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sábado, 30 de julho de 2016

Cunha Rocha e o fim de uma época

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Artistas – Todos uns estouvados. 
Ganham rios de dinheiro, mas atiram-no pela janela fora. 
São, muitas vezes, convidados para jantar fora. 
O que eles fazem não pode dizer-se que seja  trabalhar.
 Gustave Flaubert, in Dicionário das ideias feitas
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O desaparecimento do pintor António da Cunha Rocha, aos oitenta e quatro anos, é um sinal do tempo. Um toque a finados de uma época que se desvanece. E que não volta mais. Um fenómeno (ao qual já me referi aqui) que permitiu a um pequeno núcleo de talentosos artistas, locais ou radicados, viver honesta, decente e exclusivamente do seu trabalho numa cidade de província.
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O António foi um dos que descobriu mais cedo as preferências de uma clientela muito exclusiva. E servia-lhes sempre o prato cheio, em doses generosas. 
Nas suas aguarelas o céu é sempre azul, as casas sempre brancas e as árvores sempre verdes; o céu está sempre por cima das casas, as árvores sempre por detrás destas e as águas sempre transparentes por baixo dos barcos. Não há sobressaltos nem fantasias na arte de Cunha Rocha. 
A sua arte parece, à primeira vista, muito menos ousada (do que os arroubos geometrizantes do sintetismo hierático de Zé Penicheiro ou do que a figuração tumultuosa e expressionista de Mário Silva, por exemplo) e muito mais complacente com o gosto do pitoresco dessa burguesia que preza tudo, reconhecível, no seu lugar.
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Cunha Rocha não o fazia contudo por oportunismo ou cinismo calculista, não. Ele não pintava o mundo como ele é, ou como o via, mas como gostava que fosse. Nas suas paisagens não há céus cinzentos nem águas turvas ou revoltas, nem barcos de recreio, nem automóveis, nem plásticos, nem casas roxas, nem cabos eléctricos, nem eucaliptos ou cepos, nem sequer pessoas. António detestava o feio (não era uma simples implicância, era ódio mesmo, frio e obstinado). A Beleza era o seu ideal. Passou toda a vida a pintar a Arcádia; e a mostrá-la às pessoas. A ordem era o seu método. “a aguarela é fácil” - dizia ele, na sua voz funda de barítono tonitruante, entre gargalhadas - “é muita água e pouca rela”. E sempre sem tons dissonantes, nem cores sujas, nem gestos imprecisos ou pinceladas fortuitas. Não há, aliás, acasos, acidentes, em toda a sua obra. É tudo premeditado, como um crime perfeito. Como dizia Degas que toda a arte devia ser.
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Confesso, no entanto, que a sua capacidade de agradar à clientela endinheirada que lhe admirava a perícia na reprodução de imagens que podia facilmente identificar me enfurecia (o meu conceito de arte é outro). Mas tenho hoje que reconhecer que talvez esses burgueses não fossem afinal tão beócios e obtusos como eu pensava e que adquirir-lhe uma aguarela talvez fosse uma forma de levarem para casa um registo - ainda que diáfano porque pintado com simples água lisa, mas por isso mesmo precioso e indelével - da sua própria consciência de uma certa harmonia perdida, a nostalgia da Arcádia.
E é isso que não existe mais. Os burgueses endinheirados de hoje já não compram arte - agora compram gadgets e aplicações, automóveis de prestigio e telemóveis de aparato; os pobres vandalizam a arte pública ou roubam os bronzes dos bustos para refundir:  Renderam-se todos à técnica, dando razão a Flaubert que, no seu Dicionário das ideias feitas do nosso tempo registou: “Arte – leva ao hospital. Para que serve se pode ser substituída pela mecânica, que faz melhor e mais depressa?
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Cunha Rocha viveu muito e intensamente. Sobreviveu a moléstias que costumam ser funestas e a tragédias demolidoras (como se resiste à morte-matada de um filho?) e nunca permitiu, entre litros e litros de café e quilos e quilos de tabaco, que nada contaminasse a sua arte, o seu ideal.
Além disso  era de uma generosidade genuína e desconcertante. Admirador do meu talento (só os verdadeiramente grandes podem ver alguma grandeza num simples pentelho), várias vezes mo reiterou pessoalmente; contudo, porque era conhecedor do meu parco êxito, digamos assim, comercial achava-o mal-empregado. Uma vez, numa inauguração, chamou minha mulher Isabel à parte e tentou convencê-la a persuadir-me a mudar de assunto, de temas, de motivos; ainda o ouvi (o António não sabia falar baixo) dizer-lhe “com o talento que tem, ele pode fazer qualquer merda que estes gajos gostem e queiram levar para casa” (”estes gajos” eram os seus próprios clientes).

Está bem, António. Ela nunca tentou, porque sabe o que a casa gasta. Mas eu nunca me esqueci. 
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quinta-feira, 28 de julho de 2016

Cunha Rocha

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Ontem fui ao funeral de Cunha Rocha.
O António não era um gajo qualquer. A sua morte veio na primeira página do Diário de Coimbra. A Figueira, onde residiu mais de quarenta anos, também não deixou escapar a oportunidade – “honrou muitas vezes as terras e gentes figueirenses com o seu olhar artístico vertido nas telas", salientou a autarquia local, em comunicado.
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É verdade, o António foi um pintor. Dos bons, dos grandes. Mas de aguarelas. E não eram aguarelas quaisquer. Um artista. E um homem bom, dos melhores.

Tal como a propósito de José Penicheiro, amanhã (ou depois, conforme mo ditar a consciência e a inspiração) editarei aqui a minha opinião, modesta ça va de soi, sobre a sua figura e a sua obra. Espero no entanto que, como é óbvio e de costume, vá um pouco para lá da ditirâmbica palermice circunstancial, habitual noutros meios.”
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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Meu Brasil

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O Brasil não tem povo, tem público
 Lima Barreto
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Visto da minha infância, em Angola, o Brasil parecia-me uma espécie de irmão mais velho. Emancipado. Insolente. Tomava liberdades e abria as vogais  quando nós, cheios de pruridos de boas-maneiras, ainda as fechámos. “Quando li Jubiabá, me cri António Balduíno...”, cantava então Mário António, um dos nossos poetas mais dotados. Era o Brasil de Jorge Amado, de Graciliano, de Lins do Rego, de Érico Veríssimo.
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Depois, descobri Guimarães Rosa e os poetas e os modernistas e João Cabral; e Canudos e Glauber Rocha e Zumbi dos Palmares e Hermeto Pascoal e Garrincha e Castro Alves e Tom Jobim e o Boca do Inferno e Pixinguinha e Portinari e Machado de Assis e Chico Buarque e as xilogravuras do nordeste e o Aleijadinho e Mário de Andrade e Villa-Lobos e Niemayer e Arnaldo Antunes e Lima Barreto e Millôr Fernandes e Hilda Hilst e Laerte e Burle-Marx e Ruben Fonseca e Tom Zé e o Bispo do Rosário.
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Mas o Brasil que venho descobrindo recentemente não tem nada que ver com este (é menos notório visto de fora), e no entanto, existe e é tão real e verdadeiro.Trata-se de um outro lado do Brasil. Receio mesmo que não seja o seu lado B.
É o Brasil de Jair Bolsonaro - o do preconceito, da prepotência brutal e da violência instituída (social, racial, sexual) do previlégio branquela. Está lá desde a descoberta. E persiste. Até mesmo, por reflexo, em Jorge Amado (conheço poucos livros tão violentos como Teresa Batista, por exemplo). É omnipresente. Está em tudo, venéreo e insidioso, até nos mais belos milagres do outro lado do Brasil: do sonho do Quilombo dos Palmares ao calvário do Aleijadinho e do delírio de Canudos ao pesadelo do Bispo do Rosário. 
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Quanto ao retrato propriamente dito do imbecil que no Senado declamou ódio eterno à presidente do seu país e igual afeição pelo seu torcionário, resolvi emprestar-lhe a pose e as botas de cano alto do Capitão Justiniano Duarte da Rosa, o Capitão Justo do romance de Jorge Amado. Creio que lhe servem na perfeição. Parece-me o mesmo personagem-tipo, ou tipo de personagem, se é que me faço entender.
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sábado, 16 de julho de 2016

Jacques Prévert

la différence entre un ouvrier et un intellectuel?
- l’ouvrier se lave les mains avant de pisser,
l’intelectuel après.

Jacques Prévert

Le discours sur la paix

Vers la fin d’un discours
extrêmement important
le grand homme d’État, trébuchant
sur une belle phrase creuse
tombe dedans
et désemparé, la bouche grande ouverte,
haletant, montre les dents
et la carie dentaire
de ses pacifiques raisonnements
met à vif le nerf de la guerre :
la délicate question d’argent.

Jacques Prévert
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sexta-feira, 15 de julho de 2016

The Boris

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ne dites jamais du mal de vous, vos amis en diront toujours assez”, disse uma vez Talleyrand (o ministro dos aféres estrangeiros de Napoleão).
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Porque nunca se deve ignorar as lições de uma diplomacia que preza a discrição, a modéstia e a manha, e antes que perca dois dos meus três fiéis leitores, permiti-me pois que mude de assunto en passant, por assim dizer tout de suite, a dizer mal dos outros. Como  aliás habitualmente.
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- A pérfida Albion já tem um novo primeiro-ministro. É uma senhora.  Mas, e já agora a propósito de diplomacia, o novo ministro dos estrangeiros não (não é uma senhora), embora também não seja aquilo a que Talleyrand chamaria um cavalheiro. É Boris Jonhson.
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Alguém disse (não sei se um amigo) que Boris é “Donald Trump com uma enciclopédia”.
Ora se bem entendi, the Boris é, tal como the Donald, um grunho, só que esclarecido. Ilustrado. Um grunho erudito, portanto. Cheio de referências e tal. Creio ser mesmo esta a mais substancial distinção, no conceito anglo-saxónico dos bifes, entre o novo mundo e o velho.
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Talleyrand, o diplomata para quem as palavras serviam “para disfarçar o pensamento”, acharia decerto um termo adequado para comentar o esplendor actual da civilização anglo-saxónica. Tenho a certeza de que tudo isto seria para ele ravissant, um refrigério épatant; ou até mesmo sei lá verdadeiramente époustouflant, ou assim.
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quarta-feira, 13 de julho de 2016

O triunfo da estupidez


Não há dúvida de que a fé existe;
mas há que se perguntar com o que ela co-existe
 naqueles em que existe
Paul Valery
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O jogo de Portugal contra o país de Gales não foi um alívio para mim. Foi, como previ, o início do meu pior pesadelo.
E não, não me refiro à vitória sobre os franceses em campo, na final. Isso foi apenas bola. Futebol.
Refiro-me ao verdadeiro triunfo da mediocridade, logo após o apito final: o retorno - na rua, nos media, nas redes sociais, até no discurso de gente habitualmente circunspecta - da retórica do milagre, do sacrifício, do sofrimento, da fé-em-deus, da predestinação, do povo eleito, da santa pátria, da puta que os pariu.
É pavoroso. Pior ainda do que previ. Dá vontade de ser espanhol. Ou francês.
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quarta-feira, 6 de julho de 2016

O fenómeno da identificação ou a assunção da mediocridade

Tous les drapeaux ont été tellement souillés de sang et de merde 
qu’il est temps de n’en plus avoir, du tout
Gustave Flaubert
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O patriotismo é, de todas as faces da estupidez, a mais enigmática e inquietante. A mais em forma de assim. Trata-se de uma forma de estupidez particularmente virulenta porque achaca em simultâneo quantidades apreciáveis de pessoas. Um fenómeno de massas, portanto.
Como já referi algures neste blogue, trata-se de um fenómeno que, através da propaganda, transforma pessoas sem qualquer brio individual ou qualidades cívicas notórias numa turba cheia de auto estima, convictamente consciente dos supostos valores da sua hereditariedade. E quanto mais grunhos, impreparados e civicamente amorfos forem os indivíduos, mais ululante se torna o fervor colectivo. Em geral isto é perpetrado por motivos esconsos mais ou menos óbvios, mas sempre inconfessados.
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Isto é facilmente observável, por demais evidente, na Europa das nações e no seu campeonato de futebol. Todos os povos projectam na sua selecção nacional aquilo que presumem ser a súmula dos seus valores nacionais e exigem que ela reflicta com orgulho o que os identifica. Assim, os russos são obstinados, os alemães metódicos, os franceses ousados, os italianos são pragmáticos, os croatas fantasistas, os romenos temperamentais, os suíços são neutros, os ingleses fleumáticos, os espanhóis tiquitaca, os irlandeses são doidos, os suecos nórdicos, os turcos explosivos e os islandeses um caso à parte (os galeses não são tão fleumáticos como os ingleses nem tão doidos como os irlandeses).
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Ou seja, as equipas acabam sempre por corresponder à ideia que os povos fazem de si mesmos. Salvo os portugueses, que não sei bem o que são; ou o que julgam que são. A julgar pelo desempenho da sua selecção (a equipa não joga puto, não vence um jogo em cinco) deduzo que não sejam grande coisa. Mas eles não se importam com isso, pelo contrário - estão plenamente identificados com ela. O orgulho nacional português, a cagança, está ao rubro (e ao verde, claro). E redobra de intensidade a cada um dos seus vitoriosos empates.
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Ora o futebol é um jogo e, como tal, um divertimento. A vitória é consequência natural do melhor desempenho - isto é, sorri sempre ao que melhor joga que é, em simultâneo, quem mais se diverte; e quanto mais categórica e indiscutível for a vitória, além da glória obtém também, invariavelmente, o respeito dos vencidos. Isto é elementar de tão simples. Mas não para os portugueses.
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Para os portugueses o futebol não é um jogo simples, nem um divertimento. É uma ciência oculta. Um esquema mental obscuro, entre a lógica e a irracionalidade, que se socorre de uma estranha matemática (com mais incógnitas que soluções) na fase de grupos e da mais bizarra religiosidade nos jogos do matamata - o qu’eles rezam, putaquepariu, bichanando como as velhas, na lotaria dos pénaltes.
Em Portugal ninguém vai à bola para se divertir, nem espera isso dos jogadores. O estádio é, para eles, um campo santo, o dos “mártires da Pátria”. Espera-se (exige-se) dos jogadores “espírito de sacrifício” , “saber sofrer”, “marchar contra os canhões” e outras merdas do mesmo jaez.
- O futebol é, para os portugueses, na praia ou no sofá, uma filosófica dilaceração, uma espécie de teologia do sofrimento.
- O técnico da selecção é um demiurgo veterano, um sábio, um cérebro que parece que está sempre com dor de barriga cuja táctica é passa-a-bola-ó-ronaldo e a estratégia é levar isto próspenaltes, caralho.
- A equipa, crestiano & as dez ronaldetes, é a risota de toda a Europa. Entra em campo a benzer-se ao pé coxinho com tanta vontade de não perder que se esquece do mais elementar: jogar à bola. Por isso, vão tentando freneticamente passar-a-bolóronaldo, enquanto esperam pla hora das penalidades.
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Apesar disso, nos media, nas redes sociais, nas ruas, o espectáculo é delirante: quanto mais pífio o jogo da equipa e mais nulo o resultado mais cresce o fervor patriótico dos portugueses. O patriotismo estremece as avenidas, rechina plas vielas, escorre, viscoso, dos televisores. Estarrece. Quase tanto como o entusiasmo da juventude alemã pel’aviação sem motor. Mas igualmente revelador: este incrível e patusco processo de identificação dos portugueses com a sua selecção é também, receio, a assunção sem complexos da qualidade que melhor os define, a sua verdadeira identidade.
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Assim, o jogo de hoje com o país de Gales pode ser um alívio para mim; ou o meu pior pesadelo: a muita séria possibilidade do triunfo - para todo o mundo ver, na final - da mais mesquinha mediocridade.
Os corações dos portugueses já estão ao alto. O meu é que não sei se aguenta.
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