.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

O savonarola de toga


Marinho Pinto, o grande acusador e imarcescível* bastonário da Ordem dos Advogados já disse dos juízes (e dos procuradores, e dos polícias, e dos solicitadores e dos demais operadores judiciários) aquilo que Maomé nunca ousou pensar do toucinho.
O inefável paladino da probidade da Justiça em Portugal, grande defensor de uma barreira sanitária entre a política (os políticos) e o mundo judiciário, esteve na Figueira da Foz onde foi visto passeando-se com o juiz João Ataíde. So what? – perguntais vós. Eu penso que não vem mal ao mundo que dois cidadãos, amigos, tomem juntos um cafezinho e se passeiem de braço dado pelas pitorescas ruas do burgo figueirinhas. A menos que um deles seja um candidato autárquico em vésperas de eleições e o outro uma espécie de savonarola que já foi professor de Deontologia. Interrogado pelo jornalista Jot’Alves (tiens, falando de deontologia) o tonitruante personagem referiu que a sua presença na Figueira foi apenas para “encontrar o seu grande amigo e antigo colega de faculdade (João Ataíde), com quem veio dar um passeio”; perante a estranheza, apressou-se a esclarecer que “o Bastonário não participa em campanhas eleitorais”. “Entretanto, há coisas que não lembram ao diabo, esta mania das operadoras de telecomunicações oferecerem sms á borla por vezes prega partidas. É que alguém quis dar muita importância a um simples encontro de velhos amigos e mostrou a quem quis ver uma sms do staff da candidatura do candidato do PS que dizia: “João Ataíde recebe apoio de Marinho Pinto, bastonário da AO.”Mas claro que tudo isto pode ser tudo um grande equívoco criado por espíritos maliciosos e o homem pode ter vindo à Figueira apenas para dar conselhos (de advogado) ao pobre juiz.
É que tudo indica que no decurso da campanha eleitoral e, para além de cultivar amizades comprometedoras no mundo da alta especulação imobiliária e de prometer bacalhau a pataco (o que apesar de tudo não é ilegal), o infeliz magistrado e candidato socialista terá infringido a alínea b) do nº2 do artigo 199º do código Penal e poderá mesmo (se houver queixa ou participação) arriscar-se a uma pena de prisão até um ano ou multa até 240 dias. As alegadas vítimas, dois patuscos engenheiros, também candidatos, devem estar neste momento a ponderar no que seria a acção mais decisiva da campanha. E das suas carreiras políticas.
Convenhamos que seria, digamos, irónico, que o grande mestre da acusação viesse à Figueira jogar à defesa.

Ah. Continuem com o grande Gardel. E com Cambalache, que ilustra tão bem esta posta.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
*Adoro esta palavra desde que a li pela primeira vez. Numa estória sobre um bode, de Mário Henrique Leiria

.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O fado


As Nações Unidas declararam recentemente que o tango passará a ser considerado património cultural da humanidade. Os 24 membros do Comitê Intergovernamental de Patrimónios Intangíveis da UNESCO conferiram protecção cultural à música e dança que caracterizam o tango.
O Tango é uma música de putas e chulos. Floresceu nos subúrbios degradados das metrópoles do Rio da Prata no início de século vinte. Discépolo dizia que era “um pensamento triste que se pode dançar”.
Mas o Fado, com o seu inimitável ritmo caga-cão-caga-cão, também aspira ao reconhecimento universal. Tem as mesmas origens populares desclassificadas no estuário de um rio, mas ao contrário do tango, o Fadinho é casto: não existe aqui, explícita ou implícita, nenhuma espécie de tensão sexual (embora o êxtase místico leve os aficionados a cognominar os seus maiores cultores com epítetos misteriosos como “língua de prata” ou “garganta d´oiro”). Ah, e não se dança. Chora-se. De pé. Olhos em alvo. Xaile preto e pequenos requebros. À guitarra e à viola.
O nosso homem na UNESCO, o filósofo Manuel Maria, já tem um “bom dossier” de candidatura e parece que já está a fazer lobbying e até, imaginem, sensibilização. Ah fadista!Tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado.Eu sempre achei que o que distingue o Fado do Tango é uma tristeza sem dimensão. Enfim, uma questão de grandeza.
E não, o post anterior nada tem que ver com Vitorino.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

João César Monteiro


.
Já uma vez aqui escrevi que, se na Figueira da Foz a normalidade é quase sempre medíocre, a excelência é por vezes superlativa.
O cineasta João César Monteiro é o paradigma ilustrado desta acepção. Isto, contudo, não é unânime; segundo a wikipédia, o pobre João tem muuuitos detractores. Demasiado inconformista, incómodo e sui generis para ser uma unanimidade. Foi, ainda segundo a Wikipédia, um dos poucos cineastas filiados no Novo Cinema que não prosseguiu estudos universitários; foi expulso do colégio de Mário Soares porque contraiu uma “perigosíssima” doença venérea, “Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade e nunca mais fui visto na companhia de políticos”; terá mesmo dito, mais tarde, que “a escola é a retrete cultural do opressor”.
Enfim, foi um português sem mestre.
Não consta igualmente que tenha deixado discípulos.
Contudo o pobre não era nenhum fellini. Era mais dado às palavras do que às imagens; talvez por isso tenha inventado o filme–esmola e, por fim, o cinema preto, isto é, sem imagens, o que enervou sobremaneira os patrocinadores e foi um escândalo para o numeroso e exigente público português da sétima arte, para quem o cinema é uma sequência de imagens vertiginosa e ordenadamente umas atrás das outras do princípio até ao happy end como nos filmes americanos caralho. Claro que isto divertiu enormemente o bom do César Monteiro que no fundo, no fundo, era uma alma de prazeres simples.
Enfim, a despeito de problemas sérios com patrocinadores, a mise-en-scéne em geral e a imagem em particular, tornou-se iconoclasta; e talvez por isso (verve e talento não lhe faltavam) um mestre da linguagem. Ora isto é algo muito mal visto no país da “liberdade respeitosa”. O seu humor sardónico e nem sempre bem-disposto caía mal. “Não se nasce português, fica-se”, dizia ele.
Mas os portugueses nunca se ficam. O coitado, para além de receber sempre as subvenções às mijinhas, nunca mereceu uma comenda no dez de Junho. Nem sequer a consagração, na toponímia da sua terra.
Mas merece um lugar à parte, uma espécie de panteão, no meu Álbum Figueirense.
.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Aqui podeis certificar-vos do seu talento para a escrita, e no vídeo, da sua verve na sétima arte: numa cena do seu último filme "Vai e Vem" e na pele do personagem João Vuvu, ele esclarece uma amiga de longa data, em detalhe, como se pratica o Broche Chinês e, de seguida, contextualiza politicamente esta "tecnologia de ponta".

terça-feira, 29 de setembro de 2009

And the winner is…


Dizem-me que apesar da crise nacional, da internacional, da contestação nas ruas e de graves suspeições (nacionais e internacionais) sobre o carácter e as práticas do seu querido líder, o grande vencedor das últimas eleições foi o partido Socialista.
Mas eu tenho para mim que o verdadeiro vencedor, aquele sem o qual nada teria sido possível, é este (visto aqui em pose reflexiva pelo olhar cirúrgico de Rafael Bordalo Pinheiro, num retrato à pena publicado em 1880 no jornal satírico O António Maria).
Receio contudo que o prémio não tarde e seja, como diz o meu pai, o do costume: “aquilo que a Luísa ganhou entre o centeio.”
Suponho que seja inteiramente merecido.
.

sábado, 26 de setembro de 2009

O meu voto

“O meu voto é para que se multipliquem os extremistas neste domingo.”

Tal como Nuno Ramos de Almeida (cinco dias), eu também acho que ”São precisos radicais e extremistas para dizer que aquilo que nos querem fazer passar por normal não é justo.”
Gosto de pensar que o meu voto será, imaginem, uma pequena pedra na engrenagem deste mecanismo, tão bem oleado.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
O diagrama do funcionamento da "coisa" é daqui.

.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O encavaquismo


.
Uma das premissas do encavaquismo é que a culpa é sempre, sempre, do mordomo. Lembram-se de Fernando Nogueira, imolado no altar das ambições presidenciais de suaxelência? Na época, tal facto abriu caminho à chegada triunfal do engenheiro Guterres e deu a conhecer ao país novos valores como Jorge Coelho, Pina Moura, António Vitorino e… José Sócrates.
Pois bem, a ópera bufa, a que me referi no post anterior, continua e envolve cada vez mais os seus protagonistas num vórtice de estupidez tragi-cómica. A triste figura que faz o papel de SuaXelência acabou de despedir o mordomo, perdão, o assessor (tiens, este também é fernando!)
Mas não acaba aqui. As comédias de enganos dividiam-se em actos e estes em cenas. Pois bem, agora as cenas, tristes, são distribuídas ao público em capítulos com a periodicidade de jornal diário. Mas não faz mal: as pessoas aguentam entrechos complicados desde que condimentados com pormenores sórdidos. Aguardam-se pois novos episódios.

O retrato de suaxelência saíu algo cubista. Foi uma tentativa (vã, diga-se) de esmiuçar o âmago da alma de uma personagem que encarna todo um way of life. A decomposição da figura em facetas revelou um todo vazio de densidade. O que talvez prove quão surpreendentemente grande é o espaço político que neste país é ocupado pelo vácuo.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Obs. -
Tornou-se já uma tradição da presidência da República: desde Mário Soares, o presidente em exercício escolhe o artista que o retrata oficialmente para a posteridade. Assim, Soares fez-se retratar por Júlio Pomar e Jorge Sampaio por Paula Rego. A Cavaco Silva, que ainda não escolheu o seu artista, eu permito-me sugerir o nome de Noronha da Costa. Trata-se, receio, do único artista capaz de captar convincentemente a intensidade atmosférica da fátua densidade psicológica da figura e do momento político em que vivemos (a técnica do sfumatto "à pistola" é a mais adequada à fixação precisa das impressões mais fugidias).

.

domingo, 20 de setembro de 2009

O cidadão azevedo


A última semana foi muito instrutiva sobre a (sempre velada por espesso manto de fantasia) sordidez intrínseca do mundo da alta política e do jornalismo ditos “de referência”.
Neste mundo obscuro, pardacento e enlameado, este sujeito, que fez fortuna no negócio da mercearia por grosso, é uma luminária que passa por paladino da liberdade de imprensa (!).
Também fiquei a saber, embora já desconfiasse, devido igualmente à incontinência verbal de outro prócer do empreendorismo nacional - Joe Berardo, o comendador das artes – que, em Portugal um jornal pode até ser um mau negócio, mas dá imenso jeito ao negócio ter um jornal.
Infelizmente, como se vê aqui, os conspiradores, os jornalistas e até os gargantas fundas dos nossos “uátergueites” não têm sequer o 9º ano.
Ainda se tudo isto se passasse “numa terra de mulheres bonitas”.
.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A casa das histórias



Hoje em Cascais inaugura, com pompa e circunstância, a Casa das Histórias de Paula Rego.
Se eu fosse munícipe de Cascais sentir-me-ia honrado pela estratégia de investimento cultural da Câmara Municipal. Já a propósito da estratégia do município de inaugurar o dito museu em plena campanha eleitoral tenho as minhas dúvidas: como recentemente os Gato Fedorento demonstraram, a iliteracia em portugal, convicta ou compungida, dá mais votos.
Quanto a Paula Rego, já lhe dediquei dois postais. Aqui e aqui.
.

domingo, 13 de setembro de 2009

A arte imita a vida

-

.
Mafalda, a contestatária, foi homenageada com uma estátua numa rua de Buenos Aires. Quino, o seu criador, como sempre, foi parco em palavras, mas disse tudo (ver aqui).
Não é a primeira vez que personagens de duas dimensões ganham mais uma para ocuparem lugares de destaque em ruas ou praças. Mas não em Portugal. E contudo, conheço pelo menos duas (e os seus criadores) a quem tal podia ser devido: o guarda Ricardo, de Sam e o Zé Povinho, de Rafael Bordalo Pinheiro.
Quanto a este último, tenho até uma proposta, muito simples. Nada dessas modernices que ninguém entende. Tem que ser algo que o povo alcance (não sei se me faço entender). Realista. Mas diferente. Sem pedestal; ou melhor, com o pedestal por cima do personagem.
Seria então assim: localizada numa grande praça, o Zé seria representado como aquilo que é, ou seja, uma besta de carga. Estaria de joelhos no chão, suportando às costas um enorme pedestal (pelo menos o dobro da dimensão do personagem) para onde subiria toda a gente, desde políticos em campanha a turistas em férias. Seria, como se diz agora, "interactiva"; só assim se cumpriria eterna e plenamente o verdadeiro espírito da máxima “a arte imita a vida”.
Um dia destes faço o croquis.
Tenho quase a certeza de que pelo menos Rafael Bordalo Pinheiro adoraria.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Ao alto, Mafalda e o sr. Joaquin Salvador Lavado, "Quino".
.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O “Pancada”


Afastado uns dias da blogosfera por causa de uma avaria informática, não deixo de estranhar a olímpica indiferença com que quase toda a blogosfera figueirense brindou este facto pitoresco mas não menos revelador.
O “caso” trouxe naturalmente para a ribalta (não necessariamente pelas melhores razões) aquele que é, (há quase quatro décadas) porventura um dos personagens mais influentes da vida política e social figueirense.
Dotado de uma inteligência viva, uma cultura enciclopédica e uma memória de paquiderme, Joaquim de Sousa, o “Quim pancada”, é, senão o mais longevo, o mais controverso, ubíquo e sui generis dos políticos figueirinhas. A Figueira não seria o que é sem o seu precioso contributo.
A sua carreira política teve início ainda na oposição ao Estado-Novo. Depois fez-se socialista (tout d’abord “soarista”, depois “zenhista”). Depois disso, fez-se social-democrata (desormais no partido das facas longas, torna-se difícil seguir-lhe o sinuoso percurso de alianças e rupturas).
Mas entretanto foi professor (de ginástica e de matemática) e administrador (administrou hospitais e portos comerciais, associações desportivas, colectividades e até instituições de solidariedade social).
Apesar de uma carreira política construída às avessas, ou seja, "de cavalo para burro" - foi, por esta ordem: deputado; secretário de estado (da Juventude e Desportos do I Governo Constitucional); presidente da Câmara; vereador - há quem diga que agora, ainda que por interposta pessoa, quer ser presidente da Junta de S. Julião (as caixas de comentários dos blogues são um verdadeiro manancial de informação sociopolítica e sociológica) .
Ainda assim, este maquiavel de província revelou-se um político de estirpe paradoxalmente florentina: aprendeu à sua custa que o poder, o verdadeiro "Poder" está, não em cargos electivos mas em posições de influência.
Assim, o nosso homem recuperou para si, sozinho ou acompanhado de amigos selectos (uma selecção rigorosa de amizades convenientes é um dos ingredientes para o êxito de empreitadas deste género) o prestígio da mais antiga e selectiva das colectividades locais, a Assembleia Figueirense. Conquistou também para si o invejável cargo de provedor da agência de empregos que dá pelo pomposo (e piedoso) nome de Misericórdia-Obra da Figueira. Além disso é um ginasista dos quatro costados e dizem, dizem que é ele, de facto (que não de Jure) o presidente desta prestigiada agremiação desportiva. De qualquer uma destas três entidades, Joaquim de Sousa pode dizer o que Luís XIV, o rei-sol, dizia do estado francês: “c’est moi”.
Apesar dos anti-corpos que a simples menção do seu nome provoca (como se pode aferir pelos depoimentos intrépida e integralmente anónimos ao post de Rogério Neves acima citado e linkado) Joaquim de Sousa está para os figueirenses, mais ou menos, salvaguardando as devidas proporções, como Salazar para os portugueses: as pessoas olham para eles e revêem-se ao espelho; não gostam, é certo, da imagem que este lhes devolve, mas receio que isso seja toda uma outra questão. Uma questão de auto-estima.
----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
A caricatura não é inédita. É da época desta e também foi publicada no jornal “A Linha do Oeste”

.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O provedor das caldeiradas


.
A minha galeria de notáveis figueirenses ficaria imperdoavelmente incompleta sem a presença inefável daquele que é, sem dúvida, o mestre-de-cerimónias da festa ininterrupta que é “o socialfigueirinhas.
Ele próprio empresário, a sua imagem é o retrato chapado do “empreendorismo” de rosto figueirense.
Trata-se de Mário Esteves. O gastrónomo mortaguense adaptou-se tão bem ao “terroir” da foz do Mondêgo que se tornou no provedor oficioso da “hotelaria” e da (imagine-se!) “gastronomia regional” locais.
O "Esteves da caçarola" (como é conhecido) cunhou um conceito retintamente figueirinhas que repete, como uma jeremíada, todos os anos (em jeito de balancete, no fim do Verão) e pode facilmente ser sintetizado numa só expressão: “a vida são dois dias mas a época alta são cada vez menos”.
.