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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O espírito santo da ganância criativa

Deus, como se sabe, não existe, ou então "anda por fora, em negócios", mas “há no processo de formação de preços em economia de mercado um conceito admiravelmente engenhoso, o de "renda do consumidor".” Manuel António Pina explica aqui como funciona.
Talvez isso também explique porque o banqueiro Ricardo Salgado acha que Teixeira dos Santos “é um dos melhores ministros das finanças que este país já teve”.
Definitivamente tudo tem explicação.
Até o espírito santo.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A fé das moscas


“Ó tu que, ao que se diz, criaste tudo o que existe no mundo; tu de quem não sei nada; tu que apenas conheço por palavras e pelo que homens que se enganam todos os dias me podem ter dito; ser bizarro e fantástico a que chamam deus, declaro formalmente, autêntica e publicamente que não acredito nem um pouco em ti, pela excelente razão de que não vejo absolutamente nada capaz de me persuadir duma existência absurda que nada no mundo atesta com solidez.“


Donatien-Alphonse François, Marquês de Sade (História de Juliette)

A polémica de Caím descambou. Desceu ao nível da academia. Definitivamente, o país dos doutores e do pedigree não perdoa a José Saramago as suas origens proletárias, não ter um curso “superior”, não acreditar em deus nosso senhor, ter merecido um prémio Nobel e escrever livros que são lidos num vasto universo de idiomas.
Esta gente carregada de pergaminhos académicos não entende Harold Bloom, o mais que tudo dos críticos norte-americanos (cultura que tanto veneram) que, no seu livro Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds ("Génio: Um Mosaico de Cem Exemplares Mentes Criativas"), considerou José Saramago "o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje" (tradução livre de the most gifted novelist alive in the world today), referindo-se a ele como "o Mestre". Declarou ainda que Saramago é "um dos últimos titãs de um género literário que se está a desvanecer".
Depois da insinuação torpe e javarda de que as proposições do escritor se inscreveriam numa estratégia de marketing (como se o mercado português do livro não fosse peanuts para Saramago) e do triste episódio do texto envinagrado de inveja aleivosa de Vasco Pulido Valente, agora é outro "valente" (este é um editor) que vem à carga com esta brilhante e exigente “análise literária” carregada de adjectivos - depois de uma breve busca pelo Google, fiquei a saber que o valente “crítico” literário é o satisfeito editor de José Rodrigues dos Santos e de Miguel Sousa Tavares; há coisas fantásticas não há? - São as que se explicam por si mesmas. Com vultos da edição como este não admira que o panorama editorial e a cultura em Portugal sejam o que se sabe.
Mas é bem feito para Saramago: ele já devia saber que "apelar á reflexão" num país de cretinos convictos e devotos iluminados é como escarafunchar num charco sórdido e fétido com uma vara demasiado curta: uma pessoa salpica-se.
E agora, José? Ser-se ateu em Portugal não é pêra doce.
É uma experiência existencial muito próxima do “martírio” dos cânones católicos; é viver a vida toda numa espécie de eterno purgatório de perplexidades, numa dúvida excruciante:
- se deus não existe, quem foi o filho da puta que criou as moscas e os imbecis?
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Reflexão sobre alguns conceitos seguida de uma OPV (oferta pública de venda)


O pintor Rolando Sá Nogueira, com quem há muitos anos, na Cooperativa Árvore no Porto, tive aulas de desenho, dizia, do alto dos seus quase dois metros, que um dos principais requisitos de um desenhador é a capacidade de observar. No meu caso, penso que esta faculdade é mais inconsciente e reflexiva do que racional e contemplativa. Talvez por isso os meus desenhos sejam algo arrevesados ou distorcidos, parciais, característicos daquilo a que se chama uma visão pessoal.
A minha compulsão para a observação reflexiva tem-me levado mais à perplexidade do que a qualquer espécie de convencimento ou confirmação de ideias pré-concebidas.
À medida que envelheço, a progressão da minha miopia tem-me privado da beleza dos pormenores mais longínquos mas dotou-me de uma visão global mais alargada e generosa (mais adivinhada do que efectiva, eu sei); o meu olhar foi-se tornando céptico, quiçá cínico, incapaz talvez do deslumbramento, mas ainda não do espanto.
Embora atento ao rumor do mundo também o estou em relação ao meu quintal. Neste, as primeiras borrascas do Outono revelaram fenómenos caprichosos. O ninho da foto acima, derrubado pelos ventos outonais do alto de uma das minhas nespereiras, depois de atentamente observado, reservou-me estranhas perplexidades:
- Terão os pássaros de Maiorca dado um passo de gigante na evolução das espécies ao introduzirem o ornamento na concepção (design) dos seus habitáculos? Isso seria a descoberta científica do século, pensei até enviar a foto à National Geographic - a minha filha, que fotografou o fenómeno, é assinante desta revista - mas depois de reflectir ponderadamente desisti de me expor ao ridículo. Uma observação mais atenta e uma mais aturada reflexão permitiram-me deliberar que os melros de Maiorca devem andar apardalados. Confundem conceitos. É mais do que óbvio que, tal como Catarina Pestana, nunca leram Bruno Munari. Desconhecem a distinção nítida entre artista e designer. Coitados, tal como a “designer” portuguesa, eles não fazem a mínima ideia que existe uma “diferença substantiva” entre design, arquitectura e arte.
- Ou talvez não.
É bem possível que os pássaros de Maiorca estejam indignados com a poluição e com a dimensão da estupidez humana e talvez este ninho seja “uma peça de comunicação”, enfim, um exemplo daquilo a que talvez também chamem “design emocional”.
O comendador Berardo, o mecenas dos conceitos apalermados, não o quererá adquirir para a sua colecção particular? - Eu faço um preço muito em conta.
Assim tudo faria mais sentido.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

a metáfora visual


Este é um blogue de desenhos. Mas o que são desenhos senão metáforas visuais?
Sabe deus(!) o que Luís Buñuel faria com esta.
José Saramago disse que o cérebro humano é um grande criador de absurdos e que Deus é o maior deles.

Em visita recente a Praga, o representante de Deus na terra encontrou-se com Gregório Samsa, himself.
E citou Kafka. Este não disse nada.

sábado, 17 de outubro de 2009

A escalada da estupidez



Há uns anos atrás, o humorista José Vilhena foi processado por uma comissão carnavalesca porque escreveu que ”os parolos da Mealhada pagaram trinta contos a uma tal de Lili e nem sequer o cu lhe viram”. Isto veio-me à memória a propósito do estranho fenómeno de indignação e brio patriótico que tomou alguns portugueses na sequência das afirmações de uma apatetada actriz brasileira de telenovelas.
O espírito tacanho dos pacóvios sempre foi campo fértil para o enlevo patriótico. O discurso alarve da exclusão, da pretensa superioridade de “nós” sobre “eles” sempre me pôs de pé atrás. Talvez porque, embora isto não seja nenhuma Atenas, eu me sinta sempre um meteco.
Existe latente entre os portugueses, que “descobriram o mundo”, um profundo desconhecimento da dimensão desse mesmo mundo; tal como da dimensão da língua portuguesa no mundo e da sua própria dimensão na língua portuguesa.
Só isto explica que Vasco Graça Moura lidere, com esse tipo de argumentos, uma cruzada patrioteira contra o acordo ortográfico. Este intelectual cavaquista (parece um paradoxo, e é) é um poeta emproado de uma erudição enviesada cujo ego não tem a mínima noção da sua desmesura (traduziu Dante, Petrarca e Shakespeare e, nas edições portuguesas dessas obras o seu nome aparece grafado com caracteres de dimensões várias vezes superiores ao nome dos autores).
Escreveu agora um artigo no DN em que explana todo o esplendor da sua estupidez com argumentos que se julgavam enterrados há várias décadas. Este Gobineauzinho lusitano acha que a arte e a cultura são assim como que um concurso de abóboras, (a minha é maior e mai linda c’á tua!).
Tal como desconhece que o Português é uma língua viva ele recusa-se a aceitar a eterna mutação das coisas vivas. É um conservador. Há tempos, numa entrevista, soltou esta pérola: “A esquerda enerva-me”.
Eu acho natural. É mesmo essa a prerrogativa histórica da esquerda: enervar os cretinos.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Por humor à arte


A Biblioteca Jaume Perich (Premiá de Dalt, Barcelona), especializada em cartoon político e humorismo gráfico criou um página web para disponibilizar esta secção do seu acervo. Esta secção nasceu em 2006 graças ao legado de livros do escritor e cartunista Jaume Perich (segundo Kap, é a melhor colecção pública de livros de humor gráfico de Espanha).
Humoralart.com é o nome deste novo site dedicado ao humor gráfico, aos caricaturistas e aos recursos em rede para os amantes do humor e da sátira. “El objetivo de esta página web es reunir los muchos y excelentes recursos que existen en Internet sobre la materia, procurando sistematizarlos. Está dirigido tanto al navegante que quiere reírse cada día con una buena viñeta, como a quienes desean profundizar en algún tema específico”.
De momento bilingue (catalão e castelhano), está aberta a sugestões e colaborações de todos e propõe-se fazer um acompanhamento exaustivo de tudo o que acontece no mundo do humor gráfico, uma actualização das informações diárias relativas ao género, avisos de actos e exposições, guias de leitura, resenhas de livros e uma base de dados de blogues ou sites referentes ao humor (onde consta o nome deste vosso criado na alegre companhia de inúmeros colegas portugueses e brasileiros, e catalães. E castelhanos. E argentinos. E galegos.) e recursos para amantes do género ou profissionais, além do acesso a colecções digitalizadas de uma vasta lista de publicações satíricas.
Vai já para a coluna aqui ao lado. Por humor à arte.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O savonarola de toga


Marinho Pinto, o grande acusador e imarcescível* bastonário da Ordem dos Advogados já disse dos juízes (e dos procuradores, e dos polícias, e dos solicitadores e dos demais operadores judiciários) aquilo que Maomé nunca ousou pensar do toucinho.
O inefável paladino da probidade da Justiça em Portugal, grande defensor de uma barreira sanitária entre a política (os políticos) e o mundo judiciário, esteve na Figueira da Foz onde foi visto passeando-se com o juiz João Ataíde. So what? – perguntais vós. Eu penso que não vem mal ao mundo que dois cidadãos, amigos, tomem juntos um cafezinho e se passeiem de braço dado pelas pitorescas ruas do burgo figueirinhas. A menos que um deles seja um candidato autárquico em vésperas de eleições e o outro uma espécie de savonarola que já foi professor de Deontologia. Interrogado pelo jornalista Jot’Alves (tiens, falando de deontologia) o tonitruante personagem referiu que a sua presença na Figueira foi apenas para “encontrar o seu grande amigo e antigo colega de faculdade (João Ataíde), com quem veio dar um passeio”; perante a estranheza, apressou-se a esclarecer que “o Bastonário não participa em campanhas eleitorais”. “Entretanto, há coisas que não lembram ao diabo, esta mania das operadoras de telecomunicações oferecerem sms á borla por vezes prega partidas. É que alguém quis dar muita importância a um simples encontro de velhos amigos e mostrou a quem quis ver uma sms do staff da candidatura do candidato do PS que dizia: “João Ataíde recebe apoio de Marinho Pinto, bastonário da AO.”Mas claro que tudo isto pode ser tudo um grande equívoco criado por espíritos maliciosos e o homem pode ter vindo à Figueira apenas para dar conselhos (de advogado) ao pobre juiz.
É que tudo indica que no decurso da campanha eleitoral e, para além de cultivar amizades comprometedoras no mundo da alta especulação imobiliária e de prometer bacalhau a pataco (o que apesar de tudo não é ilegal), o infeliz magistrado e candidato socialista terá infringido a alínea b) do nº2 do artigo 199º do código Penal e poderá mesmo (se houver queixa ou participação) arriscar-se a uma pena de prisão até um ano ou multa até 240 dias. As alegadas vítimas, dois patuscos engenheiros, também candidatos, devem estar neste momento a ponderar no que seria a acção mais decisiva da campanha. E das suas carreiras políticas.
Convenhamos que seria, digamos, irónico, que o grande mestre da acusação viesse à Figueira jogar à defesa.

Ah. Continuem com o grande Gardel. E com Cambalache, que ilustra tão bem esta posta.
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*Adoro esta palavra desde que a li pela primeira vez. Numa estória sobre um bode, de Mário Henrique Leiria

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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O fado


As Nações Unidas declararam recentemente que o tango passará a ser considerado património cultural da humanidade. Os 24 membros do Comitê Intergovernamental de Patrimónios Intangíveis da UNESCO conferiram protecção cultural à música e dança que caracterizam o tango.
O Tango é uma música de putas e chulos. Floresceu nos subúrbios degradados das metrópoles do Rio da Prata no início de século vinte. Discépolo dizia que era “um pensamento triste que se pode dançar”.
Mas o Fado, com o seu inimitável ritmo caga-cão-caga-cão, também aspira ao reconhecimento universal. Tem as mesmas origens populares desclassificadas no estuário de um rio, mas ao contrário do tango, o Fadinho é casto: não existe aqui, explícita ou implícita, nenhuma espécie de tensão sexual (embora o êxtase místico leve os aficionados a cognominar os seus maiores cultores com epítetos misteriosos como “língua de prata” ou “garganta d´oiro”). Ah, e não se dança. Chora-se. De pé. Olhos em alvo. Xaile preto e pequenos requebros. À guitarra e à viola.
O nosso homem na UNESCO, o filósofo Manuel Maria, já tem um “bom dossier” de candidatura e parece que já está a fazer lobbying e até, imaginem, sensibilização. Ah fadista!Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado.Eu sempre achei que o que distingue o Fado do Tango é uma tristeza sem dimensão. Enfim, uma questão de grandeza.
E não, o post anterior nada tem que ver com Vitorino.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

João César Monteiro


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Já uma vez aqui escrevi que, se na Figueira da Foz a normalidade é quase sempre medíocre, a excelência é por vezes superlativa.
O cineasta João César Monteiro é o paradigma ilustrado desta acepção. Isto, contudo, não é unânime; segundo a wikipédia, o pobre João tem muuuitos detractores. Demasiado inconformista, incómodo e sui generis para ser uma unanimidade. Foi, ainda segundo a Wikipédia, um dos poucos cineastas filiados no Novo Cinema que não prosseguiu estudos universitários; foi expulso do colégio de Mário Soares porque contraiu uma “perigosíssima” doença venérea, “Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade e nunca mais fui visto na companhia de políticos”; terá mesmo dito, mais tarde, que “a escola é a retrete cultural do opressor”.
Enfim, foi um português sem mestre.
Não consta igualmente que tenha deixado discípulos.
Contudo o pobre não era nenhum fellini. Era mais dado às palavras do que às imagens; talvez por isso tenha inventado o filme–esmola e, por fim, o cinema preto, isto é, sem imagens, o que enervou sobremaneira os patrocinadores e foi um escândalo para o numeroso e exigente público português da sétima arte, para quem o cinema é uma sequência de imagens vertiginosa e ordenadamente umas atrás das outras do princípio até ao happy end como nos filmes americanos caralho. Claro que isto divertiu enormemente o bom do César Monteiro que no fundo, no fundo, era uma alma de prazeres simples.
Enfim, a despeito de problemas sérios com patrocinadores, a mise-en-scéne em geral e a imagem em particular, tornou-se iconoclasta; e talvez por isso (verve e talento não lhe faltavam) um mestre da linguagem. Ora isto é algo muito mal visto no país da “liberdade respeitosa”. O seu humor sardónico e nem sempre bem-disposto caía mal. “Não se nasce português, fica-se”, dizia ele.
Mas os portugueses nunca se ficam. O coitado, para além de receber sempre as subvenções às mijinhas, nunca mereceu uma comenda no dez de Junho. Nem sequer a consagração, na toponímia da sua terra.
Mas merece um lugar à parte, uma espécie de panteão, no meu Álbum Figueirense.
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Aqui podeis certificar-vos do seu talento para a escrita, e no vídeo, da sua verve na sétima arte: numa cena do seu último filme "Vai e Vem" e na pele do personagem João Vuvu, ele esclarece uma amiga de longa data, em detalhe, como se pratica o Broche Chinês e, de seguida, contextualiza politicamente esta "tecnologia de ponta".