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terça-feira, 29 de setembro de 2009

And the winner is…


Dizem-me que apesar da crise nacional, da internacional, da contestação nas ruas e de graves suspeições (nacionais e internacionais) sobre o carácter e as práticas do seu querido líder, o grande vencedor das últimas eleições foi o partido Socialista.
Mas eu tenho para mim que o verdadeiro vencedor, aquele sem o qual nada teria sido possível, é este (visto aqui em pose reflexiva pelo olhar cirúrgico de Rafael Bordalo Pinheiro, num retrato à pena publicado em 1880 no jornal satírico O António Maria).
Receio contudo que o prémio não tarde e seja, como diz o meu pai, o do costume: “aquilo que a Luísa ganhou entre o centeio.”
Suponho que seja inteiramente merecido.
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sábado, 26 de setembro de 2009

O meu voto

“O meu voto é para que se multipliquem os extremistas neste domingo.”

Tal como Nuno Ramos de Almeida (cinco dias), eu também acho que ”São precisos radicais e extremistas para dizer que aquilo que nos querem fazer passar por normal não é justo.”
Gosto de pensar que o meu voto será, imaginem, uma pequena pedra na engrenagem deste mecanismo, tão bem oleado.
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O diagrama do funcionamento da "coisa" é daqui.

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terça-feira, 22 de setembro de 2009

O encavaquismo


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Uma das premissas do encavaquismo é que a culpa é sempre, sempre, do mordomo. Lembram-se de Fernando Nogueira, imolado no altar das ambições presidenciais de suaxelência? Na época, tal facto abriu caminho à chegada triunfal do engenheiro Guterres e deu a conhecer ao país novos valores como Jorge Coelho, Pina Moura, António Vitorino e… José Sócrates.
Pois bem, a ópera bufa, a que me referi no post anterior, continua e envolve cada vez mais os seus protagonistas num vórtice de estupidez tragi-cómica. A triste figura que faz o papel de SuaXelência acabou de despedir o mordomo, perdão, o assessor (tiens, este também é fernando!)
Mas não acaba aqui. As comédias de enganos dividiam-se em actos e estes em cenas. Pois bem, agora as cenas, tristes, são distribuídas ao público em capítulos com a periodicidade de jornal diário. Mas não faz mal: as pessoas aguentam entrechos complicados desde que condimentados com pormenores sórdidos. Aguardam-se pois novos episódios.

O retrato de suaxelência saíu algo cubista. Foi uma tentativa (vã, diga-se) de esmiuçar o âmago da alma de uma personagem que encarna todo um way of life. A decomposição da figura em facetas revelou um todo vazio de densidade. O que talvez prove quão surpreendentemente grande é o espaço político que neste país é ocupado pelo vácuo.
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Obs. -
Tornou-se já uma tradição da presidência da República: desde Mário Soares, o presidente em exercício escolhe o artista que o retrata oficialmente para a posteridade. Assim, Soares fez-se retratar por Júlio Pomar e Jorge Sampaio por Paula Rego. A Cavaco Silva, que ainda não escolheu o seu artista, eu permito-me sugerir o nome de Noronha da Costa. Trata-se, receio, do único artista capaz de captar convincentemente a intensidade atmosférica da fátua densidade psicológica da figura e do momento político em que vivemos (a técnica do sfumatto "à pistola" é a mais adequada à fixação precisa das impressões mais fugidias).

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domingo, 20 de setembro de 2009

O cidadão azevedo


A última semana foi muito instrutiva sobre a (sempre velada por espesso manto de fantasia) sordidez intrínseca do mundo da alta política e do jornalismo ditos “de referência”.
Neste mundo obscuro, pardacento e enlameado, este sujeito, que fez fortuna no negócio da mercearia por grosso, é uma luminária que passa por paladino da liberdade de imprensa (!).
Também fiquei a saber, embora já desconfiasse, devido igualmente à incontinência verbal de outro prócer do empreendorismo nacional - Joe Berardo, o comendador das artes – que, em Portugal um jornal pode até ser um mau negócio, mas dá imenso jeito ao negócio ter um jornal.
Infelizmente, como se vê aqui, os conspiradores, os jornalistas e até os gargantas fundas dos nossos “uátergueites” não têm sequer o 9º ano.
Ainda se tudo isto se passasse “numa terra de mulheres bonitas”.
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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A casa das histórias



Hoje em Cascais inaugura, com pompa e circunstância, a Casa das Histórias de Paula Rego.
Se eu fosse munícipe de Cascais sentir-me-ia honrado pela estratégia de investimento cultural da Câmara Municipal. Já a propósito da estratégia do município de inaugurar o dito museu em plena campanha eleitoral tenho as minhas dúvidas: como recentemente os Gato Fedorento demonstraram, a iliteracia em portugal, convicta ou compungida, dá mais votos.
Quanto a Paula Rego, já lhe dediquei dois postais. Aqui e aqui.
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domingo, 13 de setembro de 2009

A arte imita a vida

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Mafalda, a contestatária, foi homenageada com uma estátua numa rua de Buenos Aires. Quino, o seu criador, como sempre, foi parco em palavras, mas disse tudo (ver aqui).
Não é a primeira vez que personagens de duas dimensões ganham mais uma para ocuparem lugares de destaque em ruas ou praças. Mas não em Portugal. E contudo, conheço pelo menos duas (e os seus criadores) a quem tal podia ser devido: o guarda Ricardo, de Sam e o Zé Povinho, de Rafael Bordalo Pinheiro.
Quanto a este último, tenho até uma proposta, muito simples. Nada dessas modernices que ninguém entende. Tem que ser algo que o povo alcance (não sei se me faço entender). Realista. Mas diferente. Sem pedestal; ou melhor, com o pedestal por cima do personagem.
Seria então assim: localizada numa grande praça, o Zé seria representado como aquilo que é, ou seja, uma besta de carga. Estaria de joelhos no chão, suportando às costas um enorme pedestal (pelo menos o dobro da dimensão do personagem) para onde subiria toda a gente, desde políticos em campanha a turistas em férias. Seria, como se diz agora, "interactiva"; só assim se cumpriria eterna e plenamente o verdadeiro espírito da máxima “a arte imita a vida”.
Um dia destes faço o croquis.
Tenho quase a certeza de que pelo menos Rafael Bordalo Pinheiro adoraria.
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Ao alto, Mafalda e o sr. Joaquin Salvador Lavado, "Quino".
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O “Pancada”


Afastado uns dias da blogosfera por causa de uma avaria informática, não deixo de estranhar a olímpica indiferença com que quase toda a blogosfera figueirense brindou este facto pitoresco mas não menos revelador.
O “caso” trouxe naturalmente para a ribalta (não necessariamente pelas melhores razões) aquele que é, (há quase quatro décadas) porventura um dos personagens mais influentes da vida política e social figueirense.
Dotado de uma inteligência viva, uma cultura enciclopédica e uma memória de paquiderme, Joaquim de Sousa, o “Quim pancada”, é, senão o mais longevo, o mais controverso, ubíquo e sui generis dos políticos figueirinhas. A Figueira não seria o que é sem o seu precioso contributo.
A sua carreira política teve início ainda na oposição ao Estado-Novo. Depois fez-se socialista (tout d’abord “soarista”, depois “zenhista”). Depois disso, fez-se social-democrata (desormais no partido das facas longas, torna-se difícil seguir-lhe o sinuoso percurso de alianças e rupturas).
Mas entretanto foi professor (de ginástica e de matemática) e administrador (administrou hospitais e portos comerciais, associações desportivas, colectividades e até instituições de solidariedade social).
Apesar de uma carreira política construída às avessas, ou seja, "de cavalo para burro" - foi, por esta ordem: deputado; secretário de estado (da Juventude e Desportos do I Governo Constitucional); presidente da Câmara; vereador - há quem diga que agora, ainda que por interposta pessoa, quer ser presidente da Junta de S. Julião (as caixas de comentários dos blogues são um verdadeiro manancial de informação sociopolítica e sociológica) .
Ainda assim, este maquiavel de província revelou-se um político de estirpe paradoxalmente florentina: aprendeu à sua custa que o poder, o verdadeiro "Poder" está, não em cargos electivos mas em posições de influência.
Assim, o nosso homem recuperou para si, sozinho ou acompanhado de amigos selectos (uma selecção rigorosa de amizades convenientes é um dos ingredientes para o êxito de empreitadas deste género) o prestígio da mais antiga e selectiva das colectividades locais, a Assembleia Figueirense. Conquistou também para si o invejável cargo de provedor da agência de empregos que dá pelo pomposo (e piedoso) nome de Misericórdia-Obra da Figueira. Além disso é um ginasista dos quatro costados e dizem, dizem que é ele, de facto (que não de Jure) o presidente desta prestigiada agremiação desportiva. De qualquer uma destas três entidades, Joaquim de Sousa pode dizer o que Luís XIV, o rei-sol, dizia do estado francês: “c’est moi”.
Apesar dos anti-corpos que a simples menção do seu nome provoca (como se pode aferir pelos depoimentos intrépida e integralmente anónimos ao post de Rogério Neves acima citado e linkado) Joaquim de Sousa está para os figueirenses, mais ou menos, salvaguardando as devidas proporções, como Salazar para os portugueses: as pessoas olham para eles e revêem-se ao espelho; não gostam, é certo, da imagem que este lhes devolve, mas receio que isso seja toda uma outra questão. Uma questão de auto-estima.
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A caricatura não é inédita. É da época desta e também foi publicada no jornal “A Linha do Oeste”

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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O provedor das caldeiradas


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A minha galeria de notáveis figueirenses ficaria imperdoavelmente incompleta sem a presença inefável daquele que é, sem dúvida, o mestre-de-cerimónias da festa ininterrupta que é “o socialfigueirinhas.
Ele próprio empresário, a sua imagem é o retrato chapado do “empreendorismo” de rosto figueirense.
Trata-se de Mário Esteves. O gastrónomo mortaguense adaptou-se tão bem ao “terroir” da foz do Mondêgo que se tornou no provedor oficioso da “hotelaria” e da (imagine-se!) “gastronomia regional” locais.
O "Esteves da caçarola" (como é conhecido) cunhou um conceito retintamente figueirinhas que repete, como uma jeremíada, todos os anos (em jeito de balancete, no fim do Verão) e pode facilmente ser sintetizado numa só expressão: “a vida são dois dias mas a época alta são cada vez menos”.
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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

o “childe Harold” e os tugas


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Julgo que é mais ou menos óbvio que este é um blogue que, segundo certos critérios, pode ser declarado, digamos, botabaixista.
Por isso mesmo, em tempos de generalizada e assumida anglofilia (o governo convenceu uma vasta camada da população de que os fedelhos serão menos ignorantes se também forem capazes de verbalizar o seu vasto desconhecimento do mundo na língua de Walt Disney) é sempre reconfortante ver o arroubo de um inglês, um poeta, (e ainda por cima romântico) ser corroborado pelos factos. Aqui.
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A caricatura de Lord Byron, o “childe Harold”, foi executada a partir do seu retrato mais célebre, uma pintura de Thomas Phillips para o qual o poeta posou ajaezado “à albaneza”.
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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Esperando o sucesso (apontamentos de viagem)





O Museu Soares dos Reis é um dos meus museus de arte preferidos. É natural que, estando no Porto e tendo tempo, tenha aproveitado para o revisitar e, de caminho, mostrar a minha filha um dos mais notáveis acervos da arte portuguesa do século dezanove (mas não só).
Foi neste museu, beneficiado aquando das obras do Porto 2001-Capital Europeia da Cultura, que descobri fascinado há mais de vinte anos, uma preciosa colecção de enormes desenhos a carvão de Abel Salazar. É ali que estão, (entre outras, Silva Porto, por exemplo) a obra completa (pintura) de Henrique Pousão e do escultor António Soares dos Reis (de quem fotografei, obviamente sem flash e sob o olhar benevolente mas circunspecto da vigilante, um pormenor de o desterrado).
Noutro qualquer país o público formaria filas intermináveis à porta de um museu destes para ver artistas assim.
Pousão morreu muito jovem, tal como Soares dos Reis. Um, de doença contagiosa; o outro com dois tiros na cabeça: ambos desterrados na sua terra e incompreendidos no seu tempo.
E contudo eu não acho estranho que ainda assim continuem: “esperando o sucesso”, cem anos depois e apesar de os dois juntos, cada um na sua arte representarem o cume da arte portuguesa de novecentos.
Apesar de vivermos o ano Pousão, é uma lástima que a grande exposição comemorativa dos 150 anos do pintor (antológica e de homenagem) tenha encerrado em Junho(!).De maneiras que tive o museu só para mim. Obviamente escoltado por vigilantes diligentes, foi óptimo para a minha fobia de ajuntamentos. Mas quando saí para a rua, para o sol de Agosto, vinha tomado por uma estranha e indisfarçável melancolia.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Mãos à obra


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Eu já desconfiava (como podem ver aqui) mas, a partir de agora é oficial: o governo de Portugal acha que o Património Cultural é uma questão de construção civil.
Embora a ideia tenha tudo para ser dele, não me admira que Jorge Coelho, eminência parda do socialismo empresarial em que vivemos e Conselheiro de Estado, do alto da sua magnanimidade venha a propor a comenda das Obras Públicas para o pobre imbecil que se lembrou disto.
É que, segundo esta notícia, foi tudo ideia do ministro da Cultura. Nem mais.
Segundo a referida notícia, a primeira vítima será o Palácio de Queluz. Preparem-se pois para o arrojo das sacadas em alumínio ou aço inox, as grandes “surfaces” envidraçadas ou as palas em betão.
A coisa promete e é todo um programa: o cheque-obra.
Bem-vindos pois à era radiosa do empreiteirismo-iluminado.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A retoma



Após alguns dias de um revigorante dépaysement (o Porto, o Douro e o Gerês), propositadamente afastado da Figueira e da bloga, eis-me de regresso.
Just in time. A silly season está no auge.
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Ao alto um carvalho, no lugar de Assureira, no Gerês, perto da ruína de um magnífico banco de granito, que a incúria e o mais insano desleixo deixaram chegar à decrepitude, com a seguinte inscrição, gravada numa placa de bronze (ainda) intacta: “EM UMAS TOSCAS PEDRAS QUE OS FREQUENTADORES DO GEREZ CHAMAVAM OS BANCOS DO RAMALHO COSTUMAVA VIR AQUI SENTAR-SE LENDO E ESCREVENDO O NOTÁVEL ESCRITOR JOSÉ DUARTE RAMALHO ORTIGÃO QUE TANTO HONROU A SUA TERRA E TANTO QUIS A ESTA REGIÃO A SOCIEDADE DE PROPAGANDA DE PORTUGAL NO MESMO LUGAR MANDOU LEVANTAR-LHE ESTA SINGELA HOMENAGEM DELINEADA PELO ARQUITECTO RAUL LINO DE LISBOA NO ANO DE 1920”.
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Por mais que deambulemos, é impossível escapar à irremediável, iniludível e ufana vitória da estupidez, cujos sinais estão por todo o lado. Até nos mais insuspeitos lugares.
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O senador




Apesar de a Figueira da Foz estar exposta a uma frente atlântica, o seu subconsciente profundo é bafejado por ventos muito mais “meridionais”. Talvez seja por isso que a política por aqui é, desde sempre, assunto de umas quantas famílias e a respública uma espécie de “cosa nostra”.
É verdade que algo vem mudando. Isto é visível na entrada de novos nomes sem quaisquer pergaminhos para as listas de candidatos à Assembleia Municipal pelos partidos do poder. Mas, segundo a velha máxima siciliana enunciada por Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o que muda é apenas o bastante para que tudo permaneça igual.
Em épocas de certo modo convulsas, as velhas famílias apostam tudo nos seus vultos mais notáveis. E estes, movimentam-se muito afoitos e azougados pelas várias candidaturas “com hipóteses”. Basta uma, ainda que desatenta, observação das listas de candidatos à Câmara para constatar a curiosa distribuição de apelidos conhecidos.
Mas ainda não foi desta que o mais discreto de todos, aquele a quem chamam “o senador”; a eterna promessa adiada do “socialismo empresarial“ figueirinhas; a “eminência parda”, enfim, o verdadeiro “cappo dei tutti cappi”, Fernando Cardoso, avançou.
Talvez este facto se explique porque a esposa, (de quem, à semelhança de Joana Aguiar de Carvalho, ninguém conhece qualquer tomada de posição política pública) já conquistou, à outrance, um invejável lugar elegível, na mesma lista.
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O “retrato” do cromo de hoje do meu Álbum Figueirense é um desenho antigo, da mesma época deste e deste, e talvez por isso um tanto desactualizado, mas é inédito, ou seja, nunca foi publicado.
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