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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Mãos à obra


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Eu já desconfiava (como podem ver aqui) mas, a partir de agora é oficial: o governo de Portugal acha que o Património Cultural é uma questão de construção civil.
Embora a ideia tenha tudo para ser dele, não me admira que Jorge Coelho, eminência parda do socialismo empresarial em que vivemos e Conselheiro de Estado, do alto da sua magnanimidade venha a propor a comenda das Obras Públicas para o pobre imbecil que se lembrou disto.
É que, segundo esta notícia, foi tudo ideia do ministro da Cultura. Nem mais.
Segundo a referida notícia, a primeira vítima será o Palácio de Queluz. Preparem-se pois para o arrojo das sacadas em alumínio ou aço inox, as grandes “surfaces” envidraçadas ou as palas em betão.
A coisa promete e é todo um programa: o cheque-obra.
Bem-vindos pois à era radiosa do empreiteirismo-iluminado.
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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A retoma



Após alguns dias de um revigorante dépaysement (o Porto, o Douro e o Gerês), propositadamente afastado da Figueira e da bloga, eis-me de regresso.
Just in time. A silly season está no auge.
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Ao alto um carvalho, no lugar de Assureira, no Gerês, perto da ruína de um magnífico banco de granito, que a incúria e o mais insano desleixo deixaram chegar à decrepitude, com a seguinte inscrição, gravada numa placa de bronze (ainda) intacta: “EM UMAS TOSCAS PEDRAS QUE OS FREQUENTADORES DO GEREZ CHAMAVAM OS BANCOS DO RAMALHO COSTUMAVA VIR AQUI SENTAR-SE LENDO E ESCREVENDO O NOTÁVEL ESCRITOR JOSÉ DUARTE RAMALHO ORTIGÃO QUE TANTO HONROU A SUA TERRA E TANTO QUIS A ESTA REGIÃO A SOCIEDADE DE PROPAGANDA DE PORTUGAL NO MESMO LUGAR MANDOU LEVANTAR-LHE ESTA SINGELA HOMENAGEM DELINEADA PELO ARQUITECTO RAUL LINO DE LISBOA NO ANO DE 1920”.
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Por mais que deambulemos, é impossível escapar à irremediável, iniludível e ufana vitória da estupidez, cujos sinais estão por todo o lado. Até nos mais insuspeitos lugares.
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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O senador




Apesar de a Figueira da Foz estar exposta a uma frente atlântica, o seu subconsciente profundo é bafejado por ventos muito mais “meridionais”. Talvez seja por isso que a política por aqui é, desde sempre, assunto de umas quantas famílias e a respública uma espécie de “cosa nostra”.
É verdade que algo vem mudando. Isto é visível na entrada de novos nomes sem quaisquer pergaminhos para as listas de candidatos à Assembleia Municipal pelos partidos do poder. Mas, segundo a velha máxima siciliana enunciada por Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o que muda é apenas o bastante para que tudo permaneça igual.
Em épocas de certo modo convulsas, as velhas famílias apostam tudo nos seus vultos mais notáveis. E estes, movimentam-se muito afoitos e azougados pelas várias candidaturas “com hipóteses”. Basta uma, ainda que desatenta, observação das listas de candidatos à Câmara para constatar a curiosa distribuição de apelidos conhecidos.
Mas ainda não foi desta que o mais discreto de todos, aquele a quem chamam “o senador”; a eterna promessa adiada do “socialismo empresarial“ figueirinhas; a “eminência parda”, enfim, o verdadeiro “cappo dei tutti cappi”, Fernando Cardoso, avançou.
Talvez este facto se explique porque a esposa, (de quem, à semelhança de Joana Aguiar de Carvalho, ninguém conhece qualquer tomada de posição política pública) já conquistou, à outrance, um invejável lugar elegível, na mesma lista.
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O “retrato” do cromo de hoje do meu Álbum Figueirense é um desenho antigo, da mesma época deste e deste, e talvez por isso um tanto desactualizado, mas é inédito, ou seja, nunca foi publicado.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

A casa do esquecimento

imagem daqui

O arquitecto é um pedreiro que aprendeu latim Adolph Loos


Hoje será entregue na Câmara da Figueira da Foz um abaixo-assinado no sentido de sensibilizar as autoridades para a necessidade de “reconstrução” do Mosteiro de Seiça.
Maria Rosa Anttonen, que deu início à recolha de assinaturas, e é a antiga proprietária do monumento e autora do blogue Seiça, a região e o mosteiro, interroga-se: “Por que o Paço de Tavarede foi completamente recuperado e o Convento completamente abandonado?
Isto levanta uma questão pertinente e infere uma série de equívocos que persistem na consciência colectiva portuguesa (se é que isso existe) sobre o património e a necessidade, ou conveniência, da sua conservação.
Apesar disso, julgo que é unânime que a conservação do património é importante para a preservação da memória colectiva. É suposto que quando esta conservação acontece, se faça no sentido de restituir à peça restaurada a sua autenticidade original. Isto faz-se, no que aos edifícios diz respeito, com a ajuda de técnicos competentes (canteiros, escultores, entalhadores, douradores, azulejistas, vitralistas, etc.) e, sempre sempre, com o recurso aos materiais originais. É isto que se faz em França, Inglaterra, Itália, e Alemanha, países que gozam justamente do prestígio e do proveito de preservarem o seu património histórico e cultural; neste último país, por exemplo, a catedral de Dresden, destruída na II Guerra mundial, foi restaurada recentemente sem recurso a um único grama de cimento).
E não, não é isso que se faz em Portugal. E não foi isso que se fez na Figueira: nem no Paço de Tavarede nem, mais recentemente, no Jardim Municipal. O que se fez ali não foi restauro. A autenticidade do lugar não foi restituída. O que ali está é outra coisa; não me ocorre o quê neste momento.
Não me parece que os nossos arquitectos (pelo menos os responsáveis do património) sejam pedreiros (têm horror às pedras, que são sujas e pesadas), que aprenderam latim (têm horror ao estudo e ao conhecimento do passado).
Por isso eu até preferia que deixassem tudo como está.
Mal por mal, deixem os vestígios do passado entregues ao tempo e ao seu labor competente.
Mal por mal, já estamos todos “a caminho do esquecimento, essa doce praia”.
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sábado, 15 de agosto de 2009

Leituras de Verão

Como não tenho férias (nunca tive), faço como as cigarras ou os milionários: tento fruir da vida todo o ano. Uma das maneiras de o fazer é através da leitura. Sou um apreciador de livros. Há dias descobri, de uma penada, numa banca de livros velhos, na feira de antiguidades e velharias (creio que é assim que se chama e faz-se todos os quinze dias, de Verão, no jardim municipal da Figueira da Foz), quatro Maigrets que não conhecia. Sim. 4-quatro-4. A um euro cada! Colecção Vampiro. Óptimo estado. Um deles com capa de Cândido Costa Pinto e tradução de… António Lopes Ribeiro! Outro, diz na contracapa: “este romance tenebroso, violento e irónico, publicado em 1931, inspirou um grande filme de Jean Renoir”. Compreendam que ainda esteja a arquejar (sou um leitor compulsivo e imoderado de Georges Simenon).
Bem sei, “ce n’est pas du Balzac”. Mas é bem a mesma comédia humana, ainda que mais esquemática e em tons mais glaucos e sombrios, mas intensos e contrastados, como uma grisaille. E igualmente magistral.
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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

“invitation au voyage” ou a síndrome de Stendhal


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Os gauleses são doidos. Mas não são parvos.
Henri-Marie Beyle foi um escritor francês do século dezanove que, entre outras coisas, descobriu a Itália e escreveu um romance em dois meses, sempre com pouco êxito (segundo a wikipédia, só conseguiu a aprovação entusiasmada de Honoré de Balzac).
Beyle era um dândy inveterado; para além de estar sempre apaixonado por mulheres diferentes e de frequentar salões e teatros, escreveu um ensaio “Sobre o Amor” em que se destaca a sua "teoria da cristalização", segundo a qual “o espírito, adaptando a realidade a seus desejos, cobre de perfeições o objecto do desejo”.
Inventou a literatura de viagem numas crónicas que publicava na imprensa inglesa sob o pseudónimo de Stendhal (ainda hoje os ingleses pensam que foi um deles que criou este género literário).
Era também um Bonapartista convicto. Embarcou na cruzada napoleónica como ajudante do general Michaud. Foi numa dessas viagens organizadas que descobriu a Itália e se passou. Destrambelhou. É a sua descrição dessa experiência de deslumbramento que hoje se entende por “síndroma de Stendhal” e que supostamente achacava a turista russa que, visitando o Louvre, acometeu contra a Gioconda com uma caneca.
Foi pois graças ao gosto de Napoleão pela viagem (e pelo saque, já agora) que os franceses de hoje podem ter livre acesso a experiências sensoriais exaltantes (aceleração do rítmo cardíaco, vertigens, falta de ar e mesmo alucinações, decorrente do excesso de exposição do indivíduo a obras arte, sobretudo em espaços fechados). Isto tudo sem ir para fora.
Não é o nosso caso. Nós, se quisermos experimentar sensações desvairadas e sublimes, teremos ainda que recorrer à viagem. Ao Louvre, por exemplo.
Sim, porque se o quisermos experimentar por cá, será uma desilusão. Eu já o tentei, no showroom do tio Berardo. O único acesso que tive (também foi embaraçoso) foi um ataque de riso.
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terça-feira, 11 de agosto de 2009

O regresso do morto




Eu explico: Manuel Alfredo Aguiar de Carvalho, que apesar de uma gestão municipal discutível, teve um percurso político respeitável, está a um passo de cometer um feito inédito para um político - o de cumprir, ainda que postumamente, uma promessa.

Foi presidente da Câmara da Figueira da Foz durante 16 anos (de 1983 a 1998) e na última reunião do executivo a que presidiu, proferiu esta solene ameaça: Aile bi béque!”. Assim mesmo, em francês e tudo, julgo que para se fazer entender por quem tivesse referências políticas cinéfilas. Se não está nas actas, deve constar das crónicas jornalísticas da época.
Pois bem, o velho Alfredo está de volta por interposta pessoa, a de sua filha, Joana. Nem mais.
Esta Aguiar de Carvalho, de quem não se conhece intervenção política sobre o que quer que seja, está na lista de candidatos à Câmara pelo Partido Socialista num (a julgar pelos rumores ululantes oriundos da Rua Direita do Monte), invejável lugar elegível.

Isto releva, receio, outra singularidade política figueirense: na respública figueirinhas, a notoriedade é dinástica. Não se merece, herda-se. Mais ou menos como as pratas, a diabetes ou o mau feitio.
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O desenho não é inédito. Fui pescá-lo ao meu baú. Foi publicado no extinto jornal A Linha do Oeste, salvo erro em fins de 1997.

domingo, 9 de agosto de 2009

Levanta-te e ri

“O humor é a arte de fazer cócegas

na inteligência das pessoas”

Raul Solnado


Eu sei que pode parecer pouco, sei lá, adequado...
Mas, na morte de um grande artista do riso, que melhor homenagem do que uma sonora gargalhada?
Vá lá. É aqui.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Serafim, o jornalista x


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Deambulando pela blogosfera figueirense (tentando fazer jus à minha promessa de dar mais atenção à actualidade local) deparei-me com alguém muito invulgar.
A Figueira da Foz, como todos sabem, pelo menos os que a conhecem, é uma pátria amável para personagens invulgares - Quem não se lembra do Visconde de Vila Verde, cujo pitoresco modo de vida e sazonais hábitos tabagistas ainda hoje encarnam o curioso way of life figueirense? Ou do Braga, o alcoólico que a troco de um copo não se importava de gritar a plenos pulmões, como se não houvesse amanhã: “vivóó leite!”? Ou do repentista Paulino, um ingénuo sabido? Ou do Vitorino, ( a este já lhe fiz o retrato) o indigente atrasado mas sensível a quem, por vezes num curioso cortejo, ninhadas de patinhos seguiam pela cidade?
Pois bem, enquanto estes eram personagens reais, este é uma personagem virtual (esta cidade nunca pára de me espantar. Aqui, a realidade é mais desbocada do que a imaginação mais descabelada. Se Gabo conhecesse a Figueira, morreria de vergonha da sua pobre Macondo).
Trata-se de um jornalista. Mas não de um jornalista qualquer. É uma espécie de mistura de Truman Capote com o Repórter X.
E o que é que ele faz? – Pois, utilizando o anonimato, como Reinaldo Ferreira, faz exactamente o mesmo que Truman Capote (com menos sangue mas igual sordidez): “uma especialização do jornalismo feita com a arte da literatura. “Literatura não-ficcional”, “Literatura da realidade”, “Jornalismo em profundidade”, “Jornalismo Diversional”, “Reportagem-ensaio”, enfim, “Jornalismo de Autor.”(!)
O jornalista Serafim (é esta a sua graça) faz, com esta prosa enxuta, sem adjectivos nem pontos de exclamação, ao melhor estilo Reuter, uma espécie de jornalismo (ou literatura) de série B. Proporciona-nos um retrato fiel da Figueira da Foz do nosso tempo: a sua cor local, o seu air du temps, a tentação das suas elites para o delito e para a abjecção. Reconstrói minuciosamente factos reais em depoimentos ricos de pormenores que publica, em folhetim, nas caixas de comentários dos blogues figueirenses, entre outras “corajosas” intervenções cujo anonimato constitui, ele próprio também, uma espécie de cidadania B.
Se fosse na América, ganhava o Pulitzer. Por cá, nem merece um (unzinho!) processo judicial. Tem apenas o direito à indiferença. Chafurda pela sarjeta da blogosfera (as caixas de comentários podem ser, como se sabe, os esgotos dos blogues).
Mas é todo um personagem. Atrevi-me a fazer-lhe um rápido e abosquejado retrato-robot para um lugar de destaque no meu Álbum Figueirense. Tal como o Visconde de Vila Verde, também ele encarna, receio que na perfeição, um certo way of life muito figueirense.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O autarca modelo


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Toda a gente sabe que uma pergunta retórica é feita sem objectivo de obter resposta. Trata-se de um recurso de linguagem.
Mas quando certos recursos de linguagem são utilizados por chicos-espertos, manhosos mas um tanto apalermados, as respostas que obtêm podem ser pertinentes e algumas até bastante eloquentes. Como estas, (a pergunta e a resposta) lidas ontem, no Blasfémias.

“Porque será que quando um político (e especialmente um autarca) é condenado, a populaça rejubila e quando é absolvido vocifera?”

"Se calhar, meu amigo, porque condenar um autarca corrupto é mais raro que aparecer o cometa Halley.Mas não se preocupe, Vossa Senhoria, se está a pensar seguir a carreira do Dr. Isaltino, que nada, rigorosamente, nada, lhe irá suceder. O indivíduo irá interpôr recurso e, com um pouco de sorte lá para 2020 estará o caso no Supremo (e será absolvido). Entretanto será reeleito mais umas quantas vezes, ganhará uma reforma de luxo e sairá de cena, pacatamente, para o Brasil, seguindo conselhos da Fatinha Felgueiras. A justiça cá da aldeia é bestial. Uma gajo rouba uma carteira vai para o Linhó aprender a chutar heroína em condições em dois segundos e meio e quem rouba milhões escorrega por todas as excepções, meandros e baixios da lei até à chegada da Nossa Srª da Prescrição.
Talvez a corja a que pertencemos rejubile porque são destas notícias que dão aos incautos alguma (vã!) esperança no nosso sistema judicial.”

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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Pedro Cruz, um olhar silencioso


“Sempre achei que a estrutura formal de uma fotografia,
a sua composição, eram tão importantes como o próprio tema…
É preciso eliminar tudo o que é supérfluo,
é preciso dirigir o olho com uma vontade de ferro.”
Brassaï


A atenção ao “rumor do mundo” distrai-nos por vezes de “pequenas” zoeiras, mais próximas, mas que aos poucos se vão tornando “ensurdecedoras”. É o caso do talento de Pedro Cruz.
A fotografia, como a pintura, é “a arte” de - como dizia Brassaï, o grande fotógrafo francês de origem húngara – “dirigir o olhar”. É mesmo isso que faz o Pedro Cruz. Dirige-nos o olhar. Nas suas fotos do quotidiano (pedro não encena as suas fotografias) ele encaminha-nos sabiamente o olhar para aqueles segmentos da realidade em que nós, distraídos pelo rumor do mundo, nem sequer reparamos.
O co-autor do blogue “Outra Margem”, é um jovem “pas tout a fait comme les autres”; ao contrário do que é típico na sua idade (tem apenas 22 anos) não é daqueles que descobriram a pólvora seca das verdades insofismáveis; gosta mais de ouvir (e observar) do que de falar. O Pedro é um andarilho e, sobretudo, um observador incansável.
No seu olhar silencioso e perscrutador há algo que o distingue de um mero fotógrafo competente, algo intangível e difícil de descrever: uma sensibilidade poética; ou seja, aquilo que o torna capaz de, com enquadramentos ousados e um sentido da composição notável, transformar o mais banal retrato do quotidiano numa imagem carregada de sentido(s).
Embora ainda aprenda (Pedro estuda Ciências da Comunicação na UBI, Universidade da Beira-Interior), o seu olhar atento e fascinado pela beleza e pela tristeza do mundo ainda lhe permite, sem alardes nem baboseiras, a abstracção e o humor distanciado de um tão sintético quão despojado e minimalista retrato de si próprio como o que ilustra esta posta: uma obra-prima de um jovem, quando artista já consumado.
Mas tem mais. Aqui.

sábado, 1 de agosto de 2009

A ASAE da língua


Grassa pela blogosfera uma punhetice, certamente fomentada por entediados mas muito sofisticados literatos lisboetas, que consiste na pretensão de “abolir o ponto de exclamação”. Esse mesmo.
Como estamos em plena silly season, a frivolidade onanística em questão ameaça tornar-se numa petição. Até já tem um “símbolo”, “uma “imagem”, uma “bandeira”, um banner, que certos blogues bon-chic bon-genre à míngua de causas e de prestígio se prestam a usar orgulhosamente na lapela, como os membros de um clube muito restrito e selectivo.
Nada tenho contra nem a favor do ponto de exclamação. Concordo em absoluto que o seu uso no meio jornalístico ganhou dimensões absurdamente pornográficas. Mas não deixo de me espantar que, embora sempre tenham existido pruridos de “elegância” no uso da língua, a sanha “purificadora” e militante já esteja organizada em brigadas identificadas de vigilantes dos maus costumes linguísticos, condicionando as boas almas que escrevem na blogosfera (a partir de agora interrogar-se-ão sempre que utilizarem uma exclamação).
Por exemplo eu, que não tenho grandes preocupações com o “requinte estilístico” destes pobres textículos (só servem mesmo para ilustrar os desenhos e dar-lhes, digamos, uma certa cor local) estou indeciso: com que caralho de ponto se enfatiza “sofisticadamente” uma perplexidade?
- Receio que seja aquele que certos críticos recomendam aos que não levam "a escrita a sério".
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quinta-feira, 30 de julho de 2009

A ciência para totós



O termo “silly season” surgiu na Inglaterra vitoriana. No Verão, fechava o parlamento. Sem "política", os jornais ficavam sem assunto. Então, o fait-divers e o disparate extravagante enchiam as suas páginas de manchetes. Tontas, como a falta de assunto.
Em todo o lado existe uma silly season. Portugal também tem a sua, que dura todo o ano (aqui o disparate só não é extravagante porque a política adquiriu o estatuto da banalidade). Ah, e depois, tem a campanha eleitoral.
Num país, digamos, normal, os tipos da ciência são circunspectos, contidos, rigorosos.
Pois bem, não em Portugal. Aqui, a ciência é uma “coisa viva”, exuberante, não sei se me entendem. Em Portugal, a ciência é como a propaganda: quem tem uma teoria não precisa de facto nem de prova. O responsável português pela "Ciência e pelo Ensino Superior" perdeu a compostura habitual dos homens de ciência e aderiu à propaganda; comporta-se do mesmo modo desvairado e delirante dos seus colegas de governo.
Este desenho é mais uma aventura pelos abismos da alma humana.
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terça-feira, 28 de julho de 2009

A felicidade da imbecilidade


“(…)acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade.”Alexandre O’Neil - Idiotia e Felicidade, in “Uma Coisa em Forma de Assim”

Quando Antero, numa das conferências do Casino, sistematizou as causas da nossa decadência esqueceu-se porventura da mais importante. É que enquanto as três que ele apresentou eram, ou foram, simplesmente conjunturais (corresponderam a opções políticas erradas), esta é endógena. É ela que caracteriza a nossa mais profunda especificidade. É ela também que determina a s nossas escolhas.
Portugal tem uma exclusiva e hereditária capacidade de se deixar governar, curar, julgar, ou ensinar - por imbecis.
Só em Portugal é possível um autêntico imbecil, não só "ser feliz", como fazer carreira; ser respeitado; considerado; requisitado. Tal é o caso de João César das Neves, cujo curriculum, impressionante, para além de lhe permitir ganhar a vidinha, também serve para corroborar a minha tese.
O vetusto jornal (cuja longevidade também comprova a minha tese) onde ele escreve as suas ditirâmbicas palermices acaba de publicar a mais recente das suas pérolas alarves: “A ética da estética”. Nem mais.
Se algum de vós, leitores deste triste blogue, lobrigais algum sentido em tal chorrilho de bacoradas, ficaria grato se mo explicásseis (o meu endereço electrónico está em cima da barra lateral). Como André Breton, também eu acho que “um filósofo que não entendo é um cretino”.
E agora, perguntais vós, porque perde você tempo a desenhar um idiota chapado?
Helas, porque sim. Tal como Leonardo (os grotescos), Velasquez (os bobos e os anões) ou Gericault (os alienados) perscrutaram complexas psicopatologias no desenho de idiotas, também eu sinto uma irreprimível, embora modesta, vertigem pelos abismos da alma humana.
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