimação pelo seu homónimo Salgado porque, ao que sei - e só o sei por ele próprio, nos programas de entretenimento em que participa (eu não leio revistas de celebridades) – a conselho de Cavaco, Ricardo terá confiado no BES e Salgado ter-lhe-á dado sumiço ao pecúlio de poupanças zelosamente ganho a fazer rir os portugueses.
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Mas de que se riem os portugueses?, perguntais vós.
 - Não de si próprios, claro, isso nunca (os tugas têm a auto-estima em alta estima). Nem dos milagres de Fátima, nem dos aventalinhos da maçonaria, nem dos látegos da opus dei; nem dos consórcios de advogados; nem dos pareceres dos catedráticos de coimbrameudeus; nem sequer do empreendedorismo, da caridadezinha, das imagens de marca e da cultura gurmê, muito menos do racismo larvar, da polícia, do exército ou dos tribunais (os portugueses têm também muito alta estima plo respeitinho).
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Então, perguntais vós, de quê ou de quem é que Ricardo Araújo Pereira faz rir os portugueses, porra?
- Pois eu digo-vos: de tudo o resto.
Ricardo Araújo Pereira, no seu mais recente programa televisivo, um suplemento humorístico do noticiário da noite dominical da TVi (digam lá que as piadas não se fazem sozinhas) faz o que, na opinião de gente que eu considero, é “humor inteligente e com qualidade” e “sem medo de afrontar os instalados do regime. Da esquerda à direita do espectro político nacional, varreu tudo e todos”.
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E quem são os instalados do regime que Ricardo supostamente “varreu”?
- Pois bem, são os que erram (Bernardino Soares), os vencidos (Luís Montenegro), os falhados (Rui Rio), os que caem (o já condenado Armando Vara). Porque é disso que o povo gosta. De ver escarnecer os infelizes, de ver bater em mortos. É isso, e apenas isso, que realmente faz rir os portugueses. E é assim que Ricardo alcança a sua imensa popularidade. Sem jamais arriscar a mais leve dissonância ao ululante e inflexível senso comum das maiorias.
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É por isso que estou convencido de que ele é um verdadeiro, um autêntico, cómico da situação.
O que não estou certo é se ele já se apercebeu do absurdo da coisa – enfim, se captou totalmente a piada, ou seja, se intuiu todo o potencial realmente desesperante, ou desanimador, da comicidade de tal situação. Receio que não.
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

sem dar por ela – a arte de mandar sem saber

Em 2010, a propósito da bárbara atrocidade que tinha vitimado os plátanos do Largo da Feira Velha, em Maiorca (foto da esquerda), o vereador do ambiente de então, o inefável António Tavares, soltou esta pérola que, na época, eu considerei de “suficiência, humor duvidoso, superioridade presumida e, quiçá também, alguma estupidez natural"ainda são vícios do passado, difíceis de controlar, porque estamos aqui há pouco tempo".
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Volvidos oito anos e, ano após ano, os plátanos do Largo da Feira Velha têm resistido; reflorescendo estoicamente a cada inverno (e à sua consuetudinária sessão de serração). Todavia, na ânsia agónica de sobreviver, rebentam, furiosa e desesperadamente, todos os anos na Primavera, com uma nova folhagem tão densa que acumula, de Verão, emaranhados de galhos cruzados em copas cerradíssimas, propensas à proliferação de todo o tipo de insectos perniciosos e de parasitas, e ao desenvolvimento de podridões e outras patologias fito-sanitárias, até à decrepitude fatal.
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Hoje, Tavares já não é vereador, mas a espécie de organização política que ele representava ainda é o poder local que decide este género de atrocidades. Filipe Dias também já não preside à Junta. O novo presidente, há apenas ano e meio, é da mesma cor de quem manda na câmara municipal.
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Em todo o caso, e quanto a mim tanto um como o outro, já “estão aqui” há tempo de mais. Até porque, entretanto, o Largo da Feira Velha foi de novo palco de mais uma das suas alarves performances, a exemplo aliás do recentemente perpetrado em Buarcos e, receio, do que se vai perpetrando por todo o concelho (se existe algum método, digamos assim, no processo mental psicopata, é, como se sabe, o método serial, o do trabalhinho em série ou seja, a produção em massa; é isso, suponho, que lhes desperta - em alguma obscura, viciosa e retorcida glândula cerebral - a tão almejada associação entre prazer e poder).
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De maneiras que hoje deparei com o que a foto da direita documenta. E dei comigo a pensar que podar sem saber é como “poder” sem “saber”: invariavelmente dá merda.
E é assim em tudo; não apenas na poda do arvoredo; manda-se porque se pode, sem perguntar a quem sabe, e mainada. E obedece-se sem pensar nem, muito menos, objectar; porque sim, prontos.
Porque o que realmente informa, ou inspira, o exercício deste poder não é uma razão (qualquer razão) baseada no estudo e no conhecimento, mas sim a sua própria consciência de ter poder, razão última porque a sua jactância apenas se completa - ou complementa - na reverência geral, no medo ou na indiferença. E isto é mais verdade quando o poder é absoluto.
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Trata-se, receio, de um atavismo consuetudinário; uma tradição, portanto – mui vetusta e mui portugueza - com certeza. E estamos nisto. Ano 2019. Século vinte e um. Depois de Cristo.
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sábado, 12 de janeiro de 2019

O poder boçal

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Esta imagem devia ter bolinha e devia ser vedada a mentes sensíveis e impressionáveis. Mas se eu podia piedosamente poupar-vos a este espectáculo nefando, o que ela reproduz está, infelizmente, em exposição permanente num dos locais mais frequentados da Figueira da Foz, o Jardim-Parque  Dr. Fernando Traqueia, em Buarcos, como prova perene e irrefutável da estupidez, incompetência, falta de bom gosto, de bom senso, de escrúpulos e de consciência moral e ambiental dos actuais detentores dos poderes públicos na Figueira da Foz.
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Se eu alimentasse algum género de esperança no funcionamento do poder local democrático eu subscreveria uma petição à assembleia municipal exigindo a rápida destituição, e imediata expulsão a pontapé no cu, de todos os envolvidos nisto: desde o inacreditável grunho que é presidente da Câmara, ao inexplicável imbecil que é vereador do ambiente, ao inefável idiota que é presidente da Junta e a cada um dos inqualificáveis “trabalhadores” que tornaram isto possível (num país decente ninguém pode ser obrigado a executar um trabalho para o qual não está qualificado e desde Nuremberga que “cumprir ordens” não é defesa que se apresente).

Se nutrisse alguma réstia de ilusão sobre o funcionamento da justiça eu processá-los-ia a todos sem excepção para que fossem julgados e condenados por crime hediondo.
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Por isto, resta-me a minha humilde opinião, e torná-la pública, neste também humilde blogue. 
Pode haver pessoas que a achem excessiva pois “afinal, são apenas árvores”, mas eu penso que quem faz isto a uma árvore é capaz de tudo; trata-se de alguém completamente destituído de empatia. 
Também penso que os psicopatas deviam ser tratados como tal, metidos em camisas de forças nos casos mais agudos (como é manifestamente o caso) e vigiados na convivência com os seus semelhantes (nos casos mais benignos) mas sobretudo, sobretudo, rigorosamente impedidos de exercer qualquer cargo susceptível de constranger ou influenciar a vida dos outros.
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A foto acima é de Maria Teresa Rozendo Rito e foi "tirada" da net.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Evasão, descoberta e hamparte


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Quando os dias se tornam insuportáveis e tudo o que os envolve demasiado deprimente, resta-me sempre a evasão. Por estes dias (noites) tenho andado por outros tempos pela serra d’Arga, pla mão de Aquilino, acompanhando as grandezas e misérias da casa grande de Romarigães. A narrativa dos tormentos eróticos de D. Telmo no assalto à sua cunhada Dionísia é do melhor sexo em português, e do melhor português já agora (bom de lei), que alguma vez li. O tesão, o grande tesão, vivo, brutal e imemorial - descrito em palavras, todas portuguesas - a rebentar de testosterona e de humor, sem eufemismos nem vulgaridades.
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Mas não me evado nem despaíso, apenas pla literatura. Agora descobri o Youtube. É verdade. Não o youtube das palermices virais, claro. Descobri que para além disso, mais fundo, numa espécie de nicho, é uma plataforma óptima para imensa gente cheia de muito talento. Gente de todo o mundo. 
São os makers, gente que faz coisas, que mostra como o faz e até se mostra a fazê-las, partilhando com o mundo os seus conhecimentos. São artistas e artesãos das mais variadas especialidades: carpinteiros, gravadores, escultores, impressores, soldadores, cuteleiros, serralheiros, jardineiros, construtores de instrumentos, etc. Gente como o norte-americano Mike Siemsen. Aqui, o velho mestre carpinteiro explica como executa excelsamente todos os trabalhos de marcenaria numa bancada sem prensa. Ou como o também norte-americano Frank Howarth, um artista sofisticado, que construiu para si próprio, ao lado da sua casa, no lugar de uma velha piscina, um atelier de carpintaria modernamente equipado onde se deleita fazendo coisas magníficas, como hobbie. Ou o australiano Neil Paskin, fotógrafo-carpinteiro-serralheiro-desenhador faz-tudo. Ou o francês Olivier Verdier, que construiu o seu atelier de marcenaria num velho celeiro algures no sul de França e tem como ferramenta fetiche uma maceta redonda de cantoneiro português. Ou o divertido canadiano (dos que comem ervilhas) Alain Vaillancourt, l ’gosseux d’bois. Ou o maker/artist alemão Hassan abu-izmero, que faz todo o tipo de things engenhosas. Ou Uri Tuchman, também alemão, que grava metais, pinta óleos, talha madeira e inventa as próprias ferramentas com que cria complexos mecanismos para autómatos bizarros. Ou o engenhoso turco Cemal Açar, outro faz-tudo num espaço reduzidíssimo. Ou o talentoso uruguaio Elias Maximiliano que, num espaço despojado e num silêncio quase monacal, faz carpintaria usando as mãos como ferramenta principal.
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Mas também há outros. Que além de fazerem coisas, falam sobre elas e sobre o mundo. Têm opinião. É o caso do pintor e meticuloso e exaustivo crítico de arte mexicano Francisco Soriano. Ou do brasileiro Eduardo Bueno, histriónico contador de estórias e divulgador de História que, em cada filme de poucos minutos, conta um episodio da história do Brasil, sempre repleto de pormenores pícaros ou picantes. Neste, por exemplo, conta como foi projectada a capital do país; não a actual Brasília, mas a primeira, Salvador (plos tugas). Vejam, também é história de Portugal, como a coisa foi realmente edificante.

E do pintor espanhol (de Sevilha) Antonio Garcia Villarán, que retratei acima.. As suas opiniões devastadoras (sobre algumas das unanimidades nacionais aqui ao lado) têm causado um impacto que ultrapassa já o youtube. Em filmes curtos e bem humorados, Villarán mostra as suas pinturas, desenhos e projectos de livros e fala do que gosta e do que não gosta. Sem eufemismos. Miró é o pior pintor de todos os tempos. Tapiés idem aspas aspas. E Salvador Dali. António Lopez, o autor do “hiper-realista” e fotográfico retrato oficial  da família real que alegadamente lhe custou “vinte anos de trabalho”, merece-lhe o mais vivo sarcasmo. Pollock, um embuste. E Frida Khalo, também. E Keith Haring. E todos os bonzos reconhecidos da chamada actual arte contemporânea internacional. Como Yoko Ono; ou Damien Hirst; ou Banksy.
Villarán criou mesmo um termo algo burlesco e subversivo, hamparte, que designa todo este tipo de arte que é arte apenas porque é designada como tal e porque a sua exibição é autorizada pelo mercado em locais apropriados, as galerias comerciais. 
Em 2018 este termo tornou-se viral. É verdade, ultrapassou mesmo o âmbito do seu canal do Youtube (que ainda assim ultrapassa já os 150 mil seguidores, contra os trinta mil da página de um gigante como o Museu do Prado) ganhando outras plataformas e chegando mesmo à imprensa. 
Villarán, que já considera que o seu neologismo seja acolhido pela Real Academia Espanhola criou, para evitar equívocos quanto ao seu significado, um manifesto em sete pontos que estipulam quando e em que circunstâncias uma obra deve ser considerada hamparte.
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É evidente que nada disto fez desvalorizar uma merda como Damien Hirst, que no final do ano voltou a pulverizar records de facturação vendendo pontinhos coloridos e tubarões em formol. Diz que mais de 140 milhões de euros. Em verdade, quem lhe compra aquilo continua a lavar dinheiro, mas plo menos todo o mundo ficou a saber que não compra arte. Compra hamparte.
Também é verdade que o dadaísmo e as boutades anti-arte de Duchamp foram um sulfuroso sarcasmo dirigido aos valores que o mercado considerava arte… até serem apropriados pelo mercado.
Cabe aos espíritos livres e inconformistas criar sempre mais e mais sarcasmos; e cada vez mais sulfurosos. E assim sucessivamente, como dizia João César monteiro, outro grande subversivo.
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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

CARTÃO DE NATAL



Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de voo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
que desta vez não perca este caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.


João Cabral de Melo Neto

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Feliz Natal, ou lá o que é, a todos os ápifiú que ainda frequentam este pobre sítio ultimamente tão abandonado (espero que não se aborreçam demasiado, até porque podem sempre servir-se da prateleira, ou consultar o arquivo, pois quase nada do que lá está para a eternidade não a desmerece – que é como quem diz, citando o Lobo Antunes citando o grande Bocage: “isto é meu, isto não morre”).
E Boas Festas também, claro. E um Ano novo melhor ainda. Cheio do mais profundo escárnio pela estupidez em todas as suas formas.
No que me diz respeito prometo que vou tentar fazer como sempre fiz: rir-me de tudo (sobretudo dos lobos antunes). Ou, pelo menos, arreganhar-lhe os dentes.
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