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sábado, 10 de setembro de 2016

Mário Silva

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Dizem-me que o Mário morreu. Há tempos escrevi neste blogue dois parágrafos a seu respeito. São os que se seguem.

Mário Silva é um dos maiores artistas portugueses vivos e um espírito livre. Um artista excêntrico, obstinado, anárquico e contestatário. Nunca obedeceu a qualquer corrente. Assumiu um estilo independente e, não obstante, “conseguiu vingar”- o que, neste país, é obra.
Fora disso, é uma espécie de duende folgazão cuja existência nos iliba da nossa irreprimível e atávica melancolia. Gosta de cães, de mulheres, de vinhos (tintos), de amigos e da arte (não necessariamente por esta ordem. Aliás, o Mário detesta qualquer tipo de ordem). Ah, e é meu amigo.

Por ser tudo verdade, nada mais tenho a acrescentar - não me ocorre mais nada neste filho da puta deste dia que também levou outro grande, o escultor José Rodrigues.  
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quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Champalimaud e o mérito

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“A Ordem do Mérito é uma ordem honorífica portuguesa que visa distinguir actos ou serviços meritórios que revelem desinteresse e abnegação em favor da colectividade, praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas.”
Na sua longa lista de distinguidos constam nomes como Fernando Tordo, José Maria Pedroto, Stanley Ho e Zé Pedro, kalú, Tim e Gui. Coisa séria, portanto.
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A estes abnegados nomes veio juntar-se agora o de António Champalimaud. 
É verdade. O presidente da república acabar de conceder-lhe, a título póstumo, a Grã-Cruz da Ordem do Mérito. Marcelo foi ali à Fundação Champalimaud entregar pessoalmente as insígnias à filha do falecido. Após a entrega dos Prémios Champalimaud de visão 2016.
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António Champalimaud foi um dos milionários monopolistas favorecidos pelo regime de Salazar. Acumulou uma fortuna pornográfica baseada na exploração dos pobres, no favor (do estado) e no logro (da própria família, de sócios e de concorrentes). No fim da vida deu-lhe para a filantropia e criou uma fundação benemérita, que garante aos herdeiros a fortuna a salvo e o usufruto continuado (vitalício) de ajudas e isenções.
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 "Quis o destino que coubesse a quem algumas vezes louvou e algumas outras divergiu e criticou, como cidadão, o empresário e o cidadão António Champalimaud o assumir a responsabilidade nacional de realçar e galardoar o benfeitor social António Champalimaud condecorando-o a título póstumo com a Grã-Cruz da Ordem do Mérito", afirmou Marcelo.
Foi portanto o destino. São ambos predestinados. É isso que têm aliás em comum o presidente e o milionário; além do mérito, claro.

Não será pois de admirar nada que, mais ano menos ano, Marcelo seja contemplado com o prémio Champalimaud de visão.
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terça-feira, 6 de setembro de 2016

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

un certain regard

Duas anedotas. Sem moral e sem sentido (trata-se de humor cruel).
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A primeira passou-se diante dos olhos do meu amigo Agostinho que a conta aqui, mas que eu sintetizo assim:
Manuel Luis Pata tem noventa anos. É um velho marinheiro que fez inúmeras campanhas do bacalhau e já navegou de trás para diante por todos os mares conhecidos. Quando por fim se reformou, dedicou-se a escrever a história marítima da Figueira; uma coisa monumental, em vários volumes e que está sempre a fazer-se: da construção naval e das viagens e naufrágios às linhagens dos seus marinheiros. 
Para além disso, Manuel Luis Pata ainda teve tempo e disponibilidade para se dedicar a apontar a dedo, em público e de forma completamente desinteressada, a rotunda imbecilidade de todas as grandes obras, patrocinadas pelo estado e apoiadas pela autarquia, executadas na orla marítima figueirense. O tempo, para sua grande tristeza, só lhe tem dado razão.
Pois bem, na Cova-Gala, durante o lançamento de mais um livro seu – cuja edição só foi possível pela colaboração de várias entidades, entre as quais a Câmara Municipal - o inevitável presidente desta, convidado para a mesa de honra, ao usar da palavra, começou por confessar que não conhecia o autor da obra e acabou por, a pedido de várias entidades presentes, lhe prometer a medalha de mérito cultural.
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A segunda anedota passou-se diante dos meus olhos. No CAE, durante a breve inauguração do Festival de Cinema da Figueira da Foz, onde me dirigi na segunda à noite para ver a exposição do espólio de José Poeta e um belo filme japonês sobre a memória e o reconhecimento.
Também convidado para a mesa de honra (talvez por ser o anfitrião) o vereador da Cultura, ao usar da palavra (depois de um elemento da organização, que explicou o evento) congratulou esta pela dimensão e prestígio crescentes do Festival, por ter conseguido expor o espólio de José Poeta (coisa que ele próprio já havia tentado e nunca logrado) e, como se nunca o tivesse visto, pelo cartaz, “que é lindíssimo”.
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A primeira anedota mostra como um homem decente e digno pode ser enxovalhado em público aos noventa anos por cretinos que o desprezam e lhe ignoram a obra.
A segunda não tem sentido nenhum, mas também é humor negro. Ou seja, também faz o riso amarelo.

Em todo o caso ambas ilustram uma certa visão da cultura na Figueira da Foz.
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