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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Postal para a Irlanda



Na terra dos duendes verdes e dos padrecas que sodomizam rapazinhos não se pode gracejar com aquilo em que estes (e outros) seres fantásticos acreditam.
Na Irlanda, a blasfémia, a mais antiga panaceia para desopilar fígados, está pela hora da morte. É o que acontece quando a religião impõe "os deus dogmas como imperativos gerais de conduta".
Não me admira que alguns dos seus filhos (como Swift, Wilde, Yeats, Joyce ou Bacon) se tenham pisgado assim que puderam (Beckett, coitado, ficou tão traumatizado que desatou a escrever em francês).
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domingo, 3 de janeiro de 2010

A choldra


Os mundos da política, da religião e da alta finança, foram sempre os territórios de “caça” preferidos dos caricaturistas.
Contudo, desde o grande Honoré Daumier que os artistas do traço e da gargalhada passaram a ter outro espaço privilegiado onde escolher os seus alvos: o universo judiciário; esta coutada de palermices e iniquidades é a (equívoca) alegria de qualquer caricaturista – cada tiro, cada melro.
Mas, como é sabido, em Portugal tudo se agudiza e destrambelha.
Quem frequenta o meio, nota que as pessoas assistem a um número perpétuo do Monty Python’s flying circus e comportam-se como se estivessem na ópera; toda a gente sabe que não é a sério e, no entanto, ninguém se ri; desde a linguagem à pose, tudo contribui para um tom geral de “non sense” ensimesmado e circunspecto.
O mundo judiciário português nunca ouviu falar de “justiça para todos” esse estranho e “afrancesado” conceito com mais de duzentos anos - o que faz com que o juiz-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, em entrevista ao JN, suspire por “um defensor público para os pobres”. Nem mais.
Mas também ficámos a saber que o senhor não gosta de julgar. “E porquê? – Ora, porque "Coloca problemas éticos muito grandes... ".
Este dado pode ser muito esclarecedor à luz dos últimos acontecimentos, mas é sobretudo a prova provada que, neste circo a que Eça chamou choldra, tudo é possível; até mesmo alguém atingir o topo de uma carreira sem gostar de fazer o que é suposto fazer.
Contudo, de um modo arrevesado, isto deve fazer algum sentido porque, por exemplo - entre as putas - quem, de facto, controla o negócio - quase nunca gosta realmente de foder.
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz Ano Novo


Dizem que estas alturas são propícias a balanços.
Para mim, o ano de 2009 não foi inesquecível.
Não viajei, nem escrevi livros, nem ganhei prémios.
Confesso que fiz algumas descobertas, plantei árvores e, por vezes, me diverti.
Mas perdi amigos. E referências.
Fiz desenhos.
Acabo com um (o auto-retrato é a fórmula que muitos artistas encontraram para os seus balanços introspectivos) para desejar um Bom Ano Novo a todos os que visitam este pobre sítio.
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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

David Levine


Desta vez foi David Levine.
Aos 83 anos.
Um dos mais admiráveis caricaturistas que conheço.
A New York Revue of Books, publicação para a qual trabalhou mais de quarenta anos, exibe orgulhosamente o seu trabalho numa magnífica galeria, que podeis visitar aqui (escolhendo data, assunto ou categoria).
Na imagem um auto-retrato como Narciso, sem data.
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domingo, 27 de dezembro de 2009

Policarpo e os ateus


A Igreja portuguesa tem uma longa tradição de abençoar cruzadas.
Desde as propriamente ditas passando pelo extermínio dos índios, o tráfico intercontinental de escravos, os autos-da-fé e a perseguição aos judeus.
Ao que parece, os mais representativos prelados do alto clero português estão de novo mobilizados. Desta vez, embora também lamentem a “indiferença, o agnosticismo e o ateísmo”, a cruzada é para “salvar a verdade do casamento”. E sempre com a oratória em ponto de rebuçado: redondinha e redundante.
O Cardeal de Lisboa, na sua mensagem de Natal, soltou esta pérola: “não é o facto de alguém não acreditar em Deus que faz com que Ele não exista”.
Já Camilo, (não sei se ele acreditava em Deus mas, seguramente, desconfiava de qualquer coisa) disse uma vez, a propósito de certo prelado de Lamego: “um asno, com uma mitra entre as orelhas, é uma santa besta”.
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

sem título e quase sem palavras

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Nunca estamos preparados.
A morte de um amigo é sempre uma violência.
Dá-nos a consciência da nossa própria desagregação.
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sábado, 19 de dezembro de 2009

Uma prenda de Natal


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Não tenho o hábito de aconselhar leituras e muito menos prendas de natal. Mas esta é irresistível.
Trata-se da opera magna do pensamento político figueirense.
O caso é tanto mais notável quanto raro, na quase inexistente literatura política figueirinhas.
É uma obra ambiciosa (trata do passado, do futuro, de erros, soluções e até perspectivas). Mistura a grandiloquência generosa das boas intenções do romance de Cavalaria com os bons sentimentos e a moral edificante da literatura infanto–juvenil.
Mas é também uma espécie de D. Quixote às avessas: um delírio, mas de bom senso e de sensatez idealista. Foi escrita a quatro mãos pelo vereador António Tavares (um anti-Quixote dotado de perspicácia e bom-senso visionário) e pelo seu fiel escuteiro e ex-colega João Vaz (um Sancho idealista e cordato).
É também um complexo roman à clef que apenas se desvenda após a tresleitura, isto é, quando se confrontam os factos com a ficção - e se compara o que o autor diz com o que o autor faz, ou seja, opus artificem probat - que é como quem diz: "a obra mostra o artista" ou, melhor ainda, "o homem mostra-se nas suas obras".
É uma obra imperdível para o entendimento dos meandros da política local nos próximos quatro anos (pelo menos). A sua leitura comparada ou tresleitura, pode ser tão instrutiva como divertida, senão mesmo hilariante.
Pressinto que se pode tornar num livro de cabeceira para muitos munícipes interessados pela polis e pela praxis política.
É óbvio que para a oposição já se tornou um autêntico breviário. Porque - o sancta simplicitas! - este livro é uma arma patusca de arremesso político (uma espécie de bumerangue perverso: atinge o lançador), o que também lhe proporciona um certo ar de romance pícaro: mais ou menos como se Maquiavel desse um tiro num pé depois de já ter, com requintes de pormenor, contado a estória toda.
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O tremendismo, again



Existe uma nova moda entre os intelectuais fundadores do regime: a detracção.
Os boys do soarismo, esse suave e melífluo cocktail português de sacanice e oportunismo que formatou o regime em que todos vivemos, são agora os seus detractores. Debitam evidências como se nunca tivessem tido responsabilidades.
Depois do ex-ministro Medina Carreira que, de jantar em jantar, regurgita fel pelos casinos, eis chegada a vez do ex-ministro António Barreto, esse “cientista social” que no anterior regime “esteve exilado na Suíça” e a quem já me referi aqui a propósito de um outro curioso fenómeno sociológico, disse ao "Jornal de Negócios" (a quem mais?) que “tínhamos melhor Justiça no anterior regime”. Só visto.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A catilinária


Eu gosto da Itália.
A Itália comove-me até às lágrimas.
No Domingo, a cólera de Cícero precipitou-se de novo sobre Catilina – com uma estranha ironia e pela mão de um alienado (dizem), uma catedral inteira embateu, com a força toda de uma nova catilinária, contra as ventas de Berlusconi.
Cícero vive; ainda que de outra maneira.
A Itália, como eu já aqui o disse, tem dias.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Obomba da Paz


O novo messias anunciado pelo profeta Mário Soares já arrecebeu o seu Nobél.
No discurso de aceitação, eivado de referências religiosas e outras palermices habituais na sua oratória – o redentor retomou a tese da guerra, tão cara a Bush, recuperando-a embrulhada em dois conceitos rutilantes: o de justeza moral e o de acerto estratégico. Nem mais. O que prova que o que o distingue do seu antecessor é apenas o número de neurónios de que é portador (coisa que aliás se pode aferir pelo articulado da retórica).
No mais, foi humilde. “Sugeriu que tinha sido escolhido não pelo que fez, mas pelo que esperam que faça.”
E não é que já começou a merecer a Nobél distinção do atarantinado e taralhoco comité norueguês da derisão? - o seu país acaba de anunciar que recusou subscrever o Tratado de Ottawa : it ‘s the economy, stupid!
É verdade. Obama tem também um compromisso com a recuperação da economia. Suponho que é neste âmbito que se inscreve a recusa da administração norte-americana em erradicar as minas terrestres: recuperar a economia é bom para o negócio do sr. Nobél que, por sua vez alimenta a Fundação que atribui os prémios (isto está tudo ligado).
Se a retoma se tornar enfim prosperidade pode ser, pode ser, que até se criem novos prémios. E aí sim, seria bem possível que o nosso Sócrates viesse a ganhar, sei lá, o da Probidade: ex-aequo com Armando Vara e Mário Soares, que acumularia com, sei lá, o da Coerência.
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O tremendismo



Há acontecimentos que têm colocado a Figueira da Foz no mapa das notícias e da actualidade, e sempre em momentos fracturantes da vida e da História da sociedade portuguesa.
A Figueira e o seu casino têm, desde há uns anos a esta parte, servido de, como dizer, “balão de ensaio” para “gestas” colectivas abrangentes, curiosamente sempre de feição “regeneradora”.
Senão vejamos:
- em 1967, o assalto à dependência do Banco de Portugal, por exemplo, foi uma curiosa paráfrase, anedótica e premonitória, dos anos seguintes, até hoje.
- em 1985, o patusco passeio de Cavaco à Figueira e ao seu Casino (no qual fez a rodagem do seu novo Citroën) foi o início de uma gesta regeneradora que prometeu tirar o país da cauda de Europa e o conduziu aonde ele está, por mérito próprio.
-em 1997, a Figueira e o seu eleitorado presciente foram os primeiros a reconhecer os méritos de Santana Lopes, esse grande visionário sem ideologia conhecida que, mais tarde, numa carreira fulgurante conquistou Lisboa e depois S. Bento. E ainda anda por aí.
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Portugal é um país pobre. Antigamente, no Natal, as famílias juntavam-se ao borralho e como não havia prendas, "o pai dava peidos e a gente ria-se.” Contudo já não é bem assim.
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O país continua pobre mas as pessoas conhecem mundo. Diz-se até que vivem acima das possibilidades. Na Figueira, por exemplo, de manhã fazem jogging na Avenida; passeiam-se, à tarde, no Centro-Comercial; depois, despem o fato informal e vão, de noite, às tertúlias do Casino: ouvir, entre suspiros, Medina Carreira arrotar.
A notícia é que já ninguém se ri. Aplaudem de pé.


O que, na Figueira e entre figueirenses, pode ser premonitório.

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domingo, 6 de dezembro de 2009

Ary dos Santos

Morreu há vinte e cinco anos. E pode “ser tudo o que quiserem”. Mas era sobretudo um poeta muuito dotado e um tuga muito atípico; enfim, de outra estirpe: uma voz inteira, sem meias palavras e um coração maior do que o peito, aos saltos, perto da boca.
Até quando tomava partido. Sobretudo quando tomava partido: com a força-toda de uma profunda e autêntica sinceridade e não, como hoje se usa em certos meios de esquerda moderna, com calculismos de conveniência remunerada.
A ele nunca o veríamos abrilhantar “comissões de honra” de uma qualquer esquerda de opereta. O seu palco foi outro. Foi a vida generosa, essa Tragédia verdadeira onde se degladiam paixões, com convicção e deslumbramento.
Embora eu em nada acredite e cada vez mais de tudo duvide, aprecio o talento.
Acho admirável a força generosa e a beleza formal desta declaração de fé.
O desenho, fi-lo a pedido, para o blogue “Aldeia Olímpica” do meu irmão, camarada do poeta falecido.
Os meus respeitos.