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Deambulando pela blogosfera figueirense (tentando fazer jus à minha promessa de dar mais atenção à actualidade local) deparei-me com alguém muito invulgar.
A Figueira da Foz, como todos sabem, pelo menos os que a conhecem, é uma pátria amável para personagens invulgares - Quem não se lembra do
Visconde de Vila Verde, cujo pitoresco modo de vida e sazonais hábitos tabagistas ainda hoje encarnam o curioso
way of life figueirense? Ou do
Braga, o alcoólico que a troco de um copo não se importava de gritar a plenos pulmões, como se não houvesse amanhã: “
vivóó leite!”? Ou do repentista
Paulino, um ingénuo sabido? Ou do
Vitorino, ( a este já lhe fiz
o retrato) o indigente atrasado mas sensível a quem, por vezes num curioso cortejo, ninhadas de patinhos seguiam pela cidade?
Pois bem, enquanto estes eram personagens reais, este é uma personagem virtual (esta cidade nunca pára de me espantar. Aqui, a realidade é mais desbocada do que a imaginação mais descabelada. Se Gabo conhecesse a Figueira, morreria de vergonha da sua pobre Macondo).
Trata-se de um
jornalista. Mas não de um jornalista qualquer. É uma espécie de mistura de
Truman Capote com o
Repórter X.
E o que é que ele faz? – Pois, utilizando o anonimato, como Reinaldo Ferreira, faz exactamente o mesmo que Truman Capote (com menos sangue mas igual sordidez): “uma especialização do jornalismo feita com a arte da literatura. “Literatura não-ficcional”, “Literatura da realidade”, “Jornalismo em profundidade”, “Jornalismo Diversional”, “Reportagem-ensaio”, enfim, “
Jornalismo de Autor.”(!)
O
jornalista Serafim (é esta a sua
graça) faz, com
esta prosa enxuta, sem adjectivos nem pontos de exclamação, ao melhor
estilo Reuter, uma espécie de jornalismo (ou literatura) de
série B. Proporciona-nos um retrato fiel da Figueira da Foz do nosso tempo: a sua
cor local, o seu
air du temps, a tentação das suas elites
para o delito e para a abjecção. Reconstrói minuciosamente factos reais em depoimentos ricos de pormenores que publica,
em folhetim, nas caixas de comentários dos blogues figueirenses, entre outras “corajosas”
intervenções cujo anonimato constitui, ele próprio também, uma espécie de
cidadania B.
Se fosse na América, ganhava o
Pulitzer. Por cá, nem merece um (unzinho!) processo judicial. Tem apenas o direito à indiferença. Chafurda pela sarjeta da blogosfera (as caixas de comentários podem ser, como se sabe, os esgotos dos blogues).
Mas é todo um personagem. Atrevi-me a fazer-lhe um rápido e abosquejado
retrato-robot para um lugar de destaque no meu
Álbum Figueirense. Tal como o
Visconde de Vila Verde, também ele encarna, receio que na perfeição, um certo
way of life muito figueirense.
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