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quinta-feira, 30 de julho de 2009

A ciência para totós



O termo “silly season” surgiu na Inglaterra vitoriana. No Verão, fechava o parlamento. Sem "política", os jornais ficavam sem assunto. Então, o fait-divers e o disparate extravagante enchiam as suas páginas de manchetes. Tontas, como a falta de assunto.
Em todo o lado existe uma silly season. Portugal também tem a sua, que dura todo o ano (aqui o disparate só não é extravagante porque a política adquiriu o estatuto da banalidade). Ah, e depois, tem a campanha eleitoral.
Num país, digamos, normal, os tipos da ciência são circunspectos, contidos, rigorosos.
Pois bem, não em Portugal. Aqui, a ciência é uma “coisa viva”, exuberante, não sei se me entendem. Em Portugal, a ciência é como a propaganda: quem tem uma teoria não precisa de facto nem de prova. O responsável português pela "Ciência e pelo Ensino Superior" perdeu a compostura habitual dos homens de ciência e aderiu à propaganda; comporta-se do mesmo modo desvairado e delirante dos seus colegas de governo.
Este desenho é mais uma aventura pelos abismos da alma humana.
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terça-feira, 28 de julho de 2009

A felicidade da imbecilidade


“(…)acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota seu proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade.”Alexandre O’Neil - Idiotia e Felicidade, in “Uma Coisa em Forma de Assim”

Quando Antero, numa das conferências do Casino, sistematizou as causas da nossa decadência esqueceu-se porventura da mais importante. É que enquanto as três que ele apresentou eram, ou foram, simplesmente conjunturais (corresponderam a opções políticas erradas), esta é endógena. É ela que caracteriza a nossa mais profunda especificidade. É ela também que determina a s nossas escolhas.
Portugal tem uma exclusiva e hereditária capacidade de se deixar governar, curar, julgar, ou ensinar - por imbecis.
Só em Portugal é possível um autêntico imbecil, não só "ser feliz", como fazer carreira; ser respeitado; considerado; requisitado. Tal é o caso de João César das Neves, cujo curriculum, impressionante, para além de lhe permitir ganhar a vidinha, também serve para corroborar a minha tese.
O vetusto jornal (cuja longevidade também comprova a minha tese) onde ele escreve as suas ditirâmbicas palermices acaba de publicar a mais recente das suas pérolas alarves: “A ética da estética”. Nem mais.
Se algum de vós, leitores deste triste blogue, lobrigais algum sentido em tal chorrilho de bacoradas, ficaria grato se mo explicásseis (o meu endereço electrónico está em cima da barra lateral). Como André Breton, também eu acho que “um filósofo que não entendo é um cretino”.
E agora, perguntais vós, porque perde você tempo a desenhar um idiota chapado?
Helas, porque sim. Tal como Leonardo (os grotescos), Velasquez (os bobos e os anões) ou Gericault (os alienados) perscrutaram complexas psicopatologias no desenho de idiotas, também eu sinto uma irreprimível, embora modesta, vertigem pelos abismos da alma humana.
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sábado, 25 de julho de 2009

Portugueses! Às armas, às armas!



É sabido que os grandes líderes, os predestinados, falam por metáforas.
É por isso legítimo um simples paisano interrogar-se sobre o verdadeiro significado daquilo que o grande Sócrates, na sua homilia aos empresários, quis dizer com: “ainda está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor no défice do que eu”(!).
Pois bem, há quem veja naquilo um subliminar mas lancinante apelo à fornicação. Com fins patrióticos, claro.
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A ilustração deste postal é uma variação sobre o “improviso nº 7”.
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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Lady Day


Billie Holiday morreu há cinquenta anos. Tinha 44.
Eu tenho 46. Mas, talvez porque até me tenho sentido bem, passei a noite a tentar desenhá-la enquanto a ouvia. Again and again (as palavras são de Abel Meeropol).
Não pude deixar de reflectir sobre a “música popular”, esse estranho fenómeno que, desde o advento do disco de 45 rotações se foi transformando cada vez mais num produto de consumo adolescente. A “música negra” seguiu o mesmo caminho: com o clip e a MTV tudo se transformou definitivamente nesta “coisa” visual e infantilizada, muito ruidosa, agitada e colorida mas vazia de referências e conteúdo que permite que se diga, sem contestação, que Michael Jackson foi um génio “musical”.
Ainda bem que Billie já não assistiu a tudo isto.
Nesta “árvore”, ela seria (outra vez) um bem “estranho fruto”.
STRANGE FRUIT
Southern trees bear a strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black body swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolia sweet and fresh
And the sudden smell of burning flesh!
Here is a fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for a tree to drop
Here is a strange and bitter crop.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A pedagogia do riso



neste post me pronunciei sobre questões que dizem respeito ao humor gráfico.
Volto ao assunto instado por este encantador comentário do distinto vereador Vaz a um postal do meu amigo António Agostinho, no seu blogue outra margem.
O ilustre vereador tem a percepção errada de que o meu humor poupa todos, menos o seu candidato. Quanto a isso, sugiro a consulta do arquivo deste blog ou as etiquetas “Caricatura” e “Album Figueirense”.
Resta-me apenas esclarecer o nobre vereador e o seu candidato, ou outros, que o papel do humor numa democracia não é “abater alvos”. Deduzo, no entanto, que se têm necessidade que lho explique, decididamente nunca o irão entender.
O que é lamentável também é sintomático.
E tristemente revelador.
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Apraz-me registar a novidade do ênfase "igualitário" no discurso do partido socialista. É uma lástima que tal se reduza ao meu humor, mas não deixa de me deixar honrado que este seja reivindicado com vista a uma distribuição equitativa.
Presumo que deve ser isto a “consagração”.
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domingo, 19 de julho de 2009

Dois-tiros-dois certeiros



Há dias assim, faz-se de manhã uma revista da imprensa e depara-se com duas demolidoras investidas contra a nanificação geral das consciências.
Uma delas foi mais uma proeza de João Carlos Costa, o atirador figueirense. Nada que espante, mas consola. Sim, porque apesar do triste fim da carreira de tiro municipal e de sofríveis condições de treino, o atirador continua a acertar. Basta ter talento e cabeça fria.
A outra é esta. Eu não sei quem é Ivete Carneiro mas com esta sucinta e notável reportagem ela demonstra que, apesar de um sabujo estatuto do jornalista que transforma o repórter num amanuense que faz resumos de press-releases fornecidos por agências de comunicação, ainda é possível escrever bem em português aliando a inteligência ao humor e ao rigor da verdade dos factos. Basta ter talento e uma certa coragem; sim, porque suponho que não seja fácil…
Há dias assim: cada tiro, cada melro.
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sábado, 18 de julho de 2009

singularidades de uma figueirinha loira


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Há quase três anos que, quase diariamente, no blogue do meu amigo António Agostinho (e aqui, na barra lateral) eu venho comentando a actualidade através do desenho de humor. Isto a propósito de me ter sido sugerido uma intervenção mais frequente sobre a actualidade figueirense. Acontece que é muito difícil comentar a actualidade quando a informação é filtrada, condicionada, constrangida (na Figueira, a verdade publicada é sempre consonante com a voz-do-dono) ou requentada (a imprensa figueirense reporta amiúde a morte do artista uma semana após a missa do sétimo dia).
Na Figueira da Foz, a indústria, o comércio ou a agricultura, são actividades cada vez mais residuais e de subsistência. A comunicação social acompanha-as nessa valsa lenta descendente mas tem, além disso e par contre, uma longa tradição de subserviência. Ou de conveniência. Convenhamos que qualquer progresso cultural e económico torna-se problemático com tais prerrogativas arraigadas até à medula.
Na Figueira da Foz só existem duas actividades em franca expansão: o entretenimento e a especulação imobiliária (na Figueira há quem lhe chame urbanismo, um eufemismo 100% figueirense); mas mesmo o entretenimento, tudo leva a crer que foi "chão que deu uvas": a maior empresa deste ramo, proprietária do “melhor” semanário da região está, cada vez mais, a abandonar a primeira actividade em detrimento da segunda.
Mas as coisas nunca estão tão mal que não possam ficar pior: se há quem acertadamente tema a felgueirização da Figueira da Foz, desde há algum tempo que eu receio também a figueirização do país.
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É uma lástima, mas dificilmente a realidade defrauda as expectativas de um pessimista.
Mas nem tudo está perdido. Agora existe a internet. Esta nova realidade veio acrescentar novas e aliciantes virtualidades de acesso ao conhecimento dos factos e à capacidade de intervenção na actualidade. A blogoesfera figueirinhas, embora pejada de uma imensa palermice acobertada de conveniente anonimato, conta com uma pequena mão cheia de bloggers identificados, conscientes, activos e participativos. Por isso, e porque estamos em tempo eleitoral, eu prometo mais frequência na atenção à claridade da praia.
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quinta-feira, 16 de julho de 2009

um coup d’état de caricatura e a solidão em Tegucigalpa


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A propósito do golpe de estado nas Honduras e da mais do que equívoca cobertura por toda a imprensa dita “de referência”, sugiro este link que, embora abertamente alinhado, com a sua perspectiva histórica talvez contribua para um mais perfeito entendimento do que realmente se passa nestas remotas paragens da América Central.
Convenhamos que o episódio grotesco da detenção do cartoonista Allan Mcdonald e da sua filha de 17 meses, (a captura foi concretizada brutalmente por um contingente militar, que o surpreendeu na sua residência, tendo os militares destruído o seu computador e queimado os seus desenhos e material de desenho numa fogueira) e a subsequente reacção solidária dos cartunistas de quase todo o mundo civilizado contribuíram em muito para esclarecer (se fosse preciso) o que parecia mais um dos costumeiros imbróglios de uma república de bananas.
Apesar da solidariedade abertamente manifestada em todo o mundo e da censura pública no seu país, Mcdonald continua a dar o seu testemunho, agora de uma imensa mas esperançada solidão. (vejam aqui o notável texto de abertura do seu sítio da internet)
Gostaria que ele soubesse o quanto invejo e admiro a sua liberdade de corajosamente tomar partido.
Este desenho é para ele e para o povo das Honduras, nestes dias cinzentos de Tegucigalpa.
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terça-feira, 14 de julho de 2009

O juiz-de-fora


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Agora que as autárquicas se aproximam e até já existe um blogue figueirense a elas dedicado (http://autarquicasfigueira.blogspot.com/), aqui vai mais um cromo para actualizar o meu Álbum Figueirense.
João Ataíde é o príncipe perfeito da "esquerda moderna" local e deste maquiavel em particular.
Depois de um complexo e algo polémico processo de escolha democrática (num escrutínio em que o seu adversário não sabia que ia a votos) foi ele o escolhido para ser o eleitoque retirará a Figueira da Foz do opróbrio e da apagada e vil tristeza em que vegeta e a levará, incólume e exultante, ao futuro”, já a seguir.
Carregando consigo todo o prestígio da magistratura portuguesa (seja lá o que for que isto queira dizer) é a segunda vez que este juiz de carreira é emprestado à política: se agora está emprestado ao partido socialista, da primeira vez foi emprestado ao PSD (terá mesmo desempenhado responsabilidades num governo deste partido).
Este independente, de auto-proclamado centro-esquerda “de matiz liberal” seja-lá-o-que-for-que-isto-queira-dizer, é o menos conhecido dos candidatos. Do pouco que se sabe dele, além de ser um juiz “emprestado à política”, é que é presidente de um clube de golfe. Talvez por isso, uma das suas prioridades é um campo de golfe. Outra é um campo de futebol que baptizará com o nome do seu mandatário da juventude, mas também "uma pousada da juventude, a "reconversão da frente ribeirinha e do mercado municipal" e claro, "um parque temático". - Sinto que os leitores figueirenses deste blogue já estão de boca aberta, impressionados com a “visão estratégica” e a “capacidade analítica” para “diagnosticar” e “implementar” “decisões estruturantes” para este desgraçado concelho. Pois fechem-na. E descontraiam. Ainda nem sequer se conhece o limiar da profundeza do seu pensamento político. Tampouco a sugestão de um nome dos que vão constituir a “sua equipa”.
A procissão ainda vai no adro.
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segunda-feira, 6 de julho de 2009

Manifesto

Por volta de 1909, o meu bisavô materno foi para o Brasil e nunca mais voltou, nem deu notícias.
O meu bisavô não era um desgraçado, nem um "parasita".
Era um próspero marceneiro estabelecido na Rua do Loureiro, no Porto; era, suponho, o que hoje se chama um pequeno empresário bem sucedido.
Pois bem, fez-se brasileiro.
Ainda hoje, na minha família, este é um facto mencionado com um perplexo despeito e um envergonhado rancor.
Vem isto a propósito de a pianista Maria João Pires ter declarado a sua decisão de se tornar cidadã brasileira. “(…)foi, creio, a notícia mais comentada no “Público” online desde ontem com setecentos e dezoito comentários (718!!), muitos deles, a maioria, a esmagadora maioria, desfavoráveis à pianista. E porquê?”
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Ora, porque os portugueses acham que uma artista que tem há vinte anos um contrato com a Deutsche Grammophone, investe na educação e na cultura e pretende apostar num projecto pedagógico inovador no interior desertificado só pode ser uma “parasita”. Porque sim. Além disso, todos os artistas são uns chulos e uns subsídiodependentes.
Embora haja excepções. Há artistas que os portugueses consideram.
Sentem-se representados por eles. Encarnam verdadeiramente a “alma lusa”.
Por exemplo, Joana Vasconcelos. Esta artista contemporânea, tão apreciada pelos media, e até pelos ingleses, ao contrário de Maria João Pires, essa elitista, consegue fazer arte que os portugueses compreendem. Com o recurso a efeitos kitsch, faz paráfrases monumentais de conhecidas obras anti-arte (como a da imagem a esta, de Joseph Beuys ou esta a esta, de Marcel Duchamp) que, segundo os críticos, são verdadeiros “comentários” à “portugalidade” e à “contemporaneidade”. Os portugueses, mesmo aqueles que não percebem nada de arte, são notoriamente sensíveis ao imaginário pimba, salivam com a sua imaginação e criatividade e, não só entendem a vácua profundidade dos acima citados comentários, como até os acham “giros”.
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-À medida que fui crescendo fui-me deparando com certas perplexidades que me vão fazendo entender melhor as atitudes da notável pianista e do meu bisavô António.
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-O que faz a pianista Maria João Pires num país de pianos como este?


-O que faz uma artista como Maria João Pires no país do Quim Barreiros, do Filipe la Féria, do Miguel Sousa Tavares, do Tony Carreira, do Cristiano Ronaldo e do José Rodrigues dos Santos?
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-O que fazemos (pelo menos alguns de nós) no país do Manuel Pinho, do Vilarinho, do Dias Loureiro do BPN, do Jardim Gonçalves, do BCP, do BPP, da Casa Pia, do Jorge Coelho, do Valentim, da Fátima Felgueiras, do Jardim, do Berardo, do Freeport, da TVI, da PT e do José Sócrates?
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-O que faria o meu bisavô num país que elegeu consecutivamente um imbecil que recentemente condecorou a título póstumo um homem decente a quem, em vida, recusou uma pensão de subsistência?
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-O que faço eu num país que pondera renovar a maioria absoluta a um “engenheiro” que se licenciou a um domingo e que passa a vida a perorar pela “qualificação” dos seus concidadãos mas que acha que investir na cultura e na educação além de “despesismo”, é “alimentar parasitas”?
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Um dia, quando for grande como Maria João Pires ou como o meu bisavô António, eu também quero ser brasileiro.
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-Juro.
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domingo, 5 de julho de 2009

A psicofoda* do humor “saudável”




O humor é uma arte difícil,
se é muito ligeiro não se compreende
e se é muito pesado pode esmagar os pés a quem o lança


Ao contrário do colega local de “O Quinto Poder”, eu não acredito no humor bom e no humor mau, o “saudável” e o “doentio”. Duvido muito do humor "recomendável".
Suspeito que o humor provém de uma irreprimível e imponderável pulsão do inconsciente que não se compadece com as conveniências do politicamente correcto (vulgo sensatez).
O humor é uma arma dirigida mas, convenhamos, muito difícil de manejar. Não tem perdão nem inocência. Das duas, uma: ou é eficaz e consequente (e aqui recorre a todas as munições da inteligência - da subtileza à obscenidade, passando pela desmesura) ou é amável e inofensivo. No primeiro caso acerta quase sempre em cheio, não mata mas mói; no segundo é um tiro frouxo, nem faz cócegas, é uma gracinha, anódina como tudo o que é sensato e recomendável. É bem tolerado e muito frequente nos nossos “jornais de referência”.
Contudo, a gracinha tem uma variante mais popular, de efeito mais imediato ou óbvio a que se pode chamar graçola. Em geral, e apesar da sua carga algo pesada e grosseira, é vista com benevolência pelas elites dado o seu carácter naïf, popular. É até incentivada, sobretudo pelas televisões. Está tão difundida entre nós que já se tornou uma aceitável e convencionada (dentro de certos limites, como quase tudo em Portugal) “arma de arremesso político”, como se viu recentemente no parlamento; o que levou Camilo Castelo Branco a afirmar, triste e psicofodido, que “os portugueses não sabemos rir com espírito, apenas gargalhamos com os queixos.
Parece-me, no entanto, abusivo querer aplicar ao humor quaisquer códigos de ética. E parece-me igualmente destrambelhado atribuir ao humor veleidades “construtivas” quando a sua função primordial e intrínseca é “desconstruir”, se é que me entendem.
Eu acredito que o humor consequente não é moral nem imoral, é amoral, isto é, move-se em terrenos do senso comum; não da moral, que é um dos domínios do preconceito.
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*sobre o conceito de psicofoda, ver aqui e aqui.

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