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domingo, 29 de novembro de 2009

Rachmaninoff (2)


Sergei Rachmaninoff tinha mãos grandes.
Rachmaninoff é um dos pianistas e compositores mais influentes do século vinte. O seu 3º concerto para piano e orquestra é considerado um dos mais difíceis do mundo. Algo só ao alcance de virtuosos.
Os seus trejeitos técnicos e rítmicos são lendários. As suas grandes mãos eram capazes de cobrir um intervalo de uma 13ª no teclado (um palmo de cerca de 30 centímetros). Especula-se que ele era portador da Síndrome de Marfan.
No leito de morte, Sergei insistia que estava a ouvir música por perto. Tendo-lhe sido assegurado repetidamente que não era o caso, declarou: “então está na minha cabeça”.
Esta também é uma caricatura: das suas mãos grandes e da sua grande música. E quase tão genial como elas.
Para ouver o vídeo, façam o obséquio de desligar o som no dispositivo adequado. Na barra lateral.


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Galo Negro




Isaías Henriques N’gola Samakuva afirmou que Portugal se "tornou um destino seguro de fortunas desviadas do erário público angolano".
Bravo. É de políticos assim argutos e vigilantes que se faz uma verdadeira democracia.
Contudo, apesar de o líder do partido do galo negro ter nome de profeta bíblico, receio que tenha descoberto um segredo de polichinelo.
A verdade é que este glamoroso movimento unilateral de capitais teve início no já longínquo ano de 1482, quando Diogo Cão deu início à globalização em curso.
O fluxo teve uma súbita inflexão para o outro lado do Atlântico quando, a 15 de Agosto de 1648, Salvador Correia de Sá e Benevides libertou garbosamente Angola do jugo dos holandeses. Assim se manteve até sensivelmente 1885 quando, a 13 de Maio, a Princesa Isabel do Brasil, promulgou a Lei Áurea.
Depois disso voltou ao mesmo percurso tradicional.
Até 11 de Novembro de 1975.
Após alguns anos de escaramuças, e aventuras políticas pouco recomendáveis, as coisas foram entrando lentamente na secular normalidade com o estabelecimento, nos três países irmãos do triângulo atlântico, do mesmo sistema económico: o empreendedorismo plutocrata.
Ainda me lembro de, quando muito jovem em Angola, ouvir dizer: “Se Angola fosse bicho seria uma vaca enorme: tem os cornos na Mutamba e as tetas no Terreiro do Paço”.
Moral da estória (e da História): o bom do Isaías que ponha as barbas de molho. Ainda lhe pode acontecer o mesmo que aos 7000 soldados do exército da rainha N’zinga M’Bandi.
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A cultura da política





A verdade é um pouco mais complexa e é uma questão de cultura política.
Ou mesmo de cultura. Geral.
Na relação entre os mundos da política e da “cultura” existem tradições distintas, consoante o político (no poder) é de “direita” ou de auto proclamada “esquerda”.
No caso da “direita”, o exemplo paradigmático é sem dúvida o de Rui Rio, para quem artistas e outros agentes da “cultura” não passam de uns chulos do erário público, os chamados subsidiodependentes. Argumento que colhe, diga-se que com alguma razão, junto das massas populares para quem, vistos de baixo, os que estão próximos da mesa do banquete lambendo as mãos aos convivas são os que se aboletam com as melhores migalhas. Este político, por exemplo, prefere o apoio discreto e “desinteressado”, que aliás generosamente retribui, de artistas de gosto popular como La Féria do que o de “elitistas” como Pedro Burmester. A peculiar visão política de Rio não lhe permite aliás distinguir nenhuma diferença substantiva entre Burmester e Abrunhosa. Estes políticos têm uma concepção economicista da cultura. Como alguém disse a propósito de Rio: “quando ouve falar em cultura puxa logo da calculadora.”
Já na auto-proclamada “esquerda”, a estratégia é completamente distinta mas igualmente oportunista. Este tipo de políticos, cujo paradigma é António Costa, gosta de se rodear de “artistas” de méritos reconhecidos, cujo apoio público ostenta à lapela principalmente durante as campanhas eleitorais, esperançado que caia sobre si algum do suposto “prestígio” daqueles vultos das artes ou do pensamento.
Esta estratégia funciona tanto melhor quanto a popularidade do artista apoiante for socialmente notória (veja-se o caso da cedência, pelo município, da Casa dos Bicos à Fundação Saramago e o da atribuição de um subsídio para um filme sobre o casamento do escritor e do subsequente apoio político do escritor comunista nas últimas eleições autárquicas). Ao contrário dos da “direita”, este tipo de políticos “quando ouve falar num apoio de um notável da Cultura, puxa logo do livro de cheques”.
Deduzo que seja nesta segunda classe que se inscreve o nóvel poder autárquico figueirinhas com uma das suas primeiras medidas estruturantes tão prestimosamente anunciadas pelo blogue do meu amigo Agostinho: por proposta do novo vereador da Cultura (uma espécie de António Ferro do nouveau régime), a Câmara Municipal deliberou atribuir uma palmada nas costas, perdão, um voto de louvor a um galardoado realizador de documentários.
Devo dizer que, ao contrário do meu amigo Agostinho, a minha posição relativa a estas duas “mundivisões” é equidistante: talvez devido à minha assumida misantropia, sempre me foi fácil manter uma distância sanitária entre mim e uma vasta gama de cretinos, à esquerda e à direita. É evidente que com custos óbvios. Mas ninguém tem nada a ver com isso.
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o desenho acima não é inédito. No jornal "A linha do Oeste" servia de cabeçalho a uma rubrica que destacava afirmações dos políticos na campanha eleitoral de 1997.
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O senhor da paciência


A vila de Maiorca, onde vivo há já um bom par de anos, é das mais antigas do concelho da Figueira da Foz. As suas remotas origens remontam à mais longínqua idade média. O então “Couto” recebeu foral em 1194 e compreendia as actuais freguesias de Alhadas, Brenha, Ferreira-a-Nova e Quiaios. Todo este vasto território era propriedade de três famílias, cujas casas senhoriais ainda existem, no casco velho da vila. Eram os gloriosos tempos do feudalismo.
De então para cá muitas coisas mudaram.
Os herdeiros dos grandes senhores dissiparam fortuna, poder e prestígio em guerras, revoluções, ou na mesa de jogo, na bolsa e na consanguinidade. Já os herdeiros dos antigos servos, fizeram-se à vida. Foram trabalhar para a cidade ou emigraram (em 1849, Maiorca tinha 12 846 habitantes; hoje tem 3006). Consta até que alguns em lugar de oferecer a força o seu trabalho como fizeram os seus egrégios avós, venderam-na e fizeram fortuna. Na Austrália e noutras paragens.

Contudo, os actuais maiorquenses, descendentes dos antigos servos da gleba, conservam ainda na alma e na memória os ferretes indeléveis desses tempos medievos: a nostalgia da grande propriedade e uma particular devoção que se consubstancia numa romaria anual: o Senhor da Paciência. Afirma o jornal “As Beiras”: “Em muitos sítios, a palavra festa é sinónimo de alegria, barulho, foguetes. Em Maiorca não. Pelo menos quando se trata de cumprir a centenária tradição em honra do Senhor da Paciência. São três dias de fé e devoção numa celebração exclusivamente religiosa. Não há sequer lugar para foguetes, quanto mais para qualquer componente profana. Antes pelo contrário. O sentido é de sacrifício. De joelhos, rastejando ou a pé. É na retaguarda da procissão que se cumprem as promessas mais pesadas. E porque há promessas para tudo, há ainda quem as consume com a oferenda de velas do seu tamanho ou a colocação de ouro ou dinheiro no manto do santo”. Três dias de intensa devoção que culminam no dia 29 de Novembro e são muito mais que uma manifestação de fé; são uma verdadeira filosofia de vida, uma espécie de teologia do sofrimento, um estoicismo vivo e paciente. Não há cá foguetório e desgarradas etílicas nem bailinhos lúbricos com atracções pimbas, nem torresmos com cervejolas, nem bisca lambida ou outras profanidades - a vida é um sagrado mar de lágrimas. E o orago da vila até nem é o Senhor da Paciência. É o Santíssimo Salvador. Mas o bom povo de Maiorca não acredita verdadeiramente em puerilidades como a salvação ou a redenção. Aqui, o único sentido da vida é definitivamente o penitenciário. “Não é fanatismo. É fé e devoção- dizem.
Entretanto, na mesma edição, o jornal “As Beiras” refere ainda que a comissão da capela do Senhor da Paciência está envidando esforços e peditórios para o restauro da sua capela que, construída em 1707, está em ruínas. O chão está podre e as paredes débeis. “Nesta altura já devia estar coberta a ouro com o dinheiro que as pessoas deram”, afirma o responsável, acrescentando que não sabe o que foi feito do dinheiro angariado pela antiga comissão fabriqueira da Igreja de Maiorca”. Suponho que nem do ouro e do dinheiro “depositados no manto do santo” em sucessivas romarias. Haja paciência.
Mas, ainda na mesma edição e noutra peça, o mesmo jornal adianta que em Maiorca “já é possível receber os mortos com dignidade”. A (actual) comissão da fábrica da Igreja não quis esperar pelas obras prometidas pelo município figueirense para a Casa Mortuária e, congregando esforços e concomitantes peditórios logrou encetar as obras de remodelação do edifício anexo à Paróquia. Espera-se que estejam concluídas no final do ano. Quando o projecto da autarquia avançar, a comissão fabriqueira pretende transformar aquele espaço numa sala multiusos que poderá mesmo ser utilizada para a catequese.
Suponho que os pacientes catequistas fiquem assim com um espaço condigno para perpetuar nas novas gerações de maiorquenses a santa fé na paciência.
É assim a vida em Maiorca.
Se os actuais latifundiários (da monocultura do arroz) vivem melancólica e pacientemente não já do trabalho servil, como antanho, mas da imponderabilidade dos subsídios comunitários (para produzir ou para não produzir, depende da directiva), os outros maiorquenses vão fazendo o que podem, munidos de igual paciência. Até mesmo os pobres (sim porque também existe pobreza em Maiorca, voiyons!) lá vão como sempre, “na retaguarda da procissão”, cumprindo “as promessas mais pesadas”, que depositam pacientemente sobre o sagrado manto do santo.
Porque o que custa é que deus agradece, caralho.
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ao alto, Crucificação, 1999

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Os Cães Danados


Eis o “retrato de grupo” que aquiesci fazer para o Paulo Dâmaso e para a sua banda de “punk-rock”.
O Paulo é bom rapaz (além disso, o “baterizador” da banda é o meu único sobrinho).
Os outros também não são maus diabos e, não menos importante, cantam em português; o que não se nota demasiado "derivado ó" barulho das luzes (a percussão metralhada e as lancinantes distorções também não devem ser alheias ao fenómeno), mas isto sou eu a dizer, que não percebo bulhufas de música engajada.
De qualquer modo é sabido que a insatisfação da juventude se compraz num inconformista e descomplexado to make noise bastante explícito. É preciso que alguém o faça.
Vão já direitinhos para o meu Álbum Figueirense.
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domingo, 15 de novembro de 2009

natureza morta


A bílis negra

Acontece aos melhores. Mesmo espíritos analíticos, habituados a observar o mundo através do filtro cínico do distanciamento e do humor são tomados, amiúde ou sazonalmente, por uma moléstia diagnosticada na antiguidade por Hipócrates (sim, esse).
O douto esculápio da antiguidade, na sua teoria dos humores, sustentava que “a influência de Saturno leva o baço a segregar mais bílis negra alterando o humor do indivíduo, escurecendo seu humor e levando-o ao estado de melancolia”.
É o spleen, termo inglês que significa baço e do qual modernamente o poeta francês Baudelaire se socorreu para explicar aos seus contemporâneos o mal de que padecia o jovem príncipe Hamlet, ele próprio e até muitos ilustres desconhecidos.
É verdade que a observação atenta do comportamento dos homens, aliada aos fenómenos naturais (nesta altura do ano está em vigor a mais básica e deprimente das leis da Física, a da Gravidade) e atmosféricos (o mundo visível enche-se de frias e humidas tonalidades grisalhas), contribui para escurecer o meu humor e aproximá-lo do tom da bílis de Baudelaire; ou do príncipe Hamlet.
Contudo, o Outono também é a altura para colher maçãs.
Estas são da minha mais jovem macieira.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Balanço e Contas


Agora que se acabaram os alegres festejos comemorativos do vigésimo aniversário do triste fim do comunismo, regressa-se alegremente à normalidade.
No terceiro mundo, o preço dos alimentos mantém-se em alta. A FAO pede uma “greve de fome” no sábado, em solidariedade com os desnutridos (espero que tão generoso desiderato não esbarre numa imprevista interrupção para almoço).
De assinalar ainda o novo máximo histórico do ouro, em 1.118 dólares a onça, que puxou pelas acções com exposição a matérias-primas.
A confiança volta aos poucos aos mercados, com as bolsas asiáticas a registarem o “aumento do apetite por risco”, o que por sua vez se repercute em Wall street, que obtém os maiores ganhos em treze meses.
Em Portugal, onde os bancos registaram um aumento substancial dos seus lucros, e o desemprego e a corrupção também atingem máximos históricos, o Supremo tribunal acha que os tribunais (isto é, o povo) não têm nada que saber o que raio o primeiro-ministro conversa ao telefone com um pulha. No Parlamento, os eleitos do povo discutem, imperturbável e literalmente, a questão fracturante da igualdade de todos os homens perante o casamento. É a última fronteira.
Entretanto eu, que sou um profissional das artes, confesso que tenho um problema com o mercado que se repercute, em baixa, na minha cotação: há mais coisas que não faço por dinheiro do que as que faço. Não pinto flores literais. Faço alegorias. Esta (acima) é a Alegoria dos cereais.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Apologia da pichação (2)


Compreendo que o post anterior, com as implicações jurídico-legais de uma espécie de apelo à desobediência civil, choque as boas almas, e o povo em geral, que não gosta do vandalismo ambiental dos jovens suburbanos. O bom povo aprecia “ordem”, “obra feita” e “merdas bonitas”. E é bastante mais compreensivo com a especulação imobiliária e o crime organizado. Também compreendo: nada discute tanto o sacrossanto conceito de Propriedade como a pichação.
Ao contrário da arte antiga, que se pode facilmente encontrar em palácios, museus e igrejas, a arte de hoje não está nas galerias comerciais ou nos centros de exposições ditos de “arte contemporânea”.
A verdadeira arte de hoje está na rua - é verdade que é preciso saber ver para a distinguir do caos urbano mas, como se sabe, as flores mais belas acham-se amiúde no meio do lixo.
A cultura contemporânea reinventa constantemente os seus paradigmas. Um desses paradigmas é o da arte. Se esta é uma forma subtil e sofisticada de linguagem, aquilo que chamam “arte contemporânea” atingiu, neste início de século, o grau zero da comunicação.
As galerias privadas mais “in” e os centros de arte contemporânea foram pacificamente tomados de assalto pelos herdeiros menos dotados de Marcel Duchamp. Assenhorearam-se do mainstream e do "negócio". O que se pode encontrar aí é um amontoado patético de elucubrações pseudo “não-retinianas”, tão pífias como pedantes, que são resultado das “reflexões conceptuais” destes filhos e netos do tio Marcel. Estes filósofos do conceito conseguiram transformar as devastadoras blagues anti-arte do seu émulo numa espécie nova de academismo tão estéril e ridículo como o que esse blagueur sarcástico, escarninho e genial invectivava (é esta a tragédia dos génios compreendidos: fazem escola e os imbecis são os seus discípulos mais dedicados).
Nesses templos modernos de “fruição cultural” a experiência sensorial proporcionada pela arte - o deleite estético - é como o orgasmo da frigidez: fingido, snob e por sugestão auto-induzida; só se "chega lá" através da vasta literatura anexa. Duvido muito que nesses antros alguém possa padecer do “síndroma de Stendhal”.
É neste contexto que se explica o meu elogio da pichação.
Nutro uma sincera admiração por estes jovens desenraizados que vivem em guetos anónimos nos subúrbios das grandes cidades; sem esperança nem trabalho nem pátria nem empresa nem referências, nem futuro; que praticam clandestinos a única liberdade de expressão possível e nela encontram uma visceral identidade.
Não respeitam a propriedade privada nem as glórias de antanho. Embora não tenham, como os proletários do Manifesto Comunista, “um mundo a ganhar”, também já nada têm a perder. A sua arte é um imenso panfleto desesperado.
Para eles, um muro erguido é uma tentação, uma parede branca uma oportunidade e qualquer monumento um desafio.

domingo, 8 de novembro de 2009

Pichação



Pichação é uma saborosa, sugestiva e muito “gráfica” palavra da língua portuguesa.
No Brasil é usada sem parcimónia para qualificar a modalidade mais desclassificada daquilo que em português de Portugal se designa genericamente por “grafiti”. No Brasil, há mesmo quem queira ver consagrada na lei essa distinção (a velha compulsão humana de querer definir a arte e regular-lhe os limites a partir de cima é tão antiga como ela e não conhece barreiras nem latitudes).
Depois de antigos pichadores, como Jean-Michel Basquiat (e mais recentemente osGemeos) ou grafiteiros (em português de Portugal diz-se grafiters) como Keith Haring (e mais recentemente Bansky), terem sido absorvidos pelo mainstream do mercado internacional da arte contemporânea, o “grafitismo” tornou-se “aceitável” e bem comportado. É hoje uma das “belas-Artes”. Chama-se street art e os seus happenings são verdadeiros acontecimentos sociais(!).
E Portugal já vai na frente: mesmo sem legalizar a coisa, em certas autarquias já se premeiam os meninos mais bem comportados.
Mas eu gosto mesmo é da sua irmã mais feia.
Pode ser inconveniente, subversiva, promíscua, clandestina, "vandalismo", "contravenção" ou até "crime ambiental", mas penso que a pichação é, lamentavelmente, o último reduto da liberdade de expressão num mundo cada vez mais dominado pelo absurdo intolerável do “politicamente correcto”, do “conveniente” e do “aceitável”.
E depois, há coisas que só se fazem com vinte anos. Como esta declaração enfática de humor livre e descomplexada fé na testosterona, que fotografei em Agosto, nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto. Nesse mesmo dia visitei a colecção de arte contemporânea da Fundação de Serralves. Não vi lá nada tão belo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A via das máscaras




"À face da terra já não há nada para descobrir, é uma tristeza"
Claude Levi-Strauss
Seduzido pelo marxismo na sua juventude, Claude Levi-Strauss cedo abandonou as ideologias porque “habituado a olhar para a humanidade através de gerações”, achava tudo muito “relativo”.
Antropólogo seduzido pela Arte e atento escrutinador dos seus mistérios, foi um dos mais redoutables adversários do preconceito, do racismo, do etnocentrismo e da estupidez em geral.
Filósofo desarmadamente despretensioso deixou escrito, no seu “Tristes Trópicos”, que “o mundo começou sem os homens e vai acabar sem eles.”
Foi com ele que aprendi, em A via das Máscaras (um estudo sobre os mitos fundadores da cultura dos índios da costa norte do Pacífico, entre o Alasca e a Colômbia Britânica), que as máscaras, para além de ocultarem faces, revelam evidências muito menos relativas, ancestrais.
Se é verdade que a cultura francesa está em declínio, com a morte aos 101 anos, do último dos seus grandes intelectuais, "la pensée francaise" despede-se assim mesmo, à francesa: em grande, redimindo-se assim de todos os seus petits cons como Gobineau, Petain, Le pen, Sarkozy ou outros cuja pequenez não cabe neste postal.
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O espírito santo da ganância criativa

Deus, como se sabe, não existe, ou então "anda por fora, em negócios", mas “há no processo de formação de preços em economia de mercado um conceito admiravelmente engenhoso, o de "renda do consumidor".” Manuel António Pina explica aqui como funciona.
Talvez isso também explique porque o banqueiro Ricardo Salgado acha que Teixeira dos Santos “é um dos melhores ministros das finanças que este país já teve”.
Definitivamente tudo tem explicação.
Até o espírito santo.
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