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terça-feira, 29 de setembro de 2015

domingo, 27 de setembro de 2015

Um violino entre cornetas


 
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Ao contrário do bom povo que pensa que vai escolher o primeiro-ministro, gente como eu vota modestamente apenas para eleger os seus representantes.
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O meu representante para a próxima assembleia legislativa é o senhor Manuel Pires da Rocha - a quem curiosamente os media que indrominam diariamente as cabeçinhas dos eleitores indecisos com sondagens e factóides também atribuem “fortes possibilidades” de ser eleito.
Professor de música (é director do Conservatório de Coimbra) e violinista da Brigada Victor Jara, a sua actividade até proporcionou ao engraçadismo jornalistico agora em voga um destaque a condizer: a revista Visão titulou (não sei se perplexa se chocada): “um violinista no parlamento?”.
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A verdade porém é que seria bom, seria bonito, que um distrito que há dezenas de anos se vê representado consecutivamente apenas por paus mandados - que não passam nunca de “cornetas de chefe de estação” - elegesse por uma vez, para variar, um violinista.
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Eu teria, enfim, um representante no parlamento. E o distrito de Coimbra finalmente um solista. Um que não tocasse, de ouvido, o que lhe mandam. Um dos bons. Um daqueles que inventam novos sons - outras músicas - que dão voz a uma cidadania que não está indecisa nem se impressiona com o jornalismo espirituoso das sondagens habilidosas.
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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Fátima Campos Ferreira

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Este é mais um retrato da série “jornalismo de merda”.
O jornalismo de merda é aquele que se questiona sobre assuntos de merda e obtém invariavelmente respostas da mesma substância.
Este género também é capaz, diga-se, de transformar qualquer assunto, mesmo um realmente sério e importante, num autêntico assunto de merda.
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O seu sucesso depende do mercado; ou seja, da receptividade do público. Ou, melhor ainda, da qualidade da cidadania - a verdade é que quanto mais numeroso for o público interessado em assuntos de merda, mais sucesso terão os seus agentes e mais proveitos os seus promotores e empreendedores (sim, porque do que se trata aqui é de verdadeiro empreendorismo).
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Assim, jornalista-vedeta do género, Fátima prospera enquanto houver um genuíno interesse por merda - mercado para aquilo.

Por isto, a pergunta que eu acho pertinente (embora depois deste preâmbulo a ache um tanto retórica) é a seguinte: teríamos um jornalismo de merda se não tivéssemos um público interessado em assuntos de merda ?
Ou então, numa variação digamos talvez mais assertivaestoutra: teríamos um público realmente interessado em assuntos de merda se não tivéssemos um jornalismo de merda?
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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Leonardo Padura

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   (...)“Antes de molhar o pincel deves ter uma ideia de aonde queres chegar, mesmo que não saibas como fazê-lo... Eu hoje gostaria de chegar à tristeza que existe na alma de um homem de quarenta anos. Gostaria de a revelar, porque é uma tristeza nova... A dor e a tristeza não são a mesma coisa, sabias? Tenho muita experiência da dor, tal como da ira, do desengano, da frustração... e também do prazer do sucesso, mesmo quando os outros não o entendem e me deixam na beira do caminho... O que não é estranho... Mas a tristeza é um sentimento profundo, demasiado pessoal. A alegria e a dor, a surpresa e a ira são exultantes, alteram o rosto, o olhar... mas a tristeza marca-o por dentro. Onde achas que posso encontrar a tristeza?” Elias Ambrosius respondeu de imediato, satisfeito com a sua sagacidade: Nos olhos. Está tudo nos olhos.” O Mestre negou, abanando a cabeça. Ainda achas que sabes alguma coisa...? Não, a tristeza está para lá dos olhos... É preciso chegar ao pensamento, à alma do homem, para a ver; e falar com essas profundezas, para tentar reflecti-la...” O Mestre molhou o pincel no pigmento amarelo e começou a marcar as linhas do que rapidamente se transformou numa cabeça. “Por isso muito poucos homens conseguiram retratar a tristeza... Um homem triste nunca olharia para o espectador. Procuraria alguma coisa que está para lá de quem o observa, um vestígio remoto, perdido na distância e, ao mesmo tempo, dentro de si próprio. Nunca olharia para cima, à procura de uma esperança; também não o faria para baixo, como alguém envergonhado ou receoso. Deve ter o olhar fixo no insondável... O rosto ligeiramente voltado para dentro, a luz não muito brilhante na face virada para o espectador, as pálpebras bem visíveis... Para fazer com que o rosto sobressaia e se possa concentrar aí a força, o melhor sempre foi um fundo castanho-escuro, mas nunca preto: a profundidade do ambiente corresponderia à profundidade dos sentimentos, reiterá-los-ia e acabaria com o seu mistério... Diz-me, rapaz, sentes-te capaz de pintar a minha tristeza?” “Vou tentar, com a sua licença...”(...)
Leonardo Padura, Herejes (O Livro de Elias, pag.297)

Um amigo deu-me a conhecer um grande livro; de um grande, e verdadeiro escritor. Trata-se de Herejes, de Leonardo Padura.
A leitura desse livro denso e complexo - susceptível de muitas leituras - sobretudo da sua segunda parte, O Livro de Elias, da qual destaquei o trecho em epígrafe, não deixou de me fazer recordar uma das minhas primeiras tentativas de fixação da tristeza - uma ingénua e canhestra porém atrevida aventura nas profundezas desse misterioso e movediço território que é o do retrato: a representação, para além da verosimilhança e das evidências, dos vestígios que a dor, a ira, a decepção e a frustração deixam, indeléveis, nos rostos humanos.
É disso que tratam os retratos. De História. De salvados das ocorrências. De vida. Da vida que sobra.
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No entanto na vida, e na História, acontecem por vezes estranhas confluências de factos, aparentemente desligados no tempo e no espaço, carregados de significados misteriosos, surpreendentes ou inexplicáveis. Como o detective Mário Conde, também eu me interrogo “sobre as formas como se criam, avançam, torcem e até confluem os caminhos da vida de pessoas tão diferentes e distantes” como, por exemplo, um aclamado escritor cubano da actualidade e um obscuro pintor sem-eira-nem-beira nem futuro como eu.
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Por isso não é sem algum assombro que verifico que o meu pobre quadro de 1988 parece ilustrar exactamente o que Padura descreve em 2013. Só que o jovem judeu Elias Ambrosius, aprendiz de pintor, ouvindo uma lição de anatomia, ou de pintura, do mesmo Mestre, sou eu.
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terça-feira, 8 de setembro de 2015

José Clemente Orozco

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Ontem, 7 de Setembro, fez sessenta e seis anos que morreu de um dos maiores pintores do século vinte. O google, sempre tão solícito nas efemérides redondinhas não no-lo recordou com um dos seus rutilantes e engraçadinhos gúguelesdúdeles - o que faz aliás algum sentido, diga-se, tratando-se de alguém que – de forma veemente e com uma expressividade  sem concessões - “soube fazer-nos ver, através da sua obra, todo o acúmulo de circunstâncias que atravessou o homem contemporâneo”.
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Trata-se de José Clemente Orozco. O mais desconhecido dos três grandes do chamado “muralismo mexicano” e, no entanto, talvez o meu preferido. Aquele cuja atitude e temperamento julgo mais próximas da minha sensibilidade. Aquele para quem a pintura “não devia ser um comentário mas o facto em si; não um reflexo mas a própria luz; não uma interpretação mas a coisa a interpretar”.
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Também caricaturista, na juventude, dele se diz que conheceu pessoalmente o grande José Guadalupe Posada. O que não deve ter sido despiciendo, para quem também achava que Lo que vale es el valor de pensar en voz alta, de decir las cosas tal como se sienten en el momento en que se dicen”.
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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

o rangel do texas

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Não gosto do gesto repetitivo que de rotineiro se torna redundante. Por isso, neste meu labor de caricaturista amador não é meu hábito desenhar mais do que uma visão do mesmo personagem. Embora amiúde lhes corrija os pormenores, cada um dos meus desenhos tenta, com o menor número possível de traços, consubstanciar o meu parecer definitivo sobre o personagem em questão.
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Não há, contudo, regra sem excepção.
Há casos em que o desenho tem que acompanhar as metamorfoses de personagens cujo aspecto exterior vive em perpétua transformação. Assim, o desenho é obrigado – sob a ameaça de (supremo malogro de uma caricatura) se ver irreconhecível - a acompanhar-lhes a alteração dos traços e dos adereços: enquanto incham ou desincham, rapam as barbas ou deixam crescer os bigodes.
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É este o caso de Paulo Rangel. 
Ao contrário de pensadores que fazem realmente pensar (como Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva, Viriato Soromenho Marques ou José Gil), Rangel é um daqueles pensadores que de cada vez que abre a boca só provoca o riso ou, mais provavelmente, o vómito.
Segundo a sua inefável e complacente visão de si próprio, Rangel orgulha-se da sua escola, diz que gosta de escrever (já engendrou mais livros do que filhos) mas que a vida pô-lo a falar; que se morresse amanhã ainda seria feliz e que depois, acrescenta candidamente, não sabe. Trata-se de um inacreditável auto-retrato satisfeito de um autêntico piça d’aço do pensamento mentecapto; de corpo inteiro. Só visto, aqui.
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Eu já o tinha retratado aqui, com outro aspecto, a propósito de outra das suas manifestações alvares. Agora porém, apesar de ter desinchado e de ter deixado crescer a barbela, continua a dizer merda. Desta vez em Castelo de Vide, na universidade de Verão do seu partido (a lusapenas do pêpêdê), resolveu esganiçar umas papaias a respeito de qualquer coisa relacionada com as aventuras da justiça no maravilhoso país do alterne que é o nosso.
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Foi a oportunidade para lhe aggiornar o retrato. O meu parecer continua o mesmo; apenas actualizei os traços ao seu aspecto exterior mutante. Rangel continua, afinal, igual a si próprio.
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