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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O saquilho do frasquilho

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Este é mais um rosto da classe dirigente. Miguel Frasquilho. Ex-deputado do PSD. Ex-secretário destado do Tesouro (!). Ex-presidente da AICEP. Actual chairman da TAP. Um gestor de topo, génio da alta-finança, mestre em teoria económica e professor na madrassa da católica.
A estória conta-se assim: o pai, a mãe e o irmão desta carinha laroca receberam seis transferências da ES Enterprises, entre 2009 e 2011, num total de 54 mil aéreos.
"A circunstância de esses pagamentos terem sido efectuados em contas de familiares meus deve-se apenas ao facto de eu ter pedido isso mesmo à minha entidade patronal, uma vez que tinha dívidas para saldar com os meus familiares directos referidos", disse ele ao Expresso, jurando a pés juntos desconhecer a proveniência das bagatelas.

Frasquilho disse ainda estar convencido de que os valores constam na declaração de rendimentos entregue então pelo BES. 

O problema é que a sua entidade patronal era o BES e as transferências que os seus familiares empocharam eram oriundas de uma conta na Suíça titulada pela Espírito Santo Enterprises, uma offshore do GES que tem estado sob suspeita do Ministério Público por pagamentos não registados -  empresa da qual o artolas diz ter tido conhecimento apenas no decurso da comissão de inquérito aos actos de gestão do BES/GES no Parlamento. 

Não sei, nem imagino, que espécie de serviços este mestre da teoria económica terá prestado a uma entidade da qual ele nunca tinha ouvido falar que justifiquem que esta lhe salde as dívidas a familiares - daí a justeza (não a justiça) da caricatura - mas deduzo que não terão sido nada edificantes. O cómico da situação é que tudo acaba por se saber precisamente quando, não sei se estão a ver, a teoria económica esbarra com a prática. Digam lá que não é de mestre.

Esta é a última posta do ano. Para o ano decerto haverá mais, receio. 
Um abraço a todos os que visitam este pobre sítio por vezes mal-humorado. 
E Boas Festas, claro.
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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O ícone da mediocridade

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Tenho vindo a tentar fazer, entre outras - e tanto quanto mo permitem o tempo, a oportunidade e o talento – uma alegre iconografia da classe dirigente, uma espécie de bestiário. No que diz respeito à Figueira da Foz reservei-lhe mesmo um álbum à parte, o Álbum Figueirense.

O cromo de hoje é Carlos Monteiro, o mais discreto e low profile dos servidores do presidente Ataíde. Ex-emeérrepêpê, converteu-se cedo ao socialismo democrático e quiçá também à cosa nostra local, a inefável loja dos aventais onde terá também aprendido a discrição com que desempenha as tarefas de que Ataíde o encarrega. Monteiro é um ex-professor de Liceu licenciado em plítica plas freguesias – é ele que baralha e dá , sempre discreto, o jogo de pequenos e grandes poderes e clientelas no concelho profundo. Conhece como poucos o que a casa gasta, nesse campo minado que é esse pequeno mundo de obediências, de conchavos e de conveniências. Ele é também o único vereador totalista dos três mandatos de Ataíde (este foi-se desfazendo de todos os outros, mas guardou sempre Monteiro): começou a vice-presidente, foi despromovido no segundo mandato, mas perseverou (sempre discreto) e foi recompensado no terceiro. Hoje é, de novo, vice-presidente do município, vereador de uma porção de coisas e até do ambiente.
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A mais ilustrativa das suas performances, a que identifica melhor o espírito da personagem é este episódio recente: no âmbito das actividades de entretenimento e animação com que a câmara tem por hábito derreter o orçamento anual para deslumbrar o seu público alvo, os labregos, arresolveu-se (ou deliberou-se) proceder à instalação, à beira-rio, de uma composição constituída por cubos de plástico com capacidade de mil litros de água dotados de iluminação nocturna. A composição de cubos perfaz o santo nome da cidade e o encanto e deslumbramento de todos os papalvos que “ah!”, adoram o fogo fátuo do foguetório e os seus reflexos coloridos na água. O busílis da coisa é que os inginhêros da câmbra arresolveram atestar os depósitos com água da companhia. Digam que lá que não é brilhante, num ano de seca extrema, a performance artístico-turística do nosso vereador do ambiente. Mas a boa, inacreditável, notícia é que é para apontar no gelo. A inefável Águas da Figueira, que cobra aos munícipes as tarifas mais altas do país, não leva nada ao município plo transvase. Só visto (aqui).

Carlos Monteiro é bem um ícone da classe dirigente local. A classe dirigente autóctone está, diga-se, também ela, à imagem da classe, por assim dizer, dirigida. Ambas partilham valores como o interesse imediato, a falta de cultura geral (e de ideias em geral), a estupidez natural e, em simultâneo, um certo gosto pelo desvario, pela obra avulsa, despropositada ou faraónica. 
Referendados pelo eleitorado com maiorias absolutas sucessivamente reforçadas, Monteiro e Ataíde, ou Ataíde e Monteiro, sentem-se cada vez mais à vontade para, como eles dizem, implementarem de vez a sua visão do mundo – uma mais que provinciana, paroquial e deslumbrada mediocridade.

Se Ataíde tomou o freio nos dentes, Monteiro é o boleeiro da carroça. É como se estivessem, à solta, dentro de um hospital. 
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segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O chantre do avental

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Todos os ciclos políticos têm os seus defensores rebarbativos, o seu “intelectual orgânico”, o seu porta-voz oficioso - alguém que, de entre a “maioria”, na esgrima dos argumentos, se destaca pela qualidade do “desempenho”, pela prolixa ferocidade na defesa da ordem estabelecida e pela contundência na investida sobre adversários.
Na Figueira da Foz não podia ser de outra maneira.
O aguiarismo teve o seu chantre, um jornalista da LUSA que Aguiar contratou como assessor de comunicação e cujo nome agora não me ocorre.
O ataídismo também tem o seu. O chefe do coro dos convencidos e dos convertidos da lojinha de aventais do Presidente Ataíde é José Fernando Correia.
Ataíde também o contratou para assessor, mas financeiro; depois saiu para gestor de topo na Fundação Bissaya Barreto; agora é deputado municipal plo Partido Socialista. Além de se presumir que Correia seja a eminência parda do ataídismo, também se presume que seja o cérebrosinho mais destacado do, digamos assim, pensamento maçónico figueirinhas.

Correia escreve uma crónica semanal no “jornal” as beiras. É lá que, entre pérolas de erudição google exibe uma tendência notória e pedante para a prosápia sentenciosa de cariz marcadamente ideológico e que, entre a ostentação de uma verve tonta e alucinada, de verdadeiro prosélito, canta loas à miraculosa gestão financeira do seu patrono enquanto vai destilando, em simultâneo e sem disfarçar demasiado, um paternalismo bastamente serôdio por este e pelos seus correligionários. Um prato cheio. Para quem aprecia fenómenos patológicos bizarros.

A Correia talvez não lhe ocorra que tudo tem fim, até os ciclos políticos.
O aguiarismo teve o seu, bem triste, e um legado embaraçoso que Ataíde, talvez não estranhamente, logo assumiu (a iniciativa do monumento a Aguiar de Carvalho, à porta da câmara municipal, logo do início do seu primeiro mandato, foi a assunção disso mesmo, uma verdadeira declaração de princípios e um indício do que se seguiria).
O Ataidismo também terá o seu fim, até com data marcada, pelo limite de mandatos fixado por lei. O legado de Ataíde parece-me tão triste e embaraçoso como o de Aguiar; e contudo algo mais ainda os une, o imobiliário - se um entregou a cidade à volúpia cúpida dos pratos-bravos da construção civil, o outro está fazendo o mesmo, ainda mais alegremente e a mata-cavalos, aos patos-bravos da distribuição.


Todavia, conhecendo o eleitorado figueirense e a sua tendência mórbida para o esquecimento, penso que se já ninguém gosta de se recordar do legado de Aguiar, daqui a uns tempos também já ninguém se vai querer lembrar do de Ataíde; muito menos do nome do seu chantre. Por isso lhe fiz o retrato - mais um cromo para o meu Álbum Figueirense. Talvez isso lhe dê a posteridade.
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